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Ao pai americano, com amor

Meu pai torcia, quando vivo, para o América Futebol Clube. É provável que – por conta de seu amor pelo time ser imensurado – continue torcendo, mesmo numa situação post mortem. Deve estar comemorando, onde quer que esteja, o título de campeão da segunda divisão do campeonato carioca. Não é muito. Chega a ser patético, mas vá dizer isso para alguém, vivo ou morto, que se acostumou a ver seu time em condições adversas, sendo espancado em campo por adversários muito mais bem estruturados, os chamados times grandes.

Meu pai era sócio do clube, cuja sede tijucana, na rua Campos Sales, ele freqüentou. Mesmo capixaba, e a mais de 500 quilômetros de distância, vi por várias vezes meu pai considerar o Rio de Janeiro seu quintal, principalmente quando o América entrava em campo. E inúmeras vezes presenciei seu sofrimento visual ou auricular quando era obrigado a engolir freqüentes maus desempenhos do time ou quando, por conta de ser um clube de proporções humildes, a arbitragem evitava resultados que lhe seriam favoráveis.

As coisas parecem ter mudado. O América é campeão – e ponto! O ex-craque Romário tornou-se cartola, e brada aos quatro cantos e ventos que faz isso pelo pai dele, fanático torcedor americano falecido ano passado. De uma certa forma, não muito compreensível para mim, estou no mesmo barco. Escrevo sobre o América como se devesse isso a meu pai, ausente há 14 anos. Eu e Romário protagonizamos situações que, mesmo a distância, assemelham-se porque envolvem dívidas que só são explicadas pelo sentimento ao pai morto.

Não torço pelo América. Não me alegro com suas vitórias nem entristeço com as derrotas. Nunca tive paixões futebolísticas que ultrapassassem as fronteiras estaduais. Torci pelo Rio Branco – time em que meu pai atuou como ponta-direita, em fins dos anos 40 e início da década seguinte, e ao qual era fiel como um protestante. Torci e não torço mais. Escrevi sobre isso e fui torpedeado por tomar certas atitudes. Com o América, não. A história é outra. Distingue-se da satisfação de vê-lo campeão. Vai além do compreensível e, talvez até por isso, seja tão bom.

 

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17 Comentários on “Ao pai americano, com amor”

  1. #1 Érico Cordeiro
    on Nov 26th, 2009 at 8:50 am

    Mr. Grijó,
    O Ameriquinha é o segundo time de todos aqueles que torcem para os clubes cariocas – e vencer um título de segunda divisão não é demérito algum (falo como vascaíno, de ânimo redobrado com a chegada do Capitão Roberto Dinamite e a expulsão do totalitário Tô Rico Miranda – há um belo texto do Armando Nogueira que fala da fidalguia do Vasco de Ademir Menezes e Bellini, reduto anti-salazarista e exemplo de tolerância, pois historicamente foi O PRIMEIRO CLUBE CARIOCA A ADMITIR NEGROS EM SEU PLANTEL – sem a desfaçatez do pó-de-arroz).
    Pois bem, que esse título, como o nosso recente, seja o prenúncio de novos e alvissareiros tempos para o querido Ameriquinha – afinal, como diz o seu belo hino, “Hei de torcer, torcer, torcer, Hei de torcer até morrer…”
    Abração e bela homenagem ao Grijó Sr.

    [Reply]

    grijo Reply:

    Érico, meu caro, enquanto Eurico esteve à frente do Vasco a antipatia ao time cresceu muito. Vc sabe. Mas o que me espantava era a legitimação da torcida em relaçãoà figura dele, bem como o de Edmundo, um notório assassino. Lamentei isso durante anos. Hoje, com Roberto Dinamite à frente dos negócios, espero que as coisas mudem. Tenho simpatia pelo Vasco e pelo Flamengo. Não chego a torcer, mas fico contente quando vencem.

    Abraço.

    [Reply]

  2. #2 Douglas Lopes
    on Nov 26th, 2009 at 1:02 pm

    A isso, dá-se o nome: “Homenagem Justa”.

    [Reply]

  3. #3 Luiza Thereza Silva
    on Nov 26th, 2009 at 1:05 pm

    Uma bela homenagem…
    ^^

    [Reply]

  4. #4 Marcos Azeredo
    on Nov 26th, 2009 at 1:28 pm

    Grijó, muito bom o seu texto sobre o América, clube mais simpático do futebol carioca. Sou tricolor das Laranjeiras, e estou morando em Vila Velha desde 2009. Mas confesso que sinto saudade do Rio de Janeiro, sua cultura, seus museus, seu povo, apesar da violência. Como disse Nelson Rodrigues quem nunca foi num Fla-Flu é porque não viveu. Seu blog é bem eclético, literatura, música e cinema, está na medida certa. Abraços do professor Marcos.

    [Reply]

    grijo Reply:

    Valeu, Marcos.
    E Nelson Rodrigues – que presenciou Fla-Flus memoráveis – tinha toda a razão.
    Abraço.

    [Reply]

  5. #5 Celso Magno
    on Nov 26th, 2009 at 1:30 pm

    Não sabia que teu pai havia jogado fut.
    Que bacana! Uma bela homenagem a ele (e corajosa tb, porque pouca gente tem coragem de falar essas intimidades familiares em blog).

    O hino do AFC é de quem?
    [abraço]

    [Reply]

    grijo Reply:

    De Lamartine Babo, Celso. Assim como os hinos dos outros clubes cariocas. Só não sei se a melodia pertence a ele. Acho que não. Parece que é norte-americana.

    Abraço.

    [Reply]

    Renato Gama Reply:

    É verdade!
    O hino do América é plágio de uma composição muito famosa entre os remadores de Oxford. Seu título é Row, Row, Row, ou Rema, Rema, Rema.
    Lamartine Babo nunca negou o plágio, mas também nunca o assumiu.
    Coisa feia…

    Abração

    [Reply]

    grijo Reply:

    Tem razão, Renato.

    http://www.youtube.com/watch?v=9FRct4wiK-4

    Abraço.

  6. #6 Felipe Mansur
    on Nov 27th, 2009 at 5:24 pm

    De qualquer forma, eu acho formidável a devoção de pai e filho por um clube.

    Assim como o Verón, que voltou para o Estudiantes por conta da história de seu pai no clube. Foi campeão com o time agora da Libertadoeres e chorou como uma criança, certamente por conta do pai.

    Abraço

    [Reply]

    grijo Reply:

    Na verdade, Felipe, como eu afirmo na postagem, não sou um devoto do América. A homenagem, de fato, é dirigida a um específico torcedor do clube – meu pai.
    Valeu.
    Abraço.

    [Reply]

  7. #7 MARVELous
    on Nov 27th, 2009 at 8:36 pm

    É isso aí.
    Teu pai deve estar contente não só pelo Ameriquinha, mas pelo texto, que exala honestidade e justiça. E se torcia pro America, deve estar em bom lugar e em boas companhias…hehe
    Muito legal isso!

    [Reply]

  8. #8 Sandra Leite
    on Nov 28th, 2009 at 11:35 am

    Caro Grijó,

    Seu texto me emocionou muitíssimo. Não, eu não sou torcedora do América :). Sou Atlético-MG, assim como meu pai.

    Suas palavras reafirmarm em mim a paixão que tenho pelo meu pai. É amor indizível…

    Volto, voltarei com Magritte e outros. Parei um tiquinho: é que o atleticano mais amado do Brasil vai fazer uma cirurgia. E tudo correrá bem e seu coração voltará ainda mais apaixonado pelo Galo!

    beijos

    [Reply]

    grijo Reply:

    Torcida não faltará, então.
    Pode contar com ela.

    Bjo

    [Reply]

  9. #9 John Lester
    on Nov 28th, 2009 at 3:54 pm

    Levanto-me com sofreguidão, em meio a bocejos que insistem em meu retorno às fronhas. Embora não inteiramente resoluto, vagarosamente percorro o espaço imenso que liga meu quarto ao escritório. Os passos são lentos, inseguros, sem certeza de que o dedo mole atingirá o botão ‘power’ do computador.

    Aquele terrível Windows Vista permanece algumas eternidades ‘rodando’ até que os olhos mortos conseguem vislumbrar o Ipsis Litteris, um dos poucos blogs capazes de trazer algum prazer ao corpo cansado que carrega minha alma devastada por um cabernet franc com 96 pontos de Robert Parker.

    E, quando chego até aqui, vejo essa merda chamada futebol.

    Volto para a cama.

    [Reply]

    grijo Reply:

    JL, querido amigo, espero que o ludopédio e homenagens paternas não mantenham vc definitivamente distante de meu humilde blog.

    Cá entre nós (como um segredo): gostei demais do seu comentário, mesmo sendo ele resultado de um cabernet franc parkerized.

    Abraço.

    [Reply]

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