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Com os dias contados

Quem, atualmente, contrariando toda a lógica comercial, é capaz de investir na abertura de uma loja que venda exclusivamente cedês e devedês? E mais: que essa loja não divida com outras o espaço vantajoso de um shopping center. Pois é. Nesses tempos de downloads grátis e a pirataria agindo como se fosse uma função orgânica, abir uma loja de discos equivale a um lento e triste suicídio. O estabelecimento chama-se Vox Musing Store.

CD Eric Clapton e Steve Winwood - Live from New York (Duplo)

Pois bem. Dirigi-me à loja sem muitas esperanças, afinal a sobrevivência de um estabelecimento dessa natureza não depende dos discos que consumo, mas de sertanejo universitário, axé, Jota Quest, cantores eclesiásticos e outras inutilidades. Qual a minha surpresa! De imediato, o disco duplo do show capitaneado por Eric Clapton e Steve Winwood, no Madison Square Garden, estava diante de mim. Devidamente comprado, decidi que só adentraria o gabinete do cd player em meados de fevereiro. Motivos pessoais. Aproveitei para comprar também o devedê Carioca ao Vivo, de Chico Buarque.

A questão é que me tornei motivo de riso. Assim como abrir uma loja de discos assemelha-se a ir pela contramão - com o risco de acidentar-se -, comprar discos e devedês originais, em vez de baixá-los na web, parece ser atitude de um bocó, de um idiota que fomenta a cupidez das gravadoras. Ouço de um amigo que comprar devedês piratas é uma forma de protestar contra os altos e injustos preços da mercadoria, e que eu deveria, já que me julgo um homem esclarecido, aderir à sua cruzada. Economizaria alguns reais nessa empreitada (palavras dele). Recuso-me.

Há algum tempo escrevi sobre o fato de haver poucas livrarias no país. Lê-se pouco, de modo que o tempo entre o nascimento e a morte de uma livriaria é brevíssimo. As lojas de discos vão pelo mesmo caminho, mas por motivos distintos. Ouve-se muita música, mas tudo está praticamente disponível na web. É claro que em muitos casos a qualidade da gravação é discutível, mas isso pouco interessa a muitos dos que consomem música via internet ou àqueles que compram discos em camelôs. A estes últimos o que interessa é economizar, e ter aquela sensaçãozinha particular de quem se considera um espertíssimo burlador do sistema.

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17 Comments on “Com os dias contados”

  1. #1 George
    on Jan 26th, 2010 at 4:50 pm

    Grijó, onde encontraste estas raridades: loja de discos e ainda por cima das boas. Pode ter certeza que não é só vc que compra CDs originais, pois a duas semanas comprei Domingo, de Caetano e Gal, e um disco ao vivo de João Bosco, ambos originais e novos. Está certo que os comprei nas Americanas, naquelas liquidações nas quais tem que ter uma disciplina enorme para vasculhar por mais de uma hora cds bons no meio de tanta porcaria. Bom, essa é a maneira que encontrei para comprar cds originais: procurar ora em liquidações, ora em sebos.
    Abraços

    [Reply]

    grijo Reply:

    Fica na José Teixeira, esquina com a Eurico de Aguiar, aquela rua por trás do Centro da Praia. Vale conferir.

    Também compro discos nas Americanas, mas é mais difícil achar coisas que valem a pena. E paga-se bem menos.
    Abraço.

    [Reply]

  2. #2 Camila M.
    on Jan 26th, 2010 at 6:26 pm

    De fato, os preços são elevados desse tipo produto para uma boa parte da população, já que em média o preço é de R$ 35,00 num país em que a massa ganha um salário mínimo. O que leva a buscar meio alternativos para ludibriar este preço. O que muitas vezes não justifica, pois o preço baixo, na maioria das vezes, coincide com a qualidade.

    Confesso que utilizo a internet para fazer downloads e mais downloads de música. Porém, procuro adquirir o cedê em mãos, caso este seja do meu interesse. Isto é, a internet serve como meio de pesquisa para uma possível compra de cedês. Já que estas cópias, na minha opinião, não substituem o exemplar em suas mãos.

    Beijo prof.

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  3. #3 charlles campos
    on Jan 26th, 2010 at 6:56 pm

    Semana passada me chegou pela livraria cultura o Highway 61 Revisited. Mas, grijó, tenho um tio que mora nos EUA, e ele diz que as lojas de CD por lá n~so sofreram tanto baque assim. É só ver, um CD do Coldplay ainda consegue vender 8 milhões de cópias. A questão realmente é o preço. Quem gosta de música, se importa com a qualidade do som, com encarte, etc. O Bob Dylan foi 12,50. As gravadoras por aqui ou se adequam de vez, ou vão desaparecer.

    [Reply]

    grijo Reply:

    É um fato, Charlles.

    [Reply]

  4. #4 Rafael Reinehr
    on Jan 26th, 2010 at 7:56 pm

    Grijó, baixo música pela web, mas também, como você, continuo comprando CDs. Tenho um quê de audiófilo e de colecionador. Alguns discos, penso eu, simplesmente preciso ter. Com o encarte original e tudo o mais.

    Com o dólar em baixa, então, a Amazon, a CD Universe e a Rhino ficam um mumuzinho.

    [Reply]

    grijo Reply:

    É verdade, mas ainda prefiro comprar discos em lojas não-virtuais, Rafael. Claro que quando isso é possível.
    Comprei muita coisa pela CD Universe e pela CD Point.

    [Reply]

  5. #5 Érico Cordeiro
    on Jan 26th, 2010 at 8:33 pm

    Mestre Grijó,
    Comungo com você o mesmo fetiche pelos discos - quem não possui essa “mania” (na falta de palavra melhor) jamais vai entender a magia que é procurar um disco legal, em meio a tanta inutilidade.
    Estive em Porto Alegre na semana passada e constatei que ainda existem as bravas e heróicas lojinhas que resistem ao furacão dos downloads e à insensibilidade da moribunda indústria fonográfica. Ali ainda é possível achar discos de ótima qualidade, especialmente de rock e blues (embora o jazz tenha lá o seu espaço).
    Encontrei muita coisa boa e fiz a festa (claro que não deixei passar a oportunidade de ir à Fnac e à Livraria Cultura). Dentre as raridades que encontrei, um McCoy Tyner (Remembering John), um Billy Taylor Trio + big Band (interpretando o set de My Fair Lady), Um Archie Shepp + Mal Waldron (Left Alone Revisited) além de discos de Rosemary Clooney e Chris Connor.
    É muito legal passar algumas horas procurando um disco, imaginando se ele é legal ou não, chegar em casa e botar prá tocar! Baixar música não tem, nem de longe, o mesmo apelo!
    Longa vida e muito sucesso à Vox Musing Store!!!!!!

    [Reply]

    grijo Reply:

    Esses focos de resistência merecem todo o meu apoio, Érico. Aqui, em Vitória, só conheço essa loja citada no post (fora dos shoppings). Mas, infelismente, sei que está com os dias contados. Enquanto isso, freqüento-a semanalmente. Vida longa, se possível!!!

    [Reply]

    ML Reply:

    Infelizmente.

    [Reply]

    grijo Reply:

    “infeliZmente”

  6. #6 Luiza Thereza Silva
    on Jan 27th, 2010 at 12:20 am

    Nâo posso dizer que não utilizo a web para download de musicas, cedês ou devedês pois é o que faço, no entanto, há de se concordar que os preços de tais produtos são altos, comparados à renda de fans interessados como eu.
    Ainda assim, evito ao maximo comprar produtos piratas.
    Mas, as vezes, a “fã interessada em algo de qualidade” se dispõe a juntar uma boa quantia para possuir um produto original pra variar….então, acho que ainda há esperança pra esta consumidora.

    [Reply]

  7. #7 pituco
    on Jan 27th, 2010 at 12:23 am

    sr.grijó,

    assunto pertinente e oportuno…como sempre por essas plagas virtuo-capixabas…rs

    há mais de cinco anos, utilizo essas facilidades de downloads gratuítos…e exatamente por isso, professo a ‘divulgação-promoção’ de obras e idéias nessa atual mídia virtual, sem passar pelos auspícios e crivos da indústria convencional.

    muitos colegas não compartilham comigo desse método…há a teoria de que ‘download gratuíto’ fomenta a ‘pirataria’…será?

    bom,
    isso vai do bom senso do cidadão, pois como você, pode-se ‘baixar’ e adquirir o original, conforme necessidade, não é isso?

    eu mesmo, tenho material pessoal (gravação e produção domésticas) distribuído pelos sites de compartilhamento, onde passamos a conhecer muitos outros trabalhos bem como nos relacionar com colegas por todo planeta.

    fato é que, qualquer produção demanda ‘grana’ pra um resultado profissional…e nesse quesito, creio que acharemos uma ‘nova’ saída entre artistas-produtores-empresas nesses tempos de mídia virtual.

    é isso aí,
    vida longa ao vox musing store…há site do estabelecimento?

    amplexossonoros desse lado do hemisfério

    [Reply]

    grijo Reply:

    Esses sites de partilha, como o myspace, são fundamentais para a divulgação, Pituco. E merecem todo o meu entusiasmo. E concordo com vc: é preciso achar uma saída, e com bom senso, embora acredite que esse bom senso não seja coletivo. Cada um faz sua parte, então.

    Camarada, até onde sei eles não têm um site. Mas urge.
    Abraço.

    [Reply]

  8. #8 Douglas Lopes
    on Jan 27th, 2010 at 1:46 pm

    Como tudo nesse vida, há controvérsias sobre o gosto de baixar arquivos na rede, qualidades dos mesmos e até gosto musical. O que não acho muito controverso, é que participar da pirataria causa muito mal à sociedade em geral. Mas aí surge a questão: baixar na rede e consumir, é uma forma de pirataria (!?). Acompanhemos o desfecho dessa e de outras adaptações do mundo moderno ao longo dos anos. Só como testemunho para finalizar: sou músico, estamos acabando de terminar nosso primeiro trabalho autoral e não(!), não venderemos um álbum se quer… Preferimos acompanhar a tendência (que parece não ser mais tendência e sim realidade). Desculpe-nos saudosistas e antiquados…

    [Reply]

  9. #9 charles mattos
    on Jan 28th, 2010 at 7:30 pm

    Com a popularização dos writers os livros “originais” estao tambem com os dias contados…
    esses aparelhos de leitura de PDFs e e-books que até 2012 devem se popularizar provavelmente vao prejudicar (e muito) as editoras…

    Muito provavelmente acontecera o mesmo que acontece com os CDs originais…poucos vao continuar comprando
    Fico imaginado o mundo onde a pirataria vai atacar os livros…

    [Reply]

    charles mattos Reply:

    perdao pelo assassinato a liguna inglesa a que eu tenho profundo respeito

    o nome do aparelho é reader!

    [Reply]

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