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Marginais Domésticos

Viagemp

Ninguém discute que o que diferencia a literatura da não-literatura é a linguagem - e é justamente ela, instrumento essencial, que, lato sensu, determina as estéticas, adequando-se a um determinado momento histórico ou refletindo-o, como um espelho verbal. Há alguns dias elegi como livro da semana o clássico 26 Poetas Hoje, organizado por Heloísa Buarque de Hollanda, livro considerado por muitos o resumo quase bíblico de uma geração chamada “marginal”, cujos integrantes - muitos deles, ao menos - compõem o panorama “estabelecido” da poesia brasileira, encaixados que foram num modelo que enquadra e rotula tendências e comportamentos.

Encaixados foram Ana Cristina César - hoje um acepipe para os acadêmicos -, Wally Salomão, Chacal, Charles, Torquato Neto, o global Geraldo Carneiro, Bernardo Vilhena e muitos. Nenhuma crítica a isso, que fique claro. Não há qualquer julgamento de valor no fato de um autor, outrora à margem, fazer parte, hoje, do time principal e ser convidado, com devida honraria, para coquetéis e convescotes promovidos por aqueles que antes os criticavam. Não vejo problema: queria eu (mesmo não sendo poeta) estar na pele e no lugar deles. É aí que entra uma outra questão: a marginalidade ainda existe ou se desfez como sorvete ao sol neste mundo globalizado?

Existe, claro, e qualquer escritor - ou poeta - residente no ES sabe disso, e com essa triste realidade precisa conviver, sabendo que seu destino será, metonimicamente falando, ser lido por seus pares domésticos, seu vizinho, seu amigo - ou até seu inimigo, mas sempre aquele com quem pode conversar, via fone, fazendo chamadas locais. Isso não é, nem de longe, uma lamentação - não sou um choramingas -, e sim uma constatação, uma quase obviedade. De quem é a responsabilidade (evito a palavra culpa por ela me parecer freudiana demais)? Dos próprios autores, que deveriam se mobilizar e, munidos de seus originais sob os sovacos, bater às portas das editoras paulistas e cariocas? Dos leitores, que pouco se interessam por autores locais e muito menos por aquilo que eles têm a dizer? Das próprias editoras, que não vêem a literatura feita no ES como produto em que se deva investir? Do jabá? (Não se iluda: o jabá não é prerrogativa do meio musical). Da qualidade sofrível dos textos por aqui produzidos?

Experimente ler, então, A Longa História, o mais recente “monumento” de Reinaldo Santos Neves, ou Dédalo, de Miguel Marvilla. Dê uma checada em Vilarejo, de Pedro Nunes, ou em As Chamas na Missa, de L. G. Santos Neves. Ou ainda, se sobrar tempo, verifique a qualidade poética de Valdo Motta, em Eis o Homem, ou os contos curtíssimos e magníficos de O Jardim das Delícias, de Bernadete Lyra. Sem contar as crônicas de Ivan Borgo, os contos de Sebastião Lyrio, a poesia de Fernando Achiamé, de Caê Guimarães e de Paulo Sodré. Eu poderia citar inúmeros títulos e autores - e até citar a mim mesmo, enviando a modéstia ao diabo -, mas não é esse o ponto do post. A discussão reside num ponto específico: a marginalidade continua na ordem do dia, há muito. Não, não há resistência quanto ao fato - a não ser que se considere a insistência em produzir bons textos como um exemplo de.

Clique aqui para acessar Tertúlia e saber sobre autores e livros do ES.
Clique aqui para ir à Estação Capixaba.

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5 Comments on “Marginais Domésticos”

  1. #1 melissa
    on Nov 1st, 2007 at 3:25 am

    Não seria culpa (rsrsrs) dos próprios autores com uma visão provinciana (como a figura, bem irônica) da própria condição de escritores?
    Tenho um amigo que batalha como louco para publicar. E disse que não vai dessitir porque a coisa depende só dele. Esraia ele iludido?

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  2. #2 Salsa
    on Nov 1st, 2007 at 1:28 pm

    O compadrismo e a crítica velada são fatores que, a meu ver, contribuem para a pobreza literária do solo espiritossantense. Há um grande silêncio em torno do que se produz. A iniciativa de fazer os seminários “bravos companheiros e fantasmas” foi um bom passo para romper com esse cenário, mas ainda requer algumas reformulações (afinal, os comentaristas parecem só falar do que gostam e, pior, não têm com quem debater, pois ninguém, além deles, lê os textos comentados). Pelo menos foi essa a impressão que eu tive: apologias entre compadres.

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  3. #3 F. Grijó
    on Nov 1st, 2007 at 4:17 pm

    Talvez vc tenha razão, caro Luiz, afinal vc ajudou a organizar todo o encontro. Mas fica uma dúvida, que há muito existe: e os escritores que, por motivos diferenciados, distanciaram-se da Academia? Cheguei a pensar que o “compadrismo” a que vc se referiu pode ser estendido tb à universidade, não? O Seminário Bravos Companheiros…não caracterizou uma “panelinha”? Pergunto justamente porque desconfio, mas posso, naturalmente, estar errado.

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  4. #4 Salsa
    on Nov 1st, 2007 at 6:12 pm

    Ao fim e ao cabo ficou com esse ar. Acho que não conseguimos romper com essa característica. Mas vamos continuar tentando, né não?

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  5. #5 Thiago Lucas
    on Nov 19th, 2007 at 8:43 pm

    Estava navegando pelo tertúlia e vi que há uma discussão sobre o assunto da marginalidade literária. Confesso ue pensei que era outra coisa (tipo poetas marginais, anos 70, essas coisas). Vi que não. Mas compreendo o tom meio indignado da questão. O autor capixaba é meio marginal, sim, mas tb por culpa dele. Vi que o Salsa faz uma afirmação que considero injusta. Lá na Ufes, no curso de letras pelo menos, existe um interesse grande em difundir, divulgar e discutir a literatura capixaba. E não vejo como panelinha ou “compadrismo” não. Nem a questão da “academia” que vc cita, Grijó. Acho que deveria existir, por parte dos escritores, estejam eles em qualquer genero, uma maior aproximação do leitor.

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