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John Coltrane, Impulse!, caixas & bons amigos

Um dos grandes quartetos de todo o jazz tem como líder John Coltrane que, para muitos, é o maior de todos os saxofonistas, sejam eles usuários ou não do tenor. Eu prefiro evitar comparações, mas chego a admitir que se não houvesse Sonny Rollins e Coleman Hawkins, Coltrane reinaria absoluto em qualquer época. Enfim, isso é outro papo. Bem, meu querido amigo John Lester, editor-chefe do Jazzseen, minha referência blog-jazz, presenteou-me há alguns meses com John Coltrane - Classic Quartet: Complete Impulse! Studio Recordings. Sim, sim: dou sorte com  amigos.

Àqueles pouco afeitos ao jazz: o tal quarteto clássico é composto por McCoy Tyner (piano), Jimmy Garrison (contrabaixo) e Elvin Jones (bateria), além, claro, do líder em questão, John Coltrane. Agora imagine o presentão: 66 faixas - algumas inéditas - produzidas quando Coltrane estava em seu apogeu criativo, entre 1961 e 1965, sendo que um dos discos contidos na caixa é nada menos que A Love Supreme, o mais emblemático (para muitos o melhor) disco desse extraordinário músico.

O jazz club Village Vanguard tem 75 anos, e é um dos pontos fundamentais do jazz. John Coltrane e seus sidemen colaboraram para a sedimentação desse endereço. Em fins de 1961, com diferentes formações, Coltrane apresentou o que havia de mais estimulante em sua música: gravações espetaculares (e ao vivo) de Naima, Greensleeves, Chasin’ the Trane e India, com gente de grosso calibre e espírito inquieto: o saxofonista Eric Dolphy, o baixista Reggie Workman, o oboeísta Garvin Bushell e o esplêndido baterista Roy Haynes, além, claro, do quarteto citado lá em cima.

A caixa contém 4 discos nos quais alguns temas se repetem - mas as gravações são distintas. Por exemplo, o tema India aparece em 3 discos, Spiritual aparece em todos, mas Brasilia - com Eric Dolphy mostrando por que é um dos grandes - aparece em apenas um disco. A caixa é um achado não apenas sonoro, mas também gráfico: os artistas plásticos Geoff Gans e Hollis King capricharam nas cores e no traço, transformando a figura de John Coltrane em desenhos quase impressionistas. Uma beleza plástica, como é também plástico o som de um dos maiores músicos do século passado. Não importa: a música de John Coltrane é para sempre.

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Julia & Johann (e outros caras)

Ouço Julia Fischer e chego a conjeturar que Itzhak Perlman pode não ser tão definitivo assim, como afirmam. Extraordinariamente precisa, há quem diga que a técnica dessa alemã lembra o som de Jascha Heifetz, o maior - vociferam! - desde Paganini. Não sei dizer, mas me é possível afirmar que J. S. Bach, onde quer que esteja (e imagino que esteja feliz e num local divertido), não se envergonha de ouvir seus próprios concertos para violino brotarem das mãos de Julia Fischer.

Fui, claro, buscar imagens da moça no YouTube. Bonita desse jeito, ela bem merece imagens animadas. Encontrei isto, uma espécie de pequeno documentário. Encontrei mais: imagens dela com Paganini, Mozart, Vivaldi, Ravel e Brahms. Eu me lembro, na verdade com pouco detalhamento, das gravações das estações de Vivaldi feitas por Janine Jansen, outra belezura a empunhar um violino e fazer dele máxima expressão. Mas, de fato, prefiro a técnica de Julia Fischer, se for eu obrigado a escolher entre as duas.

Alguns até podem afirmar que nem tudo é perfeito: neste disco Julia não está sozinha. A fera russa Alexander Sitkovetsky, violinista de primeira linha, divide com ela o Concerto para 2 Violinos, e o jovem mestre do oboé Andrey Rubtsov delira ao acompanhá-la no Concerto para Violino, Oboé e Cordas. Pouco mais de quatorze minutos de espetáculo sonoro para todos os gostos, e não somente para aqueles que consideram a música barroca inalcançável aos ouvintes bissextos. Tudo é belo neste disco - incluindo a artista que o ilustra. Palmas minhas para ela!

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Uma visita a W. B. Yeats (1865-1939)

A Irlanda é um país de proporções humildes: pouco mais de 70 mil quilômetros quadrados e quase 5 milhões de habitantes - o que é pouco, mas a concentração de grandes escritores/poetas nascidos na ilha é a maior da Europa. Duvida? Então vou citar apenas os mais famosos: Johnathan Swift, Samuel Beckett, Bram Stoker, Oscar Wilde, James Joyce, G. B. Shaw, Seamus Heaney e William Butler Yeats, que morreu num final de mês de janeiro há 70 anos. Ei-lo, à direita do visor:

A Cia. das Letras publicou, em 1994, um volume de seus poemas, selecionados e competentemente traduzidos por Paulo Vizioli, embora ele tenha escolhido poucos textos do mais interessante - daqueles que conheço, claro - livro de Yeats, The Green Helmet and Other Poems. Busquei na web poemas traduzidos desse grande criador, cuja voz não deveria ser corrompida pela preocupação com rimas e ritmos. Tradução de poemas é sempre algo perigoso, mas, em muitos casos, necessário. Encontrei alguns poucos bons exemplos aqui e aqui. E vários poemas escolhidos, em língua nativa, numa coletânea criteriosa, aqui.

Yeats foi um dramaturgo de voz contundente que, a exemplo de seus conterrâneos, em especial G. B. Shaw, voltou-se para a própria terra natal e observou-a de maneira crítica, mesmo sendo ele mesmo um adepto da espiritualidade e do ocultismo que, mais tarde, ele mesmo negaria - ou pelo menos seria vítima de uma dura autocrítica. Essa mesma voz lançou as bases para a poesia do século passado, seja ela em língua inglesa ou não, e, por incrível que possa parecer, contrariando a proposta modernista, Yeats mantém uma preocupação formal que, antes de prejudicar - porque há quem erroneamemente o chame neoparnasiano -, solidifica ainda mais seus textos.

A edição bilíngüe da Cia das Letras, citada acima e ilustrada à esquerda, é um bom começo, para quem não conhece Yeats. Ter contato com sua sensibilidade e com seu senso estético é uma experiência estimulante para quem aprecia a leitura de poemas que vão além do que se mostra de imediato. Poucos poetas souberam lidar com a metáfora como Yeats, e é justamente essa capacidade de fazer do leitor seu cúmplice, permitindo-lhe desenvolver interpretações variadas, que faz dele um poeta eterno, como foram eternizados alguns de seus conterrâneos citados lá no ínício da postagem.

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A aventura literária #2

Vladimir Nabokov, 1959

“Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta. Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita. Será que teve uma precursora? Sim, de fato teve. Na verdade, talvez jamais teria existido uma Lolita se, em certo verão, eu não houvesse amado uma menina primordial. Num principado à beira-mar. Quando foi isso? Cerca de tantos anos antes de Lolita haver nascido quantos eu tinha naquele verão. Ninguém melhor do que um assassino para exibir um estilo floreado. Senhoras e senhores membros do júri, o item número um da acusação é aquilo que invejavam os serafins - os desinformados e simplórios serafins de nobres asas. Vejam este emaranhado de espinhos.” (Lolita, 1955)

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Sally Field & a Morte

Podem me considerar pleistocênico, mas acompanho Sally Field desde quando ela voava vestida de freira, em A Noviça Voadora, série que vi ainda garoto, e que posso rever - sem a ingenuidade de 40 anos atrás, claro - porque é reprisada por um canal pago. Isso sem contar, naturalmente, o filmaço Norma Rae, de Martin Ritt, que inspirou uma série de discussões sobre a participação feminina no movimento sindical. Sally Field está, para mim, no nível de Meryl Streep, a badalada musa dramática da geração de quarentões e cinqüentões, da qual faço parte.

Pois bem: falei isso tudo para dizer que assisti, ontem, a Duas Semanas, filme estrelado por Sally Field e pela Morte. Sim, por duas personagens: ambas fictícias, para quem está atrás das câmeras, mas também tão verossímeis quanto você, que está lendo - ou eu, que escrevo. A morte, lenta e inevitável, vetorizada por um câncer intestinal, é o leitmotiv do filme que, em poucos momentos, proporciona ao espectador o tom melancólico que, claro, seria natural numa situação-limite. Sei que os inteligentes vão me excecrar, mas gostei mais de Duas Semanas do que de As Invasões Bárbaras, que possui mais ou menos a mesma premissa (daí a comparação).

Não é tão difícil interpretar um moribundo. A maquiagem ajuda um bocado e é preciso cuidar para que a respiração seja falha, além do fato de que se deve evitar rap, rock e axé como música de fundo. A partir daí, levando-se em conta, é óbvio, o talento do ator - ou da atriz -, tem-se um resultado satisfatório. Mas o que chama a atenção é o fato de que em boa parte do filme Sally Field não encarna a moribundez. Ao contrário: é saudável, falante e irônica como quase todos os personagens do filme, com exceção de um dos filhos, que é um bonifrate nas mãos da esposa mandona.

Lembrei-me, enquanto assistia, do musical de Bob Fosse All That Jazz, em que Jessica Lange interpreta a Morte, elegantemente vestida de branco, contrariando a imagem mitológica da Ceifadora. Criar uma figura que presentifique e encarne - no sentido literal do termo - a morte não é tão difícil também. Quero ver transformar uma sensação em personagem, e mantê-la ativa, contracenando com outros componentes da trama. A Morte com eme maiúsculo, que perpassa a película de forma ironicamente incômoda.

Sally Field é uma senhora de 64 anos que mantém o sorriso de Irmã Bertrille, a jovem noviça que voava e que se instalou em minha memória. Nunca foi daquelas atrizes cujo sex appeal catapulta ao estrelato. É, de fato, uma atriz que, mesmo distante dos holofotes, ficará para sempre, e que brilhará em películas um tanto escondidas em locadoras. Sem problemas. Há outras atrizes na mesma condição e todas elas constituem, mesmo, um prazer para poucos.

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Sem palavras (minhas)#11

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Onde estão as mulheres #3

Bibi Andersson & Liv Ullman, em Persona

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No canto direito #6: ‘Round Midnight

Conversava eu com amigos quando ouvi, de um deles, que a melhor gravação de ‘Round Midnight, clássico de Thelonious Monk, é aquela extraordinariamente bem realizada pelo quinteto de Miles Davis, em 1957. Não é não. Mas por que sou taxativo? Considerando exceções raríssimas, quem pode executar melhor um tema do que seu criador? Embora eu seja fã do texano Red Garland - um pianista de virtuosismo que, ao contrário de intimidar, estimulava seus acompanhantes -, os dedos de Monk tinham mais intimidade com suas próprias criações. Para mim isso é óbvio.

Após o papo, já em casa, às voltas com o deliciosamente rascante Arte Velha, um vinho alentejano presente de uma querida amiga, fui buscar as gravações que possuo deste que é um dos mais importantes temas do jazz. Na busca, pude ouvir Carmen McRae, Art Farmer, Wes Montgomery, Bill Evans e o Miles Davis Quintet. Mas a melhor gravação que possuo, pelo menos assim me pareceu sob efeito do vinho, foi a do disco que ilustra a postagem. Em 1971, na capital alemã, os gigantes se reuniram.

Bem, pelo menos três dos seis músicos que compõem o grupo estão entre os maiores em seus instrumentos: o baterista Art Blakey, o trompetista Dizzy Gillespie e, claro, Thelonious Monk. Sonny Stitt é um saxofonista extraordinário, dos melhores boppers que conheço, de sopro musculoso e ágil, o maior discípulo de Parker; Al McKibbon não está, para mim, no primeiro time de baixistas do jazz, mas toca com firmeza e funciona bem por conhecer intimamente Gillespie, em cuja banda tocou. E o dinamarquês Kai Winding é um trombonista eficaz, mas que, de certa forma - para muitos -, viveu à sombra de J. J. Johnson. Art Blakey já havia tocado com Gillespie e com Monk antes de se tornar um mensageiro do jazz, o que facilitou o entrosamento.

O tema ‘Round Midnight, escolhido para ser apresentado no Canto Direito (as imagens do YouTube, no visor), foi composto para piano. Resolvi, como forma de homenagear também o instrumento - ao mesmo tempo que, ousadamente, deixei de fora o pai da criança -, expor vídeos de outros pianistas (Oscar Peterson, John Lewis, Bill Evans) executando essa maravilha cuja lógica harmônica é revolucionária e sobre cuja beleza não se podem levantar dúvidas. Aproveitem!

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Descanse, Johnny! (e obrigado por tudo!)

Johnny Alf está morto, soube ontem à noite. Lutou bravamente contra uma doença que é, quase sempre, implacável. Há alguns meses alguns blogues - em especial o Jazzseen e o Jazz + Bossa + Baratos Outros - encararam a batalha por ajuda, estampando a campanha por doação de sangue. Não deu. Como fiquei sabendo de sua morte por um telefonema amigo, resolvi correr os telejornais noturnos em busca de mais informações. Apenas menções sobre ele ter sido considerado “o pai da Bossa Nova”. Se essa expressão não é explicada em toda a sua grandiosidade e significado, torna-se contexto banal.

Sua morte foi resumida, e apenas mencionada. Merecia, por aquilo que representou em vida, muito mais. Merecia choro coletivo, estátua, feriado estadual, agradecimentos oficiais. Seu rosto deveria estampar revistas, grandes jornais. Especiais de tevê deveriam cobrir sua extensa obra; discos deveriam ser relançados - mas não. Habitará aquele reduto dos gênios anônimos, e será reconhecido apenas por aqueles que amam de verdade a boa música, e são poucos. Johnny Alf será apenas verbete de dicionário especializado. Uma pena. Isso é quase nada para o que ele foi, de fato.

Então, se é para resumir, aí vão minhas poucas palavras obituárias: “Morreu Johnny Alf, um dos maiores pianistas que ouvi até hoje.”

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Buñuel aos 110 (em 5 filmes)

Luis Buñuel, se vivo, teria completado 110 anos dia 22 de fevereiro. Nesses meus trinta anos de interesse por cinema, vi apenas 5 filmes desse diretor espanhol que muitos consideram extraordinário. Outros o chamam gênio absoluto em tom alto e bom.  Eu gostei sobremaneira - gosto desse advérbio! - de O Anjo Exterminador e de Bela da Tarde. Os outros três citados em fotos, eu soube apreciá-los, mas não estão entre meus preferidos. Não importa o que penso, de fato. Luis Buñuel “vive” muito bem sem mim. Eis a homenagem (um tanto serôdia) deste humilde blogueiro cuja opinião pouco vale:

Viridiana, 1961

Bela da Tarde, 1967

Um Cão Andaluz, 1929

Este Obscuro Objeto de Desejo, 1977

O Anjo Exterminador, 1962

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