Submarino.com.br
Ipsis Litteris Rotating Header Image

Uma visita a Campos de Carvalho (1916-1998)

 O coração safenado de Campos de Carvalho parou enquanto ele dormia. Nada menos adequado a um escritor que pautou sua prosa pelo surreal, pelo surpreendente, pelo bom-humor e pela narrativa contínua, que parecia não ter fim. Mas teve. Aliás, ele mesmo, descontente com a burocracia editorial brasileira – sempre venenosa e corrompida -, resolveu parar. Não devia.

Campos de Carvalho escreveu para O Pasquim, embora poucos saibam disso. Não teve a benevolência midiática de um Paulo Francis ou de um Millôr Fernandes - ao contrário: foi tão antifamoso que, em seu enterro, compareceram apenas quatro pessoas, sendo uma delas o escritor Mário Prata, meio aparentado dele. Não se noticiou com a devida reverência. Noticia-se, claro, se um participante do Big Brother tropeça, mas parece que a morte de Campos de Carvalho não merece menção. Lamentável.

Walter Campos de Carvalho nasceu em Uberaba, MG, mas viveu sua vida em São Paulo. Embora graduado em Direito, e trabalhando como procurador, seu grande prazer era a escrita, fosse ela no âmbito jornalístico, fosse no campo literário. Escreveu seis livros mas renegou dois deles, por achar que não possuíam a devida qualidade.

Os filhos renegados são Banda Forra, 1941, e Tribo, 1954. Os outros quatro eu li, e são obras-primas da narrativa brasileira. Deveriam ser lidos nas escolas e universidades, mereciam resenhas em grandes jornais, deviam estar na tevê – adaptados e interpretados por atores reconhecidos. São eles, pela cronologia, e todos romances: A Lua vem da Ásia, 1956; Vaca de Nariz Sutil, 1961; A Chuva Imóvel, 1963 e O Púcaro Búlgaro, 1964. Este último até que provocou uma certa repercussão porque se tornou peça teatral.

 Campos de Carvalho, para mim, está no time primeiro da literatura brasileira. Ao lado de Nelson Rodrigues, Machado de Assis e Graciliano Ramos. Sei que muita gente torce o nariz quando, nesta lista, não aparecem nomes como Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Mário de Andrade. Pode torcer. Mas antes de qualquer careta, leia ao menos um dos livros de Campos de Carvalho.

A editora José Olympio lançou os quatro, juntos, numa só edição.

Recentemente se lançou Cartas de Viagem e Outras Crônicas, pela mesma José Olympio. Trata-se de uma coletânea de magníficas crônicas que o autor mineiro publicou nO Pasquim, em 1972.

Clique AQUI para ler um trecho do romance Vaca de Nariz Sutil.

3 Comentários on “Uma visita a Campos de Carvalho (1916-1998)”

  1. #1 John Lester
    on Aug 5th, 2007 at 6:17 pm

    Tem maior angústia que reconhecer impossível ler tudo que desejamos?

    Quantos textos maravilhosos ficarão assim, esquecidos por aí?

    Reply

  2. #2 F. Grijó
    on Aug 17th, 2007 at 5:05 am

    Campos de Carvalho não deveria ficar no esquecimento, JL.
    Deveria ser leitura obrigatória, como Machado e Alencar.
    Mas é uma pena que tenha sido esquecido.
    Não por aqueles que amam a literatura.

    Reply

  3. #3 Jack
    on Jun 10th, 2010 at 12:55 am

    Estou atrás dos livros dele e necas! Difícil pra cacete de encontrar, nem em sebos. Bem, depois que li seu blogue fui atrás e vou continuar a empreitada,rsrsrs Valeu :)

    Reply

Deixe um comentário