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Moacyr Scliar, a melancolia & a tirinha de Morten Ingemann

Assisti, agora há pouco, a uma entrevista com o recém-falecido Moacyr Scliar, médico e escritor gaúcho cujas idéias sempre me perturbaram – ou pelo menos algumas delas. Um criador talentoso, de linguagem enxuta e elegante, que passeou por temas diversos com a desenvoltura dos grandes. Li e reli O Exército de um Homem Só com aquele prazer que faz o leitor rir de si mesmo, porque é um espelho do que somos – uns mais; outros, menos. E que prazer em ouvi-lo dissertar sobre o livro Sonhos Tropicais e sobre a Revolta da Vacina.

A entrevista, concedida ao jornalista Roberto D’Ávila em 2006, teve de tudo: de Kafka a Oswaldo Cruz; de judaísmo a patologias. Num determinado momento, já quase pelo desfecho do bate-papo, Moacyr Scliar comentou sobre um tema que me é favorito: a melancolia, esse mal que acomete – segundo palavras dele – as mentes superiores. Esse desgosto com o que se apresenta no real e que move a boa literatura e, em geral, a boa arte. Essa visão lúcida que desperta para a insatisfação quase contínua. E que, por favor, não deve, sob hipótese alguma, ser confundida com tristeza ou depressão.

Coincidentemente, recebi de um amigo a tirinha abaixo. A estranheza que provoca o avanço tecnológico – ao mesmo tempo em que dele se faz uso e abuso – atinge em cheio o olho humano. E é numa dessas que a melancolia se instaura, mesmo que o cáustico humor seja o objetivo primordial da ilustração. Não, não sou contra a tecnologia. Este blogue é prova disso. Considere apenas entretenimento, então.

(clique na imagem que ela amplia)

20 Comentários on “Moacyr Scliar, a melancolia & a tirinha de Morten Ingemann”

  1. #1 Zé Henrique
    on Mar 1st, 2011 at 1:32 am

    Peguei só os 10 minutos finais da entrevista, justamente a parte que ele fala da melancolia e da depressão. O D’Ávila é um entrevistador de mão cheia – fala pouco e é sempre preciso.
    Depois a programação emendou com o Ferreira Gullar, mas a Marília Gabriela – Roda Viva. Quem te viu, quem te vê(pra lembrar o Chico) – é o avesso do D’Ávila.

    PS: Dei uma boa gargalhada com a tirinha. Olha a cara de espanto dos passarinhos. rsrsrssss

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    Grijó Reply:

    Assisti também partes da entrevista do Gullar.
    Para falar a verdade, Zé Henrique, achei os entrevistadores ruins. Mas valeu ouvir o que dizsseram os entrevistados apesar de tudo. Em alguns momentos, não sei se vc percebeu, Gullar não respondeu às perguntas de MG. Preferiu falar aos outros entrevistadores, principalmente uma mocinha esclarecida do Portal IG, cujo nome esqueci.
    Abraço.

    Reply

    Zé Henrique Reply:

    Como te falei, só os 10 minutos finais com o Sinclair. Mas já vi tantas outras entrevistas feitas pelo D’Ávila e o acho muito bom.
    Já a do Ferreira Gullar eu não vi, eu não suporto aqueles novos jornalistas do Roda Viva. Muito fraquinhos, uns estrupícios.

    PS: Não entendo a moral que Marília Gabriela tem no meio. Acho-a tão fútil, boba.

    Abraço

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  2. #2 Salsa
    on Mar 1st, 2011 at 11:11 am

    Uso alguns de seus textos para aulas no curso de Medicina.
    A tirinha é muito boa.
    Lembrou-me aquela estória da escavação na Sibéria, onde encontraram fios de cobre em uma escavação arqueológica e deduziram que naquela região, há mil e quinhentos anos, já existia telégrafo. Os mineiros, em outra escavação (entre Uberaba e Uberlândia), depois de muitos e profundos buracos, nada encontraram. Deduziram, então, que há cinco mil anos existia uma rede wireless para atender a população local (a tirinha é melhor).

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    Grijó Reply:

    “Seus textos”? De quem? Meus ou do Scliar?
    Ficou ambíguo, caro Salsa.

    Mineiros sempre deduzem surpreendentemente.

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  3. #3 Fabricio Gimenes
    on Mar 1st, 2011 at 11:53 am

    Putz, não sabia que Moacir havia falecido. Realmente tenho trabalhado demais…

    Li o Exército de um Homem Só. Livro muito bom.
    Trata da loucura nossa de cada dia.

    Já tive algumas conversas com amigos sobre o quão bonita é a melancolia e como esta se manifesta. Mas a insistência em transfomá-la em tristeza e/ou em depressão que as pessoas tem, dificulta muito a conversa…

    Anyway…

    Melancolia é a visão do claro.
    É o claro querendo ficar escuro.
    É o escuro onde se pode enxergar.

    Não lembro onde li isso, mas guardei comigo.
    Abs, camarada!

    Reply

  4. #4 João Marcos Toledo
    on Mar 1st, 2011 at 6:37 pm

    Li, no Elogio da Loucura, que, em geral, os tolos são muito mais felizes que os esclarecidos. O louco é feliz; o são, melancólico.

    Uma pesquisa comprovou que o ser humano, quando está melancólico, fica mais racional, mais lúcido.

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    Grijó Reply:

    A ignorância, meu caro Toledo, é uma bênção.

    Reply

    João Marcos Toledo Reply:

    É, sim, uma das maiores bênçãos. Mas prefiro ser amaldiçoado com a erudição, essa infecção rara e que ainda procuro.

    Reply

    Zé Henrique Reply:

    Grijó, Raul Seixas dizia:
    “É pena eu não ser burro. Eu não sofreria tanto”
    Concordo discordando.
    Acho que o saber, a compreenção do mundo e das coisas traz bem mais bônus que ônus.
    A felicidade do ignorante é frágil.
    Já a do sábio é mais forte, mais palpável.

    Reply

  5. #5 George
    on Mar 1st, 2011 at 10:16 pm

    Grande parte dos alunos do Beto Murta leram o livro “Saturno nos Trópicos”; livro curioso, menos pelo aprofundamento com que é tratado o tema da melancolia do que pelas inúmeras referências curiosas e divertidas encontradas nos livros. Quando você fala que Moacyr Scliar se refere à melancolia como “o mal que atinge as mentes superiores”, pensei imediatamente no filme “A Rede Social”. Alguns críticos demonstram que o filme coloca o protagonista como um sujeito melancólico, embora o roteiro, a direção e a montagem do longa no passam a ideia de velocidade com que aquilo tudo acontece. Será que estou divagando? heheheh
    Abraços

    Reply

  6. #6 charlles campos
    on Mar 2nd, 2011 at 12:42 pm

    “Milton e o concorrente

    Mílton ainda não abriu a sua loja, mas o concorrente já abriu a dele; e já está anunciando, já está vendendo, já está liquidando a preços abaixo do custo. Mílton ainda está na cama, ao lado da amante, desta mulher ilegítima, que nem bonita é, nem simpática; o concorrente já está de pé, alerta, atrás do balcão.

    A esposa — fiel companheira de tantos anos — está ao seu lado, alerta também. Mílton ainda não fez o desjejum (desjejum? Um cigarro, um pouco de vinho, isto é desjejum?) — o concorrente já tomou suco de laranja, já comeu ovo, torrada, queijo, já sorveu uma grande xícara de café com leite. Já está nutrido.

    Mílton ainda está nu, o concorrente já se apresenta elegantemente vestido. Mílton mal abriu os olhos, o concorrente já leu os jornais da manhã, já está a par das cotações da bolsa e das tendências do mercado. Mílton ainda não disse uma palavra, o concorrente já falou com clientes, com figurões da política, com o fiscal amigo, com os fornecedores.

    Mílton ainda está no subúrbio; o concorrente, vencendo todos os problemas do trânsito, já chegou ao centro da cidade, já está solidamente instalado no seu prédio próprio. Mílton ainda não sabe se o dia é chuvoso, ou de sol, o concorrente já está seguramente informado de que vão subir os preços dos artigos de couro. Mílton ainda não viu os filhos (sem falar da esposa, de quem está separado); o concorrente já criou as filhas, já formou-as em Direito e Química, já as casou, já tem netos.

    Milton ainda não começou a viver.

    O concorrente já está sentindo uma dor no peito, já está caindo sobre o balcão, já está estertorando, os olhos arregalados — já está morrendo, enfim.”( Moacyr Scliar)

    Retirado daqui:

    http://rachelsnunes.blogspot.com/2011/03/um-conto-de-moacyr-scliar.html

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    Grijó Reply:

    Especial, não?

    Reply

  7. #7 Leandro Reis
    on Mar 2nd, 2011 at 4:59 pm

    Assisti a entrevista ontem, logo depois de ler esse texto seu. Fiquei muito inclinado a ler Moacyr Scliar, especialmente o “Exército de um homem só” que você falou. Creio que seja o meu tipo de literatura mesmo. Se eu não gostar, vou cobrar de você, heim, Grijó! hahaha

    Interessante a trajetória de Scliar como escritor: leitura, publicação, arrependimento, perseverância e consagração. E muito legal a naturalidade com que ele fala sobre todas as coisas, especialmente da máquina de escrever que o pai lhe deu. Aquilo me emocionou.

    E mais interessante ainda quando fala da melancolia, que você muito bem ilustrou, um sentimento que me domina quase que constantemente. Mas como você falou, não tem nada de tristeza nisso, é mais uma insatisfação. Costumo dizer que eu sou um insatisfeito de plantão. E creio que seja daí que saiam as ideias, as mudanças, as reflexões. Sentir-se incomodado não é um incômodo pra mim.

    Abraço, Grijó.

    Reply

    Grijó Reply:

    Vc vai gostar do livro, Leandro. Tenho certeza.

    E quanto a ser um insatisfeito, acho que essa é uma necessidade. Caso contrário, seremos cúmplices de tudo isso que rola por aí.
    Não dá.

    Abraço.

    Reply

  8. #8 Lucas Quinamo
    on Mar 2nd, 2011 at 7:04 pm

    Gostei bastante Grijó, mas eu vejo a melancolia como uma coisa boa, de certa forma é monótona, mas quando estou afogado em melancolia, aqueles dias de chuva, eu escrevo melhor e minhas crônicas e contos saem mais… emotivos? talvez.
    No meu blog eu postei recentemente um artigo sobre a existência (fruto de uma crise de existência, onde me perguntei se as coisas ao meu redor eram reais ou apenas fruto de uma mente boiando em éter ou no vazio, coisa de doido, espero nunca ter outra) mas que no fundo me rendeu uma boa reflexão, acho que nunca mais vou experimentar melancolia maior.

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    Carlo Reply:

    A tirinha é ótima. Os textos de MS, exceto por uma ou outra coisa, trazem um tendencionismo judeu que não me seduz muito. Nada contra sionismos ou anti-sionismos. Apenas não curto.

    Reply

  9. #9 rodin rousseau
    on Mar 14th, 2011 at 10:36 pm

    Cá estou eu de volta,caro Grijó.De volta de uma Vila Velha que choveu tudo que tinha direito:foram 7 dias desde o final do sábado,05/03,até o sábado 12,da volta para BH,by air(você me deu sugestões de ´esticamento`da viagem por terra,mas sou daqueles humanos “ets” que aos 50 anos não dominam o que é um automóvel!).
    Resolvi escrever neste post porque,passada a semana “do feriado”,minha
    diferença fundamental,minha falta de identidade com boa parte do que,insistem,´é ser brasileiro`,não muda!Admiti levar minha filha para entrar no universo dos carnavalescos,conforme sua mãe pretendia,mas nada disto aconteceu!Não há mais marchinhas(não gosto de nada disto,mas Luíza podia entrar para um teste de suas escolhas por esta via ´menos ruim`);a “Quarta da Porca” guarda alguma coisa de um espírito livre e divertido,mas só!Gastei pacas, numa pousada ruim,e nem meu prazer de mineiro assumido órfão de praia pode ter “a colaboração de
    São Pedro”!Hoje,observando a resistência de Luíza em ir ser testada em seus conhecimentos numa Prova de História do Terceiro ano fundamental,a apregoar as virtudes da tecnologia,do Playstation e do Nintendo,e achar bobo o material do colégio sobre o universo das nossas nações indígenas,senti-me,outra vez,melancólico!Luíza é arteira,sabe fazer ´jogo de cena`e depois responde tudo certo,mas o problema sou
    eu!Guardei uma “Veja” de 22 de dezembro do ano passado pelo artigo de página final de J.R.Guzzo,sobre a educação no Brasil,e chamado “sem segundo tempo”:a saída é a nossa educação em casa que pode viabilizar;no plano coletivo não há saída!Viva a Classe C brasileira,saída das grotas para algum acesso à Democracia!Como seu visitante João Marcos Toledo,prefiro uma infecção massiva de erudição!Meu ícone:José Américo da Mota Peçanha,falecido editor de Veja,responsável por aquelas coleções de acesso popular,nas bancas,sobre os ícones do jazz e da chamada música clássica.”Viva nós”,os melancólicos!

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    Grijó Reply:

    A chuva, para muitos, foi providencial, caro Charlles. Não para vc ou para mim, que dei um pulo de dois dias até Guarapari. Fui na segunda e retornei, encharcado, na quarta.
    As marchinhas não têm mais apelo. Somente com românticos como vc e eu – e alguns poucos mais. Adicione aí aqueles que, otimistas, ainda insistem na esperança de dobrar uma esquina e dar de cara com um grupinho que bem poderia ser composto por senhores sessentões cheios de gás.

    Sim, vc tem razão – mesmo que, a meu ver, parcial (porque não é somente). A base da educação é domiciliar. Nem discuto.

    Continuamos na briga. Melancólicos ou não.
    Abraço.

    Reply

  10. #10 ademar amancio
    on Apr 6th, 2012 at 7:16 am

    sempre desconfiei que os tolos sofrem menos,me parece que não é só eu que compartilhe desta teoria.

    Reply

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