Dizem que a diferença entre humanos e os outros animais reside na capacidade de envergonhar-se. Animais não se constrangem por indivíduos de sua espécie comportarem-se de forma inadequada. Nós, humanos, sim. Ou deveríamos, ao menos. Soube ontem, pela própria web, que a revista Rolling Stone soltou uma daquelas listas que divertem os aficcionados e que geram a inevitável polêmica – quando são levadas a sério, claro. Já escrevi sobre o assunto em pelo menos duas oportunidades (aqui e aqui). Pois bem. Hoje o limite foi ultrapassado. Eu explico.
Leio no portal Gazeta que algumas músicas capixabas constavam da fatídica lista divulgada pela Rolling Stone. O que isso quer dizer? Dando continuidade à leitura, constatei que algumas composições de Sérgio Sampaio e de Roberto Carlos figuram entre as 100 melhores de todos os tempos. De acordo com o jornalista, pelo fato de composições desses senhores terem sido selecionadas, e por conta de esses mesmos indivíduos terem nascido em terras espírito-santenses, as suas produções tornam-se capixabas. Ou seja: é mais ou menos como afirmar que todo e qualquer texto de Carlos Drummond de Andrade, não importa o tema abordado, não importa se poema ou prosa, este será, indiscutivelmente, texto mineiro. Só rindo.
Eu me envergonho disso. Embora não tenha orgulho de ser capixaba – esses bairrismos soam-me de modo estranho -, constrange-me a patética tentativa de valorizar o produto local de forma tão estapafúrdia quanto artificial. É necessário enaltecer um produto da terra? Vamos lá, então. Que tal a moqueca capixaba? Não há, em todo o território nacional, algo que se assemelhe em sabor ou em confecção. A combinação de coentro, cebola, tomate, urucum, azeite, sal e peixe (ou qualquer outro fruto do mar) é absolutamente singular. A moqueca é a identidade do capixaba; é o que o torna único, ímpar e absoluto.

Bem, claro que não entro na seara folclórica. Sei que há, naturalmente, manifestações que sustentam a identidade do capixaba e embutem-lhe características que geram orgulho aos habitantes da ilha de Vitória e ao estado como um todo. Mas não é esse o ponto. O que eu quero saber, de fato, é o que Eu quero é botar meu bloco na rua, de Sérgio Sampaio, tem a ver com a realidade capixaba? E As Curvas da Estrada de Santos, de Roberto Carlos? Pois eu garanto que a moqueca aí de cima tem.








on Oct 20th, 2009 at 7:19 pm
É impressionante. Também estou pasmo, esbabacado, diria meu pai.
Desde que cheguei em terras capixabas (sou um paulista criado em MG) percebi essa onda nativista. Essa necessidade de se valorizar o produto local além de qualquer custo.
Ouvi muita gente falar do Futebol Capixaba, do teatro capixaba e, claro, da música capixaba. Como se esta fosse diferente de qualquer outro ritmo para ser identificada assim, tal qual acontece com música “baiana”.
Esse é um problema que vem, em grande parte, da mídia… basta assistir os programa de tevê produzidos por aqui para ver a “forçação” de barra sobre os valores capixabas.
Arg!
Prova irrefutável está na reportagem do gazetaonline em questão. É triste ver isso, pois quanto mais se quer valorizar, mais ridículo fica. O que é bom o é por sí próprio – não precisa de explicação ou defesa.
Vamos guardar esta pérola…
PS: tomei um susto com o link pois achei que a Rolling Stone havia classificado as músicas como capixabas… o que, naturalmente, não ocorreu.
PS2: Muita coincidência você falar sobre a Rolling Stone. Ontem mesmo publiquei um post sobre a revista lá no Botequim.
Abraços!
Vai uma moqueca aí?
Reply
grijo Reply:
October 20th, 2009 at 10:42 pm
Hoje mesmo, Fabrício, durante uma aula, um aluno questionou-me do porquê de o capixaba ser tão bairrista. Disse-lhe eu que, de fato, não sei por quê exatamente, mas há suspeitas de que, pelo fato de historicamente, o ES sofrer pilhagens variadas (terras, ouro, café etc.), o capixaba passou a tentar valorizar sua terra na mesma proporção que enxotava os estrangeiros. É uma teoria que merece uma investigação.
Abraço, amigo.
Reply
on Oct 20th, 2009 at 8:20 pm
Vivemos num mundo onde o “blá blá blá” rende ($) muito.
O que é mais fácil dizer que é bom ou enteder o pq é bom?
Reply
on Oct 20th, 2009 at 8:30 pm
Excepcionalmente bem humorado, Grijo.
E a comparar com CDA foi perfeito, muito feliz.
Moqueca so capixaba…o resto e peixada!
Sds
Reply
grijo Reply:
October 20th, 2009 at 10:56 pm
Esse foi, durante tempos, o slogan da Encatur, Cláudio.
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on Oct 20th, 2009 at 9:07 pm
Rapaz, é hilário. Em termos de cultura, os jornalistas capixabas deveriam realmente ficar calados. Se fosse pra citar alguém que da área cultural com alguma expressão nacional que realmente nasceu, viveu toda a sua vida, fez grande parte de sua obra, enfim, com raizes realmente capixabas, esse alguém teria que ser o Maurício de Oliveira. Eu odeio o Roberto Carlos, odeio quando falam que ele é capixaba. Uma vez que aconteceu algo engraçado. Em um show bem interessante do Alceu Valença aqui em Vitória, lá pro meio do show ele resolveu elogiar uma artista capixaba que ele gostava muito, e que começava com “R”. Advinha: todos gritaram Roberto Carlos; foi aí que ele fez uma careta e depois falou: estou falando de Rubem Braga.
Abraços
Reply
grijo Reply:
October 20th, 2009 at 10:44 pm
Nada tenho contra RC, George. Chego até a apreciar algumas de suas músicas, mas estou longe de ser fã. De Rubem Braga, ao contrário, sou.
Abraço.
Reply
on Oct 20th, 2009 at 10:39 pm
É ridículo, de fato, o bairrismo ilógico, uma vez que acaba segregando e montando palco para o preconceito – é bem provável que os paulistas (sim, ele é paulista) não estejam assumindo o discurso bairrista pelo fato da melhor música, “Construção”, ser do Francisco Buarque de Hollanda. É bem provável. A música do Chico é do Brasil, é dos brasileiros, para os brasileiros e sobre brasileiros. A música do Roberto Carlos (ele é o Rei) também. A música do boêmio e marginal, obviamente, é tupiniquim, verde e amarela e tem a nossa cara: é brasileiríssima.
Não é capixaba. Não é paulista. É brasileira!
Não vejo, contudo, o bairrismo como um vilão – na dose certa, ele é bem-vindo: monta identidades e propaga regionalismos. E, nesse sentido, encaro o trabalho da imprensa local como interessante, de forma que ratifica a cultural do nosso povo.
Adendo: essa lista da Rolling Stone é mais ridícula do que o bairrismo ilógico. Faz-se sobre qual teoria? A própria? É uma piada.
Reply
grijo Reply:
October 21st, 2009 at 12:00 am
Chico é carioca, Vinícius. Foi para SP aos dois anos de idade, em 1946.
E concordo plenamente com vc: a música desses compositores que vc citou é, de fato, brasileira.
O bairrismo não é vilão quando devencilha-se do perconceito e da consequente segregação. O que é difícil, penso.
Reply
Vinícius A. Reply:
October 21st, 2009 at 11:40 am
Chico nasceu em solo carioca, mas é paulista na criação – o que o torna radicado em São Paulo (o tempo de USP – que coincidiu com o início de sua carreira – representa o clímax dessa relação com o povo paulista). Contudo, isso também é polêmico. Na verdade, Chico nasceu em solo brasileiro e é brasileiro na criação. Bom tema, Grijó! Sucesso.
Reply
grijo Reply:
October 21st, 2009 at 8:34 pm
Sim, sem dúvidas, gera polêmica, porque aquele “s” ao final dos plurais à moda carioca é uma das marcas de Chico.
Valeu, Vinícius.
on Oct 20th, 2009 at 11:48 pm
Ao contrário de vc, Grijó, eu me orgulho de ser capixaba sim! Não que a lista tenha algo a ver com o Espírito Santo. Muito pelo contrário.
Partindo para a covardia, não das artes nem da culinária: mas, que lugar neste país reúne a quantidade mulheres maravilhosas por metro quadrado como aqui??? Basta dar um pulo numa tarde sábado ensolarada e verá o que digo. Isso, por si, já é motivo de se orgulhar de ser capixaba.
Para falar a verdade, já acho uma enorme vantagem não ser mineiro nem baiano…
No entanto, realmente alguns pontos envergonham. Acho que o pior vc não citou: congo! Quer coisa pior?
Reply
grijo Reply:
October 20th, 2009 at 11:55 pm
Sim, Tálib. As mulheres capixabas são belas – mas são belas por serem capixabas? Não preciso, camarada, dar um pulo numa tarde de sábado. Sou professor, lembra-se? Vejo garotas bonitas todo dia.
Já é uma grande vantagem não ser mineiro nem baiano? haha…sacanagem, Tálib…
Abraço.
Reply
Tálib Reply:
October 21st, 2009 at 6:57 am
Grijó,
Está aí uma pergunta difícil de se responder. São belas por serem capixabas ou capixabas por serem belas. De um modo ou de outro, a concentração aqui é acima da média. Já é motivo de orgulho, não? Assim como a grande vantagem que citei…ahahahahaah
Abração
Reply
Letícia Gueiras Reply:
October 21st, 2009 at 11:32 am
O congo precisa ser respeitado como manifestação cultural, sim senhor. Só aqueles que desconhecem o terreno do folclore podem zombar de uma congregação multi-significativa como o congo. Recomendo mais leitura antes de qualquer comentário. Admiro um blog como este permitir tamanho preconceito.
Letícia Gueiras.
Reply
Tálib Reply:
October 21st, 2009 at 6:05 pm
Uma das coisas que mais me impressionam neste blog é como algumas pessoas – que aqui entram – insistem na velha (e falida) tática de acusar os outros de preconceito quando uma opinião vai de encontro às suas.
Novamente tenho que informar que não se trata de preconceito e sim de opinião. Do mesmo modo que a senhora (ou senhorita) gosta de congo e se ofende com quem não gosta, deve levar em consideração uma gama de outras pessoas que não gostam, como eu. E nem por isso estou acusando a senhora (ou senhorita) de ditadora por querer impor a sua opinião.
Leitura? Obrigado pela sua dica, mas o que tinha que ouvir e ler sobre congo já foi suficiente para dizer que acho insuportável.
Não mudo uma vírgula do que disse e, se quer considerar preconceito, isso deixa de ser problema meu.
O Espírito Santo tem coisas muito superiores para se orgulhar. Por exemplo, procure saber quem foi Alceu Camargo e, se ainda assim, achar congo melhor (com suas festas de São Benedito e suas bandinhas mais modernas do tipo Casaca, Macucos e sei lá mais o que), realmente nossos gostos divergem muito. OBS. pode pesquisar no Google, que certamente tem o nome do professor.
Cordialmente,
Tálib
Reply
Vanessa C. Reply:
October 21st, 2009 at 8:32 pm
É… Letícia provou que de nada adianta as mulheres, ditas capixabas por este senhor ou senhorito, serem belas. Não basta Letícia, tem que ser TAMBEM inteligente como você.
Valeu, querida.
grijo Reply:
October 21st, 2009 at 8:37 pm
Letícia, agradeço a vc por admirar o blog. Quanto ao complemento de sua frase, o Ipsis tem como fundamento e preceito (permita-me a tautologia) não censurar opiniões quando estas não caracterizam ofensas pessoais. E o humilde editor deste blog – eu, no caso – não percebeu nenhum tipo de preconceito nas palavras do Tálib que, diga-se, fundamenta muito bem as próprias opiniões. Sinta-se à vontade para treplicá-lo.
Abraço.
Reply
Tálib Reply:
October 21st, 2009 at 11:38 pm
Vanessa,
Faço das suas, as minhas palavras, e espero que vc preencha os dois critérios também.
Um abraço
Tálib
Claus Reply:
October 22nd, 2009 at 7:43 pm
Todos os capixabas que conheci, aqui em Belô, não valeram a pena. Mas tudo bem. E concordo: SS não fez música capixaba. Já pensou ele fazendo congo, aquela chatice da Barra do Jucu? Só intelectualóides gostam daquilo…
Tálib Reply:
October 22nd, 2009 at 10:13 pm
Claus,
Concordo com vc em relação ao congo. No entanto, conhecer capixabas que não valeram a pena é questão de oportunidade ou de pouco conhecimento do Espírito Santo.
Aliás, Minas tem revelado cada tragédia musical, meu amigo….Cesar Menotti e Fabiano, Skank são algumas delas…
Venha para o ES e vá para o foco dos mineiros (nossas praias) – sobretudo no verão – e encontre um mineiro que também valha…é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha.
Um forte abraço
on Oct 21st, 2009 at 12:09 am
Sobre a lista: assim como todas, ela reflete um momento, uma situação, o gosto de um grupo restrito. Essas coisas só servem para vender revistas e provocar polêmicas.
Não me atrevo a entrar nessa polêmica do bairrismo, agora, me surpreendeu você falar que não tem orgulho de ser capixaba. Existe um motivo? Você citou duas músicas que eu gosto muito: Eu quero Botar o Meu Bloco na Rua e As Curvas da Estrada de Santos, andam no meu mp3. Gosto muito do Sérgio Sampaio, não sabia que era capixaba.
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grijo Reply:
October 21st, 2009 at 8:38 am
Gosto muito do Sampaio tb, Ed. Tomei algumas cervejas com ele nos anos 90, quando ele por aqui esteve. Uma figura, embora já estivesse alquebrado, doente. Ótimas idéias, sacadas. Tenho seus discos e os ouço com menos freqüência do que deveria.
Quanto a ter orgulho de ser capixaba, isso não me diz muita coisa, Ed. Respeito aqueles que se orgulham do lugar em que nasceram. Na verdade, seu eu tivesse nascido em qualquer outrra cidade as coisas não seriam muito diferentes. Orgulho-me dos amigos que tenho, das pessoas que escolhi para com elas conviver. Espaço, para mim, implica as companhias, não o local em si, a terra, a paisagem. Já estive fora de Vitória e senti falta das pessoas (das escolhidas); não do lugar.
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on Oct 21st, 2009 at 10:02 am
Duas frases, Mr. Grijó,
“Não vejo, contudo, o bairrismo como um vilão – na dose certa, ele é bem-vindo: monta identidades e propaga regionalismos” (Vinícius A.) e “O bairrismo não é vilão quando devencilha-se do perconceito e da consequente segregação” (Grijó).
Aí está a síntese do que acho do bairrismo.
Bem dosado, ele é um importante aglutinador da identidade, dessa nossa necesidade íntima de pertencer a um lugar, a um grupo.
Aristotelicamente, a virtude está no meio. Um certo bairrismo é até saudável, mas preconceito e sectarismo, de forma alguma!!
Afinal de contas, “minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá…”
E a moqueca capixaba é deliciosa mesmo, embora a peixada maranhense não fique atrás – delícias da culinária brasileira…
Quanto a Roberto Carlos, a fase soul é bem interessante – seus discos do final da década de 60 até o início da década de 70 são muito bacanas e ele fez canções maravilhosas nesse período (o sujeito não era esse arremedo de carola com Melvin Udall – o escritor obsessivo compulsivo de Melhor é Impossível).
Sérgio Sampeio é outro nível – um compositor inspiradíssimo, que poderia ter sido dos grandes nomes da dita MPB mas optou (?!?!) pela máxima oiticicana “Seja marginal, seja herói”. Engraçado é que “Meu pobre blues” foi composta em “homenagem” ao conterrâneo Roberto Carlos.
Abração, meu caro Grijó.
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grijo Reply:
October 21st, 2009 at 9:51 pm
Opa.
Sem dúvidas, meu amigo Érico. O RC dos anos 60, quando ainda fazia música com aquele toque roqueiro suburbano, era uma beleza de se ouvir. E há um disco dele, com a capa branca – salvo engano, de 1971 -, em que ele canta, numa pegada soul-blues, “Como Dois e Dois”, de Caetano, que é uma obra-prima. E aquele discaço em cuja capa ele está sentado na areia da praia?
Grande.
Abraço, camarada.
Reply
on Oct 21st, 2009 at 2:07 pm
Isso já foi tema de discussão aqui no seu blog e eu acompanhei, até participei. Já deve saber como se dá minha filosofia.
Não sei o que falta para o Espírito Santo se tornar produtor e deixar essa de consumidor. Não só na música, mas no campo geral mesmo, num todo capitalista. Já passou da hora do Espírito Santo se impor e colocar seu dedo naquilo que consome, afinal paga-se pra consumir.
Cansei de pegar meu velho violão e cantarolar desafinado músicas não-capixabas. Exaustão é pouco, pois tratando-se de – boa – música capixaba restam as boas letras e ótimo groove da Casaca. Além das delongas marcantes e relaxantes do reggae do pessoal do Macucos. Até da Dead Fish, que fora premiada com o VMB, prêmio da MTV Brasileira, como melhor banda de hardcore – mas, sinceramente, não é mesmo e tá muito longe de ser.
Meu círculo social vai além de congo elétrico – se assim posso dizer -, reggae e um hardcorezinho. Eu, como amante e faminto daquilo que os pensantes filósofos chamam de alimento d’alma ou, simplesmente, música, quero ver os filhos da minha terra trabalhando e confiando naquilo que cantam. Deixando de lado as ruins – veja bem: as boas canções merecem sempre serem ouvidas, não importa de onde procedem – músicas alvi-anis, puxando o “r” ou refrões que esbrevejam: O SUL É O MEU PAÍS!
Por fim: queria conseguir não sentir orgulho de qualquer coisa que tenha nascido aqui no estado. Por mais artificial que seja. Sinto ainda esse orgulho das coisas que são minhas, sejam minhas por conquistas ou porque, naturalmente, foram me dadas.
Até mais, professor. É um prazer meu e inveja dos meus amigos ser seu aluno de novo, saiba disso.
________________________________________________
http://www.secretariadecultura.ufes.br/editora_ufes.php
Tá aí, professor, o Prêmio da UFES.
Até mais.
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grijo Reply:
October 21st, 2009 at 9:41 pm
Matheus, agradeço seu comentário, camarada, mas ainda tenho dúvidas quanto ao fato de o Casaca ser “capixaba”. enfim, se for, isso é garantia de qualidade? é preciso reconhecê-la com boa banda apenas por ser “da terra”?
Abraço, amigo.
Reply
on Oct 21st, 2009 at 6:23 pm
Já comi muqueca capixaba e achei ruim. Será que a música é pior? Roberto fez música p/ o mundo…
Reply
on Oct 21st, 2009 at 7:28 pm
Oi Grijó!
Curiosa esta postagem, realmente o capixaba tem essa mania de bairrismo. Mas, apesar do bairrismo, sempre me espantou uma falta de identidade que, a meu ver, não é um fenômeno exclusivo daqui. O curioso é que escrevi há pouco tempo sobre isso no meu blog. Morei durante dezesseis anos no Pará, mais especificamente em Marabá, e, descontando o fato de que eu passava todas as férias de final de ano aqui, não tive a menor dificuldade em me adaptar quando me mudei para Vitória com o intuito de me preparar para a universidade. Simplesmente, descontando a presença da praia e das micaretas, não havia muita diferença entre as pessoas do interior do Pará e as pessoas que eu conheci aqui: tanto aqui quanto lá os jornais televisivos estabelecem a pauta pública, os jovens costumam escutar as bandas que fazem sucesso na MTV (pelo menos na época em que me mudei para cá, não sei se ainda é assim), as obras literárias lidas no ensino fundamental e médio eram as mesmas, os hábitos de frequentar bares e assistir a filmes (não digo “ir ao cinema” porque em Marabá não tem), enfim, a “bagagem cultural” é praticamente a mesma coisa. Curiosamente, ontem eu estava lendo Memórias de Adriano, da Yourcenar, quando me deparei com um trecho que falava sobre isso: “Procurava imaginar-me tomando a simples decisão de continuar a andar sempre para frente pelos caminhos que já começavam a substituir as estradas. Brincava com essa idéia… Ser só, sem bens, sem prestígio, sem nenhum dos benefícios de uma cultura, expor-me a um meio de homens novos, por entre riscos nunca antes experimentados… É evidente que tudo isso não passava de um sonho, o mais breve dos sonhos. A liberdade que eu idealizava, só existia à distância; bem depressa teria recriado tudo que acabava de renunciar. E mais: não teria sido nesses lugares senão um romano ausente de Roma. Uma espécie de cordão umbilical prendia-me à cidade.” Parece que este cordão umbilical se deslocou, com essa “internacionalização” cultural dos meios de comunicação de do ethos, da cidade para o país ou, até, do país para o lado do globo no qual você nasceu; não há diferenças profundas em nossas cidades como as havia em, por exemplo, na Grécia clássica. Eu adoro ler e escrever histórias que lidam com o “fantástico” por algum motivo que desconheço, mas, enfim, o fato é que elas geralmente usam fábulas locais e folclore para dar certa coerência a seus universos povoados de seres e fatos míticos. Assim, lendo Pamuk, Garcia Márquez, Hoffman, Stevenson, entre outros, eu, antes de encontrar um método melhor, comecei a procurar o que Vitória teria para me oferecer de próprio em matéria de mitos e lendas: iniciei a pesquisa pela leitura de um conjunto de ensaios escritos por Guilherme Santos Neves e organizados em dois volumes por Reinaldo Santos Neves. Lá descobri que muitas fábulas locais eram, na verdade, releituras ou pequenas variantes de mitos de outros lugares. Depois li os ensaios do Câmara Cascudo, buscando uma “mitologia” brasileira que escapasse do sertão, apenas para descobrir que muitos de nossos rituais remontam tão longe no tempo e no espaço quanto a Anúbis. Nesse estado de coisas, não me espanto que as pessoas tentem reduzir a identidade (e produzi-la a partir) ao local onde o autor de uma obra nasceu; aliás, este é um velho debate, a literatura brasileira produzida quando só se copiavam modelos europeus pode ser chamada de brasileira? Alguns amigos meus, que começaram a praticar futebol americano, pediram que eu lhes desse uma idéia de símbolo e nome que tivesse a ver com Vitória para o seu time; curiosamente, a primeira coisa que me ocorreu foi uma moqueca; depois pensei nas panelas de barro, no convento, ou seja, nada que servisse para nomear um time de futebol americano. Para mim, o pior problema do bairrismo é quando ele tenta se estabelecer com base em identidades imaginárias, algo que não constitui nenhum fundamento da personalidade dos que altercam; às vezes certas segregações decorrem de um medo natural do desconhecido, do estrangeiro, leis de todas as culturas atestam isso, são necessárias, em certas circunstâncias, para salvar uma cultura. Mas no caso que você comentou, realmente, concordo que essa tentativa de valorizar o produto local foi feita de uma forma tão “estapafúrdio quanto artificial”.
Abraços
Reply
grijo Reply:
October 21st, 2009 at 9:47 pm
Thiago, vc tem razão, e sua sacada é boa: quando o bairrismo é fundamentado em identidades que, de fato, são artificiais, inventadas, imaginárias, percebe-se que a coisa desandou por inteiro.
O grande (e sábio) Samuel Johnson dizia que o patriotismo está a milímetros da canalhice. O bairrismo fundamenta-se na mesma idéia. Em nome de seu “lugar original”, é possível cometer atrocidades, é possível segregar e é aceitável oprimir. Eu acho – concordando com Mencken – que todo bairrista espera ser pago por sê-lo.
E, sim, já li muito sobre mitologia brasileira, sobre todo o misticismo norte-sul brasileiro e, claro, encontram-se muitas coincidências com mitos europeus, principalmente. Algo que Jung e seu inconsciente coletivo explicam muito bem. Arquétipos vencem o tempo, Thiago.
Grande abraço.
Reply
on Oct 21st, 2009 at 8:20 pm
Grijó,
excelente tema. E vou além: qual a relevância da culinária como traço cultural de todo um estado? Obviamente, temos a questão das paneleiras e tal…mas, mesmo assim, será que vale como tanto motivo de orgulho? A ponto de ser a primeira coisa que os turistas associam ao Espírito Santo depois de pegar suas malas (a famosa frase da “peixada” fica estampada num painel do aeroporto)? E olha que eu adoro moqueca.
A verdade é que a produção cultural capixaba é inócua. Vive de um ou outro talento que aparece. E o congo da Barra, faça-me o favor, é tão original do Estado quanto o forró de Itaúnas. Vamos parar de forçar a barra (sem duplo sentido).
Concordo plenamente com sua visão do bairrismo. Em qualquer viagem que faço para fora do Estado percebo que os bairristas que conheço (de onde quer que sejam), coincidentemente, são sempre as pessoas de menos personalidade.
P.S: vale conferir o trabalho dos cartunistas da Revista Quase sobre o nosso “ufanismo cultural”.
Abraço!
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on Oct 21st, 2009 at 8:36 pm
Dispenso o coentro, Grijó!
Reply
on Oct 21st, 2009 at 9:48 pm
Com uma análise dessa, dispenso até a pimenta.
Grande abraço amigo e, lembre-se, a Casa Bonita espera por você.
JL
Reply
on Oct 22nd, 2009 at 6:02 pm
Sr. Tálib ( ou senhorito, sei lá!)
Por que espera isso de mim? Não somos conhecidos e não tenho nenhum interesse em conhecê-lo….. Mas, sim, se um dia eu tiver , esperooooo que seja inteligente e muito lindo, mas já me deixaram em dúvida.
Mesmo assim, um abraço, meu caro.
Vanessinha
Reply
Tálib Reply:
October 22nd, 2009 at 10:05 pm
Senhorito (ainda)
Engraçado, que debates não me deixam com ódio alheio, ao contrário, me aguçam em conhecer quem está debatendo. Eu teria curiosidade em conhecê-la.
Olha…não vai se arrepender, te garanto. Nos dois quesitos, modéstia à parte. Para matar sua curiosidade pesquisa no Google: Tálib Moysés Moussallem.
Se se interessar, quem sabe o dono do blog não nos proporciona um momento “Namoro na Net”?
Mas vc já disse que não quer nada né….
Um abraço
Reply
Vanessa C. Reply:
October 23rd, 2009 at 4:31 pm
Eu não me atraio por aparências, mas se não for pouca areia para mim, posso até considerar uma boa moqueca, por que não?
Reply
Tálib Reply:
October 23rd, 2009 at 6:49 pm
Agora, sim! Somos partes contrárias no debate, mas tenho certeza que não precisamos ter ódio um do outro simplesmente porque discordamos, não acha?
Brincadeiras à parte, não se intimide se quiser bater um papo ou continuar a discussão (talib_moussallem@hotmail.com)
Um abraço
Vanessa C. Reply:
October 24th, 2009 at 9:37 pm
Sério??
Médico infectologista? Detesto hospital, doenças e cheiro de éter.
Esqueceu de pedir o email da Letícia, pois vou precisar de uma ajuda dela e de uma passagem para o congo. Topas? Se topares, talvez escreva.
Sem ódio, imagina…
Tálib Reply:
October 26th, 2009 at 12:19 pm
Ahahahahahahaha
Já vi que o Google funcionou!
Pode passar o meu e-mail para Letícia tb.
Eu topo!
Bjs
on Oct 22nd, 2009 at 7:52 pm
Grijó,
quase cliquei em “submit” quando estava com meu comentário pronto, mas resolvi reler a matéria.
Antes, apesar de concordar com você, havia escrito que em nenhum momento o jornalista responsável citava “música capixaba” e, sim, “compositores capixabas”. Ainda bem que reli. Pois exatamente no título, de todo tamanho, pra todo mundo ler (menos o desatencioso aqui), a tal fatídica expressão…
Discordo em um ponto do comentário de um de seus leitores. Acho sim que culinária pode representar sim uma região, um Estado, um país. Temperos, formas de ser fazer, até mesmo o recipiente onde se encontra a comida podem ser genuínos de determinada cultura. Detalhes que, a princípio, passam despercebidos, podem diferenciar, e muito, um prato de outro. Como o uso de coentro numa moqueca, que eu adoro.
Reply
grijo Reply:
October 22nd, 2009 at 8:46 pm
Eu, Gustavo, não comeria moqueca sem coentro.
E, sim, o jornalista escreveu garrafalmente.
Reply
on Oct 25th, 2009 at 8:41 pm
Bauman acredita q agente vive hj uma realidade pós moderna (“liquida”, como ele diria) em que, de maneira geral, os tradicionais valores da modernidade q davam sentido de sociedade à própria foram totalmente desbaratados. Entao as pessoas tem de se indentificar com alguma coisa pra satisfazer sua necessidade de pertencimento, o q se dá através do consumo. Acho q essa é a questao principal nisso tudo. Talvez seja muito mais interessante financeiramente a mídia enaltecer artistas “capixabas” do q a moqueca, q em nada pode trazer retorno financeiro. Concordo plenamente q a moqueca cabixaba diz muito mais sobre nossa identidade do q a música desses aritistas. Mas esse pessoal num ta nem aí pra isso, eles querem mesmo é saber de grana no bolso.
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on Nov 2nd, 2009 at 2:38 am
Nossa seu blog esta interesante, vou adicionar aqui em meus favoritos .. Parabéns .. sucessos..Bjs
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on Jan 22nd, 2010 at 10:03 am
sou primo de sergio moraes sampaio,eu quero é botar meu bloco na rua
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