
Juan José Arreola, circa 1975
“Dentro de Eva, Adão vivia feliz num paraíso de entranhas. Preso como a semente na polpa doce do fruto, eficaz como uma glândula de secreção interna, dormitando como uma crisálida no seu capulho de seda, as asas do espírito amplamente desdobradas. Como todas as criaturas ditosas, Adão renunciou à sua bem-aventurança e se pôs a procurar qualquer saída. Investiu contra a correnteza nas águas densas da maternidade, forçou com a cabeça uma passagem no túnel de toupeira e cortou o liame da sua aliança primitiva. Mas o habitante e a desabitada não puderam viver separados. Aos poucos eles foram idealizando um cerimonial cheio de nostalgias pré-natais, um ritmo obsceno e íntimo que devia começar com a humilhação consciente de Adão. Ajoelhado como diante de uma deusa, suplicava e oferecia toda qualidade de presentes. Em seguida, com uma voz cada vez mais urgente e ameaçadora, começava uma justificação do mito do eterno retorno. Depois de se fazer de muito rogada, Eva suspendia-o do chão, esparzia a cinza dos seus cabelos, tirava-lhe as roupas de penitente e o cobria parcialmente com o seio. Aquilo foi o êxtase (…)” (Tu e Eu, 1953)












