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Assim não dá, Tremendão!

Vou lendo passagens de Minha Fama de Mau, as tais memórias de Erasmo Carlos, o Tremendão. Livro badalado por revistas, jornais. Erasmo é simpático, não é afeito a pedantismos, tem a humildade que seduz, que eleva, própria da rapaziada do iê-iê-iê, sem pretensões intelectuais. Mas quer saber? O texto não vale a pena. É paradoxalmente ingênuo, além de lingüisticamente pobre. Mas o que eu deveria esperar? Lampejos literários e prosa cheia de vigor? Imagino que as histórias da Jovem Guarda, nas mãos hábeis de um Ruy Castro, por exemplo, ou até - com ressalvas - de um Nelson Motta, poderiam ter um pouco mais de sabor.

Bem, alguém dirá: o livro transpira honestidade. Sim, e daí? Continua sendo simplista, transbordando em clichês, mal articulado, com passagens de uma infantilidade constrangedora. Erasmo é um cara legal, é ídolo de uma geração que viu nele o anti-Roberto Carlos, o roqueiro que mandou as normas às favas e fez música até para Roberta Close. Não pinta cabelo, assume a calvície, fala sacanagem. Deu banana para o stablishment. Ok. Mas escreve mal e ponto. E olhe que algumas histórias poderiam se contar sozinhas, já que seus protagonistas - Carlos Imperial, Raul Seixas, Paulo Silvino, Tim Maia, entre tantos - têm muito a esconder. Mas não dá. Bem, vou terminar de ler porque - dizem! - largar livro pela metade faz nascer verrugas.

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27 Comments on “Assim não dá, Tremendão!”

  1. #1 Mulherices, o Blog!
    on Nov 14th, 2009 at 5:30 am

    Não li, ouvi falar bastante.

    O Erasmo tem essa coisa, como vc diz: simpático, todo mundo gosta. Deve mesmo ser um cara “legal”. Mas musicalmente já é muito contestável, vamos falar sério …

    Agora meteu-se a escritor?

    Eu até achei que o livro tinha sido escrito por um escritor, relatando as memórias dele. Não havia me ligado que o texto era do próprio.

    Fato: Ruy Castro, Nelson Motta e, quem sabe, Fernando Moraes (todos ótimos biógrafos) poderiam tirar leite dessa pedra.

    Em tempo: seu blog é bom, seu texto é bom. A maioria dos tais blogueiros por aí limitam-se a replicar notícias e artigos, quase ninguém cria nada, quase não se vê opiniões.

    Gostei.

    Visite-nos também.

    [Reply]

  2. #2 Viviane Righi
    on Nov 14th, 2009 at 6:42 am

    Ler algo que não gostamos é muito constrangedor, pois se escolhemos um livro para ler, na grande maioria das vezes, é porque apostamos alguma coisa nele.

    Que decepção, heim…

    Espero que dê sorte em sua próxima leitura!

    Abraços…

    [Reply]

    grijo Reply:

    Nem sempre é constrangedor, Viviane. Leituras não geram, obrigatoriamente, expectativas, apostas. E não cheguei a me decepcionar justamnte porque sei das limitações de um compositor/escritor como Erasmo. Mas leio, até para (re)conhecer uma época que não vivi com intensidade por ser criança.
    Abraço.

    [Reply]

  3. #3 Benhur
    on Nov 14th, 2009 at 8:05 am

    Poxa, mas se ele escreve mal ele deveria ter contratado alguém pra escrever sua biografia. Que insensatez a dele.

    [Reply]

  4. #4 Tálib
    on Nov 14th, 2009 at 11:09 am

    Eu tenho uma implicância horrorosa com a Jovem Guarda. Acho que , em grande parte, por causa de Vanderléa, que canta - mal - somente duas músicas (horríveis): Senhor Juiz e Festa de Arromba.
    Nunca me interesso por ficar lendo histórias ou contos sobre a Jovem Guarda. De lá, salvei Roberto e Erasmo que têm boas composições ao longo de décadas.
    Vc acaba de me confirmar que vou continuar sem ler nada sobre o referido “movimento musical”.

    [Reply]

    Vanessa C. Reply:

    O doutor, pianista, nadador, lutador Tálib tem razão, estou de acordo com ele em relação à jovem guarda. Dela, tenho horror.
    No entanto, guardo alguma admiração pelo Tremendão ( pelo RC não)como compositor em algumas músicas, em particular, uma gravada com Nara Leão. Acho que ele supera RC em qualquer coisa, como aliás, todo lado B das coisas, que não faz tanto sucesso mas é melhor que o lado A.

    A letra da música acompanha este comentário e vem logo abaixo.

    Meu ego

    Por favor, meu ego
    Não dê força ao prego
    Que nos põe contra a parede
    Pra nos afogar de sede
    Chove, chuva
    Na sua boca, você não bebe
    Há palavras, existem letras
    Mas você não forma
    As frases loucas
    Que cultiva por aí
    Fale pelos cotovelos
    E pelos joelhos
    Me critique sem razão
    Se omitir não vale a pena
    Mas não polua minha cultura
    Não venha dividir
    Comigo sua auto-censura
    Me desencontre
    Não me prostitua
    Senão
    Seremos mais uma carcaça
    Em desgraça
    Por aí

    Bjo para Grijo ( e Tálib)

    Vanessa

    [Reply]

    Vanessa C. Reply:

    E então, complementando o meu comentário acima, como pode um cara compor essa letra e escrever um livro “pueril”? Erasmo deve ter permitido, apenas. Ele não deve estar nem aí ( como ele próprio diz) com a literatura, porque o negócio dele é música.
    Vou ler.

    [Reply]

    grijo Reply:

    Biografias são, via de regra, não-literatura, Vanessa.
    Mas podem ser bem escritas.

    Tálib Reply:

    Particularmente eu não conhecia “Meu Ego”. Também não conheço a melodia, mas espero que seja melhor que a letra…(”seremos mais uma carcaça em desgraça” ???).
    Mas, tenho que reconhecer que, com o caminhar das coisas, em breve terei uma biografia escrita por Vanessa.
    Abraço para Grijó (mandou bem na postagem) e um beijão para Vanessa!

    Vanessa C. Reply:

    Claro, Tálib. Começarei pela sua, já que o que conversamos não passou de mera biografia sua. É só eu colocar tudo no papel e… claro, não seria nenhuma literatura.

    Ouça a música no disco da Nara, aliás, uma mulher capixaba, linda e inteligente que escolheu gravar essa música do Erasmo. Raras mulheres, não?

    bjos, doctor!

    Tálib Reply:

    Lógico! E espero que seja muito bem escrita, apesar de continuar não sendo literatura (tanto pela biografia como pela escritora).
    Nara realmente é linda, capixaba e inteligente, mas pode comer uma mosca de vez em quando, como fazem grandes personalidades, sem tirar o brilho geral.
    Bjão, querida.

    Vanessa C. Reply:

    Tálib, eu a farei ( a sua biografia) com gosto, até porque há conexão entre História e Literatura. Fique seguro.
    Mas vou cobrar alto hein… Mando a conta para o hospital ou para a academia? Ou para a praia? Ou para o conservatório? hahahahhahahaahhahah

    bjos.

    Tálib Reply:

    Cobrar???? Vc tem o privilégio de me ter como objetivo do seu livro e eu que pago???
    Bom, já que vc exige, deixo assuntos pessoais para o tête-à-tête, quando for a São Paulo ou vc a Vitória. Aí o assunto é outro….ahahahahahahha
    BJs

    Vanessa C. Reply:

    Hummmmmmmm…. ahahahahahahahhahahahaahhahahahahah

    grijo Reply:

    Conheço “Meu Ego”. Tenho o disco da Nara, “Os Meus Amigos são um Barato”, em vinil e em bom estado. Destaque para “João e Maria” e “Amazonas”. Ótimo disco, mas “fale pelos cotovelos / e pelos joelhos” é dureza, Vanessa.

    [Reply]

    Vanessa C. Reply:

    Não dê força ao prego !

    bjos.

    * mas por que biografia não é literatura?

    Vanessa C. Reply:

    Se entendermos a biografia de forma menos fatual, no domínio da experiência, da sensibilidade, aí não existe fronteira entre ela e a literatura, não estou certa?

    grijo Reply:

    Geralmente não é, já que o objetivo primordial da biografia é informar, o que a aproxima do jornalismo. Claro que há exceções, como fizeram os integrantes o new journalism (Mailer, Ross, Wolfe, Talese e outros) e o brasiliero Ruy Castro. Foi o que eu disse: “via de regra”, mas nem sempre.

    Abraços.

    Vanessa C. Reply:

    Também tenho o disco, é claro. Vinil, em ótimo estado, mas nenhum do RC e muito menossssssssssss da Wanderléia.

  5. #5 Samuel
    on Nov 14th, 2009 at 1:54 pm

    Grijó, o texto final é de um sujeito chamado Leonardo Lichote, não do Erasmo. O Tremendão se sentou na cadeira de balanço e foi contando as histórias para o cara, que provavelmente deve ter obedecido as ordens de não se afastar da coloquialidade que marca suas composições. É um livro limitado para quem possui intimidade com as letras e a literatura e conhece o alcance que um texto bem escrito pode atingir.

    Erasmo é um compositor popular no sentido mais autêntico do termo, faz música para o povão, para as massas. Não possui o refinamento de um Chico Buarque e não liga para isso, acredita que o termo MPB é abrangente o suficiente para suportar diversas personalidades. Suas músicas nunca foram um primor textual, não dá para cobrar o mesmo de seu livro de memórias.

    Acho esse livro ideal para descansar os olhos, cabe perfeitamente no espaço gerado entre a leitura de obras mais pesadas. Entre um Falkner e um Borges, é bom aliviar o peso das palavras nos ombros com um livro simples, ingênuo e informal. Claro que existem autobiografias muito mais bem escritas, como Meu Último Suspiro, do Buñuel, que ganhou uma edição caprichadíssima da Cosac Naify após um bom tempo fora de catálogo. Mas o livro do Erasmo também é bacana, com todos os seus poréns. E eu prefiro mil vezes sua prosa primária e honesta à pretensão do Nelson Motta.

    Agora, se por acaso o show da nova turnê dele, Rock’n'Roll, passar aí por Vitória, não deixe de assistir. Vi aqui no Rio e achei um barato, repertório muito bem escolhido e com uma energia de invejar muita banda principiante.

    [Reply]

    grijo Reply:

    Samuel, independentemente das limitações de Erasmo - que eu acentuei -, o texto poderia ter sido menos pueril. Quando afirmei que ele é paradoxalmente ingênuo, refiro-me, inclusive, ao fato de Erasmo ter protagonizado cenas que passam longe da ingenuidade. É humilde a ponto de ter afirmado, não neste livro, que, quando o movimento tropicalista surgiu, pós-JG, ele foi se retirando aos poucos da cena musical, tentando entender o que acontecia.

    As minhas ressalvas quanto à prosa de Nelson Motta passam pelo estilo, não pela pretensão. Nelson, com formação jornalística e tarimbadíssimo em assuntos biográfico-musicais, tem muito a acrescentar. Erasmo também, mas não com a palavra escrita.

    Se o show dele passar por aqui, quem sabe? Gosto do Erasmo no palco, e há uns discos dele que são bem bacanas, principalmente aqueles em que a proposta da JG é fundamento.

    [Reply]

  6. #6 Matyah
    on Nov 15th, 2009 at 7:08 pm

    Ele ta parecendo o Elvis nessa foto… hehehe.

    [Reply]

    grijo Reply:

    Acho que essa é a intenção, Matyah.

    [Reply]

  7. #7 Douglas Lopes
    on Nov 16th, 2009 at 12:55 pm

    Avulso ao ‘post’, atento para o ‘novo’ disco do Erasmo: “Rock in Roll”. É no mínimo bastante sincero. Eu gosto muito.

    Abraço pessoal

    [Reply]

  8. #8 Filipe R.
    on Nov 21st, 2009 at 2:18 am

    Fala Grijó.
    Não posso me aprofundar muito nas críticas sobre esse livro, pois ainda não tive a oportunidade (ou o desgosto) de lê-lo. Digo que não me surpreendi com a bateria de críticas negativas sobre ele e seu autor, pois vale ressaltar que Erasmo Carlos não é o que se pode chamar de ‘bom escritor’ e ‘bom compositor’.
    Minto, até me surpreendi, mas na sala de aula, quando você disse que o livro de Caetano Veloso é muito melhor. Mas é óbvio que é, basta analisar suas composições. A Jovem Guarda no Brasil foi utilizada mais para a distração das ‘camadas’ com letras simples e pobres. Não estou criticando o Rock em geral ( ainda mais poque eu estaria me ofendendo ), e sim o Rock brasileiro (ou Jovem Guarda) por serem de certa forma pioneiras de uma certa ignorância nas letrase na melodia e influenciadores de outras bandas ‘preguiçosas’ em compor e criar algo de conteúdo.
    Creio que Erasmo deve ter entornado algumas quando escreveu certas frases que você mencionou hoje cedo. Talvez ele quisesse escrever bem semelhante ao modo descontraído de conversar, mas o ‘tiro saiu pela culatra’.
    Um abraço Grijó.

    [Reply]

    grijo Reply:

    Ou talvez não, Filipe. Pode ser que a intenção de ser simplista, objetivamente literal e fundamentalmente informativo tenha cumprido seu papel.
    E é possível também que vc esteja certo: escrever como se fala, como se fosse uma conversa descontraída com o leitor. Mas aí entra uma outra questão. A narrativa pueril não implicaria uma subestima ao leitor?

    Abraço, camarada.

    [Reply]

    Filipe R. Reply:

    Entendi o que você quis dizer. Como se o leitor fosse pensar : ‘Mas que diabos é isso? Eu sou algum idiota por acaso?’.
    Enfim, uma tentativa infeliz de atrair o leitor pela simplicidade e coloquialidade.

    Abração

    [Reply]

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