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Bradbury, livros

Fahrenheit+451

A função do homem é tornar-se literatura. Não, a frase não é minha, mas de Oscar Gama, historiador, poeta e dramaturgo, além de estudioso da cultura capixaba - seja lá o que isso signifique. A frase foi ouvida por mim mas dirigida a Reinaldo Santos Neves, à época editor todo-poderoso da Fundação Ceciliano Abel de Almeida. Aposte nisto: muitos escritores - eu incluído - devem a primeira oportunidade impressa a Reinaldo.

Mas não é isso o que eu queria dizer, embora esse grato registro se faça procedente. O post é sobre Ray Bradbury, o escritor norte-americano que nada tem a ver com a FCAA, mas com a mais contundente homenagem aos livros que já li: Fahrenheit 451, o romance futurista no qual os livros se tornam um grande - talvez o maior - perigo para um governo totalitário que treina bombeiros cuja obrigação maior é transformar obras impressas - literárias ou não - em fogueira.

O título refere-se justamente à temperatura em que o papel combure, referindo-se, naturalmente, à escala termométrica utilizada pelos norte-americanos. À parte a atitude governamental de destruir a palavra impressa com fogo, todo o livro é de uma atualidade perturbadora, já que retrata uma sociedade que opta por relacionar-se com o mundo e consigo mesma utilizando a tevê e o rádio, ambos interativos e cada vez mais presentes na vida do cidadão comum.

O tema, de fato, relaciona-se a nosso tempo. Para uma minoria, o livro continua a ser o chafariz de onde brota o conhecimento e a cultura - a informação em si, plena e essencial à cidadania e ao bem-viver. À maioria interessa o veículo veloz - internet, google, etc. -, desprezando, com duvidosa soberba, a necessidade da pesquisa em sua fonte original, o livro, que se debate, quase moribundo, num leito de UTI. Por isso tão poucas livrarias neste país. De que e a quem servem? Lamentável. Bradbury foi otimista, a meu ver: criou um mundo futuro no qual os livros são necessários à libertação, de modo que destruí-los é uma das formas mais eficazes de encarceramento do indivíduo. Concedeu ao homem o interesse pelos livros, pela palavra escrita romanceada, pela poesia, pelo debate impresso de idéias, pela filosofia e pela sociologia grafadas em papel.

Há, em Fahrenheit 451, uma defesa acachapante do livro em si, a ponto de uma estranha - mas absolutamente fundamental - comunidade se dedicar a transformar-se em texto, memorizando ipsis litteris cada parágrafo de uma determinada obra, destruindo-a, depois. Em seguida, passá-la adiante, narrando a outro que, por sua vez, fará o mesmo. É a saída, a única forma de perpetuar a palavra escrita num meio avesso a ela, que a persegue como se ela fosse dotada de uma proposta vil. É a garantia de que a sobrevivência é inevitável. O personagem central do romance, o bombeiro Montag, escudeiro fidelíssimo da proposta de destruição, tem sua vida invadida pelo conflito pessoal gerado, claro, pela razão, que o faz voltar-se contra o sistema até chegar à tal comunidade mnemônica e dela fazer parte.

Mas até quando isso será possível? Seria esse o futuro do livro? Não necessariamente ser perseguido pelo totalitarismo, mas qual o seu destino? Até quando ele terá valia num país que o torna bem secundário, quase supérfluo? O livro de Bradbury tornou-se filme pela lente de François Truffaut, em 1966. Esse tema distópico não poderia ter melhor tradução: tanto o livro quanto o filme merecem estar em nossa memória para sempre.

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10 Comments on “Bradbury, livros”

  1. #1 Salsa
    on Oct 28th, 2007 at 9:48 pm

    A frase é usada por Reinaldo na orelha de Sueli, romance confesso. Creio que ele (Reinaldo) buscou em outra fonte, um gringo cujo nome não me recordo.
    E o lovano? Perdeu?

    [Reply]

  2. #2 F. Grijó
    on Oct 28th, 2007 at 10:10 pm

    É, é verdade: a frase está em Sueli, mas ouvi-a da boca de Oscar, possivelmente citando algum autor que também desconheço.

    Lovano? Não, cara, não fui. Estava num casamento - cuja presença era obrigatória. Mas eu não era o noivo.
    Foi bom o show?

    [Reply]

  3. #3 Salsa
    on Oct 28th, 2007 at 10:51 pm

    Rapaz, foi impressionante. O noneto disse tudo que tinha a dizer e deixou aquele gostinho de quero mais. Sinto-me privilegiado por ter assistido, nesse ano, o show de Joshua redman e o de Lovano. Benzadeus.

    [Reply]

  4. #4 Fernando
    on Oct 30th, 2007 at 3:16 am

    Vi o filme mas não li o livro. Vou procurar na livrari mais próxima.
    Obrigado pela dica.

    [Reply]

  5. #5 matyah
    on Oct 30th, 2007 at 4:52 pm

    Opa! Veio em ótimo momento esse texto Grijó. Comprei o filme esse domingo, mas ainda não o assisti. Quando o vir eu comento.

    [Reply]

  6. #6 Anonymous
    on Oct 30th, 2007 at 5:09 pm

    Já é a terceira vez que ouço falar nesse livro. Infelizmente nunca o li, nem vi o filme. A história me lembrou algumas cenas de Equilibrium, no qual uma sociedade consegue acabar com as guerras suprimindo a emoção e portanto o governo passa a destruir qualquer obra de arte que possa suscitá-las.
    Quanto ao desprezo pelo livro… impossível esquecer o diálogo entre o Selvagem e o administrador no capítulo 16 do Admirável Mundo Novo de Huxley, quando aquele reclama que os filmes e a cultura produzidas e consumidas são medíocres frente a Shakespeare:

    “Pois bem! Então - continuou depois de um silêncio - qualquer coisa nova semelhante ao Othello e que
    eles sejam capazes de compreender. - Aí está o que todos nós há muito desejamos escrever - disse
    Helmholtz, rompendo um silêncio prolongado.
    - E é o que você nunca escreverá - disse o Administrador - porque, se a obra se parecesse realmente
    com o Othello ninguém estaria em condições de a compreender. E, se fosse coisa nova, não se podia
    parecer em nada com o Othello.

    É preciso escolher entre a felicidade e o que outrora se chamava a grande arte. Nós sacrificamos a
    grande arte. Temos em seu lugar os filmes perceptíveis e os órgãos de perfumes.

    E o facto de se estar satisfeito não tem nada do encanto mágico
    de uma boa luta contra a desgraça, nada do pitoresco de um combate contra a tentação ou de uma
    derrota fatal sob os golpes da paixão ou da dúvida. A felicidade nunca é grandiosa.”

    Quanto à frase que inicia o post, me fez lembrar uma que o Mallarmé disse: Le monde est fait pour aboutir à un beau livre. - O mundo é feito para acabar em um belo livro (não sei de onde ela é, acho que de alguma carta, vi ela a primeira vez citada por Borges no seu livro Discussões num ensaio sobre Flaubert, na citação do Borges ele traduz e omite o “beau”).

    Apesar do comentário excessivo, aproveito ainda para parabenizá-lo pelo Blog, Grijó, está muito bom, tenho aprendido muitas coisas interessantes…

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  7. #7 F. Grijó
    on Oct 30th, 2007 at 10:11 pm

    Valeu, Anônimo.
    Eu é que agradeço seu comentário.

    [Reply]

  8. #8 F. Grijó
    on Oct 30th, 2007 at 10:12 pm

    Acho o filme muito bom, Matyah, principalmenter nas atuações de Julie Christie. E a cena em que a mulher opta por morrer junto com os próprios livros é bem simbólica.
    Tenho certeza de que vc apreciará.

    [Reply]

  9. #9 Will
    on Oct 31st, 2007 at 3:40 am

    Livro endiabrado.
    Bom demais princiálmente quando se coloca o livro em posição de poder.
    Filosófico, contundente, perturbador.
    Vi no Telecine.

    Parabéns pelo blog

    [Reply]

  10. #10 Salsa
    on Oct 31st, 2007 at 12:05 pm

    Creio que a citação de Reinaldo deriva justamente de Mallarmé. Essa frase é encontrada, mutatis mutandi, em outros escritores. Guimarães Rosa aborda esse tema em um dos prefácios de Tutaméia, em um conto (”Se eu seria um personagem”, ou algo próximo)e também na famosa entrevista com Lorenz.

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