Pois não é que as coincidências ainda surpreendem? Depois de tanto tempo adquirido - acredito que uns 15 anos antes da edição da Cia das Letras -, inicio a leitura de A Defesa, romance de Vladimir Nabokov sobre algo que ignoro (mas não completamente): o xadrez. Nabokov sempre me traz algo novo, que vai além do que vejo. Sei que sempre falta algo, há freqüentemente um detalhe que me foge, um dado que me passa longe, distante dos olhos e da compreensão. Mas e a coincidência? Bem, há 32 anos, num 2 de julho, o velho russo que escrevia em inglês morreu.
Nabokov era fã de xadrez. Tinha paixão por sua problemática, pelo cartesianismo que o jogo propunha. Eu mal sei os movimentos das peças, pouco entendo o que a torre representa. Não importa: o grande escritor é capaz de criar interesse num assunto que desprezamos. Nabokov não é autor fácil, daqueles que se lêem em voz alta (sempre desconfio de pessoas que o fazem). Exige senso e atenção desmesurada. Lembro-me de idas e vindas no seu romance semipolicial - extraordinário! - A Verdadeira Vida de Sebastian Knight. Até a leitura de Fogo Pálido, aquele era meu preferido. Sim, claro, li Lolita, seu tour de force erótico. Mas não gostei tanto.
A Defesa é romance russo: escrito nessa língua. É xadrez puro, cheio de nuances, idas e vindas, rupturas narrativas, mas nada de chatices técnicas sobre o jogo. Uma querida amiga - que há quase vinte anos me indicou a leitura - ressaltou que a falta de diálogos pode causar repulsa a leitores menos exigentes. Prefiro pensar que não foi um recado direto à minha pessoa. Ela mesma me perguntou o porquê da mania de escrever sobre um livro que não está totalmente lido. Respondo que opiniões sobre leituras finalizadas podem ser equivocadas justamente porque se propõem definitivas. Nabokov contradiz opiniões definitivas, de modo que é melhor visitá-lo e arriscar, depois, comentários sobre a obra.
Em tempo: a edição que possuo tem título já mencionado, e é de 1986, pela ed. L&PM. Há um outra edição, posterior (também citada), pela Cia. das Letras, com o título de A Defesa Lujin.









on Jul 2nd, 2009 at 1:50 pm
Tem alguma diferença entre as edições, Grijó?
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on Jul 2nd, 2009 at 1:54 pm
Até onde sei, Everaldo, as traduções são distintas. A da L&PM é do L. Fernando Brandão (estou gostando dela). A outra é do Jório Dauster, que traduziu, há vários anos, “O Apanhador no Campo de Centeio”, do Salinger. É fera.
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on Jul 2nd, 2009 at 5:24 pm
Nunca li Nabokov. Tenho vontade, mas ainda não peguei nenhum livro dele. Talvez até comece por esse. Gosto de xadrez, apesar de ser um completo amador.
Li um livro baseado em jogo de tabuleiro uma vez e gostei muito, foi o “Meijin”, ou “The Master of Go”, do Yasunari Kawabata. Apesar do foco ser a descrição psicológica daqueles que fazem a disputa, creio que entender a lógica do jogo de go é importante nesse caso.
Abraços,
O Polvo
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grijo Reply:
July 3rd, 2009 at 2:05 am
Pois leia, Polvo. Independentemente de gostar ou não de xadrez, vc apreciará o livro.
Abraço, camarada.
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on Jul 2nd, 2009 at 9:49 pm
Só li Lolita com muito prazer, mas soube que esse A Verdadeira vida de Sebastian Knight é muito bom. Foi elogiado demais por Edmund Wilson, que considerava o melhor livro de Nabovov.
Grijó, um dia desses num canal de história de TV por assinatura, vi um doc sobre Nabokov que afirmava que os livros dele escritos em russo não tinham a qualidade dos escritos em inglês. Esse A Defesa é russo, como vc falou. Vc concorda?
Abração
Felipe D.
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on Jul 3rd, 2009 at 1:10 am
O autor realmente recorre muito pouco a termos técnicos. Vai construindo páginas fortes misturando xadrez, loucura e sonho. Não sei, mas A Defesa Lujin podia bem ser chamado de romance psicológico sem dúvida, porém a obra escapa das armadilhas comuns do gênero, como a verborragia narrativa e o monte de impressões. Muitos autores, um deles até Machado de Assis, já descreveram uma mente obsessiva, mas Nabokov possui uma consciência de estilo e rigor que garante uma singularidade, não acha?
Esse livro, pra mim, é perfeito. Gostei muito tb de Fogo Pálido e de Pnin. Leste?
Abrs e parabéns pelo blog cultural.
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grijo Reply:
July 3rd, 2009 at 1:18 pm
Sim, embora não curta muito esse rótulo de “romance psicológico”, acredito que “A Defesa” esteja nessa categoria. A cena em que o personagem transforma em tabuleiro de xadrez os ajulejos e piso de um banheiro é algo que, de forme bem-humorada, liga-se a esse “psicologismo”.
Deve ser isso.
Abraço.
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on Jul 3rd, 2009 at 10:09 am
Fala Grijó! Também sou um profundo desconhecedor do xadrez, apesar de muitos acharem que sou um craque. Minhas partidas duram cinco minutos e as pessoas acham que estou de sacanagem, escondendo minha habilidade. Esta se resume a saber os movimentos ordinários de cada peça. MAs a literatura, como vc disse, pode nos fazer grande entendedor da vida por uma analogia que desconhecemos e, desse modo, passamos a aprender. Faço isso com os romances de aventuras marítimas. Jamais naveguei senão pilotar uma lancha na represa de Avaré quando ela já estava flutuando. Lord Jim, Moby Dick e Trabalhadores do Mar me fizeram navegador e passageiro dos oceanos e mares. Também curto muito falar de livros que ainda não terminei, fortalece a surpresa e, acredito, alcançamos a interação que o escritor deseja com sua obra.
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grijo Reply:
July 3rd, 2009 at 1:16 pm
Rapaz, que (outra) boa coincidência. Acabei de presentar um sobrinho com “Lord Jim”. E ele, meu sobrinho, aprecia velejar - daí o presente.
Valeu, Thiago.
Abraço.
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on Jul 3rd, 2009 at 11:12 am
Grijó, meu caro! Li “Uma questão pessoal”, “fogo pálido” e “lolita”. Nabokov foi um achado tardio na minha carreira de leitor. No começo tinha ojeriza dele; parecia-me que se achava com o rei na barriga. Há escritores que me antipatizam de primeira, e que se perdem para sempre (talvez para meu prejuízo.) Sei que nunca irei ler Henry Miller e Updike. Mas Lolita é altamente recomendado por um de meus mestres, Saul Bellow, o qual diz ser uma viagem de deleite estético sem igual. Daí ter começado por esse grande romance sobre a perda e a incompatibilidade que foi, por um longo momento, taxado como erótico. De erótico ele se torna um leprechau diante “O teatro de sabbath”, por exemplo.
lolita é único entre os romances norte-americanos do século XX (ou vc não concorda que ele seja norte-americano?) È único entre a produção ficcional de qualquer país. Enquanto Joyce e Faulkner eram revolucionários previsíveis para a renovação do romance, Nabokov se mostrou como um elo perdido entre a tradição literária oitocentista e a destruição da tradição do modernismo. Pode-se perceber o autor aristocrata por detrás de cada coisa que ele escreveu. E como ele é engraçado! (aliás, um de meus projetos futuros é um estudo sobre o humor entre os grandes escritores: como Kafka era um humorista genuíno e refinado; o humor escatológico e fanfarrão de Dostoiévsky.) O erotismo deste romance pode-se sustentar na interpretação apressada de que se trata de uma apologia da pedofilia comedida, mas todos os fetiches criados são pelo único propósito de acentuar a queda dos personagens na metade final da obra: como se degradam o narrador, a própria Lolita (tão linda e luciferina no começo, que choca vê-la humanizada na gravidez e na resignação de um presídio doméstico, e ao lado de um parceiro também ele imbecilizado pela mediocridade do cotidiano). Na verdade, uma das grandes obras acusadoras do mainstream castrador da sociedade moderna, tão violenta quanto O grande Gatsby, Herzog ou Complexo de pornoy.
Agora, Fogo pálido é bastante subestimado. Talvez o poema inicial seja um dos maiores, o que o autor propositalmente o isenta deste mérito pela análise que se segue e que é o cerne do romance.
Nabokov exerce grande influência sobre escritores ingleses como Ian Mcewan, Martim Amis e barnes. Há um conto dele belíssimo reproduzido na íntegra em uma das edições da Piauí (disponibilizado no site da revista.)
Continue com essa qualidade, cara! abraço.
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grijo Reply:
July 3rd, 2009 at 1:14 pm
Charlles, meu caro, talvez eu tenha tido melhor sorte do que vc porque não cheguei a antipatizar com Nabokov. Ao contrário, li “Pnim” logo de cara, no início dos anos 80, numa tradução duvidosa (hoje percebo isso) da Record, para, somente depois, chegar a “Lolita”, “Somos Todos Arlequins”, “Ada ou Ardor”, “Coisas Transparentes” e “Fogo Pálido”. Não gostei de todos, mas percebi que havia algo no autor que me remetia a alguns craques da literatura dezenovista, principalmente Flaubert, com seu cinismo e bom-humor.
(Aliás, essa sua sacada iconoclasta de escrever sobre humor em Kafka e outros grandes é boa. Não espalhe porque podem copiar a idéia.)
Sim, concordo com vc. “Lolita” sofrteu com os críticos resumitivos, que viram erotismo quando havia, por parte de Humbert Humbert, uma grande angústia misturada ao desejo que se realizava muito bem apenas por ter Dolores como companhia. “Fogo Pálido”, para mim, é o apogeu. É o ponto mais alto de um autor de pontos altos. A idéia de transformar um popema em um guia não é nova (Dante que o diga), mas a tradução desse poema para a vida pelos olhos de quem não o produziu é genial.
Valeu, camarada.
Eu é que agradeço (mais uma vez) seus comentários.
Abraço.
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on Jul 3rd, 2009 at 2:28 pm
Nabokov não é um dos meus autores preferidos, mas reconheço que é bom. Li dele só Lolita (mas quem não leu? rsrsrs)
Só discordo em dizer que não é erótico. aliás, é pervertido…
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on Jul 4th, 2009 at 12:15 am
Visitar o blog do Grijó é cultura, mais um autor que eu não sabia que existia.
Uma vez tentei jogar xadrez, mas é o tipo de jogo que pra mim não dá certo, muito parado pro meu gosto.
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