
Truman Capote, 1966
“Em uma manhã – era dezembro, acho, um domingo frio com um sol pálido e triste – subi pelo Quarter até o velho mercado, onde naquela época do ano havia exóticas frutas de inverno, satsumas doces por 20 centavos a dúzia, e flores de inverno, poinsétias de Natal e camélia japônica. As ruas de Nova Orleans têm perspectivas longas, solitárias; nas horas desertas, sua atmosfera é como a de Chirico e coisas inocentes, comuns (um rosto por trás de uma veneziana fechada, freiras caminhando ao longe, um braço gordo e negro balançando do lado de fora de uma janela, um menino negro e solitário acocorado em um beco, soprando bolinhas de sabão e observando triste enquanto elas sobem para a explosão final), adquirem qualidades de violência. Naquela manhã, eu parei de repente no meio de um quarteirão, porque havia notado pelo canto do olho uma passagem em túnel, um pátio cuja vegetação crescera demais. Um cão branco de aparência ensandecida estava parado na entrada do túnel de samambaias e eu me aproximei impelido por uma espécie de compulsão. Dentro do pátio havia uma fonte; a água jorrava delicadamente da boca da estátua de um macaco e produzia, ao cair sobre os pedregulhos do fundo, um som desolado que lembrava sinos. Ele pendia de um salgueiro, um homem com rosto de bandido e cabelos muito brancos; pendia flácido e encurvado, como o próprio salgueiro. Havia terror naquele jardim de silêncio sufocado. Janelas fechadas permaneciam cegas à cena; rastros de caracóis brilhavam prateados sobre as folhas maiores, nada se movia, exceto a sombra do homem. Ele balançava um pouco, para a frente e para trás, mas não havia vento. O anel de pedra em seu dedo cintilava ao sol, e em seu braço havia um nome tatuado: Francy. O cachorro levantou a cabeça para beber da fonte, e eu corri. Francy. Havia sido por ela que o homem se matara? Não sei.” (New Orleans, 1946)





on May 20th, 2011 at 9:47 am
De onde vc tirou este texto, mestre?
Eu li A Sangue frio, é genial, uma obra-prima do “novo jornalismo”. Gostei bastante. Vc indicaria outro livro desta tendência?
Sds, Lucas
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Grijó Reply:
May 20th, 2011 at 1:16 pm
“A Sangue Frio” tornou-se clássico, Lucas. Há um time de bons jornalistas que usaram a literatura como linguagem. Dentre eles, meu preferido é Norman Mailer, mas gosto muito dos textos da Lillian Ross e do Gay Talese – além, claro, do Capote e alguma coisa do Tom Wolfe (principalmente os textos dele sobre pintura).
Esse texto foi retirado de um pequeno artigo incluído nos “Ensaios”, que foram recentemente editados pela LeYa. Estou lendo-os. Até agora, um primor.
Abraço
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on May 20th, 2011 at 2:13 pm
Nossa!!! Incrível, espetacular! Ler isso foi como mergulhar em um passado distante, e por alguma razão desconhecida era como se eu mesmo estivesse olhando para o corpo do morto. Pude sentir o frio ao meu redor, mas também o sol, como em manhãs de primavera; e também pude ouvir os pássaros… foi como mágica!
Incrível!
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Grijó Reply:
May 20th, 2011 at 7:28 pm
Bons escritores nos proporcionam isso, Lucas. Aliás – acredito eu -, é a isso que se destinam.
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on May 22nd, 2011 at 2:18 am
sr.grijó,
faz tempo que devo comentário, aqui no ipsis literis…
texto piramidal…cinematograficamente poético…de fato, coloca-nos dentro da cena…com trilha sonora e coisa e tal…
abraçsonoros
ps.aguardo meu exemplar de estórias curtas…aliás, posso sugerir uma outra opção de envio, com trânsito em sampa…o que pensas?
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Grijó Reply:
May 22nd, 2011 at 9:37 am
Estou em falta com vc, meu caro Pituco. Creia-me: seu exemplar está aqui, guardado, e ainda esperando envio.
Qual a outra alternativa? SP? Diga.
Grande abraco.
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on Jun 22nd, 2011 at 9:47 pm
Ícone.
Coisa que Norman Mailer nem Tm Wolfe foram.
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on Apr 22nd, 2012 at 11:39 am
Belo texto.
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