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O falso torcedor: palerma, chato, belzebu

Eu não deveria me surpreender quando o assunto é futebol, mas, em alguns momentos, é isso o que acontece. Não me refiro, claro, à violência nos estádios nem aos trambiques freqüentes da cartolagem. Também não me refiro à estranha paixão que alguns indivíduos dedicam ao time do coração, mantendo em segundo plano a esposa, os filhos e os amigos. O que me surpreendeu, desta vez, foi a notícia de que torcedores vascaínos, via orkut, protestaram quanto à contratação do técnico Antonio Carlos. Alegam que, no passado, quando jogador pelo Juventude, o dito cujo teria ofendido, com palavrório racista, Jeovânio, atacante do Grêmio.

Certíssimo. É realmente preciso protestar, e mais necessário ainda que medidas legais efetivas sejam tomadas. Mas e a tal surpresa, Grijó? Bem, o que me deixa pasmo é que essa mesma torcida, que vocifera e enaltece a ética, venerou e aplaudiu um indivíduo como o “animal” Edmundo, réu confesso como homicida, e ainda mais: gritava seu nome num estádio cheio, como se ele fosse uma entidade heróica.

Essa mesma torcida foi capaz de apoiar, quase incondicionalmente, as atitudes de uma repugnância ambulante como Eurico Miranda, ex-presidente do clube, famosos pelas truculências verbais e presumido usurpador do dinheiro alheio. Essa incongruência me intriga. Em nome do futebol, tudo é permitido. Desde a violência desmesurada à completa ausência de ética. O futebol está acima disso. E agora os torcedores do Vasco vêm posar de justos, de moralistas?

Numa postagem há alguns meses afirmei que não torceria mais para o Rio Branco, clube local, o único time que mereceu minha atenção desde a infância. Resolvi romper os laços, como poderia fazer com qualquer outra convicção: de esposas a amigos. Fui acusado de não ser um “verdadeiro torcedor”. Não se pode trair o futebol. “Verdadeiro torcedor” é aquele que fecha os olhos para a legalidade e para o espírito esportivo – seja lá o que isso signifique – em nome da vitória de seu time. Eu não sou um “verdadeiro torcedor”, o que me encaixa na categoria dos infiéis que merecem as labaredas. Eu sou, no mínimo, um palerma que não é capaz de se apaixonar por um time e dedicar-lhe fidelidade.

Um outro querido primo afirmou-me, há poucos dias, que tem observado o futebol por outra perspectiva. Eu tenho feito isso já há alguns anos. Desisti, em 1986, de torcer para a seleção brasileira, por exemplo. Aliás, torço contra e já expliquei por quê - mas de nada adianta: sou visto, no seio familiar, como um belzebu que necessita de auxílio neurológico. Não adianta justamente porque a racionalidade e a argumentação são vistas, quando o assunto é futebol, como chatice infinita. Só os chatos argumentam e ninguém quer ouvi-los. Muitos leram apenas o primeiro parágrafo dessa postagem. Outros chegaram ao segundo e, se vascaínos forem, devem ter sentido saudades dos rompantes vorazes de Edmundo. Isso também não me surpreende.

11 Comentários on “O falso torcedor: palerma, chato, belzebu”

  1. #1 Érico Cordeiro
    on Dec 11th, 2009 at 1:38 am

    Bom, Mr. Grijó,
    Seus argumentos são preciosos, mas pecam por uma absurda generalização.
    Nem todo torcedor do vasco é torcedor do Edmundo (ou do Romário ou de outro jogador qualquer). Nem todo torcedor do Vasco defende a impunidade pelos crimes que um e outro possam ter cometido, apesar de reconhecê-los como grandes craques.
    A enorme maioria dos vascaínos compraz-se em torcer por um time cuja história se confunde, desde as longínquas décadas de 20 e 30, com a da luta pelos direitos civis no Brasil. A enorme maioria dos vascaínos abomina os métodos truculentos e totalitários do Sr. Eurico Miranda – não é por outro motivo que deu-lhe um sonoro pontapé no traseiro (e só não o fez antes porque nas eleições anteriores não houve o mesmo empenho do MP e do judiciário em acompanhar o desenrolar dos acontecimentos, já que desde sempre as eleições no clube foram pautadas por enormes suspeitas de fraude, para beneficiar Eurico e seu grupo).
    Imagine o que é agregar negros e operários em uma equipe de futebol nos tempos do saudoso Washington Luís (aquele para quem governar era abrir estradas e a questão social era caso de polícia). Era um escândalo. E o Vasco abriu as suas portas, de forma serena e firme a pessoas oprimidas social e economicamente, de forma generosa e acolhedora.
    O futebol é parte importante na formação do caráter nacional (como o beisebol é para o Tio Sam e o ciclismo para os franceses). Esporte originalmente de elite, transpõs o espaço elitista dos clubes da Zona Sul carioca para os subúrbios (como também ocorreu em Sã Paulo) e transformou-se em verdadeira alegoria da nossa forme de viver e encarar o mundo.
    O complexo de vira-latas, a pátria em chuteiras, o pênalti tão importante que quem deveria cobrá-lo era o presidente do clube – tudo isso compõe o nosso cadinho estético-cultural. discordo da afirmação de que “Verdadeiro torcedor é aquele que fecha os olhos para a legalidade e para o espírito esportivo – seja lá o que isso signifique – em nome da vitória de seu time.”
    Há alguns boçais (e o espetáculo de domingo no Couto Pereira é a prova disso) que crêem nisso como verdade absoluta. Mas não são a maioria. Ao contrário, são minoritários. Quase insignificantes.
    Nem sei se o Antônio Carlos foi o escolhido para comandar o Vasco. Mas se foi, não creio que tenha sido a opção mais acertada. No mais, se há nele qualquer pendor racista, escolheu um péssimo lugar para cultivar tais hábitos: o Vasco e os vascaínos repudiam, veementemente, qualquer forma de racismo. Talvez ele possa aprender, na fidalguia de São Januário, a nobreza que é não ter preconceitos e venha a se tornar um ser humano melhor.
    Torço para que isto aconteça.

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    grijo Reply:

    Érico, meu caro, seus argumentos também são preciosos, mas levantam uma outra questão: quantos vascaínos sabem desse histórico do clube em relação às questões raciais? Possivelmente poucos. E não sei realmente se esse histórico chega a determinar, de forma honesta, por parte de muitos torcedores, o protesto. Acho que não. Levantei a bola com meus alunos vascaínos. Nenhum deles sabia sobre essa questão de que o Vasco foi um clube que desaprovou, lá em seus primórdios, o racismo. Mas concordo com vc: a generalização é um pecado.

    Mas nunca se esqueça de que, no início da Segundona, quando o Vasco foi mal em alguns jogos, a torcida gritava o nome de Eurico Miranda!

    Achei legal quando vc compara a relação brasileiro/futebol com outros esportes em outros países. Só realmente acredito que o futebol não recupere indivíduos nem os torna melhores. Ao contrário: parece-me um esporte que se perverteu pelo caminho, cheio de desmandos políticos e interesses econômicos. Não vejo a garotada dedicar-se ao futebol como forma de cidadania, mas em busca de um Eldorado muitas vezes fictício. E com o apoio de famílias cuja cupidez é assombrosamente pervertida. Mas isso é uma outra discussão.

    Abraço

    Reply

  2. #2 Junior
    on Dec 11th, 2009 at 8:12 am

    Nós vivemos no país da incongruência, de certa forma o futebol é mais clara e declarada.

    Reply

  3. #3 Pablo Vieira
    on Dec 11th, 2009 at 7:12 pm

    bom post Grijó.

    isso reafirma uma coisa que é única do futebol: dois pesos e dezenas de medidas.

    Alguns torcedores são tão cegos pela paixão ao clube que perdem completamente a razão da parcialidade.

    É só assistir a um jogo qualquer que em 90 minutos vc pode ver um jogador sendo aplaudido, xingado, amado e odiado, quase ao mesmo tempo, fora o juiz e a pobre da mãe dele.

    Enfim, coisas do futebol…

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    grijo Reply:

    Não tenho mais muito saco para isso, Pablo. Essas “coisas do futebol” recebem uma indulgência perversa. Permite-se tudo, mas não pode ser assim.
    Enfim, sou o tal chato a que me refiro.
    Abraço.

    Reply

  4. #4 ED
    on Dec 11th, 2009 at 11:51 pm

    Grijó, meu nobre, como eu discordo de você, rapaz. Acredito se o futebol fosse levado tão a sério assim como você (nas entrelinhas) quer, eu seria o primeiro a deixa de torcer. Seria chatíssimo. Enxergo esse universo com outros olhos. Tenho um amigo que vai ao estádio ha mais de trinta anos e senta sempre no mesmo lugar. A única vez que ele sentou num lugar diferente, Santa cruz, nosso time, perdeu o campeonato. Ele acredita piamente que a culpa é dele. Tentar enxergar essa e outras coisas do futebol sob a ótica da racionalidade seria um crime. Quanto a reação da torcida do Vasco, aplaudo sem me preocupar outras atitudes que eles deveriam tomar. Que bom que eles começaram a ver as coisas, por que se preocupar com o que deviriam ter feito?

    Abraço!

    PS: Sinto vontade de torcer contra a seleção brasileira quando escuto a voz do Galvão Bueno.

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    grijo Reply:

    Mas é por isso que sou chato, amigo Ed. Levo a coisa a sério justamente porque aqueles que lucram com o futebol também a levam. Gosto demais do esporte, mas não dá mais para torcer.

    Torço contra a seleção quando vejo a figura de Ricardo Teixeira, além, claro, de quando ouço – também – as patriotadas de Galvão Bueno.

    Abraço, amigo.

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  5. #5 Cássius Alexandre Cipriano
    on Dec 12th, 2009 at 7:14 am

    Bom Grijó, não me importa muito o mundo do futebol. Já fui chamado de “ligado aos EUA” num tom que sugeriu “puxa-saco dos EUA”. O beisebol, minha paixão esportiva, também tem seus mandos e desmandos, principalmente por nascer em um lugar onde tudo consegue virar dinheiro.
    Você deu uma ótima idéia agora: vou procurar algumas falcatruas beisebolísticas e ver como realmente s coisas funcionam na terra do Tio Sam.

    Até a próxima.

    Reply

  6. #6 Ferdinando
    on Dec 12th, 2009 at 4:36 pm

    Discordo do ED. Sinceramente não se pode, eu acho, deixar de lado a legalidade em nome de uma paixão esportiva. O fut é uma tremenda farsa, do ponto de vista objetivo. Que pena que ainda haja gente que perdoa as corjas!!!

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  7. #7 Gustavo
    on Dec 13th, 2009 at 11:18 am

    O que eu não entendo na torcida é o seu objeto. Para quê os torcedores torcem, se os jogadores do time sempre se modificam, técnicos e diretores idem? Até a camisa muda – e mesmo que assim não fosse, torcer para apenas para uma camisa é algo para mim estranho.

    A meu ver, um flamenguista torce apaixonadamente para algo abstrato chamado “flamengo”, algo imaginário, um nome apenas, porque ele treinou isto com afinco desde a infância, bem como foi pressionado socialmente.

    No meu caso, eu apenas admiro o futebol como um esporte qualquer e torço para certos jogadores – e não times – os quais admiro pela habilidade, caráter, atitude, independente do time em que estão.

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  8. #8 Jamile
    on Dec 17th, 2009 at 7:47 pm

    Primeiro, uma observação. É engraçado como quando o assunto é futebol os comentários são ( totalmente ou em sua maioria) masculinos. Um cenário a se mudar, ao menos é o que espero ansiosamente.

    Já visito seu blog há tempos, mas nunca tive coragem (não sei se essa é a palavra certa, mas não me veio a mente nenhuma outra) de comentar. Aliás nunca consigo comentar em blog nenhum. Então, desculpe as besteiras do meu primeiro comentário.

    Grijó, ótimo post. Consegue nos fazer rir e, ao mesmo tempo, cair na realidade –o que, por sua vez, até nos entristece– sobre a relação jogadores-torcedores-dirigentes-paixão-cegueira.
    Mas prefiro reservar tanto a sua posição crítica quanto a minha e a de outros que não só torcem, mas pensam no futebol. Considere que a maioria dos torcedores é realmente ensinado a se apaixonar por um time e se acostuma com essa ideia. Futebol é só diversão tanto para aqueles que se divertem apreciando uma partida quanto para os que consideram diversão brigar com outras torcidas e jogadores.
    E sim, você pode se considerar um chato, já que não se deixa levar por esse “sentimento” da multidão.
    Mas peço que não fique criticando aqueles que gritavam os nomes de Edmundo, Eurico, ou qualquer outro “ídolo” absurdo, perdoe-os.

    Uma última coisa: claro que você não vai lembrar de mim simplesmente pelo nome, mesmo assim dou notícias minhas. Estou adorando o curso de Direito da UFF, terminei agora meu primeiro período. Obrigada por ter me ajudado a passar no vestibular transmitindo um pouquinho do seu conhecimento.

    Abraços, professor!

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