Mais cinema e mais mulher - e números. Contos de Nova York, o filme, faz vinte anos, e Rosanna Arquette, estrela do primeiro episódio, Life Lessons, dirigido por Martin Scorsese, comemorou cinqüenta anos de vida há poucos meses. Vejo e revejo sempre que posso. Aliás, embora eu seja afeito a assistir a filmes recentemente lançados, o prazer maior - meu, naturalmente - ainda está em rever aquelas boas obras que alimentam a memória e fazem bem. Os outros dois episódios, o chatinho Life Without Zoe, de Francis Coppola, e o engraçadíssimo Oedipous Wrecks, de Woody Allen, dão vida ao devedê que acabei de (re)assistir.

Mas por que o episódio do Scorsese é meu preferido? Primeiro porque Rosanna Arquette está nele, mas também porque a discussão sobre a relação artista/musa é posta à prova. Além disso, uma outra questão: o que a verdadeira arte representa para aquele que a produz. Para ser verdadeiro como a própria arte que pratica, o artista precisa vê-la como essencial. Ou seja: sem ela, sem a arte, não há significado. Talvez por isso a incidência de cisões conjugais, quando um dos parceiros é artista, seja tão freqüente. Casamentos não sobrevivem ao inevitável egoísmo dos que vivem a arte em sua plenitude.
No meu livro de contos em preparação - Todas Elas, Agora -, a sair, possivelmente, no início de 2011, há um conto intitulado A Entrevista. Pode-se lê-lo AQUI. Nele, uma mulher inquire várias candidatas ao cargo de esposa do ex-marido, um pintor pernóstico e priápico. Quase todos os meus livros trazem nomes de mulheres no título, o que sugere, para muitos, a figura da musa, mas isso é um erro. A musa é inalcançável, a ela não se tem acesso, é distante como um sonho bom. Minhas mulheres, se assim posso chamá-las, estão a milímetros do desespero, beiram o abismo. Não todas: algumas, sabendo que não há saída possível, caminham lentamente para o precipício.
Musas podem até inspirar a ciência, mas é com as artes que se identificam, e com os artistas que elas se relacionam. Lembro-me de outro filme - visto na tevê numa sessão da tarde, há vários anos - em que Rita Hayworth fazia o papel de Terpsichore, a lendária musa da dança. A web auxiliou-me: o título é Quando os Deuses Amam. Um musical pra lá de saboroso (feito há 62 anos), e que corrompe a idéia de musa. Terpsichore apaixona-se por um mortal e acaba comprovando que as experiências mundanas são muito mais divertidas do que o tédio olímpico. Rita Hayworth teria 91 anos, se viva. Rosanna Arquette, como eu disse, está com 50. Ambas são a prova de que musas são para sempre.









on Nov 7th, 2009 at 7:35 pm
Oi Grijó!
Adorei o seu post e concordo contigo sobre a explicação das musas. Além do mais, cada autor tem uma visão diferente e não dá para generalizar. Também gosto de assistir filmes clássicos e ver o glamour e charme da 7ª arte.
Abraço
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grijo Reply:
November 7th, 2009 at 9:51 pm
Ainda acho que eles, os filmes antigos, são os melhores. E as musas antigas idem.
Vão me chamar de saudosista.
Abraço.
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on Nov 7th, 2009 at 8:03 pm
Grijó, li dois deu seus livos, e num deles, Licantropo, tem uns contos em que as mulheres são o centro, não? Pannonica…bjokas
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grijo Reply:
November 7th, 2009 at 9:50 pm
Sim, Juliana, no livro há Pannonica, Leonor, Martina e outras. Uma obsessão, segundo alguns amigos/leitores.
Valeu.
Bjo
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on Nov 8th, 2009 at 12:26 pm
Então professor, as musas ditas “antigas” são, realmente, mais belas que as contemporâneas, mas você as congelou. Agora, velhas, já não valem mais nada? Elas ainda estão vivas e você já está meio “idoso”, pelo que sei ( ui!), então, não deveria estar acompanhando-as e achando-as tão lindas quanto antes, em plena idade madura ( delas)? Sei que vai citar Deneuve, mas esta não vale pela beleza duradoura, mas e as outras, que não permaneceram belas? Então, não é uma forma errada de avaliar suas musas? Calma, hein… só estou perguntando.
bjos,
Vanessa
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grijo Reply:
November 8th, 2009 at 7:33 pm
Vanessa, musas existem, também, como memória.
E Rosanna Arquette tem apenas 50 anos.
Tenho certeza de que vc entende.
Abraço
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on Nov 8th, 2009 at 3:58 pm
Caro Grijó
Não é saudosismo, mas no tempo de Rita Hayworth havia motivação e poder dos estúdios para produzir musas. Era uma das maneiras de girar a máquina. Atualmente, não há tempo para emplacar musas, pois o consumismo é imediatista e implacável: há internet, youtube, orkut e outras midias para alavancar o sistema. Por isso, não acho que Rossana Arquette seja musa. Na verdade, acabou o tempo das musas do cinema.
Madonna seria musa na época de Rita?
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grijo Reply:
November 8th, 2009 at 7:42 pm
Vc tem toda a razão, Olmiro: os tempos são outros e a velocidade da informação achata as musas. Mas há um ponto positivíssimo: as musas são subjetivas, ou podem ser. Arquette é uma musa para mim, por exemplo. Aquela loirinha genu vagum, Scarlett johansson, não se tornou musa de Mr. Allen?
Quanto a Madonna, difícil dizer, mas acho que não serivria nem para fazer sabão.
Enfim, ainda há esperança.
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on Nov 9th, 2009 at 5:49 pm
E aí, Grijó!
Fui lá na Bienal e procurei seus livros, encontrei Com Viviane ao lado, o tal romance experimental. Vou ler com cuidado, hehehe.
Muito bacana o conto A Entrevista e o comment do Reinaldo é show.
Forte abraço.
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grijo Reply:
November 9th, 2009 at 11:08 pm
Valeu, Marvelous. Sim, “Com Viviane ao Lado” é um romance. O termo “experimental” fica por conta de alguns professores do departamento de Letras da UFES. Não entendo muito dessas coisas.
O conto “A Entrevista” é uma prévia.
Abraço.
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on Nov 26th, 2009 at 12:21 am
Gostaria de ver o senhor, Grijó, comentar sobre a Françoise Hardy. Não sei se a conhece mas adoraria poder ver o que outra pessoa pensa a respeito dela. Para mim, Françoise é uma das mulheres mais lindas do séc. XX e eu tambem sou grande admiradora de suas canções.
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grijo Reply:
November 26th, 2009 at 12:58 am
Belíssima.
E soube envelhecer, como quase nenhuma. Uma das poucas - Nastassja Kinski também é uma - a ficar ainda mais bela de cabelos curtos.
Anotada a sugestão e o desafio.
Valeu.
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on Nov 27th, 2009 at 12:01 pm
Tinha-tenho verdadeira tara por Rosanna. Linda.
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