Há quem diga que os norte-americanos apaixonaram-se pela Bossa Nova por ela dialogar com o jazz - o que é verdade se você pensar que os acordes dissonantes e a batida ao violão muito se assemelham ao formato jazzístico. Os puristas fazem careta quando alguém afirma isso, mas os puristas - em qualquer ramo do pensamento e da arte - fazem careta para tudo. Não vou dissertar sobre técnica ou histórias - nem da Bossa Nova nem do jazz, já que muito se escreveu sobre isso e os compêndios pressupõem muito mais fôlego que as poucas linhas de um blog.
De fato me interessa escolher alguns exemplos desse tal diálogo: os três discos nos quais Stan Getz e João Gilberto mostram por que essa conversação revela um dos pontos extremos da música nos últimos tempos.

O Getz/Gilberto, de 1963, tem algumas vantagens sobre os outros dois. A menor delas é a de ser o primeiro disco, e isso o coloca em local privilegiado da memória. Outra vantagem: ter, ao piano, os dedos inspirados de Antônio Carlos Jobim. Tudo bem: conta, em algumas faixas, com o vocal meia-boca de Astrud Gilberto, então mulher de João, mas isso não chega a comprometer o disco, que é produzido pelo lendário Creed Taylor, fundador das gravadoras Impulse! e CTI e um os responsáveis pela difusão do ritmo brasileiro em terras ianques.
É um disco em que sobra limpidez: tanto na voz incrivelmente bem pronunciada de João quanto no fraseado do sax de Stan, que chegam a seu momento ótimo nas faixas Doralice, Para Machucar meu Coração e Corcovado. A sensualidade musical é evidente. Sim, eu disse sensualidade. Esse é daqueles discos cuja musicalidade confronta o controle da natalidade. As sessões contam também com a presença bem-comportada (não poderia deixar de ser) de Tommy Williams, baixista que havia tocado no Benny Golson/Art Farmer Jazztet.

Em 1964, Stan e João novamente se encontraram, e ao vivo - mas por um tempo breve. Apesar de a versão em cd possuir quinze faixas, em apenas cinco delas os dois dialogam, embora seja um diálogo muito sutil, pois Stan Getz atua praticamente como sideman. Não vou comentar detalhadamente as desafinações de Astrud Gilberto em It Might as Well be Spring e Only Trust your Heart porque as estrelas desse post são outras. Sim, mas elas aparecem menos, enquanto Astrud tenta desesperadamente brilhar.
Em Garota de Ipanema - com vocal também de Gilberto - as coisas chegam a ganhar outro rumo quando Getz sola tendo como fundo a bateria de Joe Hunt, o Milton Banana deles. Para completar, Gary Burton é sempre um competente vibrafonista. No baixo, o ex-baterista Gene Cherico, que tocou com Sinatra e Benny Goodman. O produtor continua sendo o Creed Taylor.

Sai Astrud; entra Miúcha, mulher de João, à época. The Best of Two Worlds é um belo - e polêmico - disco produzido pelo próprio Getz, em 1975. Polêmico porque houve desentendimento entre as duas estrelas, e a ruptura parecia definitiva. Mais ainda: apesar de Miúcha estar na capa, seu nome não entra nos créditos do disco, além de não ter levado para casa um mísero vintém. Quer mais? Diz-se que Stan mixou o disco à revelia de João, e teria, então, aumentado o som do sax, privilegiando a si mesmo.
Apesar de tudo, é um discaço. Double Rainbow, Águas de Março, Falsa Baiana, É Preciso Perdoar e Just One of Those Things são faixas para ouvir todos os dias, e durante muitos anos. Em Águas de Março, clássico de Jobim, Miúcha vira a estrela - cantando em inglês com uma voz pequena, mas muitíssimo afinada. Ok, ela não era uma Sarah Vaughan, mas e daí? Não é um disco de jazz - e sim um registro do que melhor se compôs na nova bossa e na mpb. No piano, Albert Dailey; na bateria, Billy Hart e Grady Tate. No baixo, Clint Houston e Steve Swallow; na percussão, Ray Armando, Rubens Bassini, Sonny Carr e Airto Moreira. Os arranjos ficaram por conta do violonista Oscar Castro-Neves.








on Aug 31st, 2007 at 10:05 pm
O Getz/Gilberto curiozamente foi o unico disco com participação de um brasileiro a entrar na lista de 500 melhores discos de todos os temposda revista Rolling Stone.
Um lembrete interessante é que a lista só incluiu discos produzidos em paises de lingua inglesa. É só notar a ausencia de outros gênios não saxões como Serge Gainsbourg.
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on Aug 31st, 2007 at 10:28 pm
Sempre maravilhoso visitar este blog. Em cada post um aprendizado novo e sempre muito válido!
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on Sep 1st, 2007 at 12:34 am
Olá Grijó, li alguns de seus posts e achei muito interessante.
Em breve farei mais comentários e sugestões.
Vou esperar sua visita lá em Petrópolis, aqui o link do blog do centro de cultura que temos lá:
http://www.casadaipiranga.blogspot.com/
e o site da prefeitura que fala sobre a história da nossa casa onde ele fica:
http://fctp.petropolis.rj.gov.br/fctp/modules/xt_conteudo/index.php?id=38
Estou mandando isso porque comentei contigo outro dia e como você se mostrou interessado no assunto…
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on Sep 1st, 2007 at 12:56 am
Grijóóó!
Q bom q resolvi entrar aqui hoje!
Já tinha te deixado um scrap falando q adorei a aula de hoje e qndo entro aqui, uhuuu \o/ mais “aula”!!
ah, e como sempre mto bem escrito, né…
bjo
PS: to olhaaaaando!
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on Sep 1st, 2007 at 7:29 am
Não existe risco quando comentamos sobre esse álbum, um dos clássicos do brazilian jazz e um dos poucos trabalhos de MPB que aprecio. Pena que de lá para cá a música brasileira tenha se voltado apenas para os tambores…
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on Sep 1st, 2007 at 12:35 pm
Eu tenho esse disco de 63, em vinil, muito foda. Podia ter rolado o piano do Tom pra completar.
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on Sep 1st, 2007 at 6:41 pm
Prezado Quincas, até onde sei é o Tom quem toca violão e piano no Getz/Gilberto. Só de ouvir a gente reconhece. Nos outros álbuns eu não sei, não os conheço.
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on Sep 1st, 2007 at 8:23 pm
O arranjador, castro-neves, é uma figura que conquistou um belo espaço entre os músicos contemporâneos. Vale dar uma conferida no seu último cd. Tem duas faixas para serem ouvidas no mpbjazz.blogspot.com
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on Sep 1st, 2007 at 8:23 pm
O arranjador, castro-neves, é uma figura que conquistou um belo espaço entre os músicos contemporâneos. Vale dar uma conferida no seu último cd. Tem duas faixas para serem ouvidas no mpbjazz.blogspot.com
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