
Estou lendo, sem a pressa costumeira, O Resto é RuÃdo - Escutando o século XX, comprado durante a Bienal. A monumental - sim, eis a palavra - obra foi escrita por Alex Ross, ex-jornalista do NYT e crÃtico atual da New Yorker, possivelmente a mais influente publicação dos EE.UU. Estou pasmo, boquiaberto com o trabalho arguto de pesquisa, análise e erudição. Um grande livro sobre um assunto especÃfico - a música erudita do século XX -, e que deveria constar de todas as bibliotecas para que os interessados se regozijassem. Lá pelas tantas, leio sobre Milton Babbitt, um dos grandes da música serial e das composições eletrônicas, seguidor de Schoenberg e aluno de Roger Sessions, a quem se atribui a seguinte fala:
(…) os compositores americanos precisam abandonar de vez esperanças quiméricas de sucesso num mundo totalmente dominado por “estrelas”, pela música popular mecanizada e pelos padrões do gosto popular e partir para a descoberta do que realmente têm a dizer, e dizer isso como artistas adultos passando sua mensagem à queles que tenham capacidade para ouvi-los. Tudo o mais é criancice e inutilidade.
Há conselho que se ajuste melhor aos dias de hoje, e que possa, também, adequar-se a qualquer grupo, de qualquer paÃs, que deseje fazer música com seriedade? É isso aÃ, professor Roger!








on Nov 28th, 2009 at 8:39 pm
Namorei este livro durante semanas. Acabei comprando e não consigo terminar porque vou e volto nas referências do autor, um mundo, um universo paralelo, mesmo na música, né? Um êxtase pra quem se interessa, mesmo sendo uma leiga como eu. Admirável.
E fico bem informada sobre uma série de compositores que a Grande MÃdia faz questão de mantê-los anônimos. Taà a questão levantada na “fala” de R. Sessions: é preciso deixar de ser criança e começar a se comportar como gente grande. Mandar o hip hop pro inferno e, aqui no Brasil, jogar óleo quente nos chicleteiros…
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grijo Reply:
November 28th, 2009 at 11:59 pm
“Óleo quente”, Suelem? Não seria melhor apenas ignorá-los?
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on Nov 29th, 2009 at 12:01 pm
A discussão é procedente, principalmente nos dias de hoje. Roger Sessions proferiu essas palavras num artigo de 1967, numa época em que se discutia de forma consciente e crÃtica a indústria do disco, do entretenimento e da música. Ele já preconizava que era preciso, para se fazer a “grande músicaâ€, que houvesse um público especÃfico que discutisse a coisa de forma adulta. E ele dizia que este público era formado por jovens músicos, grandes maestros, jornalistas especializados e leigos que tivessem ouvido apurado para a música mundial, do jazz ao erudito, do cancioneiro americano aos lamentosos blues. Ele falava sobre formadores de opinião, mas esqueceu-se de que a “música fácil†é que venceria a parada, apoiada pela presunção das rádios, pelo nivelamento “por baixo†dos ouvintes e pela má formação musical daqueles que detinham os meios de comunicação. Atualmente o que se vê é a confirmação daquilo que ele previu e que ele lutou contra.
Grande livro, este. Li de uma vez, largando só pra dormir e outras necessidades. Forte abraço.
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on Nov 30th, 2009 at 4:05 am
Estou lendo este livro.
Estou na parte em que ele fala do jazz, e me chamou a atenção que, para um erudito conhecedor de música de gala e fundamental, ele considera o disco Free Jazz, de Ornette Coleman, uma obra “memorável”. Enfim, é questão de ponto de vista.
Hasta!
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grijo Reply:
November 30th, 2009 at 5:10 pm
E não é?
Piadas à parte, e respeitando quem acha que Ornette Coleman é um lunático enrolador, o disco “Free Jazz” é um marco, um divisor de águas, assim como as esquisitices de Coltrane quando se entregou aos silêncios cósmicos.
O disco é memorável, sim. Ouvi-o apenas duas vezes - uma em vinil e outra em cedê. Não mais que isso.
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on Nov 30th, 2009 at 4:26 pm
Eu te disse! Eu te disse! Não te disse? Eu te disse, eu te disse…
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grijo Reply:
November 30th, 2009 at 5:07 pm
Disse.
E eu só tenho a agradecer, meu caro.
Abraço.
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on Dec 2nd, 2009 at 12:14 pm
li o livro numa tacada… por causa dele estou no momento analisando nota por nota a ’sagracao da primavera’, do stravinsky. busco, de alguma forma (se eh que eh possivel), mergulhar na cabeca dos eruditos contemporaneos dos seculo passado. sobre a sagracao, uma certeza ateh agora: a irresponsabilidade sadia e o espirito aventureiro caracteristicos dos seus 27 anos de idade o levou ao um processo de criacao experimental, distante da tradicao. se fosse mais velho, nao creio que teria tido tamanha coragem. valeu o post!! abx
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on Dec 3rd, 2009 at 10:37 am
Oi Grijó,
Agora entendi o quis dizer com “palavrão também dá para ouvir”ao ler o comentário de Roger Sessions.
Sem querer “filosofar” demais, não tenho tanta bagagem para isso. Mas eu penso que a músia hoje virou um produto. Como um “fastfood”, música fácil de produzir e vender, mas com baixa qualidade - pouco sabor.
abraços
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on Dec 4th, 2009 at 9:08 pm
Eu iria além da fala do Sessions e diria que o “descobrir o que tem a dizer” não passa mais pelo paradigma de que sempre temos dizer coisas novas que partam do conhecimento da totalidade da tradição, que é o que, de certa forma propõe o dodecafonismo clássico.
Que tal pensar em incorporar as conquistas técnico estéticas da música popular mecanizada e dos padrões do gosto popular? Gosto muito das interpretações do Hobasbawn, que sugere que as verdadeiras vanguardas estão geralmente naqueles movimentos despretensiosos que usaram as linguagens novas com objetivo comercial.
O livro do Ross é mesmo muito bom, pesquisa incrÃvel - ainda mais se levar em conta que ele é um autor razoavelmente jovem. Mas acho ele ainda muito preso aos cânones da música erudita e a uma concepção de história da música baseada em compositores e obras, acrescida de uma relação meio direta com regimes polÃticos.
Nesse sentido não consigo “ouvir o século XX” com a obra dele.
E é mesmo o grande liberalzão falando, quando avalia, por exemplo a música na era de Stalin ou de Roosevelt. Afinal ele parte do pressuposto que ingerências do Estado são por definição completamente más.
Anacronismo dos grossos.
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grijo Reply:
December 4th, 2009 at 11:40 pm
Só um adendo quanto à afirmação sobre o que o Hobbsbawn disse: o bebop, por exemplo, que foi, para ele, uma forma de manter os “brancos” a distância, não tinha tantos objetivos comerciais. Ao contrário, tanto Parker quanto Gillespie ou Powell mal sabiam se a coisa daria certo. E o bebop foi vanguarda e teve lá suas pretensões.
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