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Uma visita a Vladimir Nabokov (1899-1977)

Pois não é que as coincidências ainda surpreendem? Depois de tanto tempo adquirido - acredito que uns 15 anos antes da edição da Cia das Letras -, inicio a leitura de A Defesa, romance de Vladimir Nabokov sobre algo que ignoro (mas não completamente): o xadrez. Nabokov sempre me traz algo novo, que vai além do que vejo. Sei que sempre falta algo, há freqüentemente um detalhe que me foge, um dado que me passa longe, distante dos olhos e da compreensão. Mas e a coincidência? Bem, há 32 anos, num 2 de julho, o velho russo que escrevia em inglês morreu.

Nabokov era fã de xadrez. Tinha paixão por sua problemática, pelo cartesianismo que o jogo propunha. Eu mal sei os movimentos das peças, pouco entendo o que a torre representa. Não importa: o grande escritor é capaz de criar interesse num assunto que desprezamos. Nabokov não é autor fácil, daqueles que se lêem em voz alta (sempre desconfio de pessoas que o fazem). Exige senso e atenção desmesurada. Lembro-me de idas e vindas no seu romance semipolicial - extraordinário! - A Verdadeira Vida de Sebastian Knight. Até a leitura de Fogo Pálido, aquele era meu preferido. Sim, claro, li Lolita, seu tour de force erótico. Mas não gostei tanto.

A Defesa é romance russo: escrito nessa língua. É xadrez puro, cheio de nuances, idas e vindas, rupturas narrativas, mas nada de chatices técnicas sobre o jogo. Uma querida amiga - que há quase vinte anos me indicou a leitura - ressaltou que a falta de diálogos pode causar repulsa a leitores menos exigentes. Prefiro pensar que não foi um recado direto à minha pessoa. Ela mesma me perguntou o porquê da mania de escrever sobre um livro que não está totalmente lido. Respondo que opiniões sobre leituras finalizadas podem ser equivocadas justamente porque se propõem definitivas. Nabokov contradiz opiniões definitivas, de modo que é melhor visitá-lo e arriscar, depois, comentários sobre a obra.

Em tempo: a edição que possuo tem título já mencionado, e é de 1986, pela ed. L&PM. Há um outra edição, posterior (também citada), pela Cia. das Letras, com o título de A Defesa Lujin.

Somos todos gênios

Almocei assitindo à tevê: o futebol enaltecido, a euforia saindo pelo ladrão por conta da façanha que foi vencer, de virada, o tradicionalíssimo selecionado norte-americano. Coisa de Hércules, de Maciste. Vou levando, sem mudar o canal porque Michael Jackson continua morto. Durante o Globo Esporte, fico sabendo que a ciclista Dani Genovesi venceu a Race Cross America, uma prova e resistência dura de levar até o fim. Merece aplausos, notícia, congratulações. Júnior, ex-craque flamenguista e comentarista esportivo, foi além e saiu-se com esta: agüentar mais de 3.000 milhas é coisa de gênio. Dani Genovesi - a incansável, a durona, a pertinaz - entrou para a restrita categoria a que pertencem Einstein, Beethoven, Michelangelo, Newton.

Espere aí!, você dirá. Genialidade pode direcionar-se ao esporte. Concordo. No futebol, vi Pelé, Maradona e Cruyff; no basquete, Michael Jordan; na natação, Mark Spitz; no boxe, Cassius Clay e Sugar Ray. No tênis, Björn Borg e Pete Sampras. Há outros, naturalmente. Genialidade pessupõe tempo, longevidade. Ninguém é gênio por uma semana, sem contar que o epíteto, antes de ser banalizado - como agora -, era algo conquistado com a testemunha de gerações. Hoje, qualquer um é gênio. Dani Genovesi equivale a um Schummacher, um Kareen Abdul-Jabar, um Carl Lewis, um Garrincha.

Não lhe tiro o mérito. Repito: a tarefa de atravessar os states sem usar gasolina é coisa para poucos. Mas a travessia é teste de resistência - não de intelectualidade. Aliás, até onde sei, é por conta de um intelecto privilegiado que se define um gênio. Pode até ser que a ciclista Dani seja genial, mas o que ela comprova sentada num selim e movendo freneticamente os quadríceps é que sua saúde é infinitamente melhor do que a minha e que ela é capaz de resistir, sorrindo, àquilo que eu nem imagino ser possível fazer. Mas qual o motivo de o comentarista chamar-lhe genial? Uma patética tentativa de valorizar o produto nacional? Desconhecimento da carga de responsabilidade que o vocábulo possui? Ou a banalização pura e plena, usando-se o termo como se poderia usar qualquer outro?

Tento imaginar qual foi a reação de Maradona quando os jornais corintianos afirmaram, há poucos anos, que Tevez era gênio. A mesma que Pelé deve sentir quando a Globo tece loas a Romário por ele ter feito, aos 41 anos, mil goals. Colocaram todos no mesmo patamar. Ou será que me engano e o restrito clube dos gênios possui, às escondidas, sua própria segregação?

Por curiosidade, joguei no Gúgol o termo “gênio”. Nas primeras dez páginas Einstein apareceu seis vezes; Da Vinci, Marx, Fernando Pessoa, Stanley Kubrick, Castro Alves, Chaplin, Orson Welles e Romário apareceram cada um uma única vez. E aquela figurinha mitológica, inquilino de garrafas mágicas - incluindo a Barbara Eden, da ilustração acima -, fez a festa. Bem, pelo menos o Gúgol restringe um pouco.

Livros para quê? (parte VI)

Insone, numa manhã de sábado, assisto a um programa de tevê de nome Ação, com apresentação de Sérgio Groisman - aquele mesmo, do Altas Horas, madrugueiro, em que a gurizada protesta contra os altos preços do chicabom e assim por diante. Pois bem, o programa Ação - que, confesso, nunca tinha visto - dedicou seus poucos minutos ao livro, à leitura, à importância da família e da escola na formação do leitor-mirim, às bibliotecas etc. Excelente, mesmo falando o óbvio: os livros ensinam, fundamentam, divertem, sensibilizam, desvendam. Todos sabem, até mesmo os que insistem em descartá-los de seu dia-a-dia.

Sérgio Groisman entrevistou Ignácio de Loyola Brandão, escritor que foi sensação nos anos 70. Divertido, sensato, inteligente, insiste na idéia correta de que literatura é memória, fantasia, realidade e criação. Por isso tão humana e tão importante, tão essencial à criança, ao adolescente, ao jovem e à vida adulta, épocas em que somos humanos, ou que insistimos nessa idéia. Loyola falou também o óbvio: família e escola podem ser um suporte ou levar tudo a perder. A despeito de algumas exceções, aprende-se a ler vendo os pais lerem. Na escola, se o professor não amar os livros, se não respeitar seu conteúdo, é muito provável que o aluno não desperte para a leitura. Estou falando o óbvio também.

Não sabia que a rede Globo investia nesse filão. Claro que o investimento é tímido, afinal o horário de 7 e 45 da manhã, de sábado, é algo pouco convidativo, principalmente para o indivíduo entre 15 e 20 anos. Horário ingrato, claro. Então, por que não veicular esse programa - e outros, como Globo Ciência - em horários mais convidativos? Problemas mercadológicos, naturalmente. Pode-se imaginar grandes empresas - refrigerante, automóveis, material de construção, bancos - investindo em leitura? Eu posso, mas eles não. E, já que esta é uma postagem sobre o óbvio, responderão com uma pergunta: livros para quê?

Mr. Lumet aos 85

E Sidney Lumet chega aos 85, com a mente em erupção. Fez Antes que o Diabo Saiba que Você está Morto, devidamente comentado por este blogueiro que vos escreve. Poderia ter descansado após fazer Doze Homens e uma Sentença, The Pawmbroker, Serpico, Um Dia de Cão e O Veredicto. Parece que o cara quer mais: vem aí Getting Out. Enquanto não chega, parabéns!

Um pê esse: além dos filmes citados, é altamente recomendável que se assista - para quem possui o canal pago Bravo, naturalmente - ao episódio Actors Studio com Sidney Lumet. Uma aula de cinema. Além de ouvi-lo, aprende-se que a pronúncia de seu nome não é afrancesada.

O fim dos tempos

Vi mais uma vez Apocalypto, de Mel Gibson. Filmão, mas agora visto no formato tevê, por canal fechado. Não é a mesma coisa, claro. No cinema a floresta tropical mexicana torna-se personagem, que atua sob a mira precisa do diretor. Espantei-me mais uma vez. É a terceira ou quarta vez que assisto à perseguição sob a chuva e pelos caminhos do matagal. Mel Gibson me surpreende. Não me disse muito em a Paixão de Cristo, nem nos filmes em que atuou, com exceção do excelente Gallipoli, fantástico filme em que o ator está muitíssimo bem. Algum mais? Não vou consultar o wiki para ver o que esqueci.

Apocalypto é cinema puro - principalmente a grande cena do filme, quando, diante da praia, os guerreiros maias vêem a chegada dos europeus, com seus barcos, velas, mantos e a cruz do nazareno. Ali, sim, começa o apocalipse, a matança, o fim dos tempos em nome da nova civilização. É um épico - e dos bons. O ponto de vista do nativo, assim como a linguagem maia, é a grande trunfo do filme. Dá credibilidade a uma película cheia de hipóteses que a história real pode ou não confirmar. Não importa.

E os atores? Bem, confesso que fui à web para saber quem são Rudy YoungbloodRaoul Trujillo e Gerardo Taracena - o trio que manda no filme. É bom que se diga: Trujillo - como o mau pai vingativo - é o que há de melhor. O filme tem cenas que farão parte de uma futura antologia: a criança contaminada que vaticina o apocalipse, a perseguição do jaguar ao mocinho, as cabeças rolando templo abaixo durante o sacrifício e, claro, a citada cena diante dos conquistadores que desembocam na praia. Há outras, naturalmente.

Sem história, o filme não anda - todos sabem disso. Mel Gibson teve ajuda para escrever: Farhad Safinia, iraniano, foi fundamental na jornada. Sem ele, sem sua visão sobre o paradoxo maia (cultura riquíssima mas violenta), o filme certamente teria menos força. Ainda bem que esteve por perto.

Calígula revisitado

Vou rever Calígula, de Tinto Brass, filme mitológico, polêmico e meio chato, quando assisti. Vi em cópia VHS, no início dos anos 80, quando estava proibido por exaltar as perversões político-sexuais de um imperador tresloucado na Roma mais tresloucada ainda. Ninguém melhor que Malcolm McDowell - que já havia ensaiado as doideiras em A Laranja Mecânica - para o papel. O filme - imagino - não impressiona mais. Vale pela mitologia, afinal escândalo sexual envolvendo governantes tornou-se clichê. É quase tão inofensivo quanto ler Luluzinha.

Comprei o filme nas Lojas Americanas a 9,90. Aproveitei para levar também 2001, do Kubrick, ao mesmo preço, e o faroeste A Face Oculta, com Marlon Brando atrás e diante das câmeras. Esse me custou 5 reais. A tendência é baratear - é o que se espera. A internet, mesmo para quem a considera ferramenta satânica, tem suas benesses, e os downloads gratuitos forçam a criação de alternativas. Vamos ver no que dá. Enquanto isso, Calígula será a atração da noite.

Pessoas de Guerreiro

Se o leitor - o possível leitor - clicar na categoria fotografia vai-se deparar com trabalhos de Bob Gruen, Richard Avedon, René Burri, Horacio Coppola, Philippe Halsman, William Claxton e muitos outros. Poucos brasileiros - Carlos Antolini e Evandro Teixeira, e só e somente. Para os nacionalistas de plantão, aí vai um nome: Antonio Guerreiro, fotógrafo cujo arquivo pessoal (ou parte dele) está exposto em seu excelente blog, apresentado a mim há poucos dias, por um amigo que afirma: “(…) nada como reconhecer os personagens das fotos. Tudo parece muito mais verdadeiro.” Discordo dele, mas esse não é o ponto da postagem. Eis o que Antonio Guerreiro é (e foi) capaz de fazer com “seus” personagens:

Regina Rosemburgo

Betty Faria

Alcione Mazzeo

Tarso de Castro

Hermeto Paschoal

Dina Sfat

Tonia Carreiro

Nelson Rodrigues

Arthur Moreira Lima

 

Regina Duarte

Maysa

Marieta Severo & Chico Buarque

Tim Maia

E, possivelmente, uma das mais belas mulheres do mundo (em sua época):

Vera Fischer

Há muito mais para ser visto e admirado. Fotos de “moda”, capas de disco e de revistas, homenagens. Quer saber se há paisagem? Há melhor paisagem que o ser humano?

É isso, Francisco!

Pois bem: cá estou de volta. E às voltas com literatura, consumida entre os intervalos etílicos do feriado.

Leite Derramado é um ótimo livro. Chico Buarque amadureceu, desde Estorvo e Benjamim, dois livros irregulares, a meu ver. Budapeste é quase ótimo - eu diria bom, cheio de virtudes e poucos defeitos. Chico é poeta, e dos melhores que compõem o cenário da boa emepebê, aquela que se encontra no polêmico limbo entre poesia e letra de canção. Seus pares? Caetano, Gil, Belchior, Edu Lobo. Faltou alguém? Acho que não. Pois o que queria dizer é que o poeta Chico divorciou-se do prosador Chico. O prosador tem de contar histórias: esse é seu destino e dever. Agora, sim. Chico Buarque finalmente conseguiu e Leite Derramado derrama-se. É narrativa de luxo.

Vou explicar. Poetas geralmente são maus narradores. Há exceções, evidentemente, mas a regra é bem posta. Poetas enxergam o mundo de forma fragmentada - o que facilita a construção do verso. Prosadores, ao contrário, vêem em tudo uma história a ser contada, são lineares. Chico Buarque, como se sabe, pertencia - talvez ainda pertença, mas cada vez usa menos a camisa - ao primeiro time. Um grande poeta a serviço da canção. Hoje, se não um escritor de primeira, pelo menos produziu um livro de primeira.

Todos sabem que a narrativa interna - aquela em que o narrador é personagem - é a menos difícil de construir, embora se saiba também que boas narrativas independem do foco que as conduz. Chico Buarque optou pelo monólogo - um imenso e bem formulado monólogo em que abandono, racismo, ironias, ciúme, sarcasmo, decadência econômica e delírios misturam-se de forma exata, de modo que o leitor, mesmo diante de um texto previsível (porque ele é), surpreende-se com a condução narrativa de um sujeito em quem não se pode confiar justamente porque é delirante. Talvez esteja aí o tal parentesco com a narrativa machadiana que os críticos fazem questão de trazer à baila. Como se isso enobrecesse o texto. O texto é nobre porque é bem escrito demais.

Chico Buarque é, hoje, mais escritor que compositor de emepebê. Há muitos anos não faz um grande disco, como foram seus trabalhos entre 1969 e 1981 - ou seja, dos discos Chico Buarque vol. 4 até Almanaque. Nesses doze anos só produziu excelências - o que fez dele, na opinião de muitos, o melhor compositor brasileiro dos últimos 50 anos. Compôs também textos dramáticos memoráveis, sendo Gota D’Água uma obra-prima. Atualmente prefere os textos narrativos. Há quem diga que está em crise criativa. Se Leite Derramado for resultado dessa crise, espero, então, que ela se mantenha. É frutífera.

Você, que leu todo esse texto, deve estar perguntando: não vai falar da história do livro? Não vai dar detalhes, fazer análises? Não. Chico não merece que eu tente resumir seu texto a poucas linhas de um blog. Acho melhor lê-lo. Vale mais a pena.

Fala, Dizzy!

 

É isso aí! Até segunda, após um merecido descanso, muitas cervejas, comida variada e acompanhamentos. Enquanto isso, refestelem-se com postagens remotas ou recentes. Sugestões do museu: aqui, aqui e aqui. Os comentários podem ser feitos na própria postagem.

A casa é minha, mas podem usar. Abraços a todos!

Afastai-vos, pobretões!

Em A Gazeta, jornal local, de domingo, dia 7:

“(…) De tão competitivo, até o mercado da música passou a exigir ‘nível superior’, e, tal qual o forró e o pagode, o sertanejo também entrou para a vida universitária.”

Está dizendo o quê, realmente? O nível da música subiu ou a exigência da juventude universitária desceu a degraus baixíssimos? Acho que a coisa vai mais além. Lembro-me de que a expressão “universitário”, hoje banalizada pelo Pró-Uni e pelas milhares de faculdades particulares (muitas delas de qualidade duvidosa) espalhadas pelo país, era sinônimo de status intelectual e, acima de tudo, resultado de dedicação aos estudos. A expressão “universitário” tornou-se álibi, parece-me. Álibi?

Pode ser que tudo seja apenas uma questão de mercado - mas não é algo tão simples quanto parece. Posso me equivocar, mas, pelo que sei, duplas sertanejas (ou caipiras) sempre tiveram apelo com camadas sociais populares, cujo grau de instrução, via de regra, nunca foi quesito essencial. Diante disso, que público consumia shows sertanejos? Na maioria dos casos, os pobres.

E agora? Pelo que pude perceber, patricinhas e mauricinhos, dondocas e marombados, gente rica ou remediada, emergentes e bem-nascidos, todos esses se dirigem a boates - ou casas de shows - nas quais duplas sertanejas percebem que, ao autodenominar-se “universitárias”, delimitam o poder aquisitivo do público consumidor do evento. Ou seja, pobre não entra. Fui verificar o álbum de fotos disponibilizado no site. Todos, sem exceção, não parecem dar duro para sobreviver. São oriundos de boas famílias e curtem a balada com disposição. E sem a aporrinhação de um pobretão mal vestido (ou cafona) tentando aproximar-se. Chamam isso de segurança, conforto. Nada contra, claro.

 Bom para os investidores dos shows. Essa rapaziada toma long-neck superfaturada, fuma cigarros caros, não pergunta preço do tira-gosto, usa roupas de marca e geralmente sai desses ambientes durante a madrugada, satisfeitos da vida, prontos para retornar em breve. Todos estão felizes, mesmo sabendo que a segregação come solta. Mas não é assim em todos os setores? Na matéria, afirma-se que o público consumidor é de classe média urbana. Há poucos anos o público rural lotava shows sertanejos. Bem, os ruralistas ricos chegam do interior com sua picapes e não perdem um show, afirmam. E até se orgulham disso. 

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