Pois é. Já faz algum tempo que não escrevo sobre jazz. Então lá vai: assisti ao devedê com o show televisado de Anita O’Day na capital japonesa, em 1963. Bem, você pode perguntar: quem diabos é Anita O’Day? Pois eu respondo que, com Julie London e Blossom Dearie, ela forma a trindade branca do jazz vocal feminino. E, por favor, não há qualquer manifestação racista em minhas palavras. Tenha dó! Pouca coisa é mais contraditória no jazz do que racismo.
Anita é o tipo de cantora de quem se deve falar pouco. É preciso ouvi-la, e com atenção redobrada para não perder um só fonema que, diga-se, ela pronuncia com uma clareza de causar inveja a Frank Sinatra. Claro, claro: há quem considere seus envolvimentos horripilantes com heroína e quantidades atlânticas de álcool mais importantes que sua música. Eu, não. Para mim é a voz que faz curva, sinuosa, que arrebata como se sussurrasse um pecado ao ouvido do puritano. Anita é capaz de devassar. O show é um achado - tanto na parte vocal quanto na instrumental. O que ela canta? Honeysuckle Rose, Bewitched, Night and Day, Tea For Two e Love For Sale. E isso é só uma amostra porque o show tem 15 músicas, quase todas clássicas.
E o time que a acompanha? Bem, Robert Corwin está no piano (em seis faixas), e isso já quer dizer um bocado. Seu toque à Tristano cai bem com a voz límpida de Anita. E a surpresa (pelo menos para mim): Toshiyuki Miyama e The All-Star Orchestra, sem contar Takeshi Inomata & His West Liners. Aos olhos de um preconceituoso (como eu), ver os japas mandando bem na música essencialmente norte-americana é, no mínimo, algo surpreendente. Preste atenção aos dois saxofonistas que a acompanham em Tea for Two. Muito, muito bons.
Anita O’Day não falha. É boa de se ver e ouvir. Bewitched, por exemplo, ela canta sentada, tendo nas mãos um copo de bebida indefinida. Em Sweet Georgia Brown duela sensualmente com os sopros, movendo o corpo de forma que sugere o pecado original. E sorrindo o mais belo sorriso do jazz feminino. Os japas tiveram sorte: puderam tê-la por perto.
Eis AQUI seu website. Para ouvir (e ver) Honeysuckle Rose, clique AQUI. Para ouvir (e ver) Stella By Starlight, clique AQUI.









on Nov 25th, 2008 at 3:14 pm
“há quem considere seus envolvimentos horripilantes com heroína e quantidades atlânticas de álcool mais importantes que sua música.”
Lembrei de várias coisas. primeiro da veja com o fábio assunção semana passada.
depois eu lembrei da maísa cantando “demais”. Preferi a segunda imagem mental, primeiro por que gosto da música e depois por que essas coisas aí me incomodam.
Não sei se é uma besteira grande demais, mas eu ainda acredito naquela historia trágica de que o autor morreu e coisa e tal. se ela canta, não me importa o que ela beba nem injete. ela não é do meu convívio social e nem minha amiguinha de fofocas.
Pra mim importa muito mais a música que o resto. Como também importa mais a poesia e as telas e qualquer produto.
Além do mais, eu não tenho nada com isso.
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on Nov 25th, 2008 at 3:16 pm
Eu conheço esse DVD…é maravilhoso, mas o show é deste tamaninho, né? …rsrsrsrs.
Anita O’Day era uma das cantoras preferidas de meu pai. Curtia ela e Billie Holliday. Sabia que ela esteve no Brasil?
Adorei seu blog…fale mais sobre jazz.bjo.
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on Nov 25th, 2008 at 3:40 pm
O show é curto mesmo, Cláudia, assim como as músicas. Não há bate-papo, interação com a platéia (até porque não há uma). São as músicas, unicamente.
Li uma entrevista dela na Jazz+ em que ela afirma não saber que esteve no Brasil, mas esteve sim, em 1984. Estava com 65 anos. Na entrevista ela dá uma esnobada no público brasileiro. Chega a ser divertido.
Mas eu falo muito sobre jazz, no Ipsis.
É só checar.
Abraços.
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on Nov 25th, 2008 at 4:33 pm
uf…pra variar não conheço a moça…
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on Nov 25th, 2008 at 4:52 pm
Deve ser ótimo. Ouvirei com certeza. Mas, pelo menos por enquanto, minha cantora é a Billie.
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on Nov 25th, 2008 at 5:21 pm
Vai nos links que vc conhecerá, Molly.
Vale a pena.
Abraço.
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on Nov 26th, 2008 at 1:33 am
Só por curiosidade: qual esnobada no público brasileiro ela deu em sua entrevista, Grijó?
Vou procurar conhecê-la também, pois sinceramente meu nível de intelectualidade musical é um zero à esquerda.
Claro, um estilo esteriotipado atualmente é o que geralmente se ouve por aí.. Fazendo caber a nós procurar pelo jazz.
Normal, é o que ocorre em tudo( ou me corrija) relacionado à nossa “top” Globo.
Com relação a Anita o’Day, espero daqui a 3 semanas buscar ouvi-la.
Até Grijó.
Ah, quase esqueci de comentar sobre seu blog, já que é a primeira vez que passo por aqui.
Nào cheguei a explorá-lo muito, mas, pelo que vi, gostei. Abre espaço a comentarios sobre assuntos não muito comuns aos “nossos”, fazendo-nos procurar pelo desconhecido.
No mais, caso pense contrário alguma vez, se não se importar, falarei.(Igual seus comentários “críticos” à Vila Velha)
Já é tarde e tenho aulas de revisão amanha de manhã.
Repetindo..até mais.
Ps: Janaína 3M2- Vila Velha - também comentei no “post” anterior e não dei essa indentificação.
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on Nov 26th, 2008 at 5:31 am
A esnobada, Janaína, resumiu-se ao fato de que o entrevistador (ou entrevistadora)disse que o público brasileiro gostava muito dela, apreciava seu suingue e sua música como um todo, e ela perguntou o que vinha a ser “brasileiro”.
Muitos ficaram para morrer.
Achei divertido justamente porque não levei a sério.
Sinta-se à vontade para comentar o que quiser, Janaína. Será muito bem-vinda.
Abraços.
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on Nov 26th, 2008 at 5:43 am
A Jezebel do jazz…vc mencionou as relaões dela com drogas, né? Muito louca mesmo.
Gostei dos links no Youtube, e gostei muito de Stella by starlight. Adorable!
Kisses.
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on Nov 26th, 2008 at 10:36 pm
A trindade branca com Blossom Dearie e Julie london? Hummmm…e Rosemary Clooney e Annie Ross? Duas tentações tb, não?
Gostei da postagem da Jezebel. A Melissa tem razão…Anita era infernal, merece o epíteto de bruxa..hehe
Até.
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on Nov 26th, 2008 at 10:48 pm
Júlio, dê uma olhada nisto:
http://ipsislitteris.opensadorselvagem.org/a-voz-branca-de-annie-ross/
Aprecio por demais a Annie Ross. Gosto muito da Rosemary Clooney. tenho vários discos dela, inclusive o clássico em que ela canta músicas do Johnny Mercer.
Mas mantenho a palavra. A tríade é formada por outras três.
Abraço.
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on Nov 27th, 2008 at 6:58 pm
No último Festival do Rio passou uma cinebiografia dela, chamada Anita O’ Day - A Vida de uma Cantora de Jazz. Não acredito que vá ter carreira nos cinemas, além de demorar um pouco a chegar às locadoras, mas fica a dica.
Outra coisa: os posts sobre jazz são ótimos, mas quase não vejo vc falando sobre a rapaziada black do Soul, Otis, Sam Cooke (o único que me lembro de já ter visto por aqui), C. Mayfield, Marvin Gaye, Stevie Wonder… Levanta o moral dessa galera aí! Umas recomendações também são sempre bem-vindas.
Abraço
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on Nov 27th, 2008 at 7:11 pm
Samuel, li sobre esse documentário e fiquei curioso, até porque, segundo a fonte, deu-se menos importância aos escândalos com as drogas e mais à música dela, que é uma beleza.
Quanto ao soul, meu caro, coincidências há.
Tenho ouvido um bocado de Stevie Wonder, a quem considero um dos grandes artistas do século XX, na música. E comprei - mas ainda não ouvi - a trilha sonora de Superfly.
Filme razoável com ótima música.
Abraço.
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on Nov 27th, 2008 at 8:05 pm
‘Ah, muito bom seu blog. Gostei dos seus textos. Parabéns!’ (rs)
Eu sei que é um saco receber esse tipo de comentário. Mas, O seu blog é realmente muito bom, eu gostei e quero lhe parabenizar e adicioná-lo aos meus favoritos.
Tinha tantos posts interessantes: Leminski, Pessoa, Secessão, Woody Allen… Qual escolher para comentar?
Optei pela música de preto de Anita, que, ‘apesar’ da cor da sua pele, não conseguia negar as suas raízes do jethburg de Chicago!
A limpeza de sua voz me agrada tanto quanto a sujeira da de uma Nina Simone - ou de um João Bosco, que estou ouvindo agora!
Seu post me motivou a consumir um pouco mais de Anita! Logo de início, o título chamativo e frases provocadoras como ‘Pouca coisa é mais contraditória no jazz do que racismo’***, me fizeram viajar por boa parte do seu conteúdo minutos a fio.
Finalmente escritas adultas nessa blogsfera dominada por ‘aborrecentes’ e fanáticos. Até logo!
***Interessante como vc se justificou por escrever ‘trindade branca’, mas não por ‘japas’. (rs) Recentemente fui vítima desse ‘pisar em ovos’ em meu blog. Vide os posts sobre o Pelé e Censura. Vai lá!
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on Nov 28th, 2008 at 1:57 am
O Songs in the Key of Life do Stevie também tá rodando direto no meu som. Esses dias fiquei sabendo que foi ele quem abriu a turnê americana dos Rolling Stones em 1972 - divulgando o Exile on Main Street -, o que só justifica minha visão de que os Stones nunca foram tão pretos como nesse disco duplo. Não é à toa que é meu preferido da banda.
E o Superfly é clássico, soul da melhor, ontem mesmo vi uma reedição em vinil 180 gramas, lacrada, aqui no Rio para vender, $120 pila. Agradeci de joelhos aos corsários virtuais por terem me propiciado essa belezura de graça, é uma sonzeira (e eu nunca vi o filme, aliás).
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on Nov 30th, 2008 at 9:33 pm
Sou colecionador da revista Jazz+ e tenho essa entrevista. Ela realmente esnoba o Brasil, mas muito por conta de sua falta de senso. Meio desnorteada ela está. Não faz por mal…o próprio entrevistador diz, a certa altura, que não se deve levá-la a sério.
É assim:
O cara da Jazz+ pergunta: “Você tem alguma lembrança de quando tocou no Brasil, em 1984?”
Ela responde “Eu toquei no Brasil? Não me lembro disso. Lembro de ter tocado no Japão, não lembro do Brasil.”
E quando o entrevistador fala em Tom Jobim:
“Nem de Tom jobim vc se lembra? Isso é curioso, você chegou a gravar uma composição dele, Wave.”
“Não”, diz ela.
Doida, isso sim.
Mas uma grande voz.
[abs]
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on Nov 30th, 2008 at 9:36 pm
É isso aí, Fernando. A revista - agora fui checar - tem na capa a Norah Jones. “O Efeito Pop”.
Valeu.
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grijo Reply:
January 28th, 2009 at 1:06 am
Mas não sei se era doida. Só desligada, não?
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