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Nelson, Albee, Bethencourt

O húngaro João Bethencourt dirigiu a peça Tem um Psicanalista em Nossa Cama, a cuja montagem assisti, no início dos 80, no RJ. É dessas comédias de costumes, bem sacanas e bem boladas, com texto ligeiro e sacadas que levam os intelectuais ao quase-gozo. Fiquei sabendo, via meu amigo Matheus Mattos, que um raro filme do dramaturgo Bethencourt vem, finalmente, à tona. O título, Fragmentos de Dois Escritores, é um curta-metragem no qual o quotidiano de dois dos melhores teatrólogos de nosso tempo é exposto. Edward Albee e Nelson Rodrigues são apresentados da forma menos solene e tão cheia de grandeza quanto seus trabalhos.

Edward Albee é famoso por ter escrito Quem tem Medo de Virginia Woolf?, drama conjugal que se tornou filme e fez um brutal sucesso em 1966, com Liz Taylor e seu marido, Richard Burton. Mas é claro que resumi-lo a um trabalho é, para dizer o mínimo, injusto. O musical Breakfast at Tiffany’s, baseado no romance de Truman Capote, é outro grande marco de sua carreira. Sem contar que deu nova vida a uma das mais intensas histórias de amor da literatura: Lolita, de Nabokov.

Albee observava as pessoas com o olhar de quem lhes é cúmplice. É possível constatar isso no curta-metragem. O tom meio marrom, a cor um tanto opaca do início do dia nova-iorquino, indica a visão que o dramaturgo tem do espaço e das pessoas. Está tranquilo, vivendo num país em que é possível criar teatro e literatura e viver disso. É respeitado por seu talento. E quanto a Nelson Rodrigues? Nelson é trágico mesmo quando parece ser cômico. Mesmo quando diz ser um péssimo administrador de suas finanças ou quando, com a voz embargada, fala de seu desejo infante de se tornar repórter-polícia.

Albee escreve em sua casa de praia. É elegante, frequenta a universidade como palestrante, vive de sua arte de forma confortável. Nelson, em sua tragédia brasileira, quer poder viver de seus direitos autorais. Seu público – Paulo Coelho, antes da fama estratosférica, dá as caras – é outro: a informalidade linguística, a iconoclastia típica da juventude carioca da época. Nelson é a metonímia: ser artista, num país como o Brasil, é enfrentar dificuldades.

João Bethencourt morreu há 6 anos. Nelson Rodrigues foi-se em 1980, aos 68 anos. Edward Albee continua vivo e, segundo consta, em atividade. Neste anos de 2012, Nelson, se vivo, completaria 100 anos. Lá pelas tantas, no documentário, ele diz não se interessar pela posteridade – e afirma, categoricamente trágico: o morto esquecido é o único que realmente descansa em paz. Mas quem vai esquecer você, Nelson?

9 Comentários on “Nelson, Albee, Bethencourt”

  1. #1 A.B.
    on Feb 13th, 2012 at 1:56 pm

    Que curta sensacional, intercalando o cotidiano do Albee e do Rodrigues, pena que eu tenho que pular a parte do Albee por não enteder inglês rs.

    Nelson Rodrigues era excelente em tudo que fazia, seja lá cronista, teatrólogo ou romancista. Não canso de afirmar que para mim ele foi o melhor autor brasileiro do século XX.

    Poder ver essa obra-prima de curta-metragem sobre ele é um presente antecipado de aniversário e natal.

    Além de ser fera em todos esses segmentos, possui as melhores frases: ”Nem todas as mulheres gostam de apanhar… só as normais”, frase digna do anjo pornográfico que era o Nelson, sempre agregando o trágico, o humor e um pouco de erotismo.

    Vi ele autografando o livro ”O Óbvio Ululante”, expressão que eu li semana passada que surgiu quando o Nelson estava passeando com um amigo – que morava há anos no Rio – pelo aterro do Flamengo, foi então que o seu amigo avistou uma coisa que ele já mais tinha visto em tantos anos habitando no Rio: o bondinho do Pão de Açúcar. Assim surgiu o ”óbvio ululante”.

    Abraço, Grijó.

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    Grijó Reply:

    Há muito tempo considero Nelson Rodrigues – principalmente o romancista e o cronista – um dos maiores escritores brasileiros de todas as épocas. No século XX, para mim, ele e Graciliano são os grandes.

    As normais gostam de apanhar. As neuróticas reagem.
    Esse é o Nelson. O fraseur, possivelmente o maior de todos. Grande.
    Abraço, camarada.

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  2. #2 Caucasiano
    on Feb 23rd, 2012 at 5:34 pm

    Grijó, vou te falar, o que curto muito neste blog é a versatilidade. Vc fala de tudo, e isso é bem legal, mesmo que seus comentaristas não concordem muito.
    Parabéns, prof.

    E Nelson rodrigues, como diria Telmo Martino, pode ser fatal como um provérbio.

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    Grijó Reply:

    Valeu, Caucasiano.
    Continuamos na briga.

    Reply

  3. #3 Adriana
    on Feb 24th, 2012 at 1:33 pm

    Adoro esta do Albee: The most profound indication of social malignancy … no sense of humor. None of the monoliths could take a joke.

    Quem tem medo de Virginia Woolf?
    Este blog surpreende neste oceano de besteirol que é a net.

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    Grijó Reply:

    Agradeço, Adriana.

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  4. #4 Carol Loppes
    on Feb 26th, 2012 at 10:19 am

    Li O Casamento, de Nelson Rodrigues.
    Adorei. Quero ler as crônicas agora.

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  5. #5 Riad
    on Mar 14th, 2012 at 11:06 pm

    Grijó: Quer uma sugestão? Leia O Anjo Pornográficodo Ruy Castro. A vida do Nelson Rodrigues é rodriguiana (juro!), e tem reviravoltas rocambolescas.

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    Grijó Reply:

    Riad, não só li como colaborei com ela.

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