Histórias de gravações de discos históricos geralmente são interessantes. Aliás, discos tornam-se históricos também porque são recheados de boas – fictícias ou não – narrações acerca de suas construções. Escrevi sobre o extraordinário (e revolucionário) disco Kind of Blue, de Miles Davis. Aproveitando a deixa de um comentário na postagem anterior, sobre o grande disco Exile on Main St., dos Rolling Stones, retomei a leitura de alguns trechos do livro Exile on Main St: Uma Temporada no Inferno com os Rolling Stones, do jornalista Robert Greenfield, especialista no assunto, editor da revista Rolling Stone.

Bem, há uma diferença básica em relação aos dois relatos. No livro de Ashley Khan, sobre Kind of Blue, privilegiam-se as histórias das gravações das faixas, deixando de lado as minúcias das vidas pessoais – que pouco ou nada (para muitos) interessa na concepção artística. No livro de Greenfield, as fofocas (saborosíssimas), as idiossincrasias, o consumo pantagruélico de drogas e o comportamento irresponsavelmente alucinado de algumas personagens enchem o livro de boas histórias. O disco em questão não é tão importante.
A começar pela bagunça nas contas bancárias dos integrantes do grupo. Como muitos outros músicos na história da indústria fonográfica, os Stones foram roubados por seu empresário, Allen Klein, e, forçosamente, fugindo também do voraz fisco inglês, foram parar numa mansão (alugada por Richards) na Riviera francesa, local paradisíaco onde Deus não existe – daí tudo ser permitido. Foi lá, no porão da mansão, que o disco foi concebido, mas é na superfície da casa, e nas ruas da Riviera, que o couro come.

Há de tudo: desde o contato quase diário com o traficante oficial do grupo, o tal Spanish Tony, até uma colisão automobilística na qual o Jaguar de Richards é defendido pelo seu dono empunhando um revólver de brinquedo. Anita Palemberg delirante, a modelo nicaragüense Bianca Perez-Mora – noiva de Jagger e contrária àquele estilo de vida – tentando arrastar o noivo para longe dali (e conseguindo), as visitas de Clapton, do beatnick W. Burroughs, John Lennon sentindo seu estômago sair pela boca após ingerir ácido e chocolate, Charlie Watts tocando bateria nu e uma infinidade de ótimas histórias.
Mas me pareceu, após a leitura, no ano passado, é que o livro foi escrito para Richards brilhar – ou seja: é ele, com toda a sua disposição para o delírio e para o deboche, aliado ao comportamento tão próximo da autodestruição, que se torna o principal personagem do livro. Mais ou menos como muita gente diz: alma roqueira? Só Keith. Pode ser.

AQUI você encontra algumas fotos desse verão na Riviera. As fotos são de Dominique Tarlé. Deleitem-se.








on Jul 14th, 2009 at 2:04 pm
Tenho esse livro de fotografias do Tarlé, comprei num sebo em Londres, edição de colecionador. As fotos que vc expôs na postagem estão lá, com algumas histórias desse verão na riviera. Muita doideira, drogas, rock, sexo, viagens de ácido. Como estou com quase sessenta bem que eu poderia estar lá, hehe.
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grijo Reply:
July 14th, 2009 at 7:49 pm
Invejo vc, Antonio. Quem tem esse livro não negocia.
Ou negocia?
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on Jul 14th, 2009 at 3:44 pm
Grijo, bacana o comentário ter virado um post tão legal.
Comprei esse lvro há uns 2 meses. Sim, é um livro basicamente sobre Keith Richards, daí eu ter comprado e gostado.
Não lembro da parte que fala do Watts tocando batera nu, mas lembro que ri com o medo do Jagger em subir ao primeiro andar pra chamar o Keith.
Ele disse: “Não vou lá nem a pau” hauhauahaah
Lembro também do Keith desdenhando do casamento do Jagger na igreja…
Keith Richards é de verdade, já o Jagger é um ótimo vocalista(discordo de vc) e um ator melhor ainda.
“Pra viver fora da lei, vc precisa ser honesto” Bob Dylan
O autor sustenta e eu concordo que o Exile é um disco do Keith, talvez por isso outro dia vi uma frase do Jagger sobre o disco, ele dizia:
“É um disco bom, mas é supervalorizado”
Mas, sim, não pode se falar nesse livro sem comentar a beleza da Anita Pallenberg. Que belezoca!
Por último e não menos importante, não é porque Deus não existe que tudo pode, é o oposto, por ele existir é que pode-se tudo.
Abraço
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grijo Reply:
July 14th, 2009 at 7:46 pm
JH, eu ainda sou discípulo do velho Dostoievski.
Não só o Watts tocava batera nu como Wyman tb ficou pelado. O porão era quente para cacete!, segundo o Greenfield.
Eu gosto do Jagger, mas muito mais como showman rebolador que faz o que quer com a platéia do que como vocalista potente. Acho que Cocker, Mercury e até o Tyler são melhores. Mas comparar para quê? Besteira…
Abraço, camarada.
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on Jul 14th, 2009 at 7:05 pm
Sabe, Grijoe, eu concordo com você em quase tudo, aprecio o seu imenso bom gosto e compartilho. Só não gosto qdo vc posta sobre RC e sobre os Rolling Stones. Volte para o jazz, a mpb e a literatura. Please.
kisses
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grijo Reply:
July 14th, 2009 at 9:43 pm
Não entendi o porquê, Maria Lorena. Escrevo tão mal assim?
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Maria Lorena Reply:
July 14th, 2009 at 10:54 pm
Não, Grijoe. É que esses dois assuntos não são apreciados por mim. Claro que não estou exigindo, só opinando.
Escrever mal? Está brincando.
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on Jul 14th, 2009 at 8:11 pm
Sensacional a pequena crônica. Agora, esse livro de fotos deve ser muito bom!!!
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on Jul 14th, 2009 at 8:23 pm
Caramba! E ainda saiu pela Zahar! Um livro recente sobre a melhor banda do planeta e eu ignorando isso. Valeu pela dica, Grijó. Tenho certeza que vc viu Shine a Light, não? Se não viu, veja porque é um primor de filme com a mão leve e certeira do Martin Scorcese.
Dá uma olhada neste sítio, cara:
http://www.stones.at/stones/biograph.htm
uma pancada de biografias dos caras, principalmente aquela polêmica Heart of Stone, que fez o Mick Jagger ficar puto. E a história da estranha morte de Brian jones, Paint it Black. Forte abraço
LSD
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grijo Reply:
July 14th, 2009 at 9:42 pm
Muito interessante o link, Lauro. Várias biografias inclusive escritas pelo mesmo indivíduo, inclusive aquele jornalista maluco (que também é compositor) do The Guardian, Alan Clayson.
Não sabia sobre esse livro, “Heart of Stone”. Nem sabia que existia, muito menos que, sendo uma biografia não-autorizada, Mick Jagger teria ficado puto. O que será que foi escrito nela que ele realmente não ternha feito? Será que o autor trouxe a público os namoros dele com David Bowie e Nureyev? Ou divulgou que ele é um pai extremosos, dedicado r que joga bola de gude?
Abraço.
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on Jul 15th, 2009 at 12:52 am
Maria Lorena ou seria Maria Antonieta?
É muita pose.
Cuidado com a cabeça, mocinha.
Grijo, dando uma de Maria Lorena, prefiro minha citação à de Dostoievski. :>)
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Maria Lorena Reply:
July 15th, 2009 at 7:17 pm
JH ? Pose, sim senhor. Para poucos.
kiss
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on Jul 15th, 2009 at 8:22 pm
Este livro é indicado para menores? haha, posso até imaginar as doideiras que são descritas. Keith Richards esteve no Brasil no final dos anos 60 e botou pra quebrar, fumou quilos de maconha e saiu pelado pelo balneário em que estavam. É o que dizem. Só discordo quando vc fala que somente ele tinha alma roqueira. O Brian jones, pelo que pude constatar do filme sobre ele, era doidíssimo tb, e amava a mýsica acima de tudo. Aliás, não sei se vc sabe, mas ele se dizia o líder “legítimo” da banda.
Abraços.
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grijo Reply:
July 15th, 2009 at 8:55 pm
O problema, Francisco, com a expressão “alma roqueira”, muito utilizada por jornalistas e fãs do rock, é que não sei exatamente o que ela significa. Por isso usei a expressão “pode ser”. O que é exatamente “alma roqueira”? Uma atitude desleixada ligada à liberdade em todos os sentidos?
Abraço.
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on Jul 15th, 2009 at 8:23 pm
Nunca achei que os RS fizessem um som arrebatador até ouvir um disco chamado FLASHPOINT, ao vivo, ma-ra-vi-lho-so!!! rsrsrsrs. Mas posso dizer uma coisa? Saí baixando na net vários discos da banda e não encontrei mais nada tão bom…devo dizer que são uma banda de um disco só ou preciso ouvir mais?
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grijo Reply:
July 15th, 2009 at 8:53 pm
Esse disco é bom demais, Regina. Tem as melhores – a meu ver, claro – gravações de “Sad, Sad, Sad”, “You Can’t Always Get What You Want”, “Simpaty for The Devil” e “Jumpin’ Jack Flash” que conheço ()e olhe que são gravações ao vivo). Muito bom. Mas vc está sendo severa demais com a banda. Há grandes discos, inclusive o “Exile…”. Há também o “Let it Bleed”, o “Sticky Fingers”, o “Aftermath” e muitos outros. Já que vc está baixando, baixe tudo e ouça com calma.
Abraço.
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on Jul 15th, 2009 at 8:27 pm
Agora vejam, até mesmo as loucuras dos astros de outrora (outrora mesmo?) eram muito mais SOFISTICADAS E ESTILOSAS do que os chiliques dos atuais.
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on Jul 15th, 2009 at 8:50 pm
O ideal, então, é ler os dois livros: o de Khan, pelo lado estético; o de Greenfield, pelo lado da inata curiosidade humana… Abraços!
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on Jul 15th, 2009 at 9:29 pm
Alma roqueira é uma alma contestatória, contracultural, e sim, tem a ver com liberdades.
A expressão é só para designar honestidade ao sujeito, já que muitos fingem serem o que não são.
PS: Maria “Antonieta” Lorena, obrigado pelo beijo, dever ser para poucos tb. :>)
Beijoca
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Maria Lorena Reply:
July 15th, 2009 at 11:13 pm
Caro Jotagá.
Tanto interesse merece mais um beijo.
.
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grijo Reply:
July 16th, 2009 at 12:58 am
Quem poderia dizer que o Ipsis Litteris, com quase dois anos de vida, iria se tornar palco de encontros amorosos!
Muito bem!
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JH Reply:
July 16th, 2009 at 2:00 am
hehehhehehhe
Grijo tá com ciúmes.
Antonieta, se vc reverte interesse em beijos,
eu vou fazer mil perguntas. :>)
A primeira delas:
Por que tão elitista?
Beijinho
on Jul 15th, 2009 at 11:17 pm
Uma bandinha muito meia-boca, os Stones.
Prefiro Michael Jackson temperado com torresmo, seja lá que gosto isso tenha. Não aguento os Rolling Stones, dom Grijó! Nem sei como é que um cara com bom gosto como vc pode dar crédito e espaço pra instyrumentistas tão limitados. Bem, tem gosto pra tudo, né?
Até+
(gosto de seu blog, ok?)
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grijo Reply:
July 16th, 2009 at 12:54 am
Arthur, até concordo que, com exceção do Charlie Watts, hoje, os Stones têm limitações. No passado: é possível questionar o talento de Bill Wyman? Vc acha o Keith Richards tão fraco assim? Não toca como um Hendrix, mas aí pergunto: quem toca?
Abraço.
Bom saber que vc aprecia o blog mais do que aprecia os Stones.
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on Jul 16th, 2009 at 1:43 pm
Grijoe, tenho que respeitar seu blog. Valeu a brincadeira! Até porque tenho tolerância com a classe média burguesa e com os nossos carrascos. Por estes, não perco a cabeça, por aqueles, bom… leiam a Revolução. E mais, je suis fidèles !
Embrasser .
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grijo Reply:
July 16th, 2009 at 8:58 pm
Mas não houve nenhum tipo de desrespeito, Maria.
Sinta-se à vontade.
Aliás, sintam-se.
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on Jul 16th, 2009 at 5:28 pm
Quanto a Keith e os Stones endosso o comentário do Arthur, nunca me encantaram, às vezes me sinto mal por isso, mas não consigo gostar do caras nem a pau. Jagger, além de não cantar, baila de forma desajeitada, e Keith, apesar de junkie e carismático, só na década de 70 é superado por uns 5, facilmente. E todas as versões, que ouvi, feitas por outras bandas soaram melhor da que a original. Mas, é a vida, né, os caras tão aí até hoje e não dá(quem sou eu) pra desmerecer a importância e influência deles.
C ya
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on Jul 16th, 2009 at 5:31 pm
Grijoe, me expressei mal. A classe média burguesa e os carrascos não faziam referência a você, maS ao tal “bastardinho” JH, ok? rs… Não entenda errado esta minha “pose”, meu caríssimo amigo ( embora a recíproca não exista).
ML
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JH Reply:
July 17th, 2009 at 1:36 am
Uau, de beijos pra tapas, quem diria que essa mocinha seria fã de Leandro e Leonardo? :>)
Veja só como são algumas mulheres caro Grijo, nos dão beijos falsos e nós acreditamos. :>(
Mesmo assim eu prefiro continuar sendo um romântico.
É Maria Lorena, Maria Antonieta ou Maria Joselita?
Vixe, agora complicou. :>)
PS: Tranquilo, Grijo, mas eu tinha que responder, né?
Sou um romântico sincero, mas moderno. Tem algumas mudanças, pra melhor. heheh
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on Jul 16th, 2009 at 7:33 pm
FaZ tempo que não dou as caras, amigo Grijó! E como vão as coisas?
Rolling Stones me interessa tanto quanto uma gripe, haha. Acho muito chatos, mas tem quem goste dos trejeitos afetados de Mick Jagger. Ele disfarça as limitações vocais com aquele misencene todo…alma roqueira quem tinha era Keith Moon, do the Who, e Jimi e Janis. O resto, amigo, é fachada capitalista. Até, amigo.
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grijo Reply:
July 17th, 2009 at 12:50 am
Essa coisa de “alma roqueira” vai dar em postagem.
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JH Reply:
July 17th, 2009 at 1:16 am
Acho que o Will ficou muito influenciado pela expressão.
Meu irmão, a alma é roqueira, mas o cara não precisa morrer.
Me lembrei de uma velha música do Ira!, que chamava-se:
Receita Para Se Fazer Um Herói, o refrão dizia: Serve-se morto.
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on Jul 16th, 2009 at 7:34 pm
Alma roqueira é o q?
Drogar-se e tocar música com 3 acordes?
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grijo Reply:
July 17th, 2009 at 12:53 am
Não seja tão duro e tão resumitivo, Fernando. O cara nos brindou com alguns solos inesquecíveis.
Vc está sendo rabugento.
Abraço.
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on Jul 18th, 2009 at 5:54 pm
Obrigada pelo link da galeria L’instant.
Estou adorando…
abraço
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