Luciano Huck é bom moço, parece ter amigos até nos locais que não frequenta ou conhece. Sempre de barba feita e penteado, tenta estender seu asseamento e sua limpeza ao próprio comportamento. A imprensa não o persegue, de modo que, se houver podres em sua vida privada, eles são definitivamente deixados sob o tapete. É certinho demais, não transgride, não ofende, não maldiz e tenho a firme suspeita de que não fala palavrão. Luciano Huck é, em outras palavras, um chato. (Tem bom gosto para mulheres – isso pode remidi-lo um pouco.)
Mas o que ele tem a ver com a postagem? Tudo. Ele e meu joelho operado. Por conta dele – do joelho – assisti a um show de constrangimento na tevê, durante o tal programa Caldeirão do Huck. Explico, e adianto que, de fato, o constrangimento foi meu. Ao que consta, pelo que pude perceber – já que o bonde andava quando o peguei -, Luciano Huck comemora aniversário. Fez, na sexta-feira, dia 3 de setembro, 39 anos. Comemorou-os dividindo seu palco com Lionel Richie.

Sim, você leu corretamente: Lionel Richie, sensação da música norte-americana, responsável por mega-sucessos como Easy e Hello. Esses dois temas foram hits no início dos anos 80, quando Luciano Huck tinha 12 ou 13 anos. Até aí tudo bem: pode até ser que realmente lhe conheça as músicas. Mas sua platéia é, basicamente, composta de adolescentes para quem Lionel Richie é tão desconhecido quanto Voltaire, Stravinsky ou Henri Matisse. Ou seja: Lionel Richie apresentou-se para um público que, por desconhecê-lo, não lhe deu o retorno merecido. Era possível ver que a garotada ignorava solenemente os temas sugeridos por um público mais velho – Tony Ramos, Fernanda Montenegro – que, alimentando a idéia de que Luciano Huck é um cara legal, parabenizava-o, em breves vinhetas televisivas, pelo aniversário.
Enquanto Lionel, ao piano, executava clássicos chamados “românticos”, a meninada levantava os braços, ensaiada e obrigatoriamente, como se o louvasse, como se estivesse acompanhando uma música que lhe era, de fato, estranhíssima. Constrangi-me, e poderia não ter passado por isso se não fosse meu joelho operado. O controle-remoto estava a uma distância considerável. Não pude evitar. Lionel Richie também não. Acredito que ele esteja precisando de grana, e seu cachê – por conseguinte – deve estar barato. A gurizada – tenho certeza! – preferiria Justin Bieber, Zac Efron. Ou qualquer rapper norte-americano com pose de gangster. Ou até um desses debilóides do sertanejo universitário. Ou Kid Abelha, Capital Inicial, O Rappa, Tiririca. Mas não Lionel Richie.
E o desfecho foi ainda mais melancólico: Lionel dirigiu-se ao público, e pediu que este participasse, vocalmente, da música Endless Love, tema do filme de Franco Zeffirelli, com aquela gostosura chamada Brooke Shields. O filme é de 1981, e a música foi gravada em dueto com Diana Ross. Lionel Richie pediu que a petizada fizesse as vezes de Diana, enquanto ele, claro, fazia a sua parte. Foi uma tristeza, algo desnecessário. Lionel Richie veio ao Brasil apresentar-se em São Paulo e no Rio de Janeiro. Seu público, certamente, será adulto. No mínimo, trintões. Será que algum adolescente, após esse pequeno encontro de sábado, vai pedir ao papai dinheiro para ir ao show?













