Olhei o pau flácido dele, como se pedisse ajuda, melancólico, um boneco de veias sem força após quase derreter diante da fornalha que é meu corpo. Hoje queimo um pouco menos, preciso dizer. Post coitum triste. Nome dele? João, nome tão trivial quanto foram as suas conversas: política, economia, música popular, humor oscilante. Idade? 35 com ares de 35 mesmo, aqueles olhares adestrados a seus pares, meninas de 21 que, diferentemente de mim, podem evitar as caminhadas forçadas no calçadão, podem gozar o cigarro e a bebida e também a gordura das carnes, não precisam controlar o estresse nem praticar o esporte, como é o caso de Suzana, a minha Suzana, cujo pedido foi de pronto atendido – nada posso negar-lhe.
As roupas dele não são caras, mas eu diria até que há um certo rigor no modo de vestir, essa coisa de advogado que deve ter impressionado Suzana e que a fez abrir-se e abrir-se ainda mais para ele. Não entro nessa, mas isso ele não percebe, e vem para meus lados porque meus lados são mesmo um paraíso de se ver. Quanto a meu corpo, não há muito de que eu possa reclamar. Nem quanto ao dele. João é um homem atencioso, embora a atenção masculina, de um modo geral, seja proporcional à disposição feminina de manter-se despida, e devo dizer que minha nudez chega a embasbacar. Deixei que ele me conhecesse de frente para trás, já que é a última e única vez em que estaremos juntos, pois esse é um pedido de Suzana, e eu aqui estou, após tudo o que fizemos, em vias de concluir minha tarefa. Deixei que me visse de todos os ângulos possíveis, todos eles, permiti a fricção, a cócega, o carinho artificial, o beijo, a saliva e a sucção. Dei-lhe a chance – única e última, repito – de esparramar seus líquidos em meu rosto e de me fazer sugar seu pau até que ele pudesse repetir seus desempenhos, meia hora depois. Quanto tempo ficamos nisso? Seis ou sete horas, talvez um pouco menos, desconsiderando o jantar, o tinto seco e o petit-gateau, que não dispenso sob hipótese alguma.
Suzana, a primeira carta:
Amiga Cintilante,
Eu sei que eu deveria seguir seus valiosos conselhos, mas quero dizer que não tenho muito pra dizer, é só isso. E tem mais: paixão é bom quando vem de lá pra cá e vai daqui pra lá, não é mesmo? Ele dormiu aqui contra a minha vontade, mas minha vontade recuou e foi crescendo e eu acabei querendo que ele dormisse outras noites, todas as noites, sempre. É advogado, você sabe. E sabe latim e toda aquela parafernália jurídica, tem nas mãos um caso que é ouro, como ele mesmo diz, ouro, ouro, ele repete. Gosto de olhar pra ele enquanto fala, a voz é grossa, deixe só você conhecer pra ver, é uma coisa. Não quero nem saber o que dizem porque você sabe como é, ele é casado, tem filho pequeno e tudo, já vi foto do menino que nem se parece muito com ele, e não quero saber como é a esposa – na verdade quero, mas nada digo. Talvez seja loura e alta, de cabelo bem tratado, unhas idem, deve malhar e usar colantes provocantes, desses comprados em lojas caras freqüentadas por madames, deve ter coxas grossas. Nem sei se ela é madame, deve ter uns 28, 30 no máximo. Mas não deve ser grande coisa na cama, porque é lá que eu quero ver quem ganha e quem perde, quero ver se ela sabe dar um nó no corpo dele, quero saber se ela é capaz de fazer ele chorar e rir e tremer. Não, não quero saber. Eu com meus 21 sou capaz de tudo, de muito e de muito mais, sem limites, foi isso que eu disse a ele, sem limites, quando ele me viu nua e ficou com a boca respingando tesão, o cacete endurecendo só de olhar direto para minha barriga sarada, meu piercing no lugar escolhido, e descendo até as marcas que o sol e o biquíni pequenino deixam em meu quadril. Isso foi ontem, quando ele dormiu aqui, a primeira vez. Nem sei se vai ter outras, acho que sim, mas é difícil dizer quando. O nome dele é João e o sobrenome é italiano, Carbuzzi com dois zês, ele fez questão de frisar, a voz grossa novamente. E enquanto falava me beijava e colocava a mão em tudo o que eu tinha de carne e músculo e pêlo e dobras. Lambuzou-se todo, como uma criança diante de um pudim saboroso, comeu depressa e depois devagar, e depois depressa de novo, foi comendo e passando a mão pelas bordas para tirar o que eu tinha de sobra. Abriu minhas coxas e me cheirou. Nunca tinham feito isso comigo, você sabe. Me cheirou como cachorro e como cachorro me comeu, foi a última coisa que pensei antes de gozar e ver o mundo com outras cores e gritar e ouvir ele pedir que eu gritasse mais ainda. Posso dizer, Cíntia querida, que quero mais e que vou ficar perturbada se as coisas perderem o rumo, isso sim. Acho que pela primeira vez estou sentindo alguma coisa legal por um homem, depois de tantas péssimas escolhas. E tem mais, sabe o signo dele? Sagitário, um fogaréu. O que você acha disso tudo?
Amor amor
Exorbitante amor
Suze
Recapitulando.
Depois do pedido de Suzana, e de minha pronta aquiescência, afinal é para isso que servem as boas amigas, ainda mais uma tão especial quanto eu, liguei para Dr. João Carbuzzi e marquei hora, em fim de tarde, às cinco, disse-me a secretária, a tal gordinha de tornozelo tatuado, presumi. Ainda no meio da manhã fui ao shopping para comprar algo novo, mas nada extravagante nem clássico, talvez um tailleur, quem sabe um vestido sem mangas para acompanhar com blazer ou casaquinho por cima. Caso sobrasse tempo e dinheiro, uma bolsa de cor neutra seria bem-vinda. Voltei para casa, almocei, dormi um pouco, sempre com o pensamento em João, a quem eu não conhecia, a não ser por voz e choro de Suzana.
João Carbuzzi não era, até então, um homem intrigante. Ao contrário: era corriqueiro e repetitivo – conheci muitos assim, desde a adolescência, quando são verdadeiramente enigmáticos, quando, de fato, interessam. Isso tornou minha tarefa ainda mais fácil, mas não menos estimulante, de modo que, para convencê-lo a jantar comigo, naquela mesma noite em que o conheci e o procurei, bastaram dois ou três sorrisos, em fila, apetecíveis e ao mesmo tempo imperiosos, combinados a trejeitos de quadris – os meus quadris, claro – que desviam ou danificam o pensamento masculino, principalmente aqueles que se destinam à área jurídica, frágeis e sem significado definido. João Carbuzzi acatou minha sugestão, um restaurante próximo, tranqüilo e, àquela hora, desabitado. Sobre o que conversamos? Prioritariamente sobre mim, Cíntia Santiago, esposa traída e à espera de uma oportunidade para vingar-me de um marido que, imprudente e desprezível, gastava tempo e dinheiro com uma sirigaita, na verdade sua amante, dez anos mais nova. O que um competente advogado pode fazer por uma esposa traída e emocionalmente desamparada?, perguntava meu olhar triste. Que outras atitudes pode um atencioso causídico ter, além de oferecer um lenço aromático e limpo aos olhos úmidos de uma esposa rejeitada? Conheço poucas mulheres capazes de igualar minha habilidade nessa tarefa, minha eficiência nesse papel.
Pois ele gosta de latim, então lá vai: Fornicatio unio est carnalis extra matrimonium inter virum et mulierem liberos. Eis a verdade, eu deveria ter dito, mas não disse, enquanto, aos poucos, em doses – como ensinei a Suzana, mas ela, infelizmente, não aprendeu –, ele foi se deixando levar pela mulher à sua frente, o desejo mais forte que a desconfiança. Trocamos idéias, rápidas devo dizer, sobre a falência do matrimônio, sobre o inevitável desgaste das relações pretensamente duradouras, sobre adultério – ad alterum torum, literalmente na cama de outro, eu disse, sorrindo e baixando os olhos, como se envergonhada. Falamos, enquanto jantávamos, de música, de política, um tanto da confusão econômica do país, mas ele, de fato, nada ouvia, a não ser o que lhe diziam a cabeça, o tronco e os membros, num todo, ávidos por me verem sem roupa. Retomei minha postura de esposa traída e envergonhada por estar ali, diante de um desconhecido que me representaria judicialmente a partir daquele instante, abrindo as portas do meu coração, relatando intimidades, confessando solidão e desamparo. Ele não resistiu, e quem poderia, quando quero exatamente o contrário?
Suzana, a segunda carta:
Cíntia Amiga Cintilante,
Não segui seus conselhos e dei com os burros n’água, é isso que tenho pra dizer. Pois vou te contar pra que você não fique por fora de tudo, e para que você possa até me ajudar, me dando mais conselhos para que eu ignore tudo porque sou, na verdade, uma boba, uma idiota completa, dos cabelos aos calcanhares, como você dizia. Você mesma afirmava que eu só tinha tamanho, lembra? Pois é. Vou te contar e se você quiser me ligar à noite para comentar o assunto, e até chamar minha atenção, fique à vontade, eu tenho de aprender a ouvir certas coisas.
Ele ficou três dias sem ligar, ele havia prometido que ligaria, mas não ligou, e aí eu fui atrás porque, quando quero, eu persigo, você sabe, não deixo por menos. Eu também liguei um tanto, celular e fixo, deixei recado, pedi retorno, e nada, nadinha, ele não retornou, nem torpedo, nem ligação. Decidi, então. Nem sei se fiz mal em ir até o escritório dele, fui lá e me prostrei na ante-sala, sentada e confortável, a secretária me perguntou se podia ajudar, olhou-me de cima até meus dedões. A secretária é uma mulher pequena e bonita, bem-vestida, embora esteja acima do peso. O rosto não tem espinhas nem rugas aparentes, deve ter uns 25. Vi que ela tem uma tatuagem no tornozelo, uma flor pequena, uma rosa aberta e vermelha. Eu, de minha parte, estava usando aquele vestido cigana, bege, com elástico no decote, você sabe qual é, de mangas ¾ e bordados nas costas, aquele vestido me deixa com ar de adolescente que incomoda as mulheres mais velhas e inquieta os homens de qualquer idade, principalmente quando me sento e cruzo as coxas, não é mesmo? Eu estava de cabelos soltos, sabe? Fiquei esperando uns quarenta minutos, depois que ela me anunciou. Dois homens chegaram, usavam terno, sentaram numa poltrona distante, que dava a eles uma boa visão do que eu sou e sei que eles imaginaram porcarias e imundícies envolvendo minha pessoa sem roupa. Esperei quarenta minutos, intermináveis minutos, mas ele enfim me recebeu, estava sério, talvez não tivesse gostado de me ver, e propôs que não conversássemos ali, não era prudente. Eu saí primeiro, me despedi da secretária tatuada, peguei o elevador, desci, cruzei o hall sem perceber muito os olhares masculinos que, claro, se dirigiam a mim, e fui até aquele café, você sabe qual é, aquele que mistura café com frutas e com mel, e que fica aquele cheiro bom. Pois foi lá que marcamos de nos encontrar. Ele demorou um pouco, mas apareceu, conversamos, ele estava apreensivo, eu compreendo. O local era público e ele podia ser reconhecido, tomou um café puro, olhava para os lados, vigiava-se, mas foi aos poucos relaxando, me olhou com aquele olhar terno que ele sabia emitir, chegou até a pegar na minha mão, disse que eu era importante, que gostava de mim. Eu, a idiota completa, dos cabelos aos calcanhares, acreditei. Sabe onde acabamos? Dentro do carro dele e ficamos nos beijando com a língua e com o resto do corpo, alisei e apertei o cacete dele sob a calça e ele passou os dedos sobre minha calcinha só pra me encharcar e me deixar com vontade. Depois, em seguida, fomos prum motel. Mas foi bom, melhor dos que das outras vezes, isso eu garanto. Fiz de tudo, querida Cíntia, de tudo, e mais, muito mais. Duvido que ele faça amor com a mulher dele daquele jeito, tive vontade de dizer isso a ele, mas qual a possível reação de um homem quando se fala de sua família, quando se invade esse tipo de intimidade? Ele me enfiou o cacete duro, com força e com ritmo, eu digo a você que nunca vi coisa igual, nunca vi tamanha disposição para fazer amor, parecia que estava com raiva, mas não estava. Era tesão mesmo, que brotou instantâneo quando entramos no motel e, assim que ele me beijou, eu comecei a tirar o vestido e ele me viu só de calcinha e sutiã, e depois fui tirando o resto devagar, até ficar por completo nua e limpa, e cheirosa como um sachê. E repito, querida amiga, nunca presenciei nada parecido, mas preciso dizer uma coisa, faltava alegria, e foi isso eu me deixou triste. Faltava ele sorrir. Não sorriu nem antes nem depois, não sorriu durante o banho que tomamos juntos nem quando me deixou em casa, já no começo da noite. Entrou em mim reto e direto, me virou pelo avesso, me chupou, me mordeu, me deixou em carne viva, mas nem um sorriso. Está certo isso? Não está, não é mesmo? Pois eu vou te dizer o que eu deveria ter feito, e não fiz porque sou uma tonta. Eu deveria ter feito com ele o que faço com os outros homens. A coisa certa a fazer é ir devagar, aos poucos, em doses, como você mesma diz, e não assim, de vez, pronta. Acho que ele estava, na verdade, se despedindo de mim. Isso não está certo, não está.
Amor amor
Sempre amor
Suze
Local? Motel Loveland.
Ele nem imaginava o que iria acontecer, mas previa – praxe masculina – que a tarde seria intensa e sem fim, seria bom ver-me sem roupa e sem vergonha. Imaginava, claro, que, se havia em mim qualquer vestígio de pudor, não o partilharia com ele: essa seria a minha vingança, a represália contra um marido que deslizou ao não desvelar-se. Seria esse o combustível em meu motor a explosão. Em parte, se ele pensasse assim, teria razão. João Carbuzzi era um homem atraente (conheci muitos), como Suzana dissera, talvez com alguns exageros no quesito facial, mas, no todo, em seu total conjunto, ao menos nu, havia harmonia e disposição, mas nada espetacular: tórax delineado à custa de possíveis halteres, braços fortes, pernas musculosas, bons quatríceps. Deitada e despida, sorri – ele fez o mesmo, exatamente o que faltou a Suzana, um sorriso que a confortasse e lhe permitisse compreender o que existia de fato entre ela e o homem por quem se apaixonou, o advogado que, veloz, quis adiantar o que se pretendia, ali, a meu lado. Afoito, foi obrigado a conter-se, por que apressar-se?, perguntei. Senti-lhe o cheiro abraçando-o, toquei de leve seu lábio inferior com a língua, devagar – porque assim deve ser feito –, lubrificando-o convidativa. Vai ser fácil abater, pensei.
Ars amatoria, tive vontade de dizer por dizer, vulgar como o latim.
Deixei que ele me fodesse lentamente, como se tornasse o ato libidinoso algo verdadeiramente peculiar, mal sabendo o que aconteceria post coitum. Um pedido de Suzana é quase uma súplica, como negar? Cheguei a pedir que João me fodesse com paciência e constância, que olhasse fundo em meu olhar e visse nele a mágoa conjugal, geralmente o único verdadeiro motivo para uma mulher como eu deixar-se invadir e levar. Repito, soberba: poucas mulheres igualam minha habilidade nessa empreitada. Prostrou-me de quatro, aberta como uma flor viva, e, pasmo, enquanto usava expressões que sua doce mulher nunca ouviria, devorou-me apaixonado, ou pelo menos assim parecia. Depois, deitou-me e sentiu meu gosto ácido, meu muco e ninfas, toda a minha natureza a seu dispor, o que mais ele poderia querer, além de mim, naquele instante? Sentada sobre ele, também sentado, experimentei o gozo e a fúria, e muitas e tantas vezes que quase reconsiderei minha decisão, cheguei a considerar desculpar-me com Suzana e esquecer em definitivo o motivo pelo qual ali estava eu, sendo comida e revirada, sofrendo a cada instante em que o pau de João se mantinha fora de mim, sentindo sua ausência quando ele se dirigiu ao banho e por lá demorou, o que me fez ir até ele e vislumbrá-lo sob a ducha quente, que lhe abria os poros e me abriu, de novo, o apetite. Trepamos ali, sob o quentura líquida, eu mais uma vez sobre ele, sua boca comendo minha língua, e mais uma vez conheci o gozo como nunca antes. Após o banho, deitamos, exaustos, mas ansiosos para o próximo ato, se é que haveria um, pois, de minha parte, já que nunca deixei de atender um pedido de Suzana, havia algo a fazer, mesmo que eu quisesse, naquele momento, o contrário. Ele se levantou, calmo, sorriu, olhei mais uma vez seu pau flácido, melancólico, como se pedisse clemência. Eu, também nua, deslizei até a cabeceira sob a qual havia um painel de controles embutido, e aproveitei para ligar o rádio. Peguei minha bolsa, coloquei-a a meu lado, abri um maço de cigarros, fumei um deles, devagar. Fitei João, de pé, e refleti sobre o pedido de Suzana: ela não quer que eu o veja novamente. Que seja atendida.
Suzana, a terceira carta:
Cíntia Cintilante,
Eu preferi desistir, mesmo sabendo que podia continuar insistindo em tudo. Preferi desistir antes de sofrer como uma doida, e não quero fazer doidice, porque nem sei do que sou capaz. Vou te contar o que aconteceu e te peço ajuda, você já me ajudou uma vez e sei que não vai faltar comigo, vai me compreender. Não existe nada pior que amar, isso eu sei, todo mundo diz isso, principalmente quem já amou e se decepcionou, como eu.
A pior coisa pra uma mulher, você sabe, é saber que existem outras mulheres em seu caminho. Geralmente dou conta disso, seja na minha cabeça, arrumando as idéias, seja atropelando as meninas que querem competir, e que, na maioria dos casos, tiram o time de campo quando resolvo partir pro ataque. Isso nunca foi um problema pra mim, você me conhece. Mas com João a coisa é diferente porque ele é casado. Não. Na verdade, o problema não é ele ser casado, o grande problema é que ele realiza esse casamento diante de todos, anda de mãos dadas com a esposa, vai às compras com ela, passeia, se diverte, se reúne com a família dela, essas coisas da vida de casado que quase me fazem vomitar. Isso, querida amiga, é difícil de tolerar. Sabe o que eu vi? Vi os dois, ele e a mulher, correndo no calçadão, on footing, como você diz, e sabe o que mais? Ele me viu e me ignorou como se eu fosse uma qualquer, uma figura invisível, uma insignificante que não merece nem um olá nem um oi nem nada. Eu dei meia-volta imediatamente, sei que é loucura, e comecei a acompanhar os dois, fiquei a uns cinco metros deles, atrás, no ritmo, mantendo firme a respiração e sem forçar as pernas. Fiquei seis quilômetros nisso, indo e vindo, atrás dos dois, acompanhando, quase rente, dando pra ouvir o que diziam. Pois vou te dizer, Cíntia amiga, eles planejavam uma viagem a dois, somente eles, sem criança nem ninguém, nada que atrapalhasse a felicidade conjugal, era isso que diziam e queriam. E corriam e falavam e riam, como se o casamento fosse algo bom e positivo, veja só. Vou te dizer que a mulher dele é bonita, pernas torneadas, é gostosa e tem boas carnes, estava de cabelos presos, são castanhos e lisos, os peitos são pequenos mas duros, mas digo que ela não é tão especial assim pra ele não me incluir nos planos. É mãe do filho dele, ou deve ser, mas isso significa muito? Acho que não muito, é o que eu acho. De que adiantou esperar? De que adiantou eu fazer tudo o que fiz na cama e fora dela? De que adiantou mostrar a ele que tem umas coisas que a mulher dele não faz nem vai fazer, nunca? Aí veio o arrependimento, de repente. Me arrependi de ter tido esperança, você me entende? Uma coisa comum, isso. Voltei pra casa e desabei como uma adolescente, chorei rio e chorei mar, você nem imagina o quanto fiquei mal, deixei de comer naquela noite, fui dormir sem banho e sem forças, de tanto que chorei, e de tanto que pensei em João e na sua voz grossa, no cacete dele entrando na minha boceta, e ele me abrindo e fechando, nos beijos e nas tardes que passamos juntos, nas coisas que ele dizia, no latim que usava, nos planejamentos que fazia. Tudo se foi, Cíntia.
Sei que muito do que fiz foi besteira. Pressionar o homem que se quer e que se ama é arriscado, eu sei, você me ensinou, eu tinha de ser mais cautelosa, o grande erro meu foi não seguir seus conselhos, e o maior de todos eles foi me apaixonar. Sempre me metendo com o cara errado, não é mesmo? E esses caras errados sempre acabam me machucando. Por isso eu sei que você vai me ajudar. Reluto em te pedir mais uma vez, mas prometo que será a última. Se você quiser pode seguir o procedimento, você escolhe. Envio anexo o endereço do escritório dele, e também todos os telefones e aí você faz como achar melhor. Só não tenho uma fotografia dele, se tivesse te mandava, só para você ver que ele é bem feito de corpo e de rosto. Se você escolher encontrar com ele, e se resolver ir a fundo na questão, não se esqueça de que ele é ardiloso, é advogado, fala bem e bonito, sabe latim e tem uma voz grossa de barítono, que tonteia a gente. E se for possível, se sobrar tempo, não deixe de ver ele nu, fique à vontade para usar e abusar, eu recomendo, é um homem colossal. Saiba você que as áreas mais sensíveis dos sagitarianos são o fígado, as coxas, os quadris e o nervo ciático. Sendo mais direta, você poderia matar ele pra mim? Pode ser com tiro.
Amor de qualquer jeito
Suze








on Sep 29th, 2007 at 2:04 am
As femmes fatales estão de volta, definitivamente. Uma beleza de conto.
[Reply]
on Oct 4th, 2007 at 2:24 am
Muito bom. Deu até vontade de… escrever um também. Beijo.
[Reply]
on Oct 7th, 2007 at 9:06 am
Ótimo conto.
Seu estilo evoluiu desde o último livro, Mr. Grijó.
Sempre ousando, não?
[Reply]
on Oct 11th, 2007 at 11:51 pm
Nunca havia lido nada de autoria sua, Grijó. Não sabia mesmo o que estava perdendo! Adorei o conto, fiquei maravilhada com a profundidade da sua visão quanto aos pensamentos femininos.
Parabéns!
Beijos.
[Reply]
on Oct 13th, 2007 at 2:09 am
uma menina de 21 e um joão.
nada mais identificante…
;)
[Reply]
on Oct 14th, 2007 at 12:22 pm
Não é, Joan?
[Reply]
on Oct 21st, 2007 at 8:07 pm
Espetacular! quando o livro estará a venda!? quando estiver me comunique ok?!
vlw mestre grande abraço
[Reply]
on Nov 14th, 2007 at 3:23 am
Belíssimo conto…Remeteu-me à imagem da mulher fatal, perigosa, quente. Mas que no fundo deseja mais do que nunca um único homem que a faça feliz, ao contrário dos vários que ela pode ter aos seus pés.
Abraços
[Reply]
on Nov 14th, 2007 at 3:28 am
Muuuito bom!!! Adoro ler contos!! E principalmente os que nos levam quere ir até o fim!! Como é o caso!! FaLows!!
[Reply]
on Nov 14th, 2007 at 3:53 am
Nossa, muito bom, fiquei lendo com muita atenção e vontade de continuar e continuar e continuar, me fez lembrar algumas coisas de algumas amigas…
Parabéns! vc escreve muiiito hein?! é 10
Bjksss
[Reply]
on Nov 28th, 2007 at 5:35 pm
Senti um ar de “Nelson Rodrigues”. Realmente muito bom.
Mulheres selvagens e devoradoras… Se todas falassem o que pensam; o que seria de nós?
[Reply]
on Nov 28th, 2007 at 5:44 pm
Muito bom o seu conto. Muito bom mesmo. Apesar de suspeitar o desfecho já na primeira carta, o climax ficou muitoo bom, assim como a estrutura do conto. Fluiu legal, pois consegui lê-lo no computador fácil, fácil (algo que não gosto de fazer geralmente). Parabéns.
———————-
Não deixe de visitar o meu blog:Ofício Literário (http://oficioliterario.wordpress.com/)
Que trata da teoria literária em geral. É um blog recente, mas, com ajuda, pode ficar muito bom no futuro.
Abraço!
[Reply]
on Nov 28th, 2007 at 6:05 pm
Oi, achei o teu blog na comunidade do orkut…
Desculpa não coimentar no blog de Rock, é que eu não curto muito e não entendo nada…
Já contos, é comigo mesmo…
Abraços do Dan!
[Reply]
on Nov 29th, 2007 at 2:02 am
mto bom o conto..
mas aconselho a fazer posts menores mantendo o mistério a cada post..
abraço.
[Reply]
on Nov 29th, 2007 at 1:05 pm
Belo conto…
Gostei muito do seu estilo rodrigniano.
Poste mas coisas suas que nós seus leitores agradeceremos…
[]s L.Sakssida
http://youngvampire.wordpress.com/
http://young-vampire-luke-lestat-news.blogspot.com/
[Reply]
on Nov 29th, 2007 at 4:50 pm
Belíssimo conto,
a combinação de mulheres e assassinatos
sempre rende bons frutos.
[Reply]
on Nov 30th, 2007 at 4:18 pm
Só tenho uma coisa a dizer:
EXCELENTE!
parabéns!
http://www.baiadozeh.blogspot.com
[Reply]
on Nov 30th, 2007 at 4:28 pm
ijeeeee
muito bom texto.
[Reply]
on Nov 30th, 2007 at 6:18 pm
Olá! Eu simplesmente adorei o seu conto. Dizer que você escreve bem não é exatamente uma novidade, mas eu fiquei curiosa sobre a sua vida. Achei mt interessante e quando comecei a ler logo me prendeu a atenção e pensei que estivesse sendo escrito por uma mulher, porque retrata em detalhes a cabeça das mulheres. Li até o fim, coisa que não costumo fazer. Sou Jornalista e fiquei com vontade de te entrevistar pro meu blog. Vc topa? Dps me passa o seu e-mail que eu entro em contato com vc! Pra ver o meu blog é só clicar ai no meu nome e no meu perfil está o endereço. MEUS PARABÉNS! Vou te incluir nos meus favoritos! =*
[Reply]
on Nov 30th, 2007 at 6:45 pm
Muito bom!!
^^
BjO
[Reply]
on Dec 2nd, 2007 at 10:35 am
Sempre contos muito bons!!!!
Amo contos, mas a narrativa me dá preguiça! Fico nos haicais
Abração!!!!!!!
[Reply]
on Dec 20th, 2007 at 11:57 am
Meu caro, seria pretensão minha reduzir a Arte a um simples esquema.
Se tivesse mais paciência ao ler o post veria que não estou esquematizando a narrativa, mas simplesmente apresentando conselhos para escrever mais facilmente um diálogo. Como eu digo no primeiro parágrafo do citado post, diálogo nunca foi o meu forte e por isso aprendi como torná-lo mais simples de se fazer.
Seguindo os conselhos, produz apenas um ‘roteiro’ de como se desenrolará o diálogo. Na hora de efetivamente escrevê-lo, a sensibilidade e o improviso são essenciais para tornar o diálogo espontâneo, e não tornar os personagem dois robôs frios trocando dados entre si.
E, pela segunda vez, parabenizo-p pelo presente conto. Está muito bem escrito.
[Reply]
on Jan 14th, 2008 at 4:51 pm
Adorei o texto!
Difere bastante do meu modo de escrever, mas em nenhum momento perde o charme, adorei mesmo, obrigada por sua visita!
Beijos
[Reply]
on Jan 29th, 2008 at 11:24 am
Grijó
Pelos comentários, recomendo que esse conto, o que foi publicado no Tertúlia e os demais vão para o formato impresso.
Grande abraço do
Pedro Nunes
[Reply]
on Feb 6th, 2008 at 12:00 pm
Uns amigos e amigas odiaram o filme “Libertino”, aquele com o Johnny Deep. Muita putaria para o que esperavam, diziam. Especialmente enfática foi a puritaníssima namorada de um amigo, que é professora de criancinhas por aí. Eu não entendo essa gente… Um sentimento apaixonado no coração de uma menininha inocente que coleciona papel de carta e não percebe os imediatismos de toscas cantadas masculinas é só idiota, decepcionantemente triste e vulgar. Algum sentimento genuíno depois de conhecidas e experimentadas as mais diversas “sujeiras”, depois de olhado o outro na verdade de seus instintos nada constantes… se isso não for sentimento de verdade, eu não sei mais o que é… Da discussão no outro blog, fiquei achando que seus textos colocariam só sexo em primeiro plano, e achei que eu também pudesse não aprovar. Mas, ao meu modo de ver, neles são as pessoas em primeiro plano, e aí eu aprovo! Parabéns!
[Reply]
on Feb 8th, 2008 at 4:36 am
Não sei porque, mas há meses pretendo deixar o comentário aqui sobre este conto e nunca consegui. Não li o texto novamente devido ao fato de ele ser tão bom que não esqueci as sensações que causou em mim. Uma dessas foi inquietação. É incrível a forma como você conclui o conto que eu sempre chamo As Três Cartas de Suzana. Conclui vírgula! Pois é justamente isso que me causou inquietação. A grandiosidade deste conto é a forma como é contruído. Parabéns, como se precisasse, bah! Ah, com relação ao seu recente post sobre alguém que falou contra a “mistura” de sexualidade e arte, o que seria de um romance, um conto ou qualquer demonstração de arte sem um toque de lascívia??? Nó, sentiria-me enfadado!!!!!
Abraços, Grijó.
[Reply]
on Feb 23rd, 2008 at 10:55 pm
Gostei muito, a parte erótica não é agressiva ou gratuita, e o desenvolvimento do conto é bastante interressante. Para mim, com meus sessenta e cinco anos, não foi absolutamente constrangedora a leitura do texto. Parabéns, Grijó!
[Reply]
on Feb 29th, 2008 at 6:30 pm
Como muitos já disseram, a palavra que decreve o conto é “intrigante”.
Confesso que fiquei tão compenetrada, curiosa em sabe que pedido seria, que nem imaginei que o conto teria este desfexo.
Ótimo texto! Tem previsão de quando será lançado o livro?
Beijos
[Reply]
on Mar 2nd, 2008 at 6:32 pm
Acredito que ainda neste primeiro semestre, Sarah.
Se tudo der certo.
[Reply]
on Apr 21st, 2009 at 12:35 am
Grande conto!
Absolutamente genial, e com o amor entre mulheres como tema, o que já faz dele algo atrativo…o que me encanta nas suas histórias, cara, é a linguagem…perfeita!
[Reply]