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Dou-lhe três, Fernandinho!

O Rockefeller Center, o mitológico complexo imobiliário da Midtown Manhattan, foi vendido há quase vinte anos por 851 milhões de dólares. Valia muito mais, mas 85 herdeiros, bisnetos do velho J. D. Rockefeller - o magnata monopolista do petróleo -, queriam grana. Como não eram (e não são) chegados a um esforço (seja físico, seja intelectual), dilapidam vagarosamente o patrimônio que o velho criou. Claro: serão necessárias algumas centenas de anos para que isso aconteça, mas, bem, a grana é deles, e estamos falando de finanças.

Leio na Folha de S. Paulo que os herdeiros de Fernando Pessoa - o extraordinário poeta modernista português - resolveram leiloar cartas, textos inéditos, esboços de poemas, anotações. Há censuras quanto a isso. Intelectuais e puristas protestam, como se o patrimônio do poeta pertencesse ao público português - e ao mundial -, como se leitores e ex-leitores tivessem alguma posse sobre a criação do gênio. Não têm. A lei é clara e os herdeiros beneficiam-se. Há uma certa sacralização (bastante hipócrita, na verdade) quanto à arte. Um edifício pode ser vendido; um poema, não. Leiloam-se quadros e cobram-se fortunas por um ingresso do Bolshoi ou na Traviatta, mas um manuscrito de shakespeariano pertence aos ingleses. Balela.

Arte é mercadoria. Os renascentistas sabiam disso; os iluministas também. As revoluções francesa e industrial fizeram a festa, tornando a arte acessível - e, portanto, pronta para ser comprada e vendida. Isso não a diminui, com certeza. E não havia qualquer constrangimento no comércio de arte, fosse ela escrita, visual ou sonora. Sim, certo. A questão é a voracidade com que se comercializa. O grande problema, a meu ver, é estabelecer valor para o produto. Quanto vale um livro, um quadro, uma escultura, uma sinfonia? Estabelecidos os parâmetros, que seja feita a transação. E que pertença àquele que der o lance mais alto. E os japas estão prontos a levantar os braços.

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17 Comentários on “Dou-lhe três, Fernandinho!”

  1. #1 Luccannus
    on Nov 22nd, 2008 at 4:43 am

    Gostei bastante da matéria, embora ache que a Arte é bem mais que mercadoria: é expressão divina dos sentimentos que vão na Alma do autor.
    .
    Eu não gostaria de ver algum escrito meu, que foi feito tão-somente com o objetivo sacrossanto de informar, passar meu sentimentos, etc, sendo vendido como se ganhar dinheiro tivesse sido o impulso primeiro de meus trabalhos.
    .
    De qualquer forma, a Arte tem de ser divulgada, sempre. No entanto, não é por isso que venderemos até as cuecas de Shakespear, Mozart, Da Vinci…
    .
    .
    Grande abraço. Fique com Deus, na Paz.
    ________

    http://horateologica.blogspot.com/

    [Reply]

  2. #2 Adriano Axel
    on Nov 22nd, 2008 at 8:18 am

    A capacidade de apego das pessoas não tem limite. Uma certa vontade de segurança, também, que não sei nem bem como explicar… Mas consigo muito bem imaginar várias pessoas se contorcendo com a notícia do leilão das posses de Pessoa. E aposto que a grande maioria deles jamais teria contato com o material, seja ele leiloado ou não… Também não boto minha mão no fogo pra defender que sejam todos desassossegados leitores do tal. Mas a idéia de que uma possibilidade se vai, não importando o quão remotas são as chances de que se queira usar tal possibilidade, fere nossa alma em algum recanto bem selvagem.

    - Vão leiloar originais do Pessoa.

    - É um absurdo! Isso pertence à humanidade! E se as pessoas quiserem ver o material?!

    - Você iria lá ver o material?

    - … e se eu quisesse?

    [Reply]

  3. #3 Milton Ribeiro
    on Nov 22nd, 2008 at 10:47 am

    Perfeito, Grijó.

    Pode ser vendido. Não prejudica a ninguém. Quem vai ler os originais?

    Talvez o que preocupe os “intelectuais” seja a divisão de um espólio que poderia servir à historiadores e que tais. Mas isso é relativo. Se o possível japa vencedor comprometer-se a dar acesso a quem queira fazer a revisão…

    Abraço.

    [Reply]

  4. #4 Matyah
    on Nov 22nd, 2008 at 12:20 pm

    Ei Grijó.
    Muito bacana o post. Concordo plenamente que os direitos de uma obra pertencem ao autor e não a uma nação e blablabla. Também concordo, para a infelicidade dos verdadeiros apaixonados pela arte, que uma obra por direito pertence aos herdeiros ou a quem a possua, seja para expeculação seja para satisfazer uma vaidade egoista. Mas tenho que discordar de que arte é mercadoria. Na verdade, pra mim, pelomenos, a partir do momento em que ela é produzida com esse intuito, por mais incrível que seja, imediatamente deixa de ser arte. Claro que terá muito valor, e não é financeiro que eu digo, mas ainda sim acho uma pena que isso aconteça.

    [Reply]

  5. #5 Tania Montandon
    on Nov 22nd, 2008 at 12:32 pm

    Nunca ouvi falar de um BOM artista que soubesse lidar com dinheiro

    bjos

    [Reply]

  6. #6 All3X
    on Nov 22nd, 2008 at 3:41 pm

    Sempre venho aqui, e quando vejo que não tenho bagagem suficiente para comentar, não comento. Melhor do que falar besteira (se bem que às vezes elas saem assim mesmo).
    Mas dessa vez você surpreendeu. Ótima a reflexão.
    Muitos realmente criticam o ato, pois querem que a arte permaneça como que sacralizada. Mas na verdade não deixa de ser o interesse de mantê-la entre a elite que detém o acesso a ela. Ou puro orgulho desenfreado…
    Com o reancimento, e a revolução industrial, como bem citou, a arte chega mais perto da grande população. Afinal, o função da arte deve ser a de aproximar o público a toda forma de pensamento. E digo TODO o público e TODA forma de pensamento.
    O comércio aqui, no entanto, não deve servir de barreira, de monopolização do conteúdo, de impedimeento do restante da população de ter acesso a essa produção.
    A questão é complexa, por isso necessário a reflexão.
    Valeu Grijó,
    All3X

    [Reply]

  7. #7 Victor
    on Nov 22nd, 2008 at 4:21 pm

    Adoro ele. Um dos poetas brasileiros que são os melhores.

    [Reply]

  8. #8 David Cohen
    on Nov 22nd, 2008 at 6:36 pm

    Concordo que os manuscritos, assim como os direitos autorais, fazem parte do espólio do finado poeta. Entretanto, a produção artística não pode ser tratada como um patrimônio jurídico qualquer. E efetivamente não é. Para isso, o Direito criou o instituto do tombamento, em que o Estado intervém na esfera jurídica privada para proteger a memória cultural de um país. Assim, o proprietário não pode, em nome de interesses egoísticos, usar e fruir livremente de seus bens se estes traduzem interesse público por estarem atrelados a fatores de ordem histórica, cultural, científica, turística ou paisagística. Acredito que, à semelhança do Brasil, exista no Direito Português a figura do tombamento. Ainda há tempo de preservar a obra de Fernando Pessoa da urgência de dinheiro de seus sucessores.

    [Reply]

  9. #9 Fábio
    on Nov 22nd, 2008 at 10:19 pm

    Existe arte, existe indústria, existe arte na indústria, e não há mal nenhum que exista indústria na arte. Os pobres escritores, músicos, pintores… precisam sobreviver. Ou será que eles vão viver (só) de poesia?

    [Reply]

  10. #10 Leonor Silveira
    on Nov 22nd, 2008 at 10:57 pm

    Discordo.
    A arte verdadeira, eterna, pertence à humanidade. tornase patrimônio daqueles que sabem apreciá-la, e não de um grupelho consanguíneo que só quer se dar bem em cima da produção intelectual de seus antepassados.
    Deveria haver leis que protegessem essa exploração indevida.

    Att
    L. Silveira

    [Reply]

  11. #11 Grij
    on Nov 23rd, 2008 at 7:11 am

    Luccannus, respeito o que vc disse, claro.
    Mas e quanto à profissão de escritor? Por que não se pode escrever para ganhar dinheiro?
    Dia desses assisti a uma entrevista com Luis Fernando Verissimo na qual ele afirmava que escrevia por dois motivos dinheiro e prazer. E deixou no ar, de forma irônica, qual dos dois motivos era prioritário.
    Não vejo mal algum em escrever unicamente para ganhar grana. O consumidor/leitor dirá se vale ou não a pena.
    Abraço.

    [Reply]

  12. #12 Grij
    on Nov 23rd, 2008 at 7:14 am

    Eu é que agradeço seu comentário All3x.
    Valeu mesmo.

    [Reply]

  13. #13 Grij
    on Nov 23rd, 2008 at 7:17 am

    Achei interessante sua intervenção, David.
    Deixo, inclusive, aqui, o link para quem se interessar no assunto:

    http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=486

    Valeu.

    [Reply]

  14. #14 Grij
    on Nov 23rd, 2008 at 8:46 am

    Mas há, Leonor.
    Só que há limites para tudo, e os direitos dos herdeiros têm de ser respeitados.
    E o que vc chama de “arte verdadeira”?

    [Reply]

  15. #15 Cássia
    on Nov 23rd, 2008 at 9:15 am

    e se ele não quinsesse vendê-las? Será que meus filhos herdariam minhas cartas de amor?

    [Reply]

  16. #16 All3X
    on Nov 23rd, 2008 at 10:17 am

    Opa, Direito é minha área,
    vou dar uma olhadinha por lá.

    [Reply]

  17. #17 Bruno
    on Nov 23rd, 2008 at 8:04 pm

    “Arte é mercadoria”
    A coisa não é bem assim.
    As patentes de invenções expiram com 20 anos e eu acho que nas artes não deveria ser muito diferente disso ( talvez 40 anos, mas não indefinidamente, como práticamente é hoje).
    É importante que preservemos o “domínio público”, se continuar do jeito que tá, tudo vai estar sob copyright. Copiar e modificar trabalhos de outros artistas é fundamental para uma ambiente artístico saudável. Não se pode exagerar na proteção ao copyright.

    [Reply]

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