Leio que duas novas publicações discutem o fim do livro – que para alguns é inevitável. Li a matéria lincada e, claro, como livros constituem parte substantiva de minha existência, lerei – principalmente Não Contem com o Fim do Livro , de Umberto Eco e Jean-Claude Carriére – com dedicação e, possivelmente, com prazer. Agora, nesta manhã chuvosa de quinta-feira, ainda curtindo o recesso escolar, e antes que minha querida filha acordasse, reli o pequeno e famoso ensaio O Antigo e o Mais Avançado, de Isaac Asimov, em que ele trata justamente do mesmo assunto. Tal ensaio está contido nas últimas páginas do livro Antologia 1 (1958-1973), publicado pela ed. Nova Fronteira, em 1992.
Asimov, escritor (também) de ficção científica e um de meus ídolos literários, traz à tona questões que, dezoito anos depois, voltam à baila com ingredientes quase impensáveis à época da publicação: internet, e-books, kindles e variações. Tais ingredientes, podem imaginar alguns, praticamente decretam o funeral do livro impresso, esse invento que fez de Johannes Gutemberg a figura mais importante da história da humanidade. Penso que não e, pelo que li, Umberto Eco e Carriére também discordam.
Como ainda não li Não Contem com o Fim do Livro, mas a releitura do texto de Asimov encontra-se fresquinha na minha cabeça, transcrevo o que disse o grande químico russo a respeito do assunto:
“Quando lê um livro, você cria suas próprias imagens, cria o som das diversas vozes, cria os gestos, as expressões e as emoções. Você cria tudo, exceto as próprias palavras. E se você é capaz de obter prazer, mesmo pequeno, com a criação, o livro lhe proporcionará algo inacessível a um programa de televisão. Além disso, mesmo que dez mil pessoas leiam o mesmo livro ao mesmo tempo, cada qual criará suas próprias imagens, seus próprios tons de voz, seus próprios gestos, expressões e emoções. Não teremos mais um livro, mas dez mil livros. Que não serão produto exclusivamente do autor, mas de uma interação específica do autor com cada leitor. Sendo assim, o que poderá suplantar o livro?”
Claro que, como o trecho foi publicado há duas décadas, essa defesa do livro envolvia justamente observações acerca do poder televisivo e dos livros-cassete (este último parece-me tão mesozóico quanto o alfabeto em si). A discussão agora é outra, e implica justamente a manutenção da informação, mas por vias distintas do ato prazeroso e tátil de folhear um objeto cuja importância atravessou os séculos e que, para muitos – incluo-me nessa -, continuará atravessando.
Sei que interesses mercadológicos aliados a uma geração que só consegue ler numa tela de pecê (além da vantagem do acesso gratuito a obras que, por serem impressas, têm custo) contribuem para que haja, de certa forma, uma dessacralização do livro. O hipertexto parece ganhar força capaz de esmagá-lo, já antevendo um futuro sombrio para ele. Não sei. Assim como Asimov defendeu o livro contra investidas das imagens prontas e dos sons artificiais, Eco e Carriére parecem – sem trocadilhos – fazer eco contra a tecnologia que ousa destruir a pagina impressa em papel. Esperemos, pois. De minha parte, preocupo-me mais com a preferência, por parte das editoras, em publicar má literatura, filosofia barata e descartável e livros de auto-ajuda do que com o fim do livro em si. Bem, tenho a opção de não lê-los, não é, Isaac?

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on Jul 29th, 2010 at 11:21 am
Reparei que a maioria dos interlocutores que tratavam desse assunto, tanto em conversas informais como em discussões na sala de aula, não gostam muito de ler, não tem a sensação de poder e posse, manuseio das ideias que estão ali para você senti-las da maneira que aprouver (hehehe). Acostumaram-se, pois, a terem tudo sintetizado, mastigado como se fosse a verdade. O livro é o objeto de temos dos totalitaristas. Costumo dizer que livro bom é aquele que vai para a fogueira em praça pública, óbvio que isso em governos ditatoriais ou pseudo-democráticos. Sua preocupação dita ao final de seu artigo é a minha também, e me esforço para leiam Seu Isaac, o Umberto e Jean-Claude, que não conheço muito, mas agora, com a boa leitura de suas palavras mediante página eletrônica – que também é um meio, mas não o único – me interessei em pesquisá-lo.
Abraços!
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grijo Reply:
July 29th, 2010 at 2:50 pm
Fazemos nossa parte, Thiago, ou tentamos, ao menos. Não temos a “verdade”, mas a função de um professor, creio eu, é apresentar alternativas ao que está estabelecido como cânone ou como modismo. Para isso, o respeito o livro (ou devoção a ele) deve partir do professor. É preciso que o aluno enxergue isso.
Estamos aí.
Abraço.
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on Jul 29th, 2010 at 3:57 pm
Uma coisa é a literatura na forma de hipertexto, outra é a digitalização do livro.
O livro e a literatura sempre existirão. A midia, em si, fica ao gosto do freguês.
Duas curiosidades:
1) A Amazon, no último trimestre, vendeu mais “e-books” que livros em papel.
2) Um advogado (é, sempre eles…) já conseguiu importar oficialmente um Kindle sem pagar imposto alfandegário. Ele provou que o aparelhinho só serve para mostrar e-books, nada mais. Ou seja, de direito, um livro.
Grijo, você já usou o Kindle?
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grijo Reply:
July 29th, 2010 at 6:50 pm
Ainda não, Remo, mas soube que é bacana.
Recusros quase ilimitados, né? Imagino que daqui a algum tempo as coisas estarão mais populares. Lamento isso, porque o fetiche do livro pode ir para o brejo.
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on Jul 29th, 2010 at 4:47 pm
Está certo.
Quando vem Mariana? Ou não virá?
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grijo Reply:
July 29th, 2010 at 10:09 pm
Irá.
Não se preocupe.
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on Jul 29th, 2010 at 11:47 pm
“De minha parte, preocupo-me mais com a preferência, por parte das editoras, em publicar má literatura, filosofia barata e descartável e livros de auto-ajuda do que com o fim do livro em si”
Achei este trecho excepcional. E gostaria também de tentar contribuir com o pensamento de que a internet mesmo com sua cada vez maior eficiência informativa jamais substituirá o livro – e falo isso com certa categoria, pois pertenço à geração que cresceu junto com o advento da internet em larga escala. Penso que por mais que o acesso a internet seja grande o livro como objeto em sí tem um valor muito grande ao menos para quem dá o mínimo de valor à obra. Clara prova de tal ponderação é o fato de que em plena era da internet a literatura infantojuvenil repesentada por séries como Harry Potter e Crepúsculo vende milhões de livros sendo essas vendas em grande maioria para a geração que se utiliza dos recursos tecnológicos da melhor forma.
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grijo Reply:
July 30th, 2010 at 9:23 am
PV, vc é um bom exemplo de que a internet ajudou – e não prejudicou – a leitura. Mas é interessante observar que o auxílio ou prejuízo da web são elementos secundários. A opção é do indivíduo, e sempre dele, que despreza ou enaltece o livro.
Dia desses participei de um debate virtual em que se demonizava a web. Achei engraçado justamente porque se condenava o veículo usado. Mas tudo bem. Cheguei à conclusão – um tanto óbvia – de que a responsabilidade está em quem a usa, e não na ferramenta. Entregue um alicate a um idiota para ver o estrago que ele proporcionará.
Abraço.
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on Jul 30th, 2010 at 2:41 am
sr.grijó,
creio que não haja retorno…livros serão inscrições rupestes às novas gerações virtuais…e como vc, não me abalo com a nova mídia, mas sim com a falta de crivo da publicações.
desde moleque, nunca curti estória em quadrinhos…não sei o porquê…desconheço os personagens e coisa e tal…tanto que os amigos zombam de mim até hoje…apesar de ter feito escola de belas artes e curtir pacas pintura…mas, nunca entendi direito o desenho impresso no formato de brochura pra se folhear…assim concordo com o trecho do sr.asimov sobre a dita ‘imaginação’…
agora,
eu mesmo surpreendo-me com as possíbilidades virtuais…
tempos atrás, sugeri por brincadeira, a um amigo técnico em criar programas pra web, fazer um show onde a audiência tivesse a opção de interagir virtualmente (através de laptops distribuídos na entrada da gig)…ou seja, através deles, pudessem alterar figurinos…criar cenários…mixar música (tirar voz, deixar apenas a guitarra e baixo)…ele riu, mas não disse nem que ’sim’ nem que ‘não’…hehehe
bom,
é isso aí…e ontem fui assistir um showzaço aqui no blue note tokyo…joyce moreno e trio (tutty moreno, hélio alves e j.helder) com o celso fonseca de convidado especial…
abraçsons
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grijo Reply:
July 30th, 2010 at 9:26 am
O Google paga uma boa grana por idéias assim, Pituco.
Seu amigo ri, mas é possível – imagino – que o Google não. As possibilidades são ilimitadas, penso.
Vc, como arguto observador da arte, não curte quadrinhos?
E ainda me deixa com água na boa por esse show.
Abraço.
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on Aug 1st, 2010 at 2:45 pm
Veja o vídeo:
http://www.youtube.com/watch?v=_an5z2lxXH4
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grijo Reply:
August 1st, 2010 at 7:45 pm
Boa.
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on Aug 7th, 2010 at 8:20 am
Tô contigo e não abro!!!
Sério! Contigo e com o Asimov!
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