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Gênios humildes

Eu não sou artista suficiente e nem comercial o suficiente e, no entanto, alguns dos meus filmes são bons por acidente e até rentáveis (…) Minha sensação objetiva é que não atingi nada significativo artisticamente. Não digo isso com tristeza. Sinto que não dei nenhuma contribuição real ao cinema como Scorsese, Copolla ou Spielberg. (…) Não exerço nenhum tipo de influência, meus filmes são feitos com orçamentos modestos que não abala em nenhum sentido o mundo do show. Sou um piadista do Brooklin que teve muita sorte. Quando eu era menino, eu via 14 filmes por semana. Assim consegui viver entre homens interessantes, mulheres bonitas e citações dramáticas. Ah, e às vezes, conseguia sair com algumas atrizes!

São palavras de Woody Allen, retiradas do mais recente livro do jornalista Eric Lax, Conversations with Woody Allen: His Films, the Movies, and Moviemaking. Li uma pequena crônica do cineasta Domingos de Oliveira em que ele chama Allen de gênio humilde. Segundo ele, “a inteligência pressupõe a humildade”. Não sei o que isso significa. Não sei se existe relação entre os termos. Picasso não era humilde. Chaplin também não. Nem Cole Porter, Noel Coward, William Faulkner, Wallace Stevens ou Stanley Kubrick, pedantes notórios. E só citei figuras do século XX. É gente de genialidade e importância incontestáveis.

O gênio sabe que é gênio – aliás, essa percepção corrobora o fato. Claro que Woody Allen sabe o que ele significa para o cinema, assim como sabe que tem público cativo, fiel como um evangélico. Cinema é coisa cara. Em Hollywood e arredores, não se investe sem que haja retorno, sem que o filme se pague. É o mínimo. Os filmes de Woody Allen se pagam, até porque não são muito expensivos. Nao há efeitos especiais e, segundo consta, atores são capazes de pagar para figurar neles. Sinceramente? Woody Allen sabe o que significa para quem assiste a seus filmes.

Ainda não assisti a Vicky Cristina Barcelona, mas O Sonho de Cassandra, seu penúltimo filme, é, a meu ver, mal resolvido. Parece ter sido feito às pressas. Um gênio também erra, o que não lhe confere humildade obrigatória. Aprender com os erros não é prerrogativa dos humildes, mas daqueles que se movem pelo bom senso, e, em muitos casos, sabem que é questão de sobrevivência. Lendo a crônica de Domingos de Oliveira – na qual cita o ótimo Zelig, meu filme preferido, de 1983 -, penso em Woody Allen como aqueles diretores essenciais, que fazem o mundo ficar melhor.

Só para constar: Beethoven, Rembrandt e Michelangelo sentiam-se superiores a quaisquer humanos. Até onde se sabe, eram irascíveis, intolerantes com a burrice, autoritários e ranzinzas. Ninguém precisa ser assim, claro, mas a pergunta fica: pode-se imaginar a arte e o mundo sem eles?

E sem Charlotte Rampling?

28 Comentários on “Gênios humildes”

  1. #1 Lauro Madeira
    on Dec 1st, 2008 at 4:33 pm

    Ele estsava sendo irônico…é um gozador. Li a biografia do WA, feita pelo Eric Lax. Ele ama a Europa tanto quanto ama Manhattan. Sei que fugi do assunto..rsrsrs…gênio, sim, mas Zelig não é seu melhor filme, não. Prefiro Annie Hall.
    E os gênios podem ser pernósticos.
    Até mais.

    Reply

  2. #2 Trujillo
    on Dec 1st, 2008 at 4:53 pm

    Nao, nao se pode imaginar arte sem eles. Seu post eh bem interessante. Admiro Woody Allen. No entando nao acompanho a vida e as abras com afinco. Prstarei mais atencao agora. Valeu por aticar meus pensamentos.
    Abrcs
    Trujillo

    Reply

  3. #3 All3X
    on Dec 1st, 2008 at 8:05 pm

    Então, pelo visto Woody Allen é um gênio que busca disfarçar a própria genialidade.
    E concordo com você, inteligência não pressupõe humildade. Talvez sabedoria sim, pois considero valores distintos, sendo o último mais elevado.
    Seriam então certos ‘maus necessários’ a presença defiguras que possuem muito a contribuir com a arte, mas que possuem personalidade forte?

    Reply

  4. #4 Tálib
    on Dec 1st, 2008 at 10:12 pm

    Grijó,
    Pouco conheço de cinema, por opção própria. Não gosto.
    Mas, independente do que seja, Woody Allen se saiu um ótimo propagandista. Parecer ser humilde para sobressair é uma tática velha.
    Talvez o “parecer humilde” possa ser também uma técnica de defesa, contra possíveis críticas. Dentro de sua própria crítica, ele é pedante…ou seja, sabe que é bom (pelo que você fala, pois não entendo nada de Woody Allen – nem quero) e se finge de morto, de inexpressivo. Me parece a famosa “falsa modéstia”.
    Beethoven pedante??? Com todo o mérito. Burrice e limitação são mesmo dignas de pena, sobretudo quando vem daqueles que têm condições e oportunidades de escutar e ler o que é bom, mas preferem dar ouvidos a Paulo Coelho, Daniel Goleman, Sidney Sheldon, Alexandre Pires, Ira, Paralamas do Sucesso, Pity e Ana Carolina, dentre tantos desprezíveis.
    Vou mais longe: se eu tivesse composto somente o segundo movimento da Sinfonia Eroica, acho que quem pareceria humilde perto de mim seria o próprio Beethoven!

    Reply

  5. #5 Heloisa
    on Dec 2nd, 2008 at 5:42 am

    Assista Vicky Cristina Barcelona!

    Reply

  6. #6 Tania
    on Dec 2nd, 2008 at 8:55 am

    Ele parece ser uma pessoa sofrida, carismática, honesta. Mas tento gostar dos filmes dele, porém pra mim são pedantes, chatos, como se ele usasse isso como válvula de escape pra expor suas neuroses e é o único que todo mundo gosto menos eu.

    rs
    beijos

    Reply

  7. #7 gugala
    on Dec 2nd, 2008 at 12:53 pm

    Gênio total. Quantos filmes “ruins” dele vc já viu?
    Eu, nenhum.
    Zelig tb tá no topo pra mim.
    abç

    Reply

  8. #8 Will
    on Dec 2nd, 2008 at 1:50 pm

    Aí nesta aépoca de Stardut Memories charlotte Rampling está um colosso…linda demais.
    Lembra dela em Orca? Ou naquele filme em que ela se encontra com o torturador dela? Esqueci o nome…rsrsrsrsr

    Reply

  9. #9 Grij
    on Dec 2nd, 2008 at 1:54 pm

    “O Porteiro da Noite”, Will. Com Dirk Bogarde. Filmão.
    e claro que me lembro dela em “Orca, a Baleia Assassina”, em que ela faz a oceanógrafa. Bonita mesmo.

    Reply

  10. #10 Avassaladoras Rio
    on Dec 2nd, 2008 at 10:36 pm

    Querido amigo avassalador…
    meu primeiro contato imediato com Woody foi numa comedia chamada no Brasil de “O assaltante bem trapalhão”… e numa cena muito engraçada, ele era prisioneiro e esculpia uma arma numa barra de sabão pintada com graxa de sapato… na fuga, já de frente ao portão ameaçando um guarda… a arma dissolveu-se em espuma!!!
    ri muito… e fiquei seduzida por woody… meu sonho de consumo é assisti-lo tocando clarineta em NY.
    Venha nos visitar tb.
    http://avassaladorasrio.blogspot.com

    Reply

  11. #11 Oswaldo
    on Dec 2nd, 2008 at 10:41 pm

    Esta Charlotte é a que foi casada com Jean Michell Jarre? Vi um filme com ela, acho que A Piscina…

    Reply

  12. #12 Grij
    on Dec 2nd, 2008 at 10:49 pm

    O filme é “À Beira da Piscina”, Oswaldo, em que Charlotte Rampling faz o papel de uma escritora de livros policiais. Acaba seduzida por uma adolescente. Bom filme, honesto, bem feito.

    Ela foi casada com Jean-Michell Jarre, sim, aquele chato de galochas, durante 18 anos. Bem que ela merecia uma chance nas “cinemusas”, não?

    Reply

  13. #13 Viviane Righi
    on Dec 2nd, 2008 at 11:03 pm

    Bom, não sou muito ligada a filmes, a cinema. Também não conheço a fundo a obra de Woody Allen. Mas pode ter certeza de uma coisa: agora fiquei curiosa.

    Vou procurar assistir algum filme dele… depois te conto!

    Abraços…

    Reply

  14. #14 John Lester
    on Dec 3rd, 2008 at 1:11 am

    Prezado Grijó, não me parece que Allen seja tão livre de vaidade assim. Se não somos geniais como ele, somos ao menos suficientemente inteligentes para verificarmos que ele foi, no mínimo, irônico.

    Quanto aos efeitos especiais de seus filmes, são aquela mistura fascinante e inigualável de música – sobretudo jazz – fotografia, diálogos velozes e críticas subliminares que somente um gênio poderia nos dar o prazer de experimentar.

    Grande abraço, JL.

    Reply

  15. #15 andre
    on Dec 3rd, 2008 at 6:38 am

    os maiores genios jamais sao reconhecidos.

    Reply

  16. #16 Yury Veiga
    on Dec 3rd, 2008 at 9:57 am

    ele eh muito modesto!!

    o cara eh gênio sim.

    Reply

  17. #17 Vanessa Saraiva
    on Dec 3rd, 2008 at 11:47 am

    Puxa! Será que ninguérm percebe que isso é uma grande ironia? Essa última frase dele deixa as coisas claras. “Ele é muito modesto”? Deus do céu!!!
    Desculpe Grijó, mas algumas opiniões merecem risos.
    Bjusssssss

    Reply

  18. #18 Matheus Brasil
    on Dec 3rd, 2008 at 1:48 pm

    Diante de fatos tão desconhecidos por mim, fico quieto.

    Abraços, professor.

    Reply

  19. #19 tania
    on Dec 3rd, 2008 at 2:53 pm

    Continuo não sendo atraída a gastar tempo assistindo aos filmes dele, gosto de tantos outros…

    Reply

  20. #20 All3X
    on Dec 3rd, 2008 at 3:50 pm

    “se eu tivesse composto somente o segundo movimento da Sinfonia Eroica, acho que quem pareceria humilde perto de mim seria o próprio Beethoven!”.rsrs. Muito boa.

    Reply

  21. #21 Brunella
    on Dec 3rd, 2008 at 7:21 pm

    “a inteligência pessupõe humildade” é uma grande forçada de barra. Tenho desconfianças com esse lance de “personalidade do artista”. Mas, humilde ou não, uma boa forma de conhecer seu trabalho é um bom livro de entrevistas. Li “conversas com Almodóvar” de Frederic Strauss e foi um mergulho delicioso. Reassistir o filme conhecendo seus segredos é melhor ainda. É sempre melhor procurar o que o atista tem a dizer do que criar teorias e mais teorias em cima de sua obra. E Allen geralmente diz coisas interessantes.
    Abraços, Grijó!

    Reply

  22. #22 F3L1P40
    on Dec 4th, 2008 at 8:46 pm

    Todo gênio é problemático. Toda criação parte de um estado de inquietude, de um inferno astral retroalimentado durante toda a sua existência. O gênio deve se sentir solitário e invejar a paz de espírito de viver na normalidade vivenciada pela maioria das pessoas. Muitos que negam ou não aceitam tais sentimentos utilizam seus impulsos criadores contra si mesmos, quanto se entra em confronto com seus valores éticos. Devemos admirar os gênios também pelo peso que carregam.

    Reply

  23. #23 Gizelli
    on Dec 5th, 2008 at 2:47 pm

    Ando numa fase mais Paul Thomas Anderson. =)

    Reply

  24. #24 Gisela Melloso
    on Dec 5th, 2008 at 2:48 pm

    Nossa me lembro dela sim, em Orca então…
    mas como vc disse, não me lebro em que filme, mas teve um que ela estava muito magra mesmo…
    Estes dias estava vendo orca, tenho ele aqui, foi até engraçado ver seu post hj, rsrsrsrs

    Abração e parabéns pelo blog

    Reply

  25. #25 Caio
    on Dec 5th, 2008 at 10:13 pm

    Não acho que a inteligência pressupôe humildade,mas acho que existe uma ligação, diferente, entre os termos.Na minha opnião ser humildade é mais inteligente do que ser arrogante, independente do tamanho do qi que você tenha. Afinal os gênios, mesmo sendo gênios, não estão livres das burradas, por mais geniais que eles sejam ou tenham sido. Além disso, um pouco de humildade torna qualquer gênio mais agradável!

    Abraço!

    Reply

  26. #26 Carol
    on Dec 6th, 2008 at 3:41 am

    adoro filmes e boas dicas para conferir, quanto a Woody Allen, acho ele muito interessante com seus filmes apesar de preferir os mais antigos, não consigo perdoar o que ele fez com Mia, por isso apesar de tudo acho ele um velho pedante, com cara de sofredor, mas com um ego enorme, ele caiu na onda to feio mas to na moda, não sei porque esse barulho em cima dele agora.

    Reply

    grijo Reply:

    Não é barulho de agora, Carol. Woody Allen é cultuado no mundo inteiro. Quanto a essa questão marital – muito privada -, eu nem sei o que dizer. Interessa-me o cineasta.
    Mas respeito sua opinião – que, aliás, é parecida com a de minha mulher.
    Abraços.

    Reply

  27. #27 ademar amancio
    on Apr 14th, 2012 at 4:37 pm

    Eu acho que inteligência pressupõe arrogância,e é entendível,lidar com burrice é fogo.

    Reply

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