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Uma visita a Otto M. Carpeaux (1900-1978)

E eu insistindo nessa mania de visitar os mortos. Pois bem. Otto Maria Carpeaux, austríaco de nascimento e brasileiro naturalizado, viveu quase 78 anos, o que me parece insuficiente para escrever a quantidade extraordinária de livros essenciais que escreveu. Só o labor hercúleo de criar o compêndio História da Literatura Ocidental já garantiria um lugar em qualquer céu. Não há nada que rivalize intelectualmente com esse trabalho, seja na pesquisa incrivelmente erudita e precisa, seja na clareza com que essa erudição é veiculada ao leitor. Otto Maria Carpeaux é o mais importante intelectual a escrever no Brasil, e olhe que Mário de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda e Álvaro Lins estavam na ativa.

Mas o que se pode esperar de um indivíduo que maneja os mais falados idiomas do mundo com a mesma intimidade com que se comunicava em alemão, sua língua pátria? Conhecer profundamente o italiano, o francês, o inglês e o espanhol já seria o bastante para passear, com folga, pelos mais importantes textos produzidos pelas literaturas correspondentes. E, além da competência inequívoca, parece que o tempo recusava-se a passar para Carpeaux, que, segundo alguns, era capaz de ler dois livros por dia.

Quanto a mim, tenho na cabeceira, há anos, pelo menos três de suas obras: Uma Nova História da Música - sobre a qual já postei -, Sobre Letras e Artes e o ótimo Reflexo e Realidade. Além, claro, dos 8 volumes de História da Literatura Ocidental e do estupendo A Literatura Alemã, que pretendo consumir em breve. O Brasil deveria sentir falta de Otto Maria Carpeaux, ao mesmo tempo em que, tentando conhecê-lo, pudesse ter contato com sua metodologia, seu refinamento e sua sensibilidade. É o maior dos mestres em seu elemento.

Tudo bem que a ensaística - de qualquer autor sério - é distante do grande público, principalmente porque, salvo algumas exceções, o teor desses ensaios interessa a grupos sempre pequenos, especializados, restritos a restritas áreas de atuação. Isso é natural. O que não é natural é o nome de Otto Maria Carpeaux soar como uma referência intergalática, tão inacessível quanto um planeta distante. Bem, num país em que livros de auto-ajuda têm status de ensaística, chega-se até a compreender tal disparate.

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15 Comments on “Uma visita a Otto M. Carpeaux (1900-1978)”

  1. #1 miltonribeiro
    on Nov 12th, 2009 at 7:26 am

    Carpeaux foi e é meu ídolo. Porém, acho que na História da Literatura Ocidental abundam os julgamentos curtos, afirmativos e definitivos.

    Já peguei coisas incríveis, como certo ódio a Sterne e lacunas incompreensíveis, mas é obra notável e única, apesar dos descuidos aqui e ali. Aliás, a Nova Hist. da Música padece do mesmo defeito. Às vezes cai de uma análise erudita para um manual do gênero “Eu e a Música”.

    Uma pena, mas temos de dar graças por Carpeaux ter existido e vindo para cá.

    Abraço.

    [Reply]

    grijo Reply:

    Lacunas são inevitáveis, Milton, ainda mais numa obra de fôlego como HLO. E a viabilidade do projeto poderia estar em jogo se houvesse, por parte do Carpeaux, análises muito esticadas. Mas aí está outro mérito dele, a meu ver: o poder de síntese, a clareza e a abrangência no resumo e as análises certeiras - na maioria dos casos, ao menos.

    Quanto à subjetividade, ela ainda é mais inevitável. Como isentar-se?
    Abraço, camarada.

    [Reply]

  2. #2 Thiago Pessoa
    on Nov 12th, 2009 at 12:41 pm

    Grijó, você é uma das poucas pessoas que citam o e admiram o Carpeaux, outro que fala muito e admira o Carpeaux é o Olavo de Carvalho, que não sei se você conhece, mas possui um livro muito bom que é o Jardim Das Aflições. Acho interessante a abordagem dele sobre religiões, principalmente o Islã, mas não admiro ele como comentarista de talk-show na Internet.

    Abraços,

    Thiago Pessoa

    [Reply]

    grijo Reply:

    Conheço o Olavo, sim, Thiago. Li dele “O Futuro do Pensamento Brasileiro” e achei, em algumas passagens pretencioso e vaidoso demais, mas que busca uma análise sobre o pensamento nacional conectado à arte e à cultura de um modo geral. E de vez em quando lia algumas coisas dele no Jotabê.

    Sobre o talk show, desconheço-o, na verdade.
    Abraço.

    [Reply]

  3. #3 Laio
    on Nov 12th, 2009 at 7:08 pm

    “…O Brasil deveria sentir falta de Otto Maria Carpeaux…”

    Fala, mestre!
    Pra variar aparece um camarada novo aqui, do qual nunca ouvi falar. Entretanto, por força da razão, tal situação me leva a uma outra ocorrida mais cedo. Essa frase parece cair como uma luva em um assunto descutido hoje. Era aula de Sociologia da Comunicação e, entre outros temas, o professor propôs algumas direterizes que seriam interessantes na reformulação da eficácia da indústria midiática ética, social e culturalmente. Um jornalismo menos factual e mais abrangente a consciência de diversidade cultural eram um deles, havia mais outros, mas o que me chamou atenção foi produção de uma Memória. Infelizmente, no país, não há memória produzida que não seja interessante apenas para quem as produz, dada a efemeridade do conteúdo, a relembrança torna-se salutar também, se não os fãs mais ávidos não lembrariam de seus ídolos de dois anos atrás, coitados. À parte a essa parada toda que Adorno explica melhor do que eu, o professor, em tom de decepção, contou-no um caso sobre um “tal” de Laurindo de Almeida. O cara é um monstro, Grijó. Me pus a pensar o quão é pequena é quantidade de coisas que conheço. Niguém na sala sabia sobre ele; provavelmente não sabem sobre Carpeaux, também.

    Hasta!

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    grijo Reply:

    Muito triste, Laio.
    Já bati um bocado nessa tecla e o que consegui, de fao, foi que a maioria risse e/ou desprezasse. Enfim, sempre há um ou outro que leva a coisa a sério e se propõe uma discussão mais eficaz. O problema - talvez seja esse - está no ambiente. é possível que o meio universitário tenha a mente mais aberta, mais preocupada. Aí vem vc e joga água em tudo. Enfim, o negócio é continuar a insistir.

    Quanto a Laurindo, sei que é um monstro, camarada. Tenho vários discos dele, incluindo o “Guitar from Ipanema” e aquelas magníficas gravações com Bud Shank (”Brazilliance”) e Charlie Byrd.
    Muitíssimo bom!

    Abraço, amigo.

    [Reply]

  4. #4 érico cordeiro
    on Nov 13th, 2009 at 1:07 am

    Caro Grijó,
    Laurindo e Carpeaux.
    Como escrevi em um post no jazz + bossa sobre santos de casa que não fazem mlilagre (falava do Kenny Drew), esses dois monstros (cada qual em seu mister) tiveram que sair de seus países para brilhar em outras plagas.
    Li, faz um bom par de anos, um texto emocionado do Sérgio Augusto sobre o grande pensador, sobre a sua erudição e sua simplicidade comovente.
    Assim são os verdadeiros sábios: dividem o conhecimento e fazem dessa partilha uma profissão de fé.
    O Brasil precisa merecer Carpeaux - ainda há tanto dele para explorarmos (quem gosta de música pode começar pelo Livro de Ouro da História da Música, cuja linguagem é relativamente simples e de muita clareza).
    Abração!

    [Reply]

    grijo Reply:

    Li esse artigo tb, amigo Érico. Muito bacana, e trazendo uma informação sobre o encontro de Carpeax com Kafka, não é esse?

    Abraço, camarada.

    [Reply]

  5. #5 Lucas
    on Nov 13th, 2009 at 6:06 pm

    Como faz falta!!!
    E o que temos agora? Diogo Mainardi e Arnaldo Jabor posando de intelectuais? Triste Brasil!!!

    Seria o sucessor de Carpô o Merquior?

    [Reply]

    grijo Reply:

    O Merquior era um intelectual em estado puro, arguto e bem articulado, embora de “direita”, mas isso quer dizer pouco, em termos de análise literária. Como Carpeaux? Acho que não.

    [Reply]

  6. #6 Vítor
    on Nov 13th, 2009 at 9:47 pm

    Uma pena que poucos saibam quem ele é, e o que fez por este pobre país tropical. gostei: “num país em que livros de auto-ajuda têm status de ensaística, chega-se até a compreender tal disparate”. Tens razão, mr. Grijó. Lair Ribeiro é mais popular e mais eficaz do que Caio Prado Jr.

    [Reply]

  7. #7 George
    on Nov 16th, 2009 at 6:25 pm

    Poxa, o mais engraçado é que conheci Otto Maria Carpeaux atravéz de seu livro sobre música, que nunca deixo de consultar frequentemente.
    Abraços

    [Reply]

    grijo Reply:

    Nem eu.
    Sempre que possível. E mesmo quando nada há para fazer.
    Abraço.

    [Reply]

  8. #8 Marcos Azeredo
    on Nov 21st, 2009 at 5:18 pm

    Acho que o Otto Maria Carpeaux está entre os grandes intectuais brasileiros do século XX, apesar de não ter nascido no Brasil. Mas ao lado de Darcy Ribeiro, José Guilherme Merquior, Caio Prado Junior, Gilberto Freyre, foi o que de melhor se produziu no Brasil em termos de profundidade intelectual, o que você acha? Abraços.

    [Reply]

    grijo Reply:

    Eu prefiro evitar comparações, Marcos, mas, se necessário for, digo que Carpeaux superou todos esses que vc citou, e incluo nessa lista Celso Furtado, Mário de Andrade, Wilson Martins e Sérgio Buarque de Holanda.

    Mas, de fato, todos eles contribuíram - uns mais que outros - para que a inteligência não abandonasse as letras brasileiras, sejam elas referentes à arte ou não.
    Valeu, Marcos.
    Abraço.

    [Reply]

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