Sempre afirmei que os comentários às postagens são o maior patrimônio de um blogue. O Ipsis Litteris orgulha-se de possuir um número de “comentaristas” de primeira linha, gente que sabe o que fala e por que fala, e, na maioria dos casos, discorda do que este blogueiro propõe. Não raro, aprendo com a dialética, com a contrariedade. Puxam-me as orelhas, com frequência. Às vezes bato o pé. Numa recente postagem sobre “a melhor parceria da MPB”, o tema da Bossa Nova – muitas vezes abordado neste espaço – veio mais uma vez à tona. Independentemente de preferências, terminei citando o nome de Francisco Tenório Jr., pianista de primeiríssima a quem o destino pregou uma peça. A mais terrível delas.
É claro que o uso da palavra “destino” é eufemismo. Tenório Jr. foi assassinado em Buenos Aires, sob a ditadura argentina, e com a conivência de brasileiros. Em 1976, durante a madrugada, ele – que estava na capital argentina acompanhando Vinícius & Toquinho, numa turnê – saiu do hotel para comprar remédio e comer um sanduíche. Nunca mais voltou e seu corpo está desaparecido. Tenório Jr. saiu do hotel às vésperas do golpe militar que derrubaria Isabelita Perón. Pode ter sido confundido, por conta da barba e do ar de austera compenetração, com um “pensador político”, daqueles que dão trabalho a militares truculentos para quem o debate não é uma constante. Pode ter sido confundido com um terrorista, um montonero. Tudo é possível.
O que não deveria ser possível: a complacência, por parte das autoridades brasileiras, com o fato. Vinícius de Moraes, ex-diplomata e amigo (e ex-sogro) do embaixador brasileiro na Argentina, moveu mundos para encontrá-lo. Em vão. Segundo um ex-membro do Serviço de inteligência da Marinha argentina – Claudio Vallejos -, Tenório Jr. foi torturado a morto com um tiro na cabeça, mesmo tenho mostrado passaporte e carteira do sindicato dos músicos brasileiros, sem contar que implorou para que ligassem para o hotel onde estava hospedado – lá teriam a confirmação de quem ele era. Mais detalhes neste livro soberbo. Tenório Jr. deixou mulher e 4 filhos (o quinto chegaria um mês depois). Tinha 33 anos.

Este disco acima ilustrado é o único exemplar solo desta fera do piano. E digo sem medo de errar: é um dos melhores discos de samba-jazz já produzidos. É claro que o termo samba-jazz gera polêmica. Para muitos, é “apenas” música instrumental. Para outros, Bossa Nova. Não importa, de fato. O que conta é que Embalo reúne um escrete de músicos de indescritível quilate: entre outros, estão Milton Banana (bateria), Paulo Moura (sax alto), J. T. Meirelles e Hector Costita (sax tenor), Edson Maciel e Raul de Souza (trombones). Quer mais? Ouça o disco, então, e não vou nem recomendar esta ou aquela faixa porque todas as onze são perfeitas.
O disco Embalo veio ao mundo em 1964 e, 21 anos antes, Tenório Jr. fez o mesmo. Música especialíssima, feita para ouvidos adultos e exigentes, principalmente para aqueles ouvidos acostumados à batida do hard bop e do samba bem marcado, ligeiro e percussivo. Se você que está lendo não for surdo, adolescente, ou não desgostar de música, este disco vai causar excelente impressão. AQUI você ouve algumas de suas músicas. Aproveite!







on Feb 24th, 2012 at 2:38 pm
Ótimo texto, Grijó! Fiquei muito instigado em saber mais sobre Tenório Jr. É um assunto que ainda tem que nos indignar, contando os tantos artifícios transvestidos em lei criados no Brasil para esquecer-se sumariamente e perdoar de bom coração os crimes da ditadura. Se a então “esquerda” nacional, a que outrora alardeava ter sido torturada pelos militares, faz questão de colocar panos quentes sobre os tantos que morreram aqui, imagine se moverá uma palha em prol dos que morreram em outros tantos bastiões da ditadura latino-americana.
Se me permite um adendo: não sou muito bom com frases negativas, mas me parece que uma frase do texto teria mais sentido se fosse:
” Se você que está lendo não for surdo, adolescente, ou não des-gostar de música, este disco vai causar excelente impressão.”
Forte abraço.
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Grijó Reply:
February 24th, 2012 at 6:33 pm
Sem dúvidas, Charlles. Comi moscas.
Valeu. Está devidamente corrigido. E seus adendos são sempre permitidos.
Abraço.
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on Feb 24th, 2012 at 4:19 pm
Ipsis Litteris sempre ampliando o meu conhecimento no seguimento jazz, samba-jazz, bossa nova, etc. Quando eu conheci o blogue eu estava sendo apresentado ainda à esse universo, só conhecia Tom, Vinicius e Ivan Lins – como todo garoto de 18 anos – hoje com 20 acredito que o meu conhecimento está acima da média dos rapazes de 20 anos. Confesso que estou maravilhado, música de primeiríssima qualidade. Valeu, Grijó.
E o que seria da história de um país latino-americano sem uma ditadura, não é mesmo?
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Grijó Reply:
February 24th, 2012 at 9:00 pm
Seria melhor que elas, as ditaduras, nunca tivessem existido, Arthur.
Abraço.
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A.B. Reply:
February 24th, 2012 at 9:56 pm
Sem dúvida. Acho inclusive o ditador o mais covarde dos políticos.
Eu quis me referia à história, que seria muito mais pobre sem Pinochet, Porfirio Diaz, os militares brasileiros e por aí vai.
Abraço.
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on Feb 24th, 2012 at 9:54 pm
Um pianista de mão cheia, do nível de Sérgio Mendes, Luiz Eça e Tom Jobim.
Pena que se foi de maneira trágica. Uma bela homenagem, mestre Grijó!
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on Feb 24th, 2012 at 10:01 pm
Este é um grande disco, gosto demais.
No livro A Onda que se ergueu no Mar, do R. Castro, ele conta com detalhes o que aconteceu. Fala, inclusive, isso que vc falou, das omissões de ambas as embaixadas, etc., etc.
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Grijó Reply:
February 25th, 2012 at 12:17 am
Conheço o livro, Leandro. O trabalho do Ruy Castro é, hoje, um dos mais importantes no que se refere à restauração memorial musical do país. É nesse mesmo artigo que ele traz à baila a tese de que a música instrumental brasileira foi vítima de um complô das gravadoras que resolveram privilegiar a canção (cantada) em detrimento do músico instrumentista.
Muito interessante a tese. E concordo com ela.
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on Feb 25th, 2012 at 5:48 am
Baixei!!
Não é meu tipo de música, mas sei que tem valor. Samba estilizado rsrsrsrs
bjoks
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on Feb 28th, 2012 at 3:33 pm
Encantador. Sem palavras.
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