Submarino.com.br
Ipsis Litteris Rotating Header Image

Eu, minha mulher & O Pasquim

O jornalista Sérgio Augusto, um dos colaboradores de O Pasquim, célebre tablóide nascido no fim dos anos 60 e que, durante 22 anos, sobreviveu bravamente, afirmou:

[O Pasquim] foi o maior fenômeno editorial da imprensa brasileira. E não adianta discutir. O Cruzeiro? Tinha atrás de si uma poderosa empresa jornalística, os Diários Associados de Assis Chateaubriand. Veja? Ora, veja. Com a editora Abril bancando a aventura, modéstia à parte, até eu. Atrás de O Pasquim, só havia um punhado de porras-loucas.

E quem eram essas porras-loucas? O próprio Sérgio Augusto, acompanhado de Tarso de Castro, Paulo Francis, Millor Fernandes, Claudius, Jaguar, Ziraldo, Ivan Lessa, Luiz Carlos Maciel, Fortuna, Henfil, Sérgio Cabral. Bem, não sou dessa época. Em fins dos 60/início dos 70 eu era apenas um garoto entre oito e doze anos. Nada que representasse algo. Mas o tempo passou e, claro, interessado que sou, acabei por ler alguns números da revista, nos anos 80. Mas, tenho certeza, nada há que se compare com a produção humorístico-anárquica e altamente intelectual do início do tablóide.

Tenham certeza: é bom ter mulher. E é melhor ainda ter mulher que presenteia. Minha consorte surpreendeu-me com o volume 1 da antologia dO Pasquim (1969-1971). É um deleite, uma volta ao passado de um Brasil muito mais criativo, apesar de todas as vigílias – e atitudes – opressoras do regime militar. Há quem diga que as circunstâncias – censura, violência, perseguição - criaram a fervura necessária à criação. Bem, eu discordo. Acho que toda forma de censura é, em princípio, desnecessária, mas não se pode negar que, entre 1969 e 1975, o jornal foi uma locomotiva movida à base de humor, crítica e, acima de tudo, inteligência. O problema é que, a partir de 1975, os olhos vigilantes da Censura Oficial começaram a piscar, mostrando uma certa sonolência. Isso prejudicou a proposta do jornal porque qualquer periódico de segunda linha podia fazer o que eles faziam: escrever e desenhar “contra” o governo.

E, como o leitor médio não é realmente grande coisa, como não exige tanta qualidade assim, O Pasquim foi perdendo sua força e afundou em dívidas, vindo a morrer em 1991. Bem, essa é a parte ruim, que não está na antologia. O que está neste primeiro volume é simplesmente o que há de melhor em “jornalismo livre”. Os desenhos de Henfil, Jaguar e Ziraldo estão lá. As iconoclastas – e sem copidesque – entrevistas com Madame Satã, Di Cavalcanti, Edu Lobo, Leila Diniz, Chico Buarque, Oscarito, Paulinho da Viola e Billy Eckstine estão lá também. E, ao final da edição, algumas passagens de outras entrevistas não menos imprtantes, com Ibrahim Sued, Nara Leão, Oscar Niemeyer, Fernanda Montenegro, Silvio Santos, Tom Jobim e algumas outras que o pouco espaço impede de citar. São todas tão divertidas quanto esclarecedoras. E as crônicas, claro, estão lá com toda a sua acidez e genialidade.

Bem, um jornal vive também de seus colaboradores – e O Pasquim tinha um timaço! Jô Soares, Caetano Veloso (from London), Chico Buarque (de Roma), Vinícius, Glauber Rocha, Chico Anysio, Odete Lara. As fotonovelas sacanas – uma delas, potagonizada pelo casal do famoso melodrama Love Story e Paulo Francis -, as charges impagáveis (os fradinhos, Jeremias O Bom), as fotomontagens, tudo está neste primeiro volume da antologia. Há um outro, de capa esverdeada, que prometi só adquirir após ter lido toda (rigorosamente) essa primeira antologia. E enquanto isso, vou enrolando para ver se ganho outro presente. 

22 Comentários on “Eu, minha mulher & O Pasquim”

  1. #1 DENISE MACHADO
    on Jan 13th, 2009 at 9:01 pm

    Lamento igualmente não ser contemporânea dessa obra. É inegável toda a riqueza de conteúdo e da equipe (editores e colaboradores) que se viu reunida para sua existência. Não houve nada a se comparar. Parabenizo-o mais uma vez, Professor, por sua aguçada percepção para a excelência cultural.

    Reply

  2. #2 Fernando
    on Jan 14th, 2009 at 1:16 am

    Parabéns pelo texto, Grijó, bem articulado e criando uma atomosfera de curiosidade.
    Mas essa discussão sobre se a censura foi, até certo ponto boa, é interessante porque foi o regime ditatorial que proporcionou, me muitos casos, a criatividade, não?
    Até.

    Reply

  3. #3 Ricardo Thadeu
    on Jan 14th, 2009 at 3:10 pm

    Sim, sim. O Pasquim foi um fenômeno. Tem exemplates na minha Faculdade e uma galera estuda o folhetim e tal…

    Bom texto, man.
    Abraço.

    Reply

  4. #4 Rubens Rodrigues
    on Jan 14th, 2009 at 3:17 pm

    Com Caetano e Chico colaborando diretamente do exterior, o Pasquim só poderia mesmo ter um bom conteúdo. Claro, os colaboradores brasileiros também fizeram sua parte.
    A propósito, não conheçi esse tablóide, nasci na década de 90 e nunca tinha ouvido falar nessa revista. Uma pena. Me faz lembrar também o caso de BONS artistas brasileiros que a nova geraão desconheçe.
    Enim, parabém pelo artigo.
    É sempre melhor ler esse tipo de assunto, tem sempre algo a mais a acrescentar.
    Sucesso no bloge na vida.
    Ateh mais!!

    Reply

  5. #5 Grij
    on Jan 14th, 2009 at 3:26 pm

    O que discuto, Fernando, é que se não houvesse censura, talvez os artistas – por terem mais liberdade de expressão – pudessem ter criado uma obra mais ampla, mais densa. Fico imaginando quantos compositores, poetas, escritores e dramaturgos não interromperam textos pela metade porque sabiam que a censura “tesouraria” a criatividade deles. Por outro lado, claro, há quem defenda que a censura obrigou a rapaziada a ser mais criativa. Não concordo, mas há quem diga que o errado sou eu. Merece, sim, uma discussão. Cheguei a fazê-la numa postagem anterior.
    Dê uma checada:

    http://ipsislitteris.opensadorselvagem.org/chico-buarque-a-censura/

    Abraço.

    Reply

  6. #6 olney
    on Jan 14th, 2009 at 3:44 pm

    Pois eu, que sou um pouquinho mais velho, acompanhei o Pasquim desde o início; era uma verdadeira “corrida” ao jornaleiro pra não ficar sem um dos exemplares (limitados) que chegavam à banca de nossa cidade.

    Reply

  7. #7 Tálib
    on Jan 14th, 2009 at 8:19 pm

    Eu também não acompanhei “O Pasquim” pela idade. Nasci em 75. Mas, lendo o livro “Furacão Elis” de Regina Echeverria, me interessei por saber sobre Henfil.
    Henfil “enterrava” no Pasquim aqueles que julgava que davam apoio à ditadura, que, por sua vez, havia exilado seu irmão – Betinho. Morro de rir só de lembrar. Dizem que ele só se arrependeu de ter enterrado Elis, que anos depois cantaria o hino da anistia “O Bêbado e a Equilibrista” e outro que não me lembro no momento.
    Mas o resto, foi todo mundo: Tarcísio e Glória, Roberto Carlos, etc.
    Imagino a qualidade das charges. Hoje em dia ainda temos bons que se mantém, mas – aqui discordo de você, Grijó – acho que a pressão levou à criatividade. Não me conformo até hoje com o esgotamento de Chico Buarque, ainda que, se escolhêssemos somente algumas obras suas, o imortalizariam do mesmo modo.

    Reply

  8. #8 Habib Sarquis
    on Jan 14th, 2009 at 9:36 pm

    Pois é um tempo que não volta mais, não vivi nessa época mas gostaria de ter vivido. Foi uma época grandiosa para o Brasil ( Tirando a ditadura ) Um jornalismo magnifico que dificilmente veremos de novo.

    Parabéns pelo texto !!

    H.

    Reply

  9. #9 Grij
    on Jan 14th, 2009 at 11:11 pm

    É verdade, Tálib. Mas o Henfil andou cometendo umas injustiças. Aliás, muita gente, à época, interpretava a “neutralidade” e a “apolítica” como uma espécie de conivência ditatorial. Enfim, a história acabou absolvendo uns; condenando outros.

    Mas essa discussão acerca de censura é boa, Tálib. Sempre tive um pé atrás com a afirmação de que a opressão ajudou a criatividade. A opressão, na verdade, na prática, faz exatamente o contrário. Ela, por ser opressão, oprime. Ou seja: tolhe, limita, corrompe, constrange, persegue, vilipendia. Sabe-se, claro, que muitos artistas – Geraldo Vandré, Chico Buarque, Edu Lobo, Augusto Boal, José Celso M. Correa e outros – interromperam produções porque sabiam que elas não passariam pelo crivo da censura. Veja só! Imagine quanta criatividade foi para o ralo! Mas (e eu mesmo aponto isso no argumento anterior) há quem discuta essa afirmação e discorde de mim, como vc. Realmente, olhando de forma atenta, pode-se afirmar que se não houvesse, por exemplo, a opressão nos governos Médici e Geisel, não haveria “Apesar de Você”, de Chico Buarque. Mas e daí? Deve-se louvar a ditadura por ela ter, por reação, gerado grandes composições?
    É uma discussão boa, meu caro.
    Grande abraço. E mais uma vez agradecendo sua participação.

    Reply

  10. #10 Daniel Leite
    on Jan 15th, 2009 at 10:35 am

    Com equipe e colaboradores geniais, a publicação só poderia ir à frente. Acredito, sim, que as circunstâncias proporcionadas pelo Regime Militar foram preponderantes para o sucesso do jornal. Afinal, sua essência era criticar, e, no fundo, nós sabemos bem que o prato mais cheio para receber insultos é a censura. Esta, por sua vez, é desnecessária à vida. Porém, pode ser importante (o que também não a justifica) para que surjam grandes sucessos.

    Abraços!

    Reply

  11. #11 Tálib
    on Jan 17th, 2009 at 7:40 am

    Grijó,
    Sou eu quem agradece ter um blog tão lucrativo como seu, onde podemos opinar, sem censuras – ou seja, fora da ditadura. Contradição minha? Não.
    Acho que me expressei mal, nunca me passou na cabeça louvar a ditadura por ter gerado grandes compositores. Quis dizer que acho um mal nosso – brasileiro – trabalharmos somente por pressão. Infelizmente no Brasil a grande maioria se contenta com pouco e o suficiente para a cerveja do fim de semana.
    Por livre e espontânea vontade são raros os exemplos.
    Grijó, já parou para pensar quem surgiu desde a época que a pressão desapareceu?
    O Brasil se tornou um país de “compositores” lastimáveis. Simplesmente é intolerável ouvir Chiclete com Banana, Asa de Águia, Babado Novo – vindo da Bahia, e, do mesmo local de onde, há anos atrás, ouvíamos Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa. É desesperador saber que o mesmo Rio de Janeiro que nos rendeu Chico Buarque, Noel Rosa, hoje em dia nos rende ruídos inaudíveis como funk.
    Isso sem falar em programas de televisão – que raramente vejo hoje em dia. Antigamente víamos Chico Anysio, com piadas de forte conteúdo político e nos fazendo rir e pensar; hoje fui saber que existe um programa chamado CQC, outros de imbecilidade suprema (que alguns insistem em julgar criativos) como Pânico, Casseta e Planeta, etc.etc.
    Felizmente, a internet não permite a massificação da idiotia, tendo locais como o seu site, onde lucramos cultural e politicamente e também nos serve como forma de desabafo para toda essa porcaria que os meios de comunicação insistem nos empurrar goela abaixo.

    Reply

  12. #12 John Lester
    on Jan 17th, 2009 at 9:07 pm

    Faz alguns anos presenteei uma amiga próxima com o firme volume. Claro que, antes de entregá-lo, dei uma vagarosa folheada na coletânea. Sacanagem, eu sei.

    E a grande dúvida: entre “Eu, minha mulher e o Pasquim” e “O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante”, escolher qual?

    Grande abraço, JL.

    Reply

  13. #13 Salsa
    on Jan 18th, 2009 at 2:26 am

    Li muito. O contato inicial foi através do meu pai e do meu irmão mais velho. Nos anos setenta, quando ia fazer compra para a família, sempre desviava alguma verba para a compra do pasquim.
    A consciência política (minha) ficava no impasse entre mdb e voto nulo. O último sempre vencia. O pasquim, de certo modo, foi responsável por minha pessimista percepção da política brasiliana.

    Reply

  14. #14 andrea
    on Jan 18th, 2009 at 11:34 am

    que delícia essa coletênea, né?
    engraçado, vi antes de ontem na cultura, eu acho, pois estava zapeando quando vi alguém falar sobre o pasquim. era um documentário maravilhoso com dezenas de entrevistas, com mil histórias saborosas sobre aquele período. como o desespero do jaguar ao receber um telefonema de algum bambambam dizendo que a censura tinha acabado. o desespero foi seguido das palavras: E agora? como é que a gente vai fazer o jornal?”
    muito bom!!!!!!!!!

    Reply

  15. #15 Grij
    on Jan 18th, 2009 at 3:08 pm

    Essa é a idéia, caro JL.
    As opções são necessárias.
    Abraço.

    Reply

  16. #16 Grij
    on Jan 18th, 2009 at 7:32 pm

    Quem dá as cartas é o populacho, caro Tálib. Nelson Rodrigues tinha razão quanto a dizer que os idiotas herdariam o mundo. É fato. A qualidade se torna cada vez mais desprezível. Mas nunca se esqueça de que há quem legitime isso.
    Abraço.

    Reply

  17. #17 Fabricio Gimenes
    on Jan 18th, 2009 at 11:14 pm

    Salve, Grijó!

    Ainda em 2007, salvo engano, assisti a uma palestra com Sérgio Cabral, no Carlos Gomes, pelo projeto Tim Grandes Escritores. E que palestra! Sergio dissecou a vida do pasquim de uma forma brilhante, foi bonito de se ver. Chegou a dar saudade desse tempo que não vivi!

    Belo presente. As mulheres (quando querem) sabem nos agradar!
    Abraços, camarada!

    Reply

  18. #18 Grij
    on Jan 19th, 2009 at 6:48 am

    Eu soube desse encontro, Fabrício, e não pude comparecer. Sérgio Cabral é articulado, jornalista das antigas, grande conhecedor da música e dos bares do RJ. Uma figuraça vascaína, salvo engano. Invejo vc.
    Abraço, amigo.

    Reply

  19. #19 Josue Silva
    on Jan 19th, 2009 at 8:10 pm

    Muito bom seu blog.

    Vc menciona até o PASQUIM.

    Formidavel

    Reply

  20. #20 Carol
    on Jan 20th, 2009 at 3:53 pm

    Aleluia!! que achado eu nunca tinha vindo nesse blog? meu Deus adoro ler, devoro livros e vou aproveitar a lista, e ainda me põe a par de uma época que não vivi e não sei nada.

    http://messnatural.blogspot.com/

    Reply

  21. #21 Francine Leite
    on Jan 22nd, 2009 at 4:10 pm

    Querido Grijó, é sempre gratificante visitar o seu blog! Lendo esse post me lembro com saudade das suas aulas sobre a Tropicália e (com nem tanta saudade assim) das minhas aulas de história dos sistemas de comunicação, período passado.
    Estive na Exposição 200 anos de imprensa no Brasil e pude ter acesso a fotocópias de alguns exemplares do Pasquim. Realmente é uma pena o seu fim. Eu, como mulher e futura jornalista, quero muito ainda ler alguns desses ricos exemplares do jornalismo brasileiro.
    Parabéns pelos textos, Grijó. Saudade mesmo das suas aulas.
    Um beijo.

    Reply

  22. #22 Grij
    on Jan 22nd, 2009 at 4:22 pm

    Ei, Francine. Bom vc estar por aqui. O “Pasquim” fará falta, de fato. Apareça sempre.
    Beijo, querida.

    Reply

Deixe um comentário