Meu amigo Jets alertou-me sobre uma entrevista do cineasta Woody Allen na qual se falava de Machado de Assis. Tal entrevista interessa-me tanto por um quanto pelo outro, ambos ídolos meus, descobertos em fins dos anos 70, eu ainda imaturo para compreendê-los (e até hoje não sei se compreendo). Pois bem, a entrevista veio a público em 1996, e eu nem poderia imaginar que Allen lera Machado - Memórias Póstumas de Brás Cubas, em inglês. Há uma certa surpresa nisso, já que os brasileiros, grosso modo, ouviram falar do escritor carioca, mas poucos lhes conhecem as palavras. Eis trechos da entrevista, concedida a Geneton Moraes Neto:
Há pouco tempo, li Machado de Assis. Achei que é um escritor excepcional. Uma amiga me deu um livro de Machado de Assis- “Epitaph for a Small Winner”. Fiquei muito, muito impressionado. Dei o livro a meus amigos. Porque Machado de Assis não é bem conhecido (…) Achei Machado de Assis excepcionalmente espirituoso, dono de uma perspectiva sofisticada e contemporânea, o que é incomum, já que o livro foi escrito há tantos anos. Fiquei muito surpreso. É muito sofisticado, divertido, irônico. Alguns dirão: ele é cínico. Eu diria que Machado de Assis é realista.
Bom saber que há norte-americanos cujas referências brasileiras não são Pelé nem Gisele Bündchen, nem Tom Jobim, João Gilberto, Copacabana ou traseiros. Nada contra os itens citados, claro, mas Machado tem pouca mídia internacional. Merece muito mais. Falta-lhe um agente literário competente, dedicado, quase um romântico capaz de mover céus e montanhas para levar a olhos estrangeiros esse escritor ímpar.
Critiquei, há algumas postagens, adaptações fílmicas de textos machadianos. Mas há coisas boas, claro. O filme de André Klotzel, Memórias Póstumas, é divertido. Reginaldo Farias está bem posto. Há nele - e não somente no personagem - aquele cinismo que Woody Allen afirma estar ausente na visão de Machado. Pois eu discordo. É necessário cinismo, Mr. Allen, para suportar a realidade. Ou não? De fato, suspeito que o diretor norte-americano tenha-se identificado com o escritor brasileiro justamente porque ambos utilizam, em suas narrativas, os mesmos recursos: o deboche, a volubilidade, a ironia, a desilusão, o desnudamento do ser humano. Ambos mostram que nós, seres humanos, não valemos a pena. E, de fato, têm razão.









on Nov 19th, 2008 at 10:31 pm
A primeira vez que li Machado de Assim foi exatamente “Memórias Póstumas…”, me apaixonei pela forma como ele escrevia. Os capítulos curtos não me pareciam muito comuns para aquela época. A ironia em sua forma mais polida. Agora lendo seu post achei o máximo que uma pessoa como Woody Allen tenha tido em mãos um dos livros mais perfeitos da nossa história. Eu (ainda) acredito na literatura, eu (ainda) acredito que Machados e Clarices valem os sentimentos que nos provocam.
Adorei vir aqui e ler isso.
[Reply]
on Nov 19th, 2008 at 10:41 pm
adoro-o!!
belo blog abçs!
[Reply]
on Nov 20th, 2008 at 7:36 am
Acho que Woody Allen se identificou com Machado por uma similaridade de cinismo que cada um tem. É fato que, de uns anos para cá, Woody Allen anda pegando mais leve, mas não abre mão da acidez em seus filmes. Machado é sem dúvidas o “Dostoievsky” Brasileiro, só que mais irônico, o russo sempre me pareceu sisudo, filosófico e cinza como Moscou no inverno. Machado não, crítico, irônico, mas de um calor tropical que se choca com uma pretensa postura européia de sua época.
E por que Machado não alcançou o status que lhe era devido? Bom, por que depois do futebol como esporte favorito dos brasileiros, o segundo esporte é falar mal do Brasil… Se nós ainda não valorizamos, por que os gringos o fariam?
P.S.: Veja só, eu gosto de Saramago, mas acho que Machado de Assis e Guimarães Rosa tem muito mais bala na agulha do que ele… Mas que recebeu o prêmio Nobel foi ele.
Não se poderia fazer uma edição Nobel Póstuma? Rs
Seria fazer justiça.
[Reply]
on Nov 20th, 2008 at 9:07 am
Duas figuras que eu admiro muito, Machado e Woody. Talvez investigando de forma profissional a obra do cineasta encontremos elementos da literatura machadiana. É bom saber que Machado de Assis tem admiradores lá fora. É pouco, sei, mas quantas pessoas não compraram livros dele depois que leram a entrevista do Woody Allen? Até o foragido Salman Rushdie lê Machado, como mostra o elogio na capa da edição americana que você postou.
[Reply]
on Nov 20th, 2008 at 10:08 am
Assino em baixo e por todos os lados. Tudo lindo e de acordo.
[Reply]
on Nov 20th, 2008 at 10:09 am
Assinei tão lá embaixo que o “em” e o “baixo” acabaram se separando. Uma pena.
[Reply]
on Nov 20th, 2008 at 10:26 am
E os dois são ótimos! Woody Allen é mais escrachado, ao menos nos dois livros q li-lhe, mas o cinismo altamente refinado de Machado de Assis cai mto bem tanto nos enredos qto na estrutura que adota.
[Reply]
on Nov 20th, 2008 at 3:04 pm
Na minha opinião seu blog deveria ser visitado por vários estudantes para que possam aumentar sua capacidade de conhecimento cultural, musical e literario.
Abração
[Reply]
on Nov 20th, 2008 at 7:26 pm
Sensacional.
Gosto de saber que Woody Allen soube reconhecer em Machado de Assis o mérito. todos os romances de Machado de Assis são baseados no cinismo. Tive um professor que detestava quando se dizia que Machado era pessimista. ele dizia, pessimista é vc. Machado é realista, vê as coisas como são, sem escamoteamentos, sem firulas. Tá certo.
Adoro vir por aqui, Grijó. Vc leu Memorial de Aires? Estou lendo…bjokas
[Reply]
on Nov 20th, 2008 at 7:27 pm
Ah, by the way…qual o melhor livro de Machado pra vc?
[Reply]
on Nov 20th, 2008 at 7:31 pm
Gosto de 3 da fase realista dele, Vanessa. “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Dom Casmurro” e “Quincas Borba”, que é meu preferido. Acho que é o mais bem acabado, mais bem solucionado. Machado no auge.
Li “Memorial de Aires”. Gosto, mas nem tanto, embora reconheça que é um livro acima da média. O problema é que não consigo deixar de compará-lo aos outros 3. “Esaú e Jacó” também considero irregular, mas Machado é Machado.
Bjo.
[Reply]
on Nov 20th, 2008 at 8:18 pm
com certeza uma coisa da pra afirmar sobre woody, as pessoas assistem a ele não pelo que vão ver, mas pelo que vão ouvir!
aproveitando..lembrei disso http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,ERT14559-15220-14559-3934,00.html
vê-se pela data que saiu tem um tempo,ja, mas só lembrei de mostrar hoje ;D
acho que vai lhe interessar!
valeu!
[Reply]
on Nov 21st, 2008 at 5:28 am
Machado de Assis… muito bom gosto o dele.
Será q ele conhece mais?
[Reply]
on Nov 22nd, 2008 at 3:44 am
dois monstros sagrados!
[Reply]
on Nov 25th, 2008 at 4:40 pm
Você está certo Grijó. É preciso de muito cinismo para sobreviver e Machado entendia muito do riscado. Interessante saber que Woody Allen se encantou pelas Memórias Póstumas (aliás, que tradução é essa hein?). Acho Machado um ator universal, pega na ferida e é difícil não se identificar com a hipocrisia, a falta de caráter e, claro, o cinismo das personagens dele.
Gostei também da adaptação de Memórias Póstumas para o cinema. Sobretudo para tornar um ícone as pernas cochas da pobre Eugênia.
[Reply]
on Dec 1st, 2008 at 2:04 pm
Fala!
Um grande amigo, chamado Paulo, está fazendo doutorado em uma universidade dos E.U.A, em Purdue especificamente. Lá no departamento dele, segundo me contou, há um professor aficcionado por Machado de Assis, Paul Dixon, chegando a ser um dos maiores entendidos, no mundo, do bruxo. É, grande parte por mérito desse professor, um de nossos escritores mais lidos por lá.
“Mundado de pau pra cavaco”, dá uma olhada no blog desse seu amigo, que finalmente, resolveu “dar a cara a tapa”.
http:/aguasanitariaetoucinho.blogspot.com
p.s> a adaptação da obra para o cinema só vale por duas cenas: todo a tomada da eugênia, citada no comentário de Michell Niero; e a cena de sexo, impagável graças as caras e bocas do Reginaldo Faria, de quem não gosto. Destaque para a péssima escolha de Sônia Braga para o papel de Marcela, posto que já parecia ter bexigas quando nova; e para a cena do delírio, que ficou ridículo.
[Reply]
grijo Reply:
January 28th, 2009 at 1:07 am
Fui ao blog e gostei muito, Felipe.
Valeu.
[Reply]