Submarino.com.br
Ipsis Litteris Rotating Header Image

A aventura literária #19

Juan José Arreola, circa 1975

“Dentro de Eva, Adão vivia feliz num paraíso de entranhas. Preso como a semente na polpa doce do fruto, eficaz como uma glândula de secreção interna, dormitando como uma crisálida no seu capulho de seda, as asas do espírito amplamente desdobradas. Como todas as criaturas ditosas, Adão renunciou à sua bem-aventurança e se pôs a procurar qualquer saída. Investiu contra a correnteza nas águas densas da maternidade, forçou com a cabeça uma passagem no túnel de toupeira e cortou o liame da sua aliança primitiva. Mas o habitante e a desabitada não puderam viver separados. Aos poucos eles foram idealizando um cerimonial cheio de nostalgias pré-natais, um ritmo obsceno e íntimo que devia começar com a humilhação consciente de Adão. Ajoelhado como diante de uma deusa, suplicava e oferecia toda qualidade de presentes. Em seguida, com uma voz cada vez mais urgente e ameaçadora, começava uma justificação do mito do eterno retorno. Depois de se fazer de muito rogada, Eva suspendia-o do chão, esparzia a cinza dos seus cabelos, tirava-lhe as roupas de penitente e o cobria parcialmente com o seio. Aquilo foi o êxtase (…)” (Tu e Eu, 1953)

 

No canto direito #15: Leny Andrade (com os parabéns pelos 69 anos) )

Mais música e mais aniversário. Em 2009 escrevi sobre uma das grandes damas da música brasileira. Seu nome? Leny Andrade. Num dos comentários, um amigo afirmou que Leny, à época, continuava um tanto desconhecida do grande público. Algum tempo se passou e, pelo que vejo e ouço, assim a grande dama se mantém, um tanto quanto marginal num panorama afeito a Marias Gadús da vida. Uma tristíssima realidade, penso eu, principalmente quando se diz aos quatro cantos e a tantas vozes, que o Brasil é pródigo em grandes cantoras. De fato é, mas se consegue enumerá-las, com a imprudência dos papalvos, deixando Leny Andrade de fora.

Leny nasceu em 25 de janeiro de 1943. Faz, amanhã, 69 anos. No canto direito do visor, bem lá embaixo, estão selecionadas algumas imagens capazes de comprovar a excelência vocal de Leny Andrade, a plenitude com que leva uma canção aos extremos, o suingue, as nuances, os recursos.  É a volta da série No Canto Direito, que expressava (e ainda expressa) o mutualismo entre texto e imagem, e que fez o editor-chefe do Ipsis Litteris um homem feliz. É só checar. Os vídeos são o feliz resultado de um show no Birdland Jazz Club de Nova Iorque, em companhia de Helio Schiavo (bateria), Kip Reed (baixo) e Cliff Gorman (piano). As canções são Dindi, clássico de Jobim/Aloysio Oliveira, Ilusão à Toa e Nós, ambas de Johnny Alf. Ouça para crer.

 

Por onde anda Burt Bacharach?

Só o fato de ter sido casado com Angie Dickinson já valeria o ingresso entre os vivos. Além disso, compôs a melodia sinuosa e inesquecível da canção Raindrops Keep Falling on my Head, um clássico absoluto que o entronizou no imaginário musical e eternizou seu charme como compositor. A letra, uma delícia cínica porém otimista, brotou dos neurônios de Hal David, responsável por um outro clássico pop-gospel (seja lá o que isso signifique): I Say a Little Prayer, que tornou a intérprete Dionne Warwick muito rica.

Burt Bacharach é (ou era, quando em atividade) um ótimo pianista. Não tem os recursos ilimitados dos grandes nomes do instrumento – no jazz ou na canção popular -, e nem é esse seu propósito, embora não constranja quem o ouve. Ao contrário: agrada, com seu estilo sofisticado e seu toque muitíssimo pessoal, qualquer ouvinte cuja exigência advém de audições de Cole Porter ou de Harold Arlen, duas de suas maiores influências. Seu fraseado, assim como o desses dois senhores citados, é original, feito de modulações inusitadas e alegres.

Burt foi arranjador de vários temas cantados por Marlene Dietrich que, segundo consta, infernizava-o, mas aceitava todas as sugestões do pianista. Ouça, se possível, Honeysuckle Rose e You Are the Cream of my Coffee., ambas do discaço da cantora-atriz alemã Marlene Dietrich with the Burt Bacharach Orchestra. e por falar em grandes discos que levam a marca Bacharach, aí vai uma dica: um ótimo exemplo é Blue Note plays Burt Bacharach. Para se ter uma ideia, Nancy Wilson – sim, a grande Nancy Wilson – canta Alfie e Wives and Lovers. O extraordinário guitarrista Grant Green manda ver em I’ll Never Fall in Love Again. E Stanley Turrentine, com seu sopro vigoroso – mas suave, no disco – faz de Walk on By e What The World Needs Now is Love duas obras destinadas à imortalidade. Não, não é exagero.

Burt Bacharach continua na ativa. Em 2008, enlouqueceu o público num show no Opera House de Sydney, Austrália, acompanhado da Sydney Symphony Orchestra. É um espetáculo que parece não ter fim – e isso, claro, é um elogio. 38 faixas do melhor som popular que se pode produzir. E ainda bem que Burt estava lá para fazê-lo. AQUI, numa apresentação no North Sea Jazz holandês, em 2009. E uma merecida volta ao passado, em 1970: Burt Bacharach e Stevie Wonder. Eis:

Elis, Nara & um dia especial

No dia 19 de janeiro de 1982 eu estava numa festa em Fortaleza, CE, esbaldando-me em férias e aos 19 anos de idade. Um evento – não me lembro exatamente em que local da capital – que reunia, basicamente, estudantes universitários às voltas com bebida de qualidade tão duvidosa quanto a banda sob cujo barulho a rapaziada era embalada. No apogeu da performance, o vocalista, fazendo uma pausa, trouxe a notícia de que Elis Regina havia morrido naquele dia. Não me recordo de ele ter mencionado os motivos da morte daquela que, em minha modesta opinião, só não é a maior cantora brasileira de todos os tempos porque Elizeth Cardoso existia – e ela mesma morreria oito anos depois.

A data que provocou esta postagem atinge outra cantora – não menos importante para a emepebê, embora com muito menos potência vocal e muito mais simpatia. Nara Leão, se viva, faria 70 anos hoje. Nasceu em minha terra natal, mas isso não significa nada. Nem para ela nem para mim. O que conta, de fato, é que muito de meu interesse pelo gênero que ela ajudou a solidificar advém de um disco intitulado Com Açúcar Com Afeto, de 1980, em que ela exibia-se em canções de Chico Buarque (algumas inéditas para mim, como Baioque e Vence na Vida Quem Diz Sim) acompanhada de duas feras em seus instrumentos: Luizão Maia e Antonio Adolfo. Um disco para sempre.

Elis E Nara eram rivais – uma rivalidade alimentada muito mais por conta da cantora gaúcha, que não engolia o fato de Nara ter namorado movimentos musicais tão distintos – na cabeça um tanto confusa de Elis – quanto a Bossa Nova, a Jovem Guarda e o Tropicalismo. Era certinha demais e, sem nenhum trocadilho e abusando da metáfora desgastada, parecia dançar conforme a dança. Não se posicionava politicamente nem se arriscava no repertório. A propósito: o fato de o jornalista e compositor Ronaldo Bôscoli ter-se envolvido com as duas – em épocas distintas, claro – parece irrelevante para as rusgas entre as cantoras.

Ainda bem que, diferentemente de muitos que eram obrigados a adotar um lado, não preciso escolher entre uma e outra. É a vantagem de ter vivido uma outra época, de ter-me interessado por música quando ambas, já consagradas, não necessitavam de esforçar-se demais para mostrar quem eram e o que representavam. Por isso vivem de forma harmoniosa em minhas estantes, entre gravações que ouço à exaustão e sobre as quais há muito a dizer, mas não é sobre discos que quero falar, e sim sobre quem deu vida a eles. Pena que hoje, dia 19 de janeiro, esse dia tão especial, seja apenas memória. Mas como vale!

__________________________________

p.s. E para quem pensa que a foto que ilustra a postagem representa a harmonia entre as moças, esqueça. Elis abandonou a sessão de fotos e, cuspindo vespas, afirmou, para quem quisesse ouvir, que não gostava de Nara.

Fala, Autran!

Autran Dourado sumiu das salas de aula, e a esse fato adiciono o advérbio infelizmente. Amanhã, dia 18 de janeiro, o autor comemora 86 anos. Sua última publicação, O Senhor das Horas, uma reunião de contos e crônicas, foi publicado em 2006, e escrita, naturalmente, antes de o Mal de Parkinson devastar-lhe o cérebro e os movimentos. Autran Dourado escreveu Ópera dos Mortos e O Risco do Bordado, duas obras-primas que li durante os tempos de faculdade, e que me levaram a As Imaginações Pecaminosas e ao clássico – e necessário a todo escritor, penso – Uma poética de romance: matéria de carpintaria. Mas, repito, é deixado de lado pela Academia e pelos professores secundaristas, de modo que o estudante – de Letras ou não – ignora-o. Talvez nem haja tanta culpa: muitos professores, que deveriam ter Autran Dourado em alta conta, desconhecem-no.

 

E vai aí o que todos os interessados em literatura (e em escrever) deveriam ler. Fala, Autran!

“A erudição é acidental, embora seja uma coisa que se busque. Quando o autor está começando a escrever, não pode pensar em ninguém. Nem em outros autores nem em seu público, porque sequer consegue saber quem é seu público. O escritor é aquele solitário. Eu não sei qual é meu leitor e não me submeto à posição de procurá-lo. É por isso que vejo com certo escândalo o que está acontecendo no Brasil: pessoas jovens que se iniciam na literatura e querem logo vender livro. Têm vocação de best-seller. São fabricantes de livro, e o livro que você vê não resultou de nenhum esforço maior, não correu nenhum sangue por ele. Isso não é ser escritor. Vender livro é um acidente na vida de um escritor.”

Jazz, mulheres, Sesc

Pois é: estou de volta, após duas semanas de um descanso – como eu mesmo afirmei na postagem anterior – merecido. Aqui em São Paulo, após um lauto almoço regado a bons chopes Eisenbahn, dirigi-me ao hotel para um sono em família. Antes, porém, uma checada na tevê, convicto de que a geralmente melancólica programação dominical seria um bom sonífero. Deparei-me, então – para minha absoluta surpresa -, com um show, em seu início, do grupo Ladies Instrumental. Se você, leitor, curte música instrumental e nunca ouviu falar desse grupo, é hora de se atualizar.

O próprio nome da banda já entrega o produto: um grupo de quatro mulheres – piano, baixo, guitarra e bateria – que faz som de primeiríssima, preciso e cheio de boas firulas (daquelas que, de tão exatas, tornam-se obrigatórias), com a ligeireza típica dos grandes músicos. Aqueles que, como eu – tempos atrás -, afirmaram que jazz instrumental era coisa de homem queimaram a língua. E os ouvidos. A banda é formada pelas músicas Dudáh Lopes (piano e teclado), Célia Carvalho (baixo elétrico), Renata Montanari (guitarra) e Bianca Prediere (bateria). Um timaço.

E quanto ao repertório? Bem, já vi muito craque tropeçar em temas como Doxy e Pent Up House, ambas de Sonny Rollins, ou Garota de Ipanema, de Jobim. Pois com esse grupo não há tropeços, safanões ou exageros. As moças embutem uma leveza que nem os próprios temas rollinsnianos citados possuem, e parecem tocar como se isso fosse trivial como a execução de uma marcha escolar. Assisti, maravilhado, ao show pelo canal Sesc, com uma imagem que não estava lá essas coisas – e não melhorou, após eu reclamar com a gerência do hotel. Mas quem precisa de imagens, de fato? Eis as moças:

Fui ao YouTube para checar o show. Uma beleza. Para quem não conhece, aí vai a dica, que contém Cantaloupe Island, de Herbie Hancock; Wave, de Jobim; Tenor Madness, de Sonny Rollins, e Take Five, de Paul Desmond, e imortalizado pelo Dave Brubeck Quartet. Se houver tempo, cheque os links. Você não vai se arrepender. Olhe, posso garantir, sem pestanejar, que é melhor, muito melhor, que Luan Santana, Jota Quest ou Michel Teló.

 

Desejo, fartura, 2012 (e alguns contos do próximo livro)

 

O IPSIS LITTERIS deseja a todos os seus leitores um ótimo 2012. Aproveito para agradecer os comentários, as sugestões, os toques, as correções. O debate, enfim, porque é disso que vive um blogue. A propósito, o IPSIS faz uma pequena pausa para um descanso não exatamente merecido – mas desejado. E enquanto não há postagens inéditas, regozijem-se com alguns textos que serão exibidos no meu próximo livro de contos, Todas elas Agora, a sair até junho. É só clicar AQUI e AQUI.

E que haja, neste próximo ano, muita fartura – principalmente de ideias.

Revisitando Nastassja #6

Os Amantes de Maria, Maria’s Lovers, 1984

 

Requentando o Natal (repetindo a charge pretérita)

* by Mike Lukovich

Porque realmente é uma bela charge. Irônica, como quase toda comemoração natalina. Enfim, o IPSIS LITTERIS, através de seu editor-chefe (eu, no caso), deseja a todos os seus poucos leitores um ótimo Natal.

Agora, sem Sérgio Britto (1923-2011)

AQUI, um pouco mais.