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Uma visita a J. Luis Borges (1899-1996)

Antes que me perguntem, devo dizer que esse blog nada tem de espiritismo, apesar de eu ter visitado, nos últimos dois meses, Donald Barthelme, Murilo Rubião e Campos de Carvalho - três escritores mortos que, de certa forma (metonímica) continuam entre nós. Visitei também Kurt Vonnegut, Nelson Rodrigues e Cabrera Infante mas foram encontros rápidos sobre livros específicos.

Após essas visitas, tomei a decisão de manter essas voluntárias e metafóricas idas e vindas ao Além muito por conta de Jorge Luis Borges, o escritor argentino que dizia, talvez sabiamente, que só se deve ler livros escritos há mais de cem anos. Vou visitá-lo mais vezes - essa é apenas a primeira.

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Borges é daqueles fenômenos que, justamente por serem fenômenos, não são comuns. Poeta maiúsculo, ensaísta de primeira, crítico de visão estimulante e extraordinário contista, autor de incontáveis livros que se tornaram clássicos e que contradizem sua máxima: foram escritos há menos de cem anos, e devem ser lidos quando necessário for - no caso, sempre. Borges é tão elegante quanto prolífico.

Escreveu sobre literaturas germânicas medievais e sobre cinema (quando ainda podia assistir a filmes, claro); pontuou esclarecedoramente sobre Dante Alighieri e sobre Budismo; dissertou sobre a Cabala e sobre literatura policial; mostrou-nos como os pesadelos estimulam a literatura e como a inevitabilidade do tempo esconde-se sob suas sedutoras máscaras.

Falou de tigres, de labirintos, de espelhos, de história e dos ingleses. Borges escreveu sobre tudo - e aí incluo você e eu, porque o humano é seu mais bem acabado assunto. E é rigoroso, disciplinado, vasto. Sua literatura resume a perfeição, seja na prosa ou na poesia. E nos ensaios, naturalmente.

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Há quem afirme que ele não é portenho, mas universal, já que a amplitude de sua obra extrapola fronteiras continentais. Eu concordo. Se em Fervor de Buenos Aires, seu livro de estréia poética, a cidade é traduzida por um par de olhos que percorre ruas, praças, bairros e estabelecimentos, seu primeiro livro de contos, História Universal da Infâmia, publicado doze anos depois, já o apresenta como autor sem uma pátria definida - ou de todas as pátrias.

É também possível perceber isso ao ler Ficções. Se você busca marcas buenairenses no livro além da presença do também espetacular escritor Adolfo Bioy Casares - grande amigo de Borges -, esqueça. É assim que leio e releio Jorge Luis: acima de uma língua que o limite e apesar de uma nacionalidade que o enquadre.

Bibliografia básica em português (por meu gosto): Ficções, 1944; História da Eternidade, 1936; O Aleph, 1949; Elogio da Sombra, 1969; O Livro de Areia, 1975; O Livro dos Seres Imaginários, 1967; História Universal da Infâmia, 1935.

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11 Comments on “Uma visita a J. Luis Borges (1899-1996)”

  1. #1 Daniel Vilela
    on Sep 3rd, 2007 at 9:18 pm

    Borges se reflete como a ampla visão de um argentino cego. Viu e escreveu coisas que muita gente com dois olhos e uam boa retina nem reparou. É Aleph e a última Sephira.

    [Reply]

  2. #2 ML
    on Sep 3rd, 2007 at 9:31 pm

    J.L.Borges tem razão quanto a ler livros com mais de cem anos. Comecei pelo Código de Hamurábi e me sinto tão erudita,apesar da minha fresca idade, he he…

    Salve, mestre!Como tem passado?

    bjos.

    [Reply]

  3. #3 F. Grijó
    on Sep 3rd, 2007 at 9:39 pm

    Bem, ML…em companhia do cegão.
    E vc?

    [Reply]

  4. #4 gabyvescovi
    on Sep 4th, 2007 at 1:02 am

    Saudades enormes das aulas de literatura!agora perdida entre a bioquimica e a neurobiologia preciso de coisas que me façam usar mais meu cerebro! e encontrei seu blog. ótimo, já até sei como vou fazer minha irmã mais nova ler
    Machado.
    minha agenda cultural está salva “em meus favoritos” ;)
    sucesso sempre mestre!
    Gaby

    [Reply]

  5. #5 F. Grijó
    on Sep 4th, 2007 at 1:49 am

    Vc é gentil demais, Gaby.
    Valeu.

    [Reply]

  6. #6 rabiscos, nada mais
    on Sep 4th, 2007 at 2:04 am

    Muito bom seus comentários e críticas.
    Grijó, se você puder dar uma olhadinha no blog do meu amigo.. sugestões são sempre bem-vindas!

    http://www.zehninguem.blogspot.com/

    Grande abraço, professor.

    [Reply]

  7. #7 Jimmy Green
    on Sep 5th, 2007 at 1:38 am

    “História universal da infâmia”, de Borges, é um dos dez livros que levaria para o Céu se para o Céu merecesse ir. A propósito: a lista dos dez mais incluiria um segundo esquife, o que poderia criar embaraços à minha aceitação no Paraíso.

    [Reply]

  8. #8 samuel
    on Sep 5th, 2007 at 4:43 pm

    Tenho muita vontade de ler, já me disseram maravilhas a respeito de O Aleph, assim que a biblioteca da Ufes voltar a funcionar vou pagar essa enorme dívida.

    Off: O Fernando Meirelles tá relatando num blog as filmagens da adaptação para o cinema que ele vem fazendo do romance do Saramago, o Ensaio Sobre a Cegueira. O blog é muito interessante, vale a pena vc dar uma olhada:

    http://blogdeblindness.blogspot.com

    [Reply]

  9. #9 Salsa
    on Sep 5th, 2007 at 5:51 pm

    É um autor com lugar garantido entre os clássicos da minha pequena biblioteca. Espero que meus filhos aproveitem, pois é o que eu posso lhes deixar de herança.

    [Reply]

  10. #10 M.C.C
    on Sep 5th, 2007 at 6:49 pm

    Tomei a liberdade de deixar o link do seu blog lá no mpbjazz.

    [Reply]

  11. #11 F. Grijó
    on Sep 5th, 2007 at 6:57 pm

    É isso, meu caro saxman.
    É o que podemos estender a eles.
    Além da mão, naturalmente.

    [Reply]

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