Antes que me perguntem, devo dizer que esse blog nada tem de espiritismo, apesar de eu ter visitado, nos últimos dois meses, Donald Barthelme, Murilo Rubião e Campos de Carvalho - três escritores mortos que, de certa forma (metonímica) continuam entre nós. Visitei também Kurt Vonnegut, Nelson Rodrigues e Cabrera Infante mas foram encontros rápidos sobre livros específicos.
Após essas visitas, tomei a decisão de manter essas voluntárias e metafóricas idas e vindas ao Além muito por conta de Jorge Luis Borges, o escritor argentino que dizia, talvez sabiamente, que só se deve ler livros escritos há mais de cem anos. Vou visitá-lo mais vezes - essa é apenas a primeira.

Borges é daqueles fenômenos que, justamente por serem fenômenos, não são comuns. Poeta maiúsculo, ensaísta de primeira, crítico de visão estimulante e extraordinário contista, autor de incontáveis livros que se tornaram clássicos e que contradizem sua máxima: foram escritos há menos de cem anos, e devem ser lidos quando necessário for - no caso, sempre. Borges é tão elegante quanto prolífico.
Escreveu sobre literaturas germânicas medievais e sobre cinema (quando ainda podia assistir a filmes, claro); pontuou esclarecedoramente sobre Dante Alighieri e sobre Budismo; dissertou sobre a Cabala e sobre literatura policial; mostrou-nos como os pesadelos estimulam a literatura e como a inevitabilidade do tempo esconde-se sob suas sedutoras máscaras.
Falou de tigres, de labirintos, de espelhos, de história e dos ingleses. Borges escreveu sobre tudo - e aí incluo você e eu, porque o humano é seu mais bem acabado assunto. E é rigoroso, disciplinado, vasto. Sua literatura resume a perfeição, seja na prosa ou na poesia. E nos ensaios, naturalmente.

Há quem afirme que ele não é portenho, mas universal, já que a amplitude de sua obra extrapola fronteiras continentais. Eu concordo. Se em Fervor de Buenos Aires, seu livro de estréia poética, a cidade é traduzida por um par de olhos que percorre ruas, praças, bairros e estabelecimentos, seu primeiro livro de contos, História Universal da Infâmia, publicado doze anos depois, já o apresenta como autor sem uma pátria definida - ou de todas as pátrias.
É também possível perceber isso ao ler Ficções. Se você busca marcas buenairenses no livro além da presença do também espetacular escritor Adolfo Bioy Casares - grande amigo de Borges -, esqueça. É assim que leio e releio Jorge Luis: acima de uma língua que o limite e apesar de uma nacionalidade que o enquadre.
Bibliografia básica em português (por meu gosto): Ficções, 1944; História da Eternidade, 1936; O Aleph, 1949; Elogio da Sombra, 1969; O Livro de Areia, 1975; O Livro dos Seres Imaginários, 1967; História Universal da Infâmia, 1935.








on Sep 3rd, 2007 at 9:18 pm
Borges se reflete como a ampla visão de um argentino cego. Viu e escreveu coisas que muita gente com dois olhos e uam boa retina nem reparou. É Aleph e a última Sephira.
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on Sep 3rd, 2007 at 9:31 pm
J.L.Borges tem razão quanto a ler livros com mais de cem anos. Comecei pelo Código de Hamurábi e me sinto tão erudita,apesar da minha fresca idade, he he…
Salve, mestre!Como tem passado?
bjos.
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on Sep 3rd, 2007 at 9:39 pm
Bem, ML…em companhia do cegão.
E vc?
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on Sep 4th, 2007 at 1:02 am
Saudades enormes das aulas de literatura!agora perdida entre a bioquimica e a neurobiologia preciso de coisas que me façam usar mais meu cerebro! e encontrei seu blog. ótimo, já até sei como vou fazer minha irmã mais nova ler
Machado.
minha agenda cultural está salva “em meus favoritos” ;)
sucesso sempre mestre!
Gaby
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on Sep 4th, 2007 at 1:49 am
Vc é gentil demais, Gaby.
Valeu.
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on Sep 4th, 2007 at 2:04 am
Muito bom seus comentários e críticas.
Grijó, se você puder dar uma olhadinha no blog do meu amigo.. sugestões são sempre bem-vindas!
http://www.zehninguem.blogspot.com/
Grande abraço, professor.
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on Sep 5th, 2007 at 1:38 am
“História universal da infâmia”, de Borges, é um dos dez livros que levaria para o Céu se para o Céu merecesse ir. A propósito: a lista dos dez mais incluiria um segundo esquife, o que poderia criar embaraços à minha aceitação no Paraíso.
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on Sep 5th, 2007 at 4:43 pm
Tenho muita vontade de ler, já me disseram maravilhas a respeito de O Aleph, assim que a biblioteca da Ufes voltar a funcionar vou pagar essa enorme dívida.
Off: O Fernando Meirelles tá relatando num blog as filmagens da adaptação para o cinema que ele vem fazendo do romance do Saramago, o Ensaio Sobre a Cegueira. O blog é muito interessante, vale a pena vc dar uma olhada:
http://blogdeblindness.blogspot.com
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on Sep 5th, 2007 at 5:51 pm
É um autor com lugar garantido entre os clássicos da minha pequena biblioteca. Espero que meus filhos aproveitem, pois é o que eu posso lhes deixar de herança.
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on Sep 5th, 2007 at 6:49 pm
Tomei a liberdade de deixar o link do seu blog lá no mpbjazz.
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on Sep 5th, 2007 at 6:57 pm
É isso, meu caro saxman.
É o que podemos estender a eles.
Além da mão, naturalmente.
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