Ipsis Litteris Rotating Header Image

A marginalidade tripla

Certa vez me perguntaram por que eu não escrevia poemas. Respondi com a honestidade de costume: porque não sei escrevê-los. É fato. Já tentei produzi-los e a conclusão a que cheguei é tão óbvia quanto infeliz: sou um dos piores - senão o pior - poetas que já existiram. Sou pior que o acreano J. G. de Araújo Jorge, e quase tão ruim quanto algumas nulidades do roquezinho nacional que posam de poetas para adolescentes desinformados e pouco exigentes. Bem, esses, de fato, não contam. Mas não é sobre eles que quero falar, e sim sobre marginalidade.

Soube, ontem, que o cine Metrópolis, ligado à universidade federal local, vai exibir o documentário Só Dez Por Cento é Mentira, sobre o poeta matogrossense Manoel de Barros. Ao ler a notícia, constato que a marginalidade, no caso, é tripla. Explico. Manoel de Barros, independentemente do que você acha de sua poesia, é um marginal. Talvez ele até prefira essa condição, mas a verdade é que não goza das prerrogativas acadêmicas que os poetas de sua geração possuem. É caipira para muitos. Por outro lado, há, por parte da Intelligentsia, uma difusão de seu trabalho, como se fosse de bom tom intelectual apreciar seus livros. É uma atitude um tanto quanto inútil - ele e sua poesia continuam fincados no chão inacessível da badalação literária.

Li Livro Sobre Nada, e não achei excepcional, como alguns afirmam. Li Gramática Expositiva do Chão - e achei chato, embora reconheça o valor de seu trabalho. Um documentário sobre esse poeta poderia, ao menos, servir como divulgação ou, no mínimo, para que se saiba que sua poesia existe e tem qualidade. Mas documentários entram na esfera da marginalidade. São pouco vistos, exceto por um grupinho de interessados que, muitas vezes, orgulham-se de freqüentar eventos ditos “alternativos”. Aliás, muitos desses interessados usam a denominação “alternativos” como se ela fosse garantia de qualidade.

E a terceira marginalidade? Ser poeta, no Brasil, é quase sinônimo de anonimato. Tome-se como base o século XX. Esqueça os poucos poetas consagrados pelo tempo (Gregório, Castro Alves, Gonçalves Dias, Cruz e Sousa, Bilac), e concentre sua atenção nos últimos 70 anos. Que nomes podem ser alçados à categoria de ícones literários? Vamos lá: Drummond, Vinícius, Bandeira, Cecília, Jorge de Lima, Murilo Mendes, Mário, Oswald, João Cabral, Ferreira Gullar. Esqueci alguém? Mas quantos os lêem, de fato?

Editores afirmam que não vale a pena produzir livros de poemas. Professores choram pelos cantos: alunos, quando lêem, preferem prosa. Poetas - muitos deles, ao menos - desistem no meio do caminho: enfrentam dificuldades que fazem a fonte de inspiração secar. Quem quer editá-los, comprar seus livros e lê-los? Então retomo uma informação que deveria desprezar: Renato Russo, Cazuza, Nando Reis e alguns outros tornam-se, aos olhos pouco treinados, poetas, enquanto Manoel de Barros caminha para a escuridão. Aliás, Manoel quem?

Share and Enjoy:
  • Digg
  • Sphinn
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Mixx
  • Google

24 Comments on “A marginalidade tripla”

  1. #1 Mari
    on Jan 24th, 2010 at 10:52 am

    Concordo com quase tudo. Neste país de poucos leitores, a poesia quase não representa nada. Só não restringiria a tão poucos poetas representativos, mestre. E P. Leminski, A. C. Cesar, A. Antunes? O que me diz deles?

    bjoks,
    Mari

    [Reply]

    grijo Reply:

    Leminski e AC César eu respeito, embora não os coloque no primeiro time. Mas é uma visão pessoal, claro, como tudo o que está na postagem.
    Abraço, Mari.

    [Reply]

  2. #2 ED
    on Jan 24th, 2010 at 3:57 pm

    Grijó, meu nobre, incluo-me no grupo dos “olhos pouco treinados”. Verdadeiramente enxergo Renato Russo, Cazuza e Nando Reis como três grandes poetas. No auge dos citados artistas, os jovens de “olhos pouco treinados” davam muito mais importância as letras do que ao som. Lembro-me, na década de 80, de grupos de jovens discutindo as entrelinhas das letras do Renato Russo e os discursos desesperados de Cazuza. O que é um poeta, alguém que prende-se a métrica, a palavras fora do coloquial, que servem apenas para auto-afirmar a (suposta) erudição de quem escreve ?. O título do seu post, ironicamente (ou propositalmente, não sei), é uma boa referência aos três artistas tratados com desprezo no seu texto.

    Aproveito e deixo registrado aqui os nomes de de dois grandes poetas marginalizados: Patativa do Assaré e Zé Limeira.

    Abraço!

    [Reply]

    grijo Reply:

    Ed, meu caro, temos, sim, visões diferentes sobre o assunto - o que não significa, em absoluto que não possamos, cada um, respeitar as diferenças. É claro que não vou considerar um poeta um indivíduo que se prende apenas à métrica ou às palavras fora do coloquial. O maior dos poetas, Shakespeare, que é o criador de quase tudo, optou pela coloquialidade. Usou métrica quando necessário - para seus sonetos - e abusou da oralidade em suas peças teatrais. Meus poetas brasileiros preferidos - Cabral, Drummond, Cecília e Vinícius - usaram a métrica em muitos casos; em outros, não. O que sempre importou a mim, enquanto leitor, é justamente o que se diz e como se diz - é disso que se faz a literatura e a verdadeira poesia.

    E é aí, nessa seara conteudística, que entra minha afirmação de que figuras como Renato Russo e Cazuza não têm grande valia. Não são poetas, embora posem de. São letristas, a meu ver, adolescentes, que escreveram para um determinado público também adolescente, com pouca exigência crítica e pouca leitura. Todos os fãs de Renato Russo que conheci tornaram-se adultos e passaram a vê-lo com outros olhos. Tinham - ainda têm - muito respeito por aquilo que ele representou num determinado momento, mas, depois, tornou-se passado. É nesse ponto que está, para mim, a grande diferença entre o verdadeiro artista e o pseudo. Verdadeiros artistas - e eles existem, no Brasil - são longevos, sobrevivem a gerações, continuam sendo referências para avós, filhos e netos, criam textos nos quais a elaboração poética é rica, os recursos lingüísticos são aprimorados. Poesia é, também, linguagem.

    É claro que isso é uma visão pessoal - e sujeita a um debate civilizado.

    Abraço, camarada.

    [Reply]

  3. #3 Camila M.
    on Jan 24th, 2010 at 5:16 pm

    Mas há uma falta de divulgação deste eventos, prof. Não se fala de documentários sobre os artistas deste patamar, só quando se trata de artistas como Michael Jackson e derivados.

    Mudando de assunto, há no site da TV Cultura links sobre Villa- Lobo, http://www.tvcultura.com.br/villa-lobos/

    Beijo prof.

    [Reply]

    grijo Reply:

    Valeu, Camila.
    E Villa-lobos não é um marginal?

    Bjo

    [Reply]

  4. #4 eloi
    on Jan 25th, 2010 at 1:10 am

    Nem todos os alunos preferem a prosa, Grijó.

    [Reply]

    grijo Reply:

    As generalizações são sempre perigosas, Elói. Mas a preferência pela prosa é tão esmagadora que o número de alunos que preferem poesia é pífio. Sério.

    [Reply]

  5. #5 ED
    on Jan 25th, 2010 at 2:42 am

    Claro, Grijó, que sou adepto do debate civilizado, venho aqui por isso. Não estou discutindo sua opinião, apenas algumas afirmações que classifico como erradas. Dizer que renato Russo e Cazuza escreviam apenas para adolescente é um erro. Se você conhece adultos que passaram a enxergar esses artistas com outros olhos, saiba que conheço muita gente que continua percebendo a grandeza desses artistas. Dizer que eles escreviam para um determinado grupo de adolescentes, pera lá, camarada. Você pode não gostar, achar que não são poetas, reduzir a um “determinado grup”o os milhoes de fãs que ainda continuam ouvindo e curtindo Cazuza, Renato, e monte de gente dessa geração é, no mínimo, um falta de informação. Mas, sei que essa discussão é estéril, roda, roda e esbarra sempre na subjetividade do gosto. Sobre a observação de que os bons artistas são perenes, concordo plenamente, é por esse motivo que os discos da Legião e do Cazuza, ainda estão em catálogo até os dias de hoje. Das duas uma: ou o pequeno grupo de adolescente para quem eles escreviam continua comprando repetidamente os discos ou, meu caro, a legião de admiradores é bem maior do que você imagina.

    Abraço!

    [Reply]

    grijo Reply:

    Ed, em outras ocasiões, e pelo mesmo motivo, já tivemos discordâncias. Como não sou ouvinte do rock brasileiro dos anos 80, fui buscar em algumas fontes as informações de que disponho. Uma delas está neste livro, que foi escrito por Arthur Dapieve, fã confesso de Renato Russo, por exemplo:

    http://www.submarino.com.br/produto/1/10218/brock:+o+rock+brasileiro+dos+anos+80

    Na verdade, embora ele seja adepto do que se produziu no período, e por algumas bandas que amealharam milhares de fãs, fica claro, para o leitor, que o rock nacional era destinado ao mercado adolescente, e ainda é, se você considerar as bandas que surgiram uma década depois e as que continuam a surgir.

    Claro que a subjetividade fala mais alto, mas quando falo da questão técnica (das letras de Renato Russo, por exemplo), falo objetivamente. Falo da má construção, da pouca elaboração lingüística, das imagens poéticas forçadas. Mas não há falta de informação, não.

    Abraço.

    [Reply]

  6. #6 pituco
    on Jan 25th, 2010 at 4:32 pm

    sr.grijó,

    apesar dessa severidade estética consigo mesmo, deve haver algum rascunho de poema em teus guardados, ou não?

    abraçsonoros e pacíficos

    [Reply]

    grijo Reply:

    Pior que isso, Pituco. Há uma publicação, de 1982, com vários outros poetas. Daquele time só vingou um, até onde sei. Waldo Motta. O resto virou contista, romancista ou, num repente de lucidez, resolveu esquecer o assunto.

    Abraço.

    [Reply]

  7. #7 Tálib
    on Jan 25th, 2010 at 10:12 pm

    Eu me incluo entre os que preferem a prosa.
    Poemas são ótimos, mas prefiro ouvi-los.
    Descobri - embora você não goste - a série Audiolivros, que se baixa em qualquer programa simples de computador. São fantásticos. Ouço com freqüência Drummond, Augusto dos Anjos (o meu predileto), Manuel Bandeira e Vinícius (”O Operário em Construção” é uma obra-prima). As interpretações de Othon Bastos (Augusto dos Anjos) e Juca de Oliveira (Manuel Bandeira) são impecáveis.
    Mas a minha preferência pela leitura é, sem sombra de dúvida, prosa. A leitura é melhor, a continuidade dos fatos me prende mais, sobretudo em se tratando de Dostoiéviski, o maior na minha opinião.

    [Reply]

    grijo Reply:

    Sempre achei, Tálib, que a prosa, por ser linear - na maioria das vezes -, agrada a quem tem pensamento linear. A fragmentação poética exige mais do leitor, de modo que livros de poemas são menos lidos. Mas, claro, histórias têm muito mais apelo do que expressão sentimental que é, grosso modo, o ponto fundamental da poesia.

    [Reply]

    Remo Reply:

    Boa dica, Talib. Vou tentar ouvir poesias ao invés de lê-las. Quando vejo a Elisa Lucinda declamando, fico apaixonado. Adoro! Mas quando tento ler, não rola. Sei lá, realmente não aprendi a ler poemas. Incompetência minha, de meus professores ou ambos.

    [Reply]

  8. #8 Diego
    on Jan 26th, 2010 at 3:22 pm

    Boa tarde Professor,
    Gostei muito deste post, realmente tenho que concordar com o senhor, quando aluno do ensino médio achava poesia uma loucura, fui começar a me interessar de verdade no ano passado e me arrependo por não ter me aventurado antes…Mas tenho ainda uma grande dificuldade de ler poesia, talvez pelos motivos expostos pelo senhor ai acima…Aproveitando a ocasião, quais autores autores ou livros o senhor recomenda para um leitor iniciante?
    Agredeço desde já…Abração!

    [Reply]

    grijo Reply:

    Diego, qualquer recomendação passa pela subjetividade. O que significa que podemos discordar, mas eis alguns poetas brasileiros que merecem ser lidos (além dos que citei na postagem):

    Roberto Piva, P. Leminski, Waldo Motta, Gilberto M. Teles, Bruno Tolentino, A. C. César, Francisco Alvim, Pedro Lage, Ledusha.

    Devo ter esquecido alguém, claro.
    Abraço, camarada.

    [Reply]

    grijo Reply:

    Chacal também. Não falei que havia esquecido?

    [Reply]

  9. #9 ML
    on Jan 26th, 2010 at 4:20 pm

    Li com grande satisfação e não resisti, tive que comentar:

    “Tudo que não invento é falso.

    Tem mais presença em mim o que me falta.

    Meu avesso é mais visível que um poste.”

    (Manoel de Barros)

    Está no meu Jericonews, abandonado há muito.

    ML

    [Reply]

  10. #10 Laís
    on Jan 27th, 2010 at 2:07 am

    Vai ver o cânone futuro será formado por poetas/escritores de Blogs.

    [Reply]

    grijo Reply:

    Por que não?

    [Reply]

  11. #11 Joyce Castello
    on Jan 28th, 2010 at 12:33 pm

    Olá, Grijó!

    Chego ao seu blogue por meio de amigos que, por saberem do meu gosto por Manoel de Barro e sua poesia, recomendaram seu post.

    O que posso dizer, do alto da minha tentativa de defender a grandeza que enxergo no poeta, é: talvez não tenha lido os melhores livros.

    “O Guardador de Águas” e “O Livro das Ignorãças” me agradam um bocado.

    Estou curiosa para assistir ao documentário, ótimo saber que será exibido tão pertinho.

    : )

    [Reply]

    grijo Reply:

    Feito, Joyce.
    Vou checar “O Guardador de Águas”, que tenho mas não foi lido, ainda.
    Valeu.

    [Reply]

  12. #12 Rogério Nunes
    on Jan 29th, 2010 at 6:01 am

    O problema é que pouca gente diz a verdade. Estes “artistas” surgidos na música adolescente dos anos 80 até hoje não servem para nada, a não ser para entreter a gurizada que vai pros shows para se divertir, beber, fumar e trocar experiências glandulares. Depois não tem nada pra dizer. Renato Russo, Rogério Flausino, Herbert Viana, Dinho e outros só são ídolos quando a gente tem 16 anos, depois não se sustentam. eu sou a prova viva diste. Estou com 38 anos e curtia Legião como um fanático. Depois passa. Vc tem toda razão, cara.

    Rogério Nunes

    [Reply]

Leave a Comment