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Uma visita a Boris Vian (1920-1959)

A lista de escritores franceses que valem a pena ser lidos é grande: Stendhal, Maupassant, Proust, Flaubert e Balzac formam o primeiro time de prosadores, seguido de um escrete de poetas como Baudelaire, Verlaine, Rimbaud, Laforgue e Mallarmé. Sim, listei dez e limitei-me a um século, o dezenove, o mais prolífico, aquele que definiu as bases da modernidade e que nos fez compreender a realidade que ora se apresenta.

Sem os franceses contando histórias e elaborando versos, o século XX seria árido e sem charme – e a Europa seria insossa como o outono inglês. Citei esses dez senhores para chegar a um outro, que tanto representou a modernidade quanto ousou dela debochar: Boris Vian, o engenheiro anarquista, o músico de sopro saboroso, o prosador inquieto e o cantor nas horas vagas que morreu antes de completar 40 anos a caminho do hospital, logo após ter tido um colapso sentado numa poltrona de cinema, da qual assistia – insatisfeitíssimo, a ponto de exigir que seu nome saísse dos créditos – a uma película baseada em seu livro Irei Cuspir nos Seus Túmulos.

Comecei com Vian nos anos 80, numa tradução de A Espuma dos Dias, da Nova Fronteira. Depois não parei mais: a edição portuguesa de As Formigas, pela Assírio & Alvin, uma versão para o inglês – sob pseudônimo de Vernon Sullivan – de Irei Cuspir em Seus Túmulos, pela Tam Tam Books, e A Erva Vermelha – cuja editora esqueci, mas era também lusitana. Durante alguns anos – em vão – busquei suas Chroniques de Jazz (seus escritos sobre música para a Paris Jazz e Le Jazz Hot) e mais alguns de seus livros, alguns deles de poemas, mas, aparentemente, as editoras brasileiras não lhe dão muito crédito. Eu dou.

Vian escreveu cinco peças teatrais carregadas de um desbragado desprezo pelos homens que detinham o poder, principalmente os militares. Ironizava-os descaradamente, o que fazia sua artéria anarco-pacifista pulsar de contentamento. Isso lhe trouxe alguns problemas, mas nada muito sério. Foi também tradutor: por sua conta, Raymond Chandler, o autor policial norte-americano, tornou-se popular na França como se tivesse passado a infância estudando no Sacre-Coeur.

Boris Vian amava a música – principalmente o jazz, que exercitou com muita competência na orquestra do clarinetista Claude Abadie, a banda preferida dos existencialistas e dos “zazous”, os aficcionados do jazz dos anos 40. Amou a música muito mais do que amou a literatura. Não se contradizia na escrita: era capaz de improvisar com as palavras tanto quanto era engenhoso na boquilha da “trompinette”, nome carinhoso que ele impôs a seu pocket trumpet. O fraseado podia ser longo e adjetivado, mas sem perder a densidade, o vigor. Dizia, sabiamente: “Só existem duas coisas: o amor com garotas bonitas e a música de New Orleans ou de Duke Ellington. Tudo o mais é feio.”

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No fim de junho, ano corrente, O Outono em Pequim – uma história surrealista passada no deserto da Exopotâmia (sim, esse é o nome do lugar), onde o personagem central se vê envolvido na construção de uma estrada-de-ferro que cortará o deserto.

O desenrolar da trama proporciona o aparecimento de personagens absolutamente fora do comum e a linguagem tem lugar à parte – os trocadilhos, as frases laminares, o deboche entranhado nos parágrafos bem talhados. A propósito: não há outono no texto – nem Pequim.

Se tivesse de listar os dez escritores franceses da modernidade, Boris Vian encabeçaria a lista. Talvez a seu lado (ou um pouquinho abaixo), Marguerite Duras, Jean Genet, Jean Paul Sartre – a quem Vian satirizou, criando um personagem chamado Jean Soul Partre – e André Maurois. Todos eles necessários – mas Vian é mais.

6 Comentários on “Uma visita a Boris Vian (1920-1959)”

  1. #1 Anonymous
    on Sep 16th, 2007 at 3:51 am

    O Boris Vian foi uma das melhores supresas que tive na literatura francesa, que acho muito chata.
    Surrealista anárquico mesmo.

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  2. #2 Rogério Coimbra
    on Sep 16th, 2007 at 4:49 am

    Professor, e Paul Elluard? Como conseguir algo de Boris Vian por aqui (traduzido)?

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  3. #3 F. Grijó
    on Sep 16th, 2007 at 5:45 am

    Rogério, a Nova Fronteira traduziu A Espuma dos Dias, nos anos 80.
    Fora de catálogo, mas em sebos certamente.
    As Formigas, pela Assírio & Alvin, português lusitano.
    A Erva Vermelha também.

    Quanto ao Éluard, há uma edição da Brasiliense com os poemas dele, numa tradução do José Paulo Paes.

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  4. #4 Salsa
    on Sep 17th, 2007 at 2:05 am

    Gril,
    creio que a brasiliense também lançou alguma coisa dele. Depois eu verificarei na caixa de depostos.

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  5. #5 F. Grijó
    on Sep 17th, 2007 at 3:34 am

    Não me recordo, Luiz.
    O que tenho do Vian é em português, pela Assírio & Alvin, e pela Nova Fronteira.
    Mas é possível que a Brasiliense tenha lançado, sim. Lembro-me de que nos anos 80 ela trouxe à baila a marginália toda.

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  6. #6 Anonymous
    on Jan 16th, 2008 at 1:34 am

    Olá, os livros de Boris Vian tão quase todos editados em Portugal, mesmo a os livros Noir que escreveu sobre o pesseudónimo de Vernon Sullivan. Estas edições estão distribuidas e repetidas por várias editoras.
    Alem da Assírio e Alvim, a Relógio d’Água tem editadas a maior parte das suas obras, entre elas, A Espuma dos Dias, A Erva Vermelha, O Arranca Corações, etc assim como os livros de poesia como Cantilenas em Geleia.

    Sem querer criar polémica, aí está uma boa razão para aprenderem a compreender português de Portugal. Eu, por exemplo, adoro muitos autores brasileiros e detestaria que estes fossem corrigidos para português europeu.

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