Ipsis Litteris Rotating Header Image

Lamartine, o gênio plagiário

Lamartine Babo está entre os grandes compositores brasileiros, apesar de ser um quase deconhecido das novas gerações. Eu disse “quase” porque existe a possibilidade - mesmo que mínima - de essa meninada ter curiosidade em saber quem compôs o hino do Flamengo, por exemplo. E os do Fluminense, do Botafogo, do Vasco da Gama - e estou citando apenas os mais populares. Lamartine Babo era torcedor do América Futebol Clube, e o hino deste time, também de sua autoria, está entre os mais belos.

Um leitor do Ipsis Litteris afirmou - com razão - que Lamartine Babo, ao compor o hino de seu time, cometeu plágio, prática condenável por qualquer indivíduo minimamente decente. Eu já tinha ouvido essa história, embora nunca tivesse me interessado em saber se era verídica ou não. Fui, claro, ao Gúgol e, de lá, ao Youtube. É fato. AQUI está a evidência. Dando continuidade à pesquisa, e embasando-me nas palavras do freqüentador deste blog, chego à real informação: a canção chama-se “Row, Row, Row”, e foi composta por William Jerome e James Monaco.

Até onde se sabe, Lamartine desconversava quando alguém tocava no assunto. Não discutia a questão, como se ela fosse produto da imaginação alheia. E nunca sequer cogitou dar o crédito ao verdadeiro compositor da melodia. Bem, há dois pontos a se considerar. O primeiro é a natural indulgência do brasileiro em relação ao produto doméstico - algo condenável, a meu ver. E o segundo relaciona-se ao fato de Lamartine Babo ser um dos bambas nas marchas carnavalescas - O Teu Cabelo Não Nega é absolutamente genial - e, repito, ter-se dedicado a traduzir musicalmente a paixão de um torcedor por seu clube. Tudo o que se relaciona a futebol é permitido. De falcatruas a rompantes emotivos; de injustiças a declarações de amor incondicional. E os hinos, emblemas sonoros intocáveis, foram feitos para a eternidade - mesmo que tenham sido descaradamente copiados.

Share and Enjoy:
  • Digg
  • Sphinn
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Mixx
  • Google

18 Comments on “Lamartine, o gênio plagiário”

  1. #1 Everaldo Dumas
    on Nov 30th, 2009 at 5:03 pm

    Pode at[e ser plagiador, mas escreveu I Love You e isto o redime, hehehe.
    Tb tinha ouvido falar disso. Meu velho era fissurado em Lamartine e Herivelto Martins, e achava que os hinos dos clubes cariocas eram meio piegas, mas tudo bem…

    [Reply]

    grijo Reply:

    Vc se refere, claro, a “Canção para Inglês Ver”, que é, realmente, genial.

    [Reply]

  2. #2 olney
    on Nov 30th, 2009 at 5:30 pm

    Pois é, mas é estranho um compositor genial como ele recorrer a um plágio exatamente pra fazer o hino do clube de seu coração.
    Vai entender…

    [Reply]

  3. #3 charles mattos
    on Nov 30th, 2009 at 7:17 pm

    desconhecia essas outras composições
    conhecia apenas os hinos que inclusive
    Segundo o enciclopedia da bola Nilton Santos ele compôs os 5 hinos dos grandes do Rio em apenas um dia….é de uma genialidade incrivel.

    a marchinha o Teu cabelo não nega eu acho que foi composta pelo mesmpo compositor de “decaida” infelizmente nao consigo lembrar o nome de jeito nenhum…
    e nem o Mr Google me ajudou…
    ficarei com a duvida…

    [Reply]

    grijo Reply:

    O Ed solucionou a questão, Charles.

    [Reply]

  4. #4 Tálib
    on Nov 30th, 2009 at 8:01 pm

    Na verdade, pouco importa este plágio, pelo compositor que Lamartine foi - que o diga “Eu sonhei que tu estavas tão linda” .
    Plágio pior e não divulgado (roubo mesmo) é da belíssima música “O Moldávia” (http://www.youtube.com/watch?v=LlLPLO90fSk) - da peça “Minha Pátria”, do tcheco Bedrich Smetana - que um certo estado roubou a melodia para seu hino, tal qual roubou terras de outro povo para sua construção (http://www.youtube.com/watch?v=g0R-uTdxxYo)

    [Reply]

    grijo Reply:

    Não sabia disso, Tálib.
    Mais uma deles.

    Abraço

    [Reply]

  5. #5 ED
    on Nov 30th, 2009 at 8:21 pm

    Grijó, meu nobre, recentemente citei Lamartine Babo num comentário que fiz no ótimo blog “Amálgama” (http://www.amalgama.blog.br/11/2009/as-listas-e-suas-injusticas/) numa postagem sobre a lista das 100 melhores músicas brasileiras de todos os tempos da Rolling Stone. Marlon Marques, autor da matéria, questionou a ausencia da marchinha “O Teu Cabelo Não Nega” na tal lista. Esse canção, na verdade, foi escrita pelos Irmãos Valença e o Lamartine registrou como sua porque a dupla de compositores pernambucanos, ingenuamente, não havia registrado. Depois de uma disputa judicial, os verdadeiros autores tiveram seus nomes incluídos na autoria. Mas, como Lamartine é mais conhecido, sempre que a marchinha é citada, só o seu nome é lembrado. Oswaldo Sargentelli ( o das mulatas), que era sobrinho de Lamartine, declarou várias vezes que seu tio famoso havia lhe confessado o delito. Além de plagiar, ele surrupiava canções dos outros.

    Ainda sobre a marchinha, nunca é demais lembrar que ela traz um dos versos mais racistas da emepebê: “Mas como a cor não pega, mulata, mulata eu quero o seu amor”.

    Abraço!

    [Reply]

    grijo Reply:

    Ora, Ora, amigo Ed. Dessa eu não sabia. Plagiário e ladrão!
    Racista, sim, mas pelos parâmetros de hoje. À época, permitia-se.

    Valeu a informação.
    Abraço.

    [Reply]

  6. #6 érico cordeiro
    on Dec 1st, 2009 at 1:10 am

    Digamos que a ética daquela época, no que toca à “apropriação” de músicas, permitia essa prática. Veja-se a quantidade de “parcerias” feitas por músicos como Francisco Alves e até mesmo o grande Noel Rosa é acusado de ter, em um momento ou outro, comprado “sambas” de compositores menos famosos.
    Nélson Cavaquinho era um emérito “vendedor” de parcerias - e ia, lépido e fagueiro, gastar o apurado no primeiro bar que encontrasse. E há a curiosa história do bon vivant Carlos Guinle, parceiro de Dorival Caymmi em Sábado em Copacabana e Você não sabe amar e que, segundo as más línguas, contribuiu para essas e outras composições com o melhor uísque 12 anos disponível no Rio de Janeiro dos anos 50.
    Quanto a Lamartine, é um gênio. Autor de pérolas como Serra da Boa Esperança, Joujou e balangandãs, No rancho fundo e Canção prá inglês ver, merece ser descoberto pelas novas gerações. A história o absolverá de seus eventuais deslizes - até porque depois que compôs o polêmico hino do América, seu time não ganhou mais nada (rs, rs, rs).
    Abraços!

    [Reply]

    grijo Reply:

    E dizem que Pixinguinha quase conseguiu deixar aquele mecânico do Méier em terceiro plano - ou seja, fora da composição definitivamente. Eu disse “quase”.
    Justiça precisa ser feita.

    Mas o América ganhou (ê, cacofonia!!) a taça Guanabara de 1974. Contra o Fluminense, 1 a zero, gol de Orlando. Eu e meu pai estávamos no Maraca.
    Depois disso, o que mais?

    [Reply]

  7. #7 Marcos Azeredo
    on Dec 1st, 2009 at 12:05 pm

    Grijó, votei em você para A Personalidade Capixaba do Ano de 2009, promovido pelo jornal A Gazeta. Abraços.

    [Reply]

    grijo Reply:

    Vc é um gozador…grande abraço.

    [Reply]

  8. #8 olney
    on Dec 2nd, 2009 at 6:38 pm

    Eu só não votei pq ele não está - injustamente - entre os concorrentes…

    [Reply]

  9. #9 Marcos Azeredo
    on Dec 2nd, 2009 at 10:17 pm

    Fui convidado pelo jornal A Gazeta para escolher uma personalidade capixaba 2009, que no site ficariam apenas alguns nomes para o internauta votar, votei no Grijó, que infelizmente só teve um voto, o meu.

    [Reply]

    grijo Reply:

    Pensei que fosse gozação, Marcos, e fui ao site. Realmente existe a votação. Votei em Reinaldo.

    De qualquer forma, valeu. E agradeço ao Olney tb.
    Abraço.

    [Reply]

  10. #10 Gustavo
    on Dec 3rd, 2009 at 4:16 am

    Para mim, se plagiou uma vez, pode ter plagiado outras. Então eu não ficaria surpreso se descobrissem outra melodia por ele roubada.

    Agora, pode ser que ele tenha composto o Hino achando que estava sendo original, mas na verdade estava apenas lembrando dessa música que ele já teria ouvido na vida. Isso acontece. Beethoven frequentemente se perguntava se estava copiando Mozart.

    É complicado… Tente criar uma melodia original. Quando você achar que está criando algo belo, verá que a melodia aos poucos está se transformando em alguma que já existe.

    [Reply]

  11. #11 Renan Albuquerque
    on Dec 3rd, 2009 at 5:34 pm

    Olá, Grijó!
    Não quero levantar polêmicas nem desmistificar nada, mas acho que esses compositores dos anos 30/40/50 só são considerados “geniais” por terem sido pioneiros, por terem desbravado a música popular e terem dado um certo padrão a ela, porque, se comparados aos grandes nomes de hoje (Caetano Veloso, Chico Buarque, Edu Lobo, Gilberto Gil), eles são apenas coadjuvantes. eu até respeito Cartola, mas Paulinho da Viola, seu seguidor, é muito melhor, tem mais recursos, arranja melhor os versos na melodia, etc, etc, etc. Noel Rosa era bom, mas Chico, seu discípulo confesso, é infinitamente melhor. O que quero dizer é que esses caras merecem respeito, mas há uma certa “generosidade” das gerações posteriores para com eles. Sei que vc não gosta de comparações, mas eu gosto.

    Sds, mestre!
    Renan A.

    [Reply]

Leave a Comment