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Antes tarde, Augusto!

Finalmente Augusto dos Anjos deu as caras – e já não era sem tempo. A lista de livros proposta – e imposta – pelo vestibular da Ufes, a universidade pública local, fez justiça, mesmo que tarde. Tudo bem, poderia ter sido de forma mais efetiva, com a seleção de vários poemas de sua lavra, mas, dentre tantos textos de qualidade inequívoca, Monólogo de Uma Sombra soa bem, é representativo – e espetacularmente bem escrito. É possível lê-lo, na íntegra, AQUI. Augusto dos Anjos e seu único livro, Eu, ficam para sempre.

Tenho a edição de seus escritos completos, vinda ao mundo em 1994, pela editora Nova Aguilar. Oitocentas e oitenta e três páginas, sendo 190 delas apenas de Fortuna Crítica. Toda a sua poesia está lá, além de suas crônicas e correspondência. É o livro definitivo, no qual se pode observar a erudição adicionada a sarcasmo, deboche, cientificismo, rigor formal, decadentismo e linguagem absolutamente única, sem paralelos na literatura ocidental. Sim, você leu certo. Augusto dos Anjos é relativizado para além dos muros domésticos. Se não escrevesse em língua de periferia, seria poeta reconhecido mundialmente.

O vestibular da Ufes resumiu-o, mas fez bem. Escolher um de seus poemas mais significativos para exigir leitura e análise vale muito mais que cobrar do aluno a leitura de toda a obra Eu e Outras Poesias – que não será lida – e, depois, como exercício de injustiça, banalizá-la com questões de exigência superficial. Seja muitíssimo bem-vindo, Augusto! essa meninada que lerá seus textos pela primeira vez agradece. Ou, pelo menos, eu o faço.

12 Comentários on “Antes tarde, Augusto!”

  1. #1 A.B.
    on Feb 9th, 2012 at 12:31 am

    Apesar de ser um consumidor – acima da média para os padrões nacionais – de literatura, sou um leigo quando o assunto é poesia, ou melhor, um virgem. Muita gente já me indicou Drummond para dar esse pontapé inicial. Quem vc me recomenda, Grijó?

    Lembro-me que vc deixou uma vez em sua aula a pergunta no ar da diferença entre poesia e poema e acabou não respondendo rsrs. Qual seria essa diferença?

    Abraço.

    Reply

    Grijó Reply:

    Drummond é excelente, Arthur.
    É mais que um pontapé inicial. Já é um golaço. a série de 3 livros dele, intitulada “Boitempo” é fabulosa. “A Rosa do Povo”, mais politizado, também. e Augusto dos Anjos, Gregório de Matos, Castro Alves, Pedro Kilkerry, Sousândrade e alguns poucos do século XX, dentre eles Ferreira Gullar e Roberto Piva.

    Mas há um número enorme de poetas estrangeiros que valem a pena ser lidos, e em várias épocas.
    W. Whitman, J. Donne, S. Heaney, W. Carlos Williams, S. Plath, Marianne Moore, W. Aunden, Wallace Stevens. Os simbolistas franceses, os românticos ingleses e alemães. Alguns italianos, como Petrarca e Aretino.
    E. claro, Dante e Shakespeare.
    Faltou gente, mas é um grande começo. E fim.

    Essa diferença é acadêmica. Poema é a estrutura em versos. Poesia é a essência, a entrelinha.
    Besteira que só interessa a vestibulares.

    Abraço.

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  2. #2 João Marcos Toledo Theodoro
    on Feb 9th, 2012 at 7:46 am

    Puta que pariu, o maior poeta da língua portuguesa! Sublime, o pai do meu Feio e do de todos! Ele come Machado de Assis e caga Drummond!

    Quando eu vi a lista de livros exigidos pela UFES, fiquei perplexo ante a presença de Augusto dos Anjos. Demorei para acreditar, e fiquei muito feliz.

    Li certa vez que ele fazia poemas de cabeça, recitando-os teatralmente no quintal da casa da irmã, no Rio de Janeiro. Ela o supunha louco, naturalmente. Genialidade e loucura andam juntas.

    Acho que ele merece um Nobel mesmo tendo escrito nesta língua de país pobre.

    Reply

  3. #3 Tálib
    on Feb 9th, 2012 at 1:47 pm

    Augusto dos Anjos não tem par….que poemas brailhantes. Entre os meus preferidos estão “A idéia”, “O morcego”, “A lágrima” e “Versos íntimos”. Não canso de ler e também de ouvir, pois consegui uma gravação de poemas de Augusto dos Anjos por Othon Bastos. Espetacular! Lógico – para um leigo no assunto, como eu!

    Reply

  4. #4 Tálib
    on Feb 9th, 2012 at 1:49 pm

    Esqueci Grijó: sou fã de Manuel Bandeira também…vi que não foi citado como um dos grandes do século XX. Foi esquecimento ou por que realmente não é considerado grande entre os muitos?

    Reply

    Grijó Reply:

    Esquecimento, claro.
    Um lapso, felizmente corrigível.

    Reply

  5. #5 George
    on Feb 9th, 2012 at 6:39 pm

    Fala Grijó, faz tempo que não dou as caras por aqui, heehehe. Estou de volta e vamos que vamos! Dois pitacos:
    1- É sempre bom ver ser cobrado no Vestibular (em qualquer um) poemas, ao invés de tirinhas ou letras de música;
    2- A edição que tenho da obra completa de Augusto dos Anjos é da Martins fontes, que, infelizmente, não possui essa fortuna crítica. Andei tanto tempo com o livros na bolsa, abrindo-o em qualquer página sem lê-lo na ordem, que ele ficou até bem desgastado.

    Abraços

    Reply

    Grijó Reply:

    O vest da Ufes, felizmente, nas questões discursivas, evita esse recurso. Quem gosta disso é o Enem.
    A fortuna crítica é fundamental para os estudiosos, George. Sinceramente? Creio que ler da forma como vc leu é mais válido.

    Abraço.

    Reply

  6. #6 Caucasiano
    on Feb 11th, 2012 at 7:15 pm

    Fala, grijó!

    Faz tem po que não apreço por estas paragens! e que surpresa boa saber que o meu querido poeta AA vai cair no vestibular.
    Felizes dos alunos que poderão ter contato com o maior poeta brasileiro do século XX, e olhe que o século só estava começando…
    Vc o considera um maldito? Da estirpe de um Qorpo sAnto?

    Abração, professor.

    Reply

  7. #7 pituco
    on Feb 13th, 2012 at 3:47 pm

    sr.grijó,

    augusto dos anjos e ferreira gullar…pra mim imbatíveis nessa senda poética brasileira…concordas ou não???

    abraçsons

    Reply

    Grijó Reply:

    Gullar é danado mesmo, Pituco. Dos bons.
    Gosto de Roberto Piva também. E de Mario Faustino. Drummond e Cabral são primeira linha.

    Abraço.

    Reply

  8. #8 ademar amancio
    on Apr 3rd, 2012 at 11:25 am

    É estranho que ele usava uns termos completamente anti-poético pra se fazer poesia.

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