O conto Musculatura ou Tão Longa é a Noite, contido em meu último livro, LICANTROPO, de 2001, deu origem, quatro anos depois, a um curta-metragem pelas mãos do cineasta goiano Érico Rassi. É uma adaptação, claro. Gostei do resultado: é ágil, os diálogos são bem armados, a câmera é competente. Sou suspeito para afirmar, mas afirmo: a história é boa. O curta-metragem, de pouco mais de 18 minutos, pode ser visto em duas partes, no Youtube: aqui e aqui. O conto vai a seguir, aí embaixo:
Não há quem consiga respirar após vários golpes na região abdominal, todos em seguida, uma série de seis ou sete, não consegui contá-los. Foram necessários quatro homens para me dominar, no início, todos eles mais ou menos do meu tamanho, tenazes como convém à profissão, todos eles, sem exceção, cumprindo seu dever porque o comando assim ordenou, e o comando responde pelo nome de chefe mas que poderia ser qualquer outro nome, não faria diferença. Sem ar, fui arremessado a um canto, meus olhos esbugalhados, a linha alba e o oblíquo externo em frangalhos, quase como líquido que posso sentir dentro. Os quatro homens conversaram um pouco até que eu me recuperasse, até que o ar retornasse aos poucos a meus pulmões e eles pudessem recomeçar seu trabalho. Um deles era oriental, chinês ou coreano – também não faz diferença; um outro tinha a cor parda chegada à negra, mas seus olhos eram claros e luzidios. Os outros dois tinham feições italianas, narizes longos e lábios salientes, os olhos eram também cheios de luz. Aos poucos fui tomando ar, a vida retornava aos poucos. Vai ser uma noite longa, pensei.
A sala em que eu era mantido não era na verdade uma sala. Era grande como um galpão vazio, de paredes recém-pintadas. Não havia mobília, apenas uma mesa, à qual não acompanhavam cadeiras. Em caso de necessidade, devia-se sentar no chão. Era também um ambiente sem janelas, era úmido e limpo. Fiquei imaginando quantas vítimas já estiveram aqui, no último dia de suas vidas. Quantos suplicaram misericórdia, quantos propuseram acordos, quantos se acovardaram diante de homens que estão apenas desempenhando ordens, apenas fazendo seu trabalho – nada mais. Na profissão deles é assim: nada ouvem, apenas falam, e, como não ouvem, não preciso emitir qualquer palavra, nada devo perguntar pois não haverá resposta. O tal chefe quer meu rosto intacto, não quer edemas nem sujeira, nenhum tipo de ferimento. Consigo ver quatro homens numa conversa preocupada, no canto oposto a mim, distantes o suficiente para que eu não possa ouvi-los. Não sabem quem sou nem saberão, duvido que o comando lhes dê conversa. É possível que o pardo goze de algumas informações privilegiadas sobre mim, mas, como profissional esmerado – e possivelmente a ponte entre o comando e os outros três –, não vai abrir o bico. Sua tarefa é me matar, ali está para isso, nada além ou aquém. Os dois italianos – ou brasileiros com feições italianas – são realmente grandes, bem nutridos, a composição é sólida. O oriental não é tão alto, mas sua compleição é também avantajada, é largo como um halterofilista. O pardo usa óculos de aros finos e dourados, um possível míope. Camiseta justa que define sua musculatura treinada; os outros três, também de camiseta, não trazem a elegância do pardo, mas inspiram eficiência.
“Por que o chefe mandou fazer assim?”, perguntou o oriental.
“O chefe não quer sangue”, disse o pardo, olhando para mim, a distância. “É pro homem ser enterrado com pompa, vão fazer uma grande festa, muita gente foi convidada, querem olhar pro rosto dele e não querem ver nenhuma marca.”
“Isso vai demorar um pouco”, disse o oriental. “O sujeito é forte, duro. Olhe o tamanho dele. Vai levar tempo até ele morrer.”
“O chefe quer assim. Nenhum tiro, nenhuma facada, nada”, falou o pardo. “Disse pra gente bater do pescoço pra baixo e da cintura pra cima, região localizada, frente e costas. No caixão só vai aparecer o rosto dele, o resto vai estar coberto, vão vestir o cara.”
“Vamos levar a noite toda nisso”, comentou um dos italianos.
“Não tem problema”, disse o pardo, “contanto que a gente faça o serviço.”
O coreano (ou chinês, mas vou chamá-lo oriental) foi até o canto e me levantou, segurou-me por trás, passou os braços sob meus sovacos e, cruzando as mãos atrás do meu pescoço, imobilizou-me. É um artifício antigo, mas eficaz. Um dos italianos se aproximou e golpeou meu estômago mais algumas vezes, embora com menos violência, pareceu-me. Nessas horas de dor intensa, quanto mais se bate menos se sente, ouvi muitas histórias assim, de gente que apanhou muito e lá pelas tantas já nem sentia mais nada, o corpo fica anestesiado, os sentidos se anulam. Também ouvi histórias de que o sofrimento físico transforma o ser humano, torna-o quase um santo, uma peça bem-aventurada da engrenagem corrompida que é a humanidade. A dor purifica, dizem, mas isso também não faz diferença agora. O pardo de olhos claros pegou um telefone celular, saiu do quarto. Só um dos italianos ficou me surrando, enquanto o oriental ainda me segurava. O outro – que não me atingira um soco sequer – sentou-se sobre a pequena mesa de madeira, ficou olhando para baixo, braços cruzados relaxados, depois balançou a cabeça de um lado para outro, pude ver.
“O cara nem sequer solta sangue”, disse ele. “Era pra ele já estar vomitando tudo. Ninguém agüenta isso, não é normal.”
“Nunca vi coisa igual”, disse o outro italiano, já cansado, abrindo e fechando a mão, flexionando os tendões, depois balançando-a como se ela estivesse molhada e ele quisesse livrar-se do líquido. O oriental, enquanto me segurava, disse algumas palavras cujo significado não entendi, não obstante eu poder ainda ouvi-lo com nitidez. Alguma coisa numa língua ancestral, a língua de seus antepassados, talvez um ditado ou um verso. O italiano sobre a mesa riu, mas foi um riso forçado, sem graça, desses que concedemos sem motivo, por força do hábito ou por caridade.
“Uma vez vi um cara apanhar tanto que a urina dele ficou esverdeada e meio grossa, parecia uma coisa sólida saindo do sujeito”, disse o italiano, que interrompera a sessão de pancadas. “Eu estava começando a aprender como se fazia, estava iniciando na profissão. Os homens mais experientes – eu era só um aprendiz – ficavam batendo no cara e eu tentando memorizar os golpes, admirando a arte. A mão aberta, o punho semifechado, a cotovelada, o soco com a parte lateral da mão, o golpe com os dedos duros no pescoço, na têmpora, na nuca, nas orelhas, os dedos furando os olhos. Sem usar os pés, só mãos e braços, os caras eram mesmo artistas. A maioria está aposentada”, dizia ele nervosamente, aproveitando para descansar, mais uma vez fazendo flexões para as articulações. “Bateram no cara pra valer, uma sessão nobre, como esta, sem tiros e sem talhos, só na porrada. Tinha um crioulo chamado Artur que era um porrete humano. Um professor. Só batia nos pontos específicos, para doer, dizia que o negócio dele era provocar dor, e se orgulhava de nunca ter matado ninguém com as mãos, mas sabia aleijar, deixar a vítima inútil.”
“Esse cara não vai reagir”, disse o oriental. “Está quase morto, está mole, veja”, balançou-me. “Se eu soltar ele cai no chão.”
“Continue segurando”, falou o italiano, ainda sentado sobre a mesa.
“O cara não vomita”, impacientou-se o oriental. Eu podia sentir seu corpo cheio de suor encostado em minhas costas, sua barba mal feita espetava minha nuca. “O cara não vomita”, repetiu.
O italiano iniciou uma sessão de pontapés e joelhadas. Tomava uma certa distância, media o golpe e o soltava com força. O oriental esforçava-se para manter-se em pé, chegava a balançar, ainda me segurando. Pediu para o italiano só usar as mãos.
“Estão doendo”, disse o italiano.
“Pode largar, dá um tempo pra ele”, disse o pardo, que retornava ao aposento. Trazia copos, garrafas de leite e água e sanduíches. O italiano desocupou a mesa, o oriental me soltou. Não havia como respirar, parecia que haviam posto uma rolha em minha laringe, meu cricotiróideo parecia ter sido esmagado, embora não houvessem tocado em meu pescoço, minha visão se tornava embaçada, meu batimento cardíaco ganhava velocidade. Encostei-me num dos cantos da sala, estiquei as pernas, que tremiam. Os braços doíam por conta da imobilização do oriental.
“O que foi que ele fez?”, perguntou o oriental limpando o suor do rosto com uma pequena toalha. Depois encheu com leite um copo de plástico, deu um gole longo, limpou a boca com as costas da mão.
“Não tenho idéia”, disse o pardo. “Só mandaram fazer o serviço.”
Um dos italianos ficou olhando o sanduíche, abriu o pão, observou o recheio, analisando-o, fez uma cara feia, mas mordeu o sanduíche assim mesmo, enchendo a boca e mastigando de um lado só.
“Deve ter sido coisa muito grave”, disse o oriental. “A que horas está marcado o enterro?”
“Tem de estar tudo pronto às sete da manhã”, o pardo alertou. “O enterro vai ser às dez horas. Depois vamos dar um banho nele e perfumar.”
O outro italiano olhou o relógio. “Dá tempo”, disse.
“Deve ter mulher na jogada”, pontuou o oriental.
“Duvido”, disse um dos italianos. “Geralmente quando tem mulher envolvida, vai todo mundo pro sal, não sobra ninguém pra contar a história. Uma vez trabalhei num caso em que havia dois adolescentes, um garoto e uma garota que tinham sido testemunhas num assassinato. Foi todo mundo apagado, mas foi com bala porque eu não bato em criança nem em velho nem em aleijado nem em mulher. E também não bato em gente religiosa, bispo, arcebispo, coroinha, sacristão, padre.”
“Isso é coisa de grana”, disse o outro italiano. “Tentou dar o nó em alguém.”
“Pode ser”, disse o oriental. “É engraçado. Um cara branco, bem apessoado, bem vestido. Esse tipo de gente é pior que qualquer marginal de beco ou de morro.”
“Esses caras se divertem um bocado, aí fazem besteira e dão de cara com a gente”, comentou um dos italianos, caminhando pela sala, o sanduíche numa das mãos, intocado.
“Tem droga envolvida?”, perguntou o oriental.
“Deve ter”, disse o italiano que andava.
“Mulher, droga, dinheiro”, filosofou. “É melhor ser veado, puritano e pobre.”
O italiano riu, deu uma mordida num sanduíche. O oriental se aproximou de mim. “Esse cara não é veado nem pobre. Se fosse puritano escapava dessa numa boa, saía pela porta da frente. Esses caras ligados à religião são uns cínicos. Comem a mulher dos outros em nome do Senhor, exploram seus empregados em nome do Senhor, fodem a vida de meio mundo em nome do Senhor, mas são abençoados e vão levando a vida com tranqüilidade, casa com piscina, carro importado, bebida cara.”
“Ele não é puritano”, disse o pardo, que se mantivera calado quase todo o tempo, apenas ouvindo.
Enquanto eles comiam e conversavam eu buscava o ar. Fechei os olhos. Nessas horas é melhor ficar de olhos fechados, é melhor não ver nada, apenas ouvir. Tentei movimentar as pernas mas não consegui; minha boca estava seca, comecei a tossir, o que era um bom sinal. Tossi durante alguns minutos, expelindo o ar que se comprimia por causa das porradas, fui abrindo os olhos aos poucos, pude ver os quatro em volta da mesa. Um dos italianos ficou me olhando, movimentando de leve a cabeça, ele ainda não havia investido contra mim – era como se esperasse a sua vez, o momento em que sua força física seria adequadamente utilizada. Eu não sentia medo dele, como não sentia medo de nenhum dos outros três – nem do pardo, que se mostrava mais ameaçador justamente porque ficava falando no celular quase que todo o tempo, recebendo ordens, comunicando-se com o tal chefe, que queria saber como estavam as coisas.
“Como é o nome da figura?”, perguntou o oriental.
“Não sei”, disse o pardo, coçando a cabeça. Parecia preocupado. “Nessas horas é bom nem saber o nome.”
Um dos italianos – o que não havia tocado em mim, ainda – caminhou lentamente até o canto da sala, onde eu estava. Quase dois metros de altura, calculei. Braços longos e mãos grandes, ar profissional, barba bem feita. Encarou-me por alguns segundos, depois voltou ao grupo.
“Esse cara vai apanhar até cair, mas não vai morrer”, disse ele. “Vocês estão batendo no cara há mais de duas horas e ele continua aceso, nem desmaiou. Quem não desmaia com tanta pancadaria?”
“Eu também acho”, disse o oriental. “A gente pode dar um tiro na nuca dele, um tiro seco, e abafar o sangramento, é moleza. O homem vai ser enterrado de barriga pra cima, não é? Ninguém vai ver o buraco da bala, é um tiro só.”
“O chefe quer o trabalho de um jeito”, disse o pardo. “Você vai encarar o homem depois?”
O oriental recuou. “Vamos ficar nisso a noite toda?”
“O cara fica olhando pra gente”, disse o italiano que me atingira com pontapés. “Veja, parece que está debochando, teve uma hora que ele riu, eu acho.”
“Eu queria saber por que ele está aqui”, disse o oriental.
“Esse merda tá fodido”, comentou o italiano.
“A gente nunca sabe por que um cara é condenado, é assim que a coisa deve ser. Evita-se um monte de problemas”, alertou o pardo.
O telefone celular do pardo tocou novamente, e novamente ele se retirou. Os dois italianos iniciaram uma conversa animada, faziam planos, deviam ser parentes, embora não tivessem semelhança física, a não ser pelo tamanho do nariz, pontudo e viril. Foi a vez de o oriental se sentar sobre a mesa. Afastou as sobras dos sanduíches, tomou o resto do leite, ficou me olhando como se indagasse sobre o mistério que me mantinha vivo, após a surra que moera meu tronco. Ficou olhando, perguntando meu nome em silêncio, queria saber por que motivo estava ali surrando um indivíduo que sequer desfalecia, queria saber meu endereço, o que eu fazia, em que trabalhava, como levava a vida. Deixara-se tomar pelo ódio, mas isso não faz diferença agora. Poderia fazer antes, quando me trouxeram para cá sem explicações e começaram a me surrar. Um homem cheio de ódio não faz bem esse tipo de trabalho. Deixa-se levar pela paixão e, dessa forma, a vítima sempre tem uma chance.
Os italianos continuavam a conversar, mas agora em tom baixo, como se trocassem segredos. O pardo retornou. “O chefe quer saber como estão as coisas.” Os italianos se olharam, inquietos. O oriental continuou me olhando. “Vamos bater mais”, resolveu, pondo-se de pé.
Minha respiração voltara ao normal. Passei a mão várias vezes por meu tronco. A dor que eu não sentia mais no abdômen se estendera até o pescoço e o trapézio, como se duas grandes mãos comprimissem meu esterno. Levantei-me com calma e dificuldade, coloquei-me no centro da sala. Um dos italianos – o que não me atingira até então – aproximou-se e, resoluto, desferiu um soco potente na base do tronco, próximo ao umbigo, e um outro soco, imediato após, que fez meu reto abdominal quase desmanchar. Ele era bom. Melhor que o oriental e o outro italiano, mais eficiente, e com a vantagem de não estar cansado. Os dois socos me fizeram dobrar de dor. Ele esperou que eu me levantasse, que me pusesse em posição. O oriental e o outro italiano sentaram-se no chão, prontos para o espetáculo que iniciava. O pardo ficou de pé, celular na mão, observando com certa inveja e muita admiração a forma como o italiano trabalhava. Deu a volta por trás e me acertou três cuteladas bem localizadas no meu grande dorsal, todas no mesmo ponto e com rapidez invejável. Acertou meu rombóide maior com o calcanhar, logo após um rodopio que impunha muita força à investida. Isso me fez cair, minha visão ficou turva novamente, sentia minha musculatura virando farelo. Levantei-me mais uma vez, vi quando ele tirou a camisa e tensionou os músculos do braço, o tríceps contraído e o bíceps relaxado, depois o tríceps completamente esticado e relaxado e o bíceps encurtado e contraído. Exibia-se para si mesmo e para os outros. Fechou as mãos estalando os nódulos dos dedos e avançou sobre mim. Pude contar até o quinto soco, todos dirigidos ao meu peitoral, todos violentíssimos, como se pudessem expulsar o coração de meu corpo, todos os socos que me jogavam para trás. Caí no chão novamente. O oriental ofereceu-se para me segurar, mas o italiano recusou. O pardo continuava observando, seu celular não tocava mais – estava absorvido. Expeli do meu corpo uma mistura de saliva, sangue e fibras. O italiano pareceu satisfeito, estava indo bem. O oriental e o outro italiano sorriram. Estimulado pelo sucesso, o italiano não esperou que eu me levantasse: tirou os sapatos e, apenas de meias, pisou-me com violência várias vezes. Sua eficiência era assombrosa, sua técnica era apurada. Eu não tinha mais ossos nem músculos na região em que ele pisara. Comecei a vomitar sangue, ele havia conseguido, venceu-me.
“Agora vai”, disse o oriental animado, olhando o relógio.
O pardo aproximou-se dos outros dois, sentou-se como eles, pernas cruzadas em posição relaxada. O italiano deu várias voltas ao redor de meu corpo estirado.
“Está respirando ainda?”, perguntou o italiano sentado.
O italiano de pé não respondeu. “O cara é duro na queda”, disse o oriental. “Olha, eu nunca vi agüentar tanto.”
O italiano ajoelhou-se. Sabia que eu respirava e que minha morte seria lenta. Aproximou seu rosto do meu, abriu um de meus olhos com as pontas do polegar e do indicador. Passou os olhos por toda a extensão do meu corpo, respirou fundo, ele mesmo precisando de ar. Não podia desistir. Levantou-se mais uma vez, andou pela sala sem olhar para os outros três. Passou a palma da mão esquerda no punho direito fechado, socou a palma como fazem os lutadores de boxe antes de colocar as luvas. Se houvesse uma janela no aposento teria ido até ela, teria observado a noite e refletido um pouco, antes do golpe final. De minha parte não havia como levantar e encará-lo mais uma vez. O italiano retornou ao trabalho: ajoelhado mais uma vez, enviou a meu tórax uma série de socos poderosos, um depois do outro, seguidos, furiosos. Quanto mais ele batia menos dor eu sentia, ouvia apenas o ruído surdo das bordoadas, mas meu corpo não suportou mais, o sangue saía de minha boca em jatos, como um vulcão cuspindo cólera quente. Meu corpo começou a tremer, todos os músculos – ou os que ainda não haviam virado água e sangue – compunham um só espasmo. Muitos ossos haviam sido triturados pela violência de chutes e murros. O italiano, arquejante, se levantou, suado, e colocou a camisa, calçou os sapatos, bebeu água em goles espaçados, de vez em quando voltando os olhos para mim, tentando, ele mesmo, respirar. O pardo, o oriental e o outro italiano continuavam sentados, observando meu corpo finalmente sem vida, todos aliviados, com a sensação do dever cumprido. Todos poderiam, a partir daquele momento, relaxar. O pardo tomou o celular e iniciou uma ligação. O italiano que terminara o que os outros haviam começado acendeu um cigarro em comemoração, mas não sorria. Queria voltar para casa, descansar, assistir à televisão, tomar banho, já era madrugada. O pardo falou em voz baixa que o trabalho havia sido concluído, com sucesso, desligou o telefone. “Vamos embora”, disse, recolhendo as sobras de leite, água e sanduíches, espalhadas sobre a mesa.
“Você não sabe mesmo o que ele fez?”, perguntou o oriental.








on Jan 23rd, 2009 at 12:19 pm
Adorei o conto! Muito bem escrito e envolvente. Teve horas que cheguei a sentir o gosto do sangue na boca, misturado com saliva e algumas fibras.
Muito bom! Mas vou dizer que gostaria de saber o que ele fez. Acho que sou um pouco oriental. ;)
Abraços e obrigado pela leitura.
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Folhetim On Line
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on Jan 23rd, 2009 at 12:20 pm
Adorei o conto também, tive também a impressão de estar sendo esmagado pelos italianos, realmente foi um ótimo conto, estarei procurando seu livro nas livrarias para comprar.
Obrigado pela leitura e bom trabalho nos próximos lançamentos
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on Jan 23rd, 2009 at 12:21 pm
Fiquei curiosa também por saber o que ele fez. O conto é muito interessante, assim como o curta.
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on Dec 9th, 2009 at 10:45 pm
Entendi que não há indiferença sentida pela raça humana. Ela nos escapa.Somos todos sensíveis, cada um a seu modo edentro de suas possibilidades.
Bom conto. Gostei.
ML
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