Ainda o bom e velho Machado. Bem, um defunto de cem anos merece muito mais. Visitando a querida livraria Logos (propagandeio mesmo, mas sem jabá), encontro em uma de suas prateleiras um exemplar - em quadrinhos - de A Cartomante, o famoso conto machadiano cuja temática, mais do que a tragédia advinda de um triângulo amoroso, é o confronto inevitável entre as visões de mundo romântica e realista. É quase metalinguagem, que os quadrinhos, pelo que vi em passagem d’olhos, não consegue revelar. Não se pode exigir tanto.
Mas é assim mesmo. Contentemo-nos. Machado de Assis leva umas surras de vez em quando. O cinema é quem bate mais. Alguém viu Dom, do diretor Moacyr Góes, com Marcos Palmeira e aquela belezura da Maria Fernanda Cândido? Alguém viu a versão fílmica de A Cartomante, de Wagner de Assis e Pablo Uranga? Ok, não seja injusto, Grijó. O conto é apenas o ponto de partida - e ponto. Está certo. Fica fácil - e cômodo - criticar, mas o filme é de doer. Mas tudo está perdido? Não.
Minha consorte presenteou-me com O Conto Machadiano: uma Experiência de Vertigem, da psicanalista Lúcia Serrano Pereira. Geralmente torço o nariz para esse tipo de publicação. Explico por quê. Na maioria dos casos não consigo traduzir a complexa (e peculiar) linguagem dos psicanalistas. Talvez por falarem pouco e ouvirem muito, ao se dedicarem ao texto escrito, transformam-se em baluartes da incomunicabilidade. Abro exceção para Herr Freud, que escrevia como poucos. Lacan, por sua vez, deixa-me triste.
Mas não é sobre isso que quero falar, e sim sobre o livro. Ver com olhos alheios é uma experiência peculiar, que me isenta de responsabilidades - ou seja: tenho minha própria visão sobre alguns contos de Machado (A Cartomante, Missa do Galo, Noite de Almirante, O Enfermeiro), mas passo a saborear outra forma de lê-los, outro modo de reconhecê-los. Isso é bom e necessário. Os olhos escancaram-se, como se outras portas e janelas (ainda ocultas) se abrissem.
Se você (como eu) admite resistências à linguagem da psicanálise, relaxe! O texto é ligeiro, sem ser displicente. É objetivo, bem justificado, abre e fecha lacunas competentemente - além, claro, de levar em conta a essência do que vem a ser a literatura (e em especial a machadiana): a polissemia, daí não fechar questão, não tentar desvendar se a galinha veio antes do ovo. Ou o contrário. Aquela específica terminologia - para muitos, pedante - está lá, mas não é nada que anoiteça o texto ou faça o leitor naufragar. Ao contrário: ele pode dar bons mergulhos.
Dizem que o velho Sigmund leu Dostoievski, Flaubert e Balzac. Abriu e fechou Shakespeare, desnudando-o. Faltou-lhe a leitura de Machado de Assis - o que é uma ótima idéia para uma história. Um encontro entre os dois seria, no mínimo, curioso. Quem sabe não me arrisco?








on Nov 1st, 2008 at 6:36 am
Opa. O bom e velho bruxo dá um caldo psicanalítico mesmo. Muita coisa por trás dos panos, muita neurose, coisas escondidas, traumas, perversões (brandas, rsss). Um livro como esse, pelo que vc fala, deve buscar no findo do baú questões inerentes ao “humano”, né? O que era típico de M. de Assis, tão preocupado com a condição social dos homens. Vou até buscar na web mais informações sobre estudos de M. de Assis e psicanálise. Foram contemporâneos, mas o bruxo teve acesso às obras de Freud?
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on Nov 1st, 2008 at 1:56 pm
Olha, em Vitória já comprei em várias livarias, mas ainda não fiz nenhuma compra na Logos. Mas essa não é a questão.
Machado pode sim ter tecido bons textos se referindo às relações humans, que por sí só já passam a impressão de estudos psicológicos. Mas ele, certamente não é dos meus autores preferidos. Não gosto mesmo de sua leitura. Me desculpe…
Ah, ainda verei Dom e observo quanto aos seus comentários. Ma no momento me interesso mais pela recente Ensaios sobre a cegueira, que sugiro que comente por aqui em um de seus posts.
Valeu,
All3X
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on Nov 1st, 2008 at 2:25 pm
Aproximar Machado da psicanalise e da psicologia é algo recorrente. Ele foi um dos primeiros a transitar por esse terreno. É chamado constantemente de “analista da alma humana”. O bom é ver profissionais da área aceitando essa idéia.
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on Nov 1st, 2008 at 2:36 pm
Paco, até onde sei Machado não leu Freud, mas foi profundamente influenciado pelos estudos de Psicologia que envolveram o fim do século XIX. Mas suspeito que essa idéia que o Ed (aí, no último comentário) ressaltou, de “analista da alma humana”, seja uma coisa mais ligada ao tyalento dele que a influências científicas específicas. O cara era bom mesmo e, claro, seguiu a tendência do Realismo. Eça, Flaubert, Balzac, Dostoeivski, Tolstoi, Maupassant…todos esses caras foram pelo mesmo caminho, mas mantendo, evidentemente, características próprias.
Abraço.
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on Nov 1st, 2008 at 2:41 pm
ótimo teu blog, e grande post comentando sobre o Grande Machado de Assis e seus contos.Boa jogada essa do merchan sem o jabá.
Abraços velhinho !!
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on Nov 1st, 2008 at 3:39 pm
Os zóios são a porção mais externa do cérebro. Enxergar com zóio alheio porantoé meio como pensar…
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on Nov 1st, 2008 at 3:56 pm
não é só Machado que sofre com as interpretações do cinema, tem uma leva de autores que se roem nas covas.
Até Tolstoi já sentiu em seus restos mortais esse arrepio.
mas o trem é que este livro me parece uma boa opção. vou procurá-lo aqui em BH.
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on Nov 1st, 2008 at 5:11 pm
Sei que vão me apedrejar, mas acho Machado de Assis superestimado, pode crer. Tem umas coisas legais, algumas até que podem ser consideradas masterpieces, mas não consigo enxergar nele (nos escritos) essa genialidade que os críticos vêem. Pra mim, Eça de Queirós foi maior, e vou te dizer, numa boa (e sem titubear), Raul Pompéia rivalizou com ele e chegou a escrever algo que considero superior, que é O ATENEU, uma estória muito mis psicológica e contundente do que DOM CASMURRO, que é tão enaltecida pela crítica. Traumas de infância, neuroses, rituais de passagem, crueldde adolescente, psicologia pesada, está tudo lá, nas páginas de Raul Pompéia. E quase ninguém fala nele porque Machado de Assis o apagou do mapa literário brasileiro. Machado de Assis é bom, mas merece um pouco mais de oposiçao. Parece que virou “lugar-comum” elogiar.
Meus cumprimentos.
Celso Fromaggio
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on Nov 1st, 2008 at 5:13 pm
Ótima dica, mestre, para quem tem coragem de encarar.
Eu não tenho muito saco pros psicologismos da Academia. Essa autora é professora?
bjusssss
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on Nov 1st, 2008 at 5:41 pm
Celso, Raul Pompéia foi grande, mas acho que compará-lo com Machado é algo que não procede. Embora tenham sido contemporâneos, cada um escrevia de uma forma, e com estilos totalmente distintos, a começar pela ironia - que sempre foi um recurso que Machado aprimorou com o tempo e que Pompéia preferiu não usar, pelo menos não de forma tão expressiva. “O Ateneu” é um bom livro, a meu ver, mas, exceto pela época em que foi escrito, nada tem a ver com “Dom Casmurro” (que vc citou).
Há críticos de Machado. Vc não está sozinho. Há até gente que afirma que ele “roubou” idéias de Lawrence Sterne, o escritor irlandês autor de “Vida e Opiniões do Cavaleiro Tristan Shandy”. Machado não é unanimidade.
Abraço e obrigado pelo comentário.
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on Nov 1st, 2008 at 5:46 pm
Acho que não, Geovanna. Até onde sei, ela é presidente da APPOA (Associação Psicanalítica de Porto Alegre) e psicanalista.
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on Nov 1st, 2008 at 7:47 pm
Arrisque mesmo, valeria a pena, pelo menos para mim.
Fico fascinado com Machado, como um cara que tinha tudo para dar errado, soube usar da inteligência e competência e fazer belos contos.
Admirável.
Quanto ao livro indicado, tenho um pé atrás, acho interessante ver outros pontos de vista em uma discussão qualquer, mas quando se trata de Machado, onde cada palavra tem um milhão de significados, não sei,
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on Nov 5th, 2008 at 10:42 am
Eita!
Machado de Assis aos olhos da Psicanálise?
Deve ser fantástico!
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