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Sally Field & a Morte

Podem me considerar pleistocênico, mas acompanho Sally Field desde quando ela voava vestida de freira, em A Noviça Voadora, série que vi ainda garoto, e que posso rever – sem a ingenuidade de 40 anos atrás, claro – porque é reprisada por um canal pago. Isso sem contar, naturalmente, o filmaço Norma Rae, de Martin Ritt, que inspirou uma série de discussões sobre a participação feminina no movimento sindical. Sally Field está, para mim, no nível de Meryl Streep, a badalada musa dramática da geração de quarentões e cinqüentões, da qual faço parte.

Pois bem: falei isso tudo para dizer que assisti, ontem, a Duas Semanas, filme estrelado por Sally Field e pela Morte. Sim, por duas personagens: ambas fictícias, para quem está atrás das câmeras, mas também tão verossímeis quanto você, que está lendo – ou eu, que escrevo. A morte, lenta e inevitável, vetorizada por um câncer intestinal, é o leitmotiv do filme que, em poucos momentos, proporciona ao espectador o tom melancólico que, claro, seria natural numa situação-limite. Sei que os inteligentes vão me excecrar, mas gostei mais de Duas Semanas do que de As Invasões Bárbaras, que possui mais ou menos a mesma premissa (daí a comparação).

Não é tão difícil interpretar um moribundo. A maquiagem ajuda um bocado e é preciso cuidar para que a respiração seja falha, além do fato de que se deve evitar rap, rock e axé como música de fundo. A partir daí, levando-se em conta, é óbvio, o talento do ator – ou da atriz -, tem-se um resultado satisfatório. Mas o que chama a atenção é o fato de que em boa parte do filme Sally Field não encarna a moribundez. Ao contrário: é saudável, falante e irônica como quase todos os personagens do filme, com exceção de um dos filhos, que é um bonifrate nas mãos da esposa mandona.

Lembrei-me, enquanto assistia, do musical de Bob Fosse All That Jazz, em que Jessica Lange interpreta a Morte, elegantemente vestida de branco, contrariando a imagem mitológica da Ceifadora. Criar uma figura que presentifique e encarne – no sentido literal do termo – a morte não é tão difícil também. Quero ver transformar uma sensação em personagem, e mantê-la ativa, contracenando com outros componentes da trama. A Morte com eme maiúsculo, que perpassa a película de forma ironicamente incômoda.

Sally Field é uma senhora de 64 anos que mantém o sorriso de Irmã Bertrille, a jovem noviça que voava e que se instalou em minha memória. Nunca foi daquelas atrizes cujo sex appeal catapulta ao estrelato. É, de fato, uma atriz que, mesmo distante dos holofotes, ficará para sempre, e que brilhará em películas um tanto escondidas em locadoras. Sem problemas. Há outras atrizes na mesma condição e todas elas constituem, mesmo, um prazer para poucos.

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10 Comentários on “Sally Field & a Morte”

  1. #1 Vampiro Lestat
    on Mar 12th, 2010 at 3:16 pm

    Não sei que filme é este, não vi, mas concordo que Sally field é excelente. Vi norma rae tb, mas gostei demais dela em Uma Babá quase Perfeita. A noção de comédia dela é boa.

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  2. #2 Edson Bastos
    on Mar 12th, 2010 at 3:44 pm

    Este filme é muito bom, e muito engraçado em algumas partes.
    Valeu a lembrança.

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    grijo Reply:

    Basicamente pela relação do filho cineasta com a mãe. Quase comédia?

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  3. #3 Suco de Lima Persa
    on Mar 12th, 2010 at 8:52 pm

    As /invasões Bárbaras é muito mais filme, a começar por descartar o estereótipo de “filmão” e fugir da linha holliwoodiana. Tudo bem que as temáticas podem até ser semelhantes mas as abordagens são diferentes. Um propõe o lirismo na relação enhtre amigos e Two Weeks já envereda pelo caminho da narrativa mais de entretenimento. Não sei se me fiz entender, mas é isso aí. O blog é bem planejado. Parabéns!

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    grijo Reply:

    Bem, o filme foge da linha hollywoodiana até porque não foi feito em Hollywood. É uma produção franco-canadense. Sim, claro que as abordagens são diferentes – apenas a premissa, a idéia original de pessoas que convergem até uma pessoa na condição de moribundez.

    Valeu.
    Abraço.

    [Reply]

  4. #4 Fernando
    on Mar 13th, 2010 at 3:38 pm

    Um filme razoável que se tornou excelente porque os atores ajudam, e em especial, omo vc bem promove, a figura de Sally Fields.~Vi que vc curte séries antigas, sabia que a própria Sally fez um sitcom chamado The Girl with Something Extra? Ela era uma espécie de paranormal, eu acho.
    Até +

    [Reply]

    grijo Reply:

    Sei disso, Fernando. A série, no Brasil, chamou-se “A Garota com algo mais”, e era interessante. Sally Field fazia uma esposa que, sob determinadas circustâncias, era capaz de ler a mente das pessoas. Era engraçado mas de certa forma atingia o público adulto, o que não despertava interesse de um cara de treze anos – meu caso.
    Abraço.

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  5. #5 Mario
    on Mar 14th, 2010 at 2:49 am

    Prefiro Felline.

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  6. #6 olmiro muller
    on Mar 16th, 2010 at 4:09 pm

    Sally Field atuou no filme “Flores de aço” (Steel Magnolias), onde a morte também comparece, pois Field interpreta a mãe de uma jovem (Julia Roberts) diabética que casa e engravida, correndo alto risco. No fim, a mãe, contornando a situação, doa um rim para salvar a filha. Um drama, é claro, mas há momentos de descontração, com a presença de Shirley Mac Lane e um bom elenco de apoio.

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    grijo Reply:

    Bem lembrado, Olmiro.

    [Reply]

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