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No canto direito #17: The Six Wives of Henry VIII

Rick Wakeman nasceu no dia 18 de maio, há 63 anos. Ainda é cedo para tornar-se o que é, há muito: uma lenda do rock progressivo, e um de seus mentores. Tenho bons amigos, apreciadores do gênero, que não curtem sua música, e que creem ser a parafernália eletrônica usada em seus shows pura perfumaria. Nada mais injusto. Sempre foi necessário um tremendo talento para organizar-se diante daquela louca mistura de sintetizadores Minimoog, harpsichord, órgãos elétricos, teclados mellotrons. Dar unidade a isso, fazê-los funcionar com lirismo, beleza e precisão é coisa para poucos. Só Rick Wakeman foi capaz disso.

Rick e seu melhor disco – apenas uma opinião! -, As Seis Esposas de Henrique VIII, de 1973, são os escolhidos para estrelar o canto direito deste blogue. Como se sabe, escolho alguns vídeos e os mantenho durante algum tempo lá embaixo, no canto direito do visor. É só checar. O primeiro vídeo, uma gravação de 2005, é Catherine Parr. O segundo, num show alemão de 1993, traz sua interpretação para a mais famosa esposa do rei: Anne Boleyn. A terceira gravação, feita em Buenos Aires em 2001, revela Catherine Howard, a mais amorosa de todas as companheiras de Henry VIII.

E se você for ouvir o disco original (a capa, abaixo), e de preferência em vinil – como veio, originalmente, ao mundo -, dê uma atenção especial à bateria de Alan White e ao baixo de Chris Squire.

A aventura literária #22 ou Carlos Fuentes foi-se, aos 83

Pela primeira vez, após mais de 900 textos deste blogue, substituo uma postagem por outra. Motivo sério: uma homenagem, mesmo que breve, ao grande mexicano Carlos Fuentes, autor de pelo menos 3 livros absolutamente antológicos, que figurariam em qualquer lista de grandes obras do século XX: as ficções A Morte de Artemio Cruz e Aura e o magnífico ensaio Miguel de Cervantes ou A Crítica da Leitura. Fuentes me foi apresentado de forma emblemática: quando eu e Aura, sua noveleta citada, fizemos 25 anos. Sim, nascemos no mesmo mês de abril e 1962. Se existe o verdadeiro amor instantâneo, ele brotou diante de mim ao ler esse primor narrativo em segunda pessoa.

Carlos Fuentes esvazia a rica literatura mexicana, estrelada por outros enormíssimos nomes como Juan José Arreola, Octavio Paz, Juan Rulfo, Salvador Elizondo e Laura Esquivel – só citando romancistas e contistas. Na América Latina, só encontra rivais nos argentinos, mas, como tais comparações são, geralmente, inúteis, resumo-me a agradecer a Carlos Fuentes pela quantidade e – principalmente – pela qualidade engenhosa de sua literatura. Errei ao dizer que esvazia somente a literatura mexicana. As boas letras, não importam suas nacionalidades, perderam muito. Aí vai trecho de Aura:

Consultas el reloj, después de fumar dos cigarrillos, recostado en la cama. De pie, te pones el saco y te pasas el peine por el cabello. Empujas la puerta y tratas de recordar el camino que recorriste al subir. Quisieras dejar la puerta abierta, para que la luz del quinqué te guié: es imposible, porque los resortes la cierran. Podrías entretenerte columpiando esa puerta. Podrías tomar el quinqué y descender con el. Renuncias porque ya sabes que esta casa siempre se encuentra a oscuras. Te obligaras a conocerla y reconocerla por el tacto. Avanzas con cautela, como un ciego, con los brazos extendidos, rozando la pared, y es tu hombro lo que, inadvertidamente, aprieta el contacto de la luz eléctrica. Te detienes, guiñando, en el centre iluminado de ese largo pasillo desnudo. Al fondo, el pasamanos y la escalera de caracol. Desciendes contando los peldaños: otra costumbre inmediata que te habrá impuesto la casa de la señora Llorente. Bajas contando y das un paso atrás cuando encuentres los ojos rosados del conejo que en seguida te da la espalda y sale saltando (…)”

p.s. Se alguém se interessar, AQUI está o texto em pdf.

Mais um livro sobre o assunto

Terminada a leitura de Tropicália – Um Caldeirão Cultural. Diferentemente da maioria dos outros livros sobre o movimento – se é que chegou a ser, de fato, um movimento -, este, escrito por Getúlio Mac Cord, traz uma novidade: vários depoimentos, em forma de trechos bem organizados, da rapaziada que conviveu diretamente com esse veio contracultural. Escrevi sobre a Tropicália quando o Ipsis ainda era um bebê de berço, com menos de 1 mês de vida. Interessa-me, e muito, o assunto.

Getúlio Mac Cord é engenheiro e radialista – o que chega a ser um certo alívio. Distante, portanto, dos vícios jornalísticos, criou, para o que queria apresentar, uma estrutura distinta daquela a que nos acostumamos, quando o assunto é biografar. A primeira parte do livro, com pouco mais de 120 páginas, destina-se a localizar o leitor – principalmente aquele com menos de 50 anos – no universo contracultural e político da época. Aliás, o panorama político, fundamental para a compreensão do movimento(?), é expresso e grafia itálica. Didatismo puro. Ok, o autor não tem o charme literário de um Ruy Castro, por exemplo, mas dá conta do recado com eficiência.

A segunda parte é que dá o tom. Com depoimentos de José Ramos Tinhorão, Capinam, Rogério Duarte, Tom Zé, José Celso Martinez Corrêa, Sérgio Dias & Arnaldo Baptista, Rogério Duprat, Jorge Mautner – e, claro, Caetano Veloso e Gilberto Gil, entre outros, desnuda-se não somente a proposta tropicalista, mas seu desenvolvimento e desdobramentos. Entende-se melhor quando os próprios envolvidos no processo resolvem abrir o verbo.

A terceira parte – intitulada Temperos imprescindíveis: Informações Adicionais – revela as ligações do Tropicalismo com Cacrinha, Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, com a antropofagia oswaldiana com o dodecafonismo, com a semiótica. Há muito, muito mais. É um trabalho de fôlego, bem temperado, informativo e claro. Ao final, como um bônus àqueles que apreciam a música popular, uma discografia básica daquilo que se relaciona com o assunto, seja algo atual ou de quase 50 anos atrás.

Lamentei apenas o autor deixar de lado, quando se fala em festivais contraculturais no começo dos anos 70, o mitológico Festival de Guarapari, em 1971, talvez a mais ambiciosa tentativa de se criar um Woodstock brasileiro. Se deu certo ou não, o papo é outro. Mas houve, nele, muito de Tropicalismo. Enfim, nem tudo é perfeito. Ainda assim vale a leitura? Claro. Olha a rapaziada aí:

Mais Frazetta (2 anos depois)

Escrevi sobre Frank Frazetta há dois anos, quando de sua morte. Sempre lamento quando um grande artista se vai, principalmente quando tal artista, por ser insubstituível – se é que existem verdadeiros artistas substituíveis -, deixa um legado que é aproveitado apenas pela memória e pela reverência. Frazetta morreu num dia 10 de maio de 2010, aos 82 anos, vítima de um acidente que desoxigenou parte de seu cérebro. O IPSIS LITTERIS retorna a ele como homenagem.

Não há nada como Frank Frazetta. Talvez o peruano Boris Vellejo chegue perto, até porque o próprio Boris assumiu-lhe a influência. Frazetta é mais violento; Vallejo, mais lírico. A anatomia humana de ambas as criações, entretanto, traz semelhanças assombrosas. Frank Frazetta é mais cinematográfico: o princípio dessa arte – a imagem, o movimento – mantém-se frequente em seus desenhos. As cenas de luta, absurdamente estilizadas, comprovam isso. É só checar a sequência, abaixo:

Os últimos anos de Frank Frazetta expuseram seu sofrimento. Sua mulher morreu de câncer e seu filho Frank Jr., tão cúpido quanto se possa imaginar, tentou se apropriar daquilo que era mais querido ao pai: seus trabalhos. Outros familiares entraram na briga por direitos da obra, que vale, certamente, alguns milhões. Cinco meses depois do incidente envolvendo seu filho, Frank Frazetta morreu de um avecê. Sua obra, claro, será para sempre.

AQUI, com tempo sobrando, você aprecia tudo.

900 postagens e 1756 dias de vida

Esta é a noningentésima postagem. Quase cinco anos de vida. Eu já disse – e repito, sempre que possível – que um blogue se faz, basicamente, dos comentários de leitores. O IPSIS LITTERIS, felizmente, tem vários deles, os quais, fiéis ou bissextos, colaboram para que este blogue ainda se mantenha vivo. Agradeço a todos a colaboração, as dicas, as correções, os puxões de orelha, os elogios, as críticas, o debate sempre saudável. A participação, enfim.

Grande abraço.

A cara do Jazz #12

Bill Evans, Gambit, 1980

 

Dia da Literatura Brasileira (e uma lista, claro, duvidosa)

Embora as comemorações – incluindo as internacionais – sejam dirigidas, com justiça, aos trabalhadores, o primeiro dia de maio serve, também, para homenagear a Literatura Brasileira. Sim, com maiúsculas. A data coincide – e dela advém – com o nascimento de José de Alencar, o grande romancista romântico. Há quem diga que essa jovem senhora tem apenas 176 anos, já que a publicação de Suspiros Poéticos e Saudades, em 1836, marca a literatura “realmente brasileira”, independente dos domínios portugueses. Há quem defenda que uma literatura que utilize uma língua europeia não pode ser considerada “independente”. Discussões sempre haverá – e conclusões idem. Deixe isso para os chatos.

À margem de qualquer polêmica está o leitor, que vê diante de si Paulo Coelho, o glorificado, ser o grande exemplo de escritor brasileiro, o representante máximo de uma literatura que prolifera internacionalmente. Esse mesmo leitor ignora as prosas de Campos de Carvalho, Dalton Trevisan, Hilda Hilst, Herberto Salles, Osman Lins, Murilo Rubião, José J. Veiga e Aníbal Machado, expoentes de uma criação que merece mais atenção, estudo e respeito por parte da Intelligentsia. Poucos, além dos estudantes de Letras, conhecem a crítica de Wilson Martins, de Alfredo Bosi e do citado (em postagem recente) Sérgio Buarque.

À parte os genuinamente consagrados Drummond, Castro Alves, Bilac, Augusto dos Anjos, João Cabral, Oswald, Vinícius, Ferreira Gullar, Cecília, Murilo Mendes e Jorge de Lima, o que dizer da poesia de Roberto Piva ou de Francisco Alvim? E quanto ao simbolista Kilkerry, o romântico Sousândrade e o deliciosamente alucinado dramaturgo gaúcho Qorpo Santo? Há muitos exemplos que omito porque qualquer lamento a mais, neste caso, soaria piegas. Recentemente, recebi um mail em que um ex-aluno me pedia uma lista de 10 grandes livros da Literatura Brasileira. Embora considere listas algo desnecessário – divertido, porém -, arrisquei-me e, claro, abusando da subjetividade e sem recorrer demasiadamente à memória, enumerei as que mais me agradam:

  1. Quincas Borba, Machado de Assis.
  2. Morte e Vida Severina, João Cabral de Melo Neto.
  3. Boitempo, Carlos Drummond de Andrade.
  4. Grande Sertão: Veredas, João Guimarães Rosa.
  5. Vestido de Noiva, Nelson Rodrigues.
  6. Os Doze Trabalhos de Hércules, Monteiro Lobato.
  7. Avalovara, Osman Lins.
  8. São Bernardo, Graciliano Ramos.
  9. A República dos Sonhos, Nélida Piñon.
  10. Tenda dos Milagres, Jorge Amado.

É uma lista que, com a evidente limitação, expõe o gosto pessoal. Não são os livros aqui enumerados os preferidos de um professor, mas de um leitor que, mesmo não sendo apaixonado pela literatura de seu país, respeita-a e reconhece seu valor. E já que o primeiro dia de maio destina-se a homenageá-la, ficam aqui os parabéns e o agradecimento por tudo até agora. E incluo aí meu emprego.

Quando a MPB valia #5

Turíbio Santos & Alaíde Costa, 1977

Morre o último tenor

Estou um dia atrasado, claro – como quase sempre. Dicró, o grande e único, o último dos tenores sambistas, diverte-nos numa entrevista com Jô Soares. Morto há pouco, deixa uma lacuna daquelas que só são preenchidas após muito tempo de ausência, quando ninguém mais quer (ou consegue) se lembrar. E somente aí, quando menos se espera, a memória volta, traduzida em saudade e agradecimento. Valeu pelas boas piadas e pelo ótimo samba, Dicró!

 

Fala, Sérgio!

Sérgio Buarque de Holanda, morto em 24/04/1982

Hoje, a simples obediência como princípio de disciplina parece uma fórmula caduca e impraticável e daí, sobretudo, a instabilidade constante de nossa vida social. Desaparecida a possibilidade desse freio, é em vão que temos procurado importar dos sistemas de outros povos modernos, ou criar por conta própria, um sucedâneo adequado, capaz de superar os efeitos de nosso natural inquieto e desordenado. A experiência e a tradição ensinam que toda cultura só absorve, assimila e elabora em geral os traços de outras culturas, quando estes encontram uma possibilidade de ajuste aos seus quadros de vida. Neste particular cumpre lembrar o que se deu com as culturas européias transportadas ao Novo Mundo. Nem o contato e a mistura com raças indígenas ou adventícias fizeram-nos tão diferentes dos nossos avós de além-mar como às vezes gostaríamos de sê-lo. No caso brasileiro, a verdade, por menos sedutora que possa parecer a alguns dos nossos patriotas, é que ainda nos associa à península Ibérica, a Portugal especialmente, uma tradição longa e viva, bastante viva para nutrir, até hoje, uma alma comum, a despeito de tudo quanto nos separa. Podemos dizer que de lá nos veio a forma atual de nossa cultura; o resto foi matéria que se sujeitou mal ou bem a essa forma.”