Da cozinha à lei - ou melhor: aos tribunais. Vou explicar. Os brasileiros gostam muito dos chamados “filmes de tribunal”, aqueles em que a justiça se faz a partir da lábia do bom advogado ou da dedicação investigativa do promotor público, figuras essenciais ao bom andamento da trama.
Advogados inescrupulosos são, grosso modo - e o público praticamente exige isso -, punidos ao final, assim como os promotores almofadinhas cheios de soberba. Têm o mesmo destino: são desmascarados antes de subirem os créditos, e todos ficam felizes. Geralmente se saem bem aqueles profissionais que seguem as regras do bem-viver e que seriam capazes de algum sacrifício para que a justiça venha à tona.
De resto, para que um filme “de tribunal” obtenha sucesso, é fundamental que o réu, ao fim - se culpado for -, exploda de tanto sofrer. Se for inocente, que vá para casa, acompanhado de sua família e faça uma festinha para comemorar. Mas o que quero dizer é que o diretor Sidney Lumet, em seu primeiro trabalho para o cinema, foi por outro caminho. Um desses canais por assinatura trouxe à programação um dos melhores filmes - opinião particular, naturalmente - sobre o assunto: Doze Homens e uma Sentença, uma produção de 1957.
A película não concentra o poder na tergiversão de um advogado; muito menos na corriqueira fúria de um promotor público. A história se concentra na busca pelo consenso de um grupo de jurados que, de acordo com o sistema judiciário norte-americano, tem poder deliberativo. E é aí que a tensão se instaura. Henry Fonda é o herói, um dos doze homens comuns que ali estão para decidir o destino de um porto-riquenho acusado de matar o próprio pai. Onze votam pela condenação, enquanto Mr. Fonda, heróico e cauteloso, prefere discutir o assunto, afinal ali estão para uma difícil decisão: caso o réu seja condenado, caminhará para a morte.
O que me chamou a atenção no filme, além de sua estrutura espacial - a trama quase claustrofóbica se passa numa sala -, é a maneira como os diálogos, nem sempre amistosos, vão revelando as características de cada um dos jurados: insegurança, preconceito, medo, compaixão, tudo se misturando a partir de uma opinião que se mostra contrária ao senso comum. Aí reside o heroísmo de Henry Fonda (Davis, um arquiteto, no filme): os jurados vão, um a um, modificando seu voto, despidos que estão de questões individuais e que finalmente percebem que têm em mãos o destino de um semelhante. No filme, não importa se o porto-riquenho é culpado ou inocente, não importa a elucidação criminal.
A questão vai além: é um tratado comportamental em que indivíduos não são munidos de certezas e que, acima de tudo, é fundamental o diálogo, como forma de essa incerteza tornar-se uma ação justa. O roteiro desse filme magistral ficou por conta de Reginald Rose, um homem de teatro e tevê. Os cinéfilos - tenho certeza - suspirarão de gozo ao perceber que a fotografia de Boris Kaufmann é algo prodigioso: sem ela não haveria o clima tenso que quase deixa o espectador sem ar.

Só para constar, Sidney Lumet fez um outro filme sobre tribunais: o ótimo O Veredicto, de 1982, em que Paul Newman tem a oportunidade de corrigir os médicos. E, claro, conta com a presença sempre luminosa de Charlotte Rampling.









on Nov 6th, 2007 at 8:52 pm
Realmente eis aqui um apaixonado pelo cinema. Bela exposição de teus interesses e ao mesmo tempo excelente informação. Parabéns. Abraços
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on Nov 6th, 2007 at 9:31 pm
òtimo comentário sobre este maravilhoso filme Doze Homens e uma sentença. Como vc disse este filme ao contrário da grande maioria dos filmes sobre tribunais foca nos jurados, seu carater, conduta e escolhas. Eu´particularmente gostava de filmes de tribunal,orém acho que ultimamente tem-se tornado muito previsiveis. E uma coisa que o brasileiro tem que atentar é que a realidade de nossas leis e tribunais é outra. Muitos se levam pelas grandes trams,, mas na realidade não é muito assim
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on Nov 6th, 2007 at 10:41 pm
Otimo Post… Roteiros “juridicos” sempre são mais elaborados…
O post anterior, soberbo… Dar vida!
Abraços
Everaldo Ygor
http://outrasandancas.blogspot.com/
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on Nov 7th, 2007 at 12:45 am
òtimo post!
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on Nov 7th, 2007 at 1:33 am
Interessantes essas tramas que se desenrolam praticamente em um só espaço. Um filme espanhol, que agora meu fugiu o nome, também aposta neste tipo de narrativa para “destrinchar” personalidades dos seus protagonistas. Me lembro que o filme todo, basicamente, é rodado em uma grande sala, onde uma família está reunida à mesa, e várias coisas acontecem, e vários outros personagens surgem, e muita coisa fica nas entrelinhas. O filme é tão divagador que eu não consigo lembrar o nome nem por reza. Só sei que é espanhol - ou em espanhol.
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on Nov 7th, 2007 at 3:45 am
muito bom o post !
realmente , as pessoas gostam mesmo de filmes de tribunais , mas poucos são bons …pelo menos os q vi no supercine são um porre xD
mas ja vi alguns bons …curto muito um bom cinema …pricipalmente de arte
abraço!
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on Nov 7th, 2007 at 3:53 am
Adorei esse filme e seu post foi bem escrito, aliás, gostei muito do seu blog, virei sempre visitar, parabéns!
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on Nov 7th, 2007 at 4:16 pm
Doze homens e uma sentença e A mulher faz o homem foram dois filmes que influenciaram bastante o meu senso crítico e a minha capacidade de contestação. Os carateres sendo expostos, os preconceitos vindo a tona. Fascinante.
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on Nov 7th, 2007 at 4:22 pm
Há uma refilmagem desse clássico, não? Com Jack Lemmon, se não me falha a lembrança…
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on Nov 7th, 2007 at 4:24 pm
Há, sim, Renan. E feito para a tevê, em 1997, mas não chega a ser tão interessante quanto ao original de Lumet, mesmo com o grande Lemmon no papel principal.
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on Nov 7th, 2007 at 4:26 pm
Hmm, não assisti esse filme, mas pelo visto parece ser bom. =)
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on Nov 7th, 2007 at 5:18 pm
Detesto filmes de tribunal, talvez por ainda não ter assistido a esse né. Vou proucurar assisti-lo.
Saindo do tema do post. Grijó, vc saberia me dizer se tem algum bar em vitória q semanalmente toca alguma banda de jazz? pq o jazzcafé de jazz só tem o nome, o jazz da curva da jurema nem sei se ainda existe, e o café touchê não sei q dias exatamente tem jazz.
Se puder responder seria de grande valia.
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on Nov 7th, 2007 at 5:37 pm
Foi só o primeiro filme do Lumet. O novo dele que passou na mosta de SP está sendo bem elogiado. E ele tá beirando os noventa. Acho que ele não chegou no nível desse filme em quaisquer outras tentativas.
A forma de contar a história é o trunfo da fita. Não existe outra coisa que faça você desenvolver/visualizar mentalmente um ponto de vista sobre algo (o crime, no caso) sob tantas facetas, personalidades, opiniões, influências e preconceitos.. Gosto particularmente da câmera ir abaixando o ângulo da sala à medida que o filme se desenrola, aumentando a sensação de claustrofobia.
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on Nov 7th, 2007 at 5:38 pm
Claro, Matyah.
Às terças, no Balacobaco, na P. do Canto (R. Dr. Eurico de Aguiar, ao lado de uma loja de calçados), rola jazz. E do bom. Pode aparecer que vc vai gostar.
O Café Touché tinha uma certa regularidade jazzística, quando o Afonso Abreu Trio tocava.
E tb há o restaurante Bellia (não sei o endereço, mas fica na P. do Canto tb), que sempre traz jazz às quintas, com Afonso e Pedro Alcântara.
Vale uma visita.
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on Nov 7th, 2007 at 5:48 pm
Adorei seu blog! Gosto mt de filmes e pretendo voltar!
http://dividindo.blogspot.com
http://amigosdacahh.blogspot.com
bjuss
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on Nov 7th, 2007 at 6:33 pm
Opa.
Valeu Grijó. Vo tentar ir semana q vem no Balacobaco pra conhecer. No Bellia cheguei a ir uma vez em Julho, achei bacana, mas estava afim de ouvir um jazz mais “punk”, fora q lá é financeiramente inviável de ir frequentemente.
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on Nov 7th, 2007 at 7:10 pm
Seu blog esta perfeito.
O diretor Lumet é um mestre…
12 homes é uma sentençã esta entre os melhores filmes que já vi …
[]s L.Sakssidadhzen
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on Nov 8th, 2007 at 10:55 pm
Tem jazz na terça, na Lama (cochicho) e nas sextas no café touché. Outro lugar cool é o Don Oleari, em Jardim Camburi - lá a coisa acontece nas sextas (quando não chove, pois o som é na calçada)
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on Nov 9th, 2007 at 12:29 am
Valeu a informaçao MCC.
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on Nov 12th, 2007 at 1:46 pm
Putz muito legal seu blog …
Parabéns!
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