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Uma visita a José G. Merquior (1941-1991)

Merquior+foto José Guilherme Merquior era um brilhante pensador liberal (para muitos, um reacionário pedante) – mais ou menos aquilo que o colunista da Veja Diogo Mainardi gostaria de ser. Era também um polemista de excelência, daqueles que fazem do debate de idéias seu leitmotiv: criticava Freud e Marx com propriedade, segundo os freudianos e marxistas, suas vítimas imediatas, que suavam para rebater sua argumentação vigorosa e carregada de erudição. Suavam e não me lembro de terem vencido o embate.

Houve outras vítimas, como a professora da USP Marilena Chauí, a quem acusou de plágio – e comprovou. Sobrou tempo também para chamar Caetano Veloso de subintelectual de miolo-mole, termo com o qual o compositor, mais tarde, concordou. Merquior escrevia como um evangelista, crendo em tudo o que produzia quase como um ato de fé, mas uma crença balizada na solidez racional de leituras apuradíssimas de autores europeus, dos renascentistas aos pós-modernos, fincando o pé na vasta seara iluminista. Leu muito, e em muitas línguas.

Lembro-me bem do primeiro contato. No primeiro – talvez no segundo – ano dos 80, folheando a revista Manchete, encontrei um trecho de um de seus artigos monumentais em que dizia, num trocadilho óbvio, que Freud era uma fraude. Havia, salvo engano, certo humor no texto, mas um humor contido porque, certamente, seu autor não desejava descambar para a superficialidade do riso. Levava-se a sério e parecia dizer a mim, leitor bissexto daquele tipo de artigo, que eu deveria encará-lo – perdoem-me o pleonasmo! – com austera seriedade. Algum tempo depois, chegou-me as mãos, comprado em um sebo em Niterói, De Anchieta a Euclides, seu clássico livro sobre a literatura feita no Brasil, e, mais tarde, uma compilação de seus artigos críticos sobre literatura e arte intitulado Crítica (1964-1989). Aí o mar se abriu. Estavam lá textos selecionados de seus livros Razão do Poema (1965), A Astúcia da Mímese (1972), Formalismo e Tradição Moderna (1974), O Estruturalismo dos Pobres e Outras Questões (1975), O Fantasma Romântico (1980), As Idéias e as Formas (1981), O Elixir do Apocalipse (1983), De Praga a Paris (1986) e outros ensaios, incluindo uma pérola intitulada Gênero e Estilo das Memórias Póstumas de Brás Cubas, no qual destrincha os diálogos que Machado travava com Luciano, Apuleio, Rabelais, Fontenelle e Leopardi.

E tudo isso numa linguagem translúcida, mas que exige do leitor a tal seriedade que mencionei. Exige também que, paradoxalmente à racionalidade, haja amor por aquilo que a literatura transmite e transforma, seja ela resumida num poema de Rainer Maria Rilke ou na narrativa de Robert Musil - duas de suas preferências declaradas e que acabaram por me influenciar: li O Homem sem Qualidades, do Musil, a partir de leituras de Merquior, o mesmo acontecendo com A Terra Desolada, de Eliot, cuja consciência histórica era, para ele, seu patrimônio maior, juntamente, claro, com a linguagem. Confesso que seus textos sobre política nunca me atraíram, já que, por preconceito – ou temor -, um estudante universitário como eu, marxista por conveniência, tinha outras prioridades, mesmo que parcialmente equivocadas.

Mas seus artigos em que a literatura era o tema foram devorados como quindins, em particular o citado A Astúcia da Mímese, em que Drummond, João Cabral e Rilke são analisados com precisão.

Merquior1

José Guilherme Merquior foi diplomata e esteve longe de ser uma unanimidade. Foi criticado e criticou. Foi atacado e atacou – sempre no âmbito racional, pisando o terreno arenoso da filosofia, da historiografia, da política, da arte. Morreu precocemente, em 1991, às vésperas do próprio cinqüentenário, deixando uma herança que o brasileiro insiste em não usufruir, talvez por desconhecimento.

Eu disse talvez, porque sempre mantenho a desconfiança de que não haja muito interesse em reconhecer nas palavras de Merquior nossa quase nulidade intelectual. Típico do brasileiro, que opta pela cegueira diante do espelho que lhe expõe as deformações.

Leia AQUI Machado em Perspectiva, conferência pronunciada por JGM.

Leia AQUI entrevista à revista Veja, intitulada Um Mestre da Polêmica

10 Comentários on “Uma visita a José G. Merquior (1941-1991)”

  1. #1 Gabriel Caio
    on Oct 18th, 2007 at 8:45 pm

    Grijó, mais um nome para eu acrescentar na minha lista de pesquisa. Onde eu posso encontrar textos de Melchior?

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  2. #2 John Lester
    on Oct 18th, 2007 at 10:00 pm

    É, cheguei a lembrar da Lanterna na popa, uma espécie de excelente autobiografia do Roberto Campos, outra figura que muitos brasileiros odeiam, sem nunca o terem lido e compreendido. Brasileiro gosta é de Lula e sua simpática ignorância: caso crônico de identificação mútua.

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  3. #3 F. Grijó
    on Oct 19th, 2007 at 1:39 am

    Gabriel, a maioria dos livros de Merchior está esgotada, mas vc encontra pelo menos “A Astúcia da Mímese” e “O Liberalismo”, ambos publicados pela Nova Fronteira, em livrarias.
    Em sebos virtuais vc encontra todos, acredito. Alguns textos dele são específicos de crítica literária e artística. Outros, sobre política, sociedade e diplomacia.
    Cheque no site http://www.estantevirtual.com.br

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  4. #4 F. Grijó
    on Oct 19th, 2007 at 1:45 am

    É verdade, caro John. O brasileiro digere mais facilmente o que consegue compreender de imediato. Não se acostumou a debruçar-se sobre um texto que exige dele esforço intelectual. Claro que há exceções, mas, grosso modo, é assim que a coisa funciona. Mas Merchior é bem diferente de Roberto Campos, que muito contribuiu para a opressão (incluindo a intelectual). Merchior foi uma figura que propôs ao brasileiro pensar, sempre de forma democrática. Pena que essa proposta não foi aceita.

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  5. #5 isadora machado
    on Oct 19th, 2007 at 4:16 pm

    boa dica, querido.
    sempre com seu tom de texto inconfundível.

    =]

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  6. #6 talibmoussallem
    on Oct 19th, 2007 at 8:45 pm

    Grijó,
    Valeu!!! Mais uma vez você nos presenteia. Sabe que não tenho vergonha de falar quando sou ignorante no assunto, não conhecia Merchior….gostei muito do seu texto, especialmente “mais ou menos aquilo que Diogo Mainardi gostaria de ser” ahahahahahahaha
    Abraço

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  7. #7 Melissa
    on Oct 22nd, 2007 at 5:30 am

    José Merquior entrou em polêmica com vários intelectuais da USP, e não só com Marilena Chauí. Os jornalistas do caderno Mais! da Folha de Sao Paulo desceram o malho nele, numa atitude corporativista e covarde, já que ele está morto e não pode responder.
    Valeu a postagem como forma de relembrar um grande intelectual.

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  8. #8 Fernando
    on Oct 26th, 2007 at 5:07 pm

    Mandou bem, Sr. Grijó.
    Falta alguém para repensar as idéias desse magistral intelecto que era José Guilherme Merquior. Pena que sempre foi visto como um cara de direita. Fico pensando como ele lidaria com o governo Lulla.

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  9. #9 Cesare
    on Mar 25th, 2009 at 1:23 am

    Zé G. foi grande amigo de meu pai, que sofreu com sua morte. Trabalharam juntos em NY, mas eu não o conheci. Só fui saber de sua existência mesmo através dos livros na facul. Era um real polemista, de conhecimento musculoso e de rara sensibilidade. uma vez disseram que ele lia um livro por dia, no mínimo…bem, é possível, sim, porque em embaixadas o que menos se faz é trabalhar…rsrsrsrs
    Até.

  10. #10 Marcos Azeredo
    on Nov 21st, 2009 at 5:37 pm

    Sou professor de literatura, e li do Merquior, De Anchieta a Euclides, onde ele estuda nossa literatura desde a colonização até Euclides da Cunha. Merquior foi aluno titular de 1966 a 1970 do seminário interdisciplinar de Antorpologia do Collége de France, dirigido por Claude Lévi-Strauss. Lecionou por convite em 1977 como “Visiting Professor” do ilustre King’s College em Londres. Fez tese de doutorado em 1972 na Sorbonne com o estudo Verso universo em Drummond, sob orientação do Prof. Raymond Cantel, diretor do Institut d’Études Portugaises et Brésiliennes da Universidade de Paris.
    Talvez seus ensaios literários estejam no mesmo nível de Antonio Cândido, Afrânio Coutinho, e Alfredo Bosi.

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