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Sacanagem vende bem mesmo? (Sobre Kitty e um naco de Lori Lamby)

Relendo um artigo da jornalista Fernanda Scalzo, da Folha de SP, sobre o fato de Hilda Hilst dedicar-se à pornografia, deparei-me com isto:

“O mercado editorial deseja isso [pornografia] freneticamente (…) o país é bandalho, adora isso (…) o mercado não gosta de escritor que pensa (…) o que o editor quer mesmo é escritor mediano, medíocre.”

Pois é. Os editores classificaram O Caderno Rosa de Lori Lamby, uma de suas obras mais celebradas por seus específicos leitores, como horroroso. Alguns o chamaram lixo. Muita gente concorda com o que os editores afirmaram, principalmente porque seus olhos detiveram-se ao aspecto moral, deixando de lado a grande sacada do texto: a metalinguagem destinada à crítica ao mercado editorial. A narrativa, marcada por excessos na aventura sexual de uma menina de 8 anos, deu o que falar. E Hilda Hilst fez razoável sucesso.

O vestibular da UFES, com o qual trabalho há muitos anos, obriga alguns alunos à leitura. Estabelece, segundo seus critérios, uma lista de livros e exige que o candidato tenha um mínimo – esse é o problema – de conhecimento sobre ela. Mínimo mesmo, mas isso é outra história. Sobre um dos livros da lista, Kitty aos 22: divertimento, de Reinaldo Santos Neves, eu já escrevi, neste blogue. O romance fala de uma jovem comum, burguesa, fútil, preocupada com aparências, razoavelmente inteligente, com mãe bebum, pai ausente  e padrasto lascivo. Seus amigos são seu espelho – e justamente por isso são amigos. Kitty, aos 22, é uma digna representante de sua faixa etária.

A trama, claro, pretende-se verossímil. Reinaldo é o mais hábil escritor brasileiro do momento, mas foi castigado por “críticos” que, movidos por um moralismo um tanto canhestro (há outro tipo de moralismo?), insistiram que a obra ultrapassara os limites do bom senso linguístico. Uma piada. Assim como a trama, a linguagem também se pretende verossímil, de modo que caracterizar uma garotinha burguesa e fútil expressando-se como uma beata virgem soaria, no mínimo, patético.

Reinaldo penou. Pena ainda. E se seu livro foi considerado “pornográfico”, ele sequer colheu os louros dessa lascívia verbal. No caso dele, a “sacanagem” emperrou o processo, deu-lhe uma rasteira, condenou-o. Mas tenho uma suspeita – que se traduz como esperança – de que as aventuras de Kitty, mesmo censuradas por hipócritas leitores, sejam lidas no escurinho, sob a luz fraca das velas, na surdina, durante a noite que se cala.

Reinaldo Santos Neves é um escritor que pensa. Segundo Hilda Hilst, esse já é um grande motivo para o mercado abominá-lo. Mas escreve sacanagens – o que faz esse mesmo mercado simpatizar com sua produção. Resta saber, nesse paradoxo, qual de suas condições leva vantagem.

17 Comentários on “Sacanagem vende bem mesmo? (Sobre Kitty e um naco de Lori Lamby)”

  1. #1 A.B.
    on Mar 1st, 2012 at 1:29 am

    Acho forçado dizer que o mercado editorial exige a pornografia. Creio que a propaganda e o ”nível da fama” do autor são fatores mais preponderantes na venda. Só olhar para o caso de “As Esganadas” do Jô Soares e o livro que conta a trajetória do Boni. Jô Soares que não tem costume de ir em programas alheios, foi em todos para divulgar o seu livro – sendo entrevistado até mesmo em seu próprio programa. O que tá trazendo resultado, pois o livro está vendendo muito bem.

    E temos livros muito bons, que também pode ser encaixados nesse paradoxo do Reinaldo – nessa mescla de pornografia e uma cabeça pensante. “A Polaquinha” do Trevisan e “Asfalto Selvagem” do Rodrigues são bons exemplos.

    Abraço, Grijó.

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    Grijó Reply:

    “Asfalto Selvagem”, Arthur, é um tanto moralista, embora seja um grande texto. Nelson rodrigues, para mim, é o maior romancista brasileiro do século XX. Não chega a ser pornográfico, no sentido de escrever termos que enrubesçam os mais desavisados. “A Polaquinha”, no entanto, é visto – por muitos – como pornográfico. Ambos grandes livros.

    E, sim, concordo com vc. Venda de livros, no Brasil – e no resto do mundo também -, associa-se à fama do autor, embora não seja o único motivo.
    Abraço.

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  2. #2 Chrystiano Roberto
    on Mar 1st, 2012 at 2:17 am

    A sacanagem, é óbvio, está na cabeça de quem consome o texto, de quem lê e quer ver as bandalheiras de que fala a autora. Já li uns livros de Hilda Hilst e achei todos eles muito sacais. Este autor aí, Reinaldo, é bom mesmo? O que vc recomenda? Vende on line?

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  3. #3 Tálib
    on Mar 1st, 2012 at 10:46 am

    Se vc bem se lembra da minha época de Sacré-Coeur, ” A Polaquinha” – de Dalton Trevisan – causou uma revolta geral contra você. Como se sacanagem não houvesse desde que o mundo é mundo.
    A linha tênue que separa a baixaria da boa leitura não é ultrapassada por poucos, os mais hábeis, obviamente.
    Vejo vc falar tanto do Reinaldo Santos Neves que gostaria de alguma dica sua de livro dele para ler, Grijó.
    Ultimamente tenho ido atrás do Vampiro de Curitiba de Trvisan, mas não encontrei para comprá-lo, pois está esgotado no fornecedor. Assim, gostaria de uma sugestão sua.
    Um abraço e obrigado antecipadamente.

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    Grijó Reply:

    Claro que me lembro, Tálib. Escrevi sobre isso. Veja:

    http://ipsislitteris.opsblog.org/2010/06/14/dalton-aos-85-a-polaquinha-e-os-inquestionaveis-moralismos/

    Reinaldo é um autor de grandes livros. Recomendo “A Longa História”, “A Ceia Dominicana” e “Sueli: romance confesso”. Ótimos.
    Abraço.

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  4. #4 Bento
    on Mar 1st, 2012 at 2:45 pm

    Agora me diz, vc acha que Henry Miller vendeu horrores porque escrevia bem pra cacete ou porque escrevia sacanagens? E Bukowski?
    Acho que é uma combinação das duas coisas né?

    Grijó, confesso que tentei ler um livro do Reinaldo, isso quando eu fazia pré-vest, lá nos anos 90. Não me lembro muito bem o título,mas era uma história em forma de poesias. Achei enjoado, mas lembro que vc deu uma aula até legal sobre ele. Mas ficou aquela imagem de livro chato, e não sei se ela desaparecerá…rsrsrsrs

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    Grijó Reply:

    Creio que vc respondeu, Bento. Henry Miller escrevia bem e falava umas sacanagens bem estilizadas. Bukowski eu acho chato, forçado, underground demais para meu gosto. E não acho que escreva bem.

    O livro do Reinaldo ao qual vc se refere é “Muito Soneto por Nada”, do qual gosto muitíssimo. Bem armado, irônico, sagaz, veloz. Enfim, é gosto mesmo.

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  5. #5 Tálib
    on Mar 1st, 2012 at 3:13 pm

    Obrigado, meu amigo!!!!!

    Reply

  6. #6 charlles campos
    on Mar 2nd, 2012 at 3:33 pm

    Não li nenhum dos autores citados no post, Grijó. A ortodoxia escolar matou para mim, de forma definitiva, a literatura de vestibular. Acho que ser indicado como livro de vestibular não ajuda em nada a obra de uma escritor que se pretenda sério. Como infelizmente os poucos escritores profissionais que existem no Brasil dependem cada vez mais de conchavos com o Estado, a imposição de que seu público compulsório chegue a ele através da necessidade é uma aberração sem tamanho. Faz-me lembrar um triste desabafo de Charles Kiefer de que precisava desesperadamente de leitores, e daquela escritora numa feira de livros que se julgou injustiçada por ninguém a ler, a ponto de ser presa pela polícia. Nesse ponto que eu admiro muitíssimo Paulo Coelho: ele impôs ser escritor e trabalhou arduamente para isso. Coelho pensou como um escritor norte-americano e europeu pensam: não há nenhum obstáculo que o impeça de tornar seu intento realidade, nem a fome, nem a prostituição, o roubo, o assassinato. Veja as biografia de Paul Auster, Philip Roth, Kerouac, etc. Agora o escritor brasileiro trema diante a hipótese de que terá que passar fome.

    Mas o caso aí é o romance erótico, não? Esse gênero é o mais difícil de todos, cara; não é para qualquer um. Eu adoro romances eróticos, e sei que só funcionam aqueles que são sublimes. O mediano ou o talentoso-sem-brilho, que podem fazer sucesso entre os romances políticos ou outras categorias, na seara do romance erótico caem violentamente por terra. Daí ter tanto A Casa dos Budas Ditosos, e tão poucos Lolitas. Os maiores romances eróticos que já li foram Lolita e O Teatro de Sabbath. Espetaculares!! Não apenas os melhores romances eróticos, mas os melhores livros que me caíram em mãos. Colocaria aí, numa sub-espécie, o Arco-Ìris da Gravidade.

    Nunca gostei de Miller. Aquilo lá é pornografia, não romance erótico. Miller errou feio ao não saber da regra básica de todo grande romance erótico, que é NÃO FALAR SOBRE SEXO. Usa-se o sexo como subterfúgio para explorar os problemas da alma, as velhas questões da filosofia, as antigas e perpétuas incompatibilidades com as regras do mundo.

    Daí que, ao ler aí em cima sobre as aventuras eróticas de uma garotinha de 8 anos, me desanimei. Não há ninguém em terra tupiniquim que possa escrever algo tão limítrofe usando-se um verdadeiro gênio. Não cabe o humor aí, o que seria uma derivação astuta_ como acontece com aqueles que, incapazes da grandeza, criaram algo novo: o erotismo picaresco, casos como Martin Amis e Bukowski. A única ideia de sucesso nesse tema que me vem à cabeça é de alguns bons quadrinhos italianos.

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    Grijó Reply:

    O vestibular ajuda, sim, Charlles, se houver boa condução do processo. Se houver honestidade na hora de analisar a obra e se, acima de tudo, houver competência por parte das pessoas envolvidas – alunos e professores. Quando o vest impõe uma lista de leitura obrigatória, o objetivo, segundo se diz, é avaliar o estudante ao fim do Ensino Médio, assim como se avaliam conceitos matemáticos, químicos, biológicos, históricos etc. Essa é a teoria. O que sempre questiono é o porquê de alguns autores (e obras) constarem da lista, como se fossem representativos. Não entendo por que uma escritora como Patrícia Melo (“O Matador”) aparece numa lista que avalia estudantes/leitores, mas esse é outro papo, e que merece uma postagem ácida.

    Seu conceito de erotismo é muito próximo do conceito de Barthes, para quem o erotismo só funciona em textos “sublimes”, cuja sugestão (como em “Lolita”) é muito mais poderosa do que o vernáculo duro e direto (como nos Budas de Ubaldo). Não discordo. Gosto do Miller porque conseguiu aquele equilíbrio entre a palavra direta e a metáfora bem construída. E antecipou-se à pós-modernidade criando textos afeitos à ironia, um dos pilares da literatura atual.

    Gostaria de saber sua opiniào sobre este conto: http://ipsislitteris.opsblog.org/2007/09/29/a-entrevista-do-livro-todas-elas-agora-inedito/ Quando puder, naturalmente. Abraço.

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    charlles campos Reply:

    Vou ler com bastante atenção e depois te falo, Grijó.

    Comigo essas teorias didáticas não resultaram felizes, e nem o mínimo efetivamente eficazes. E, como já fui professor por muitos anos, tanto na escola pública quanto na da elite, digo que minha experiência no outro lado da questão também não foram das melhores. Penso que para a maioria dos alunos isso serve para espantá-los de vez para fora dos prazeres da leitura. Se não houvesse políticas de favorecimentos na escolha desses livros, talvez a coisa funcionasse; se a razão fosse uma sincera qualidade, sem apegos à pátria, regiões ou alvos midiáticos. Por que, em vez de Patricia Melo, não escolhem Roberto Bolaño, ou Garcia Márquez, ou Dickens (imaginou a contextualidade a ser trabalhada com a obra de Dickens?), ou as obras mais acessíveis de Dostoiévski e Tolsói? É assim que se constrói grandes leitores e…grandes escritores. Ninguém vai querer ser escritor depois de ler Patricia Melo, mas pense nas possibilidades levantadas com Dostô. Nosso ensino de literatura no Brasil sempre subestimou os alunos, avaliando-os por baixo. Isso não acontece na Europa, na França, p. ex, em que um adolescente de 17 anos já tem contato com tudo de maior já escrito no mundo. Mas isso é um outro assunto… Quando surgir seu post, talvez conversemos mais.

    Forte abraço.

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  7. #7 Reinaldo Santos Neves
    on Mar 2nd, 2012 at 8:51 pm

    Super Grijó, muito grato por mais essa defesa de Kitty, que recebo como um grande presente, apesar daquele “mais hábil”, que bem poderia ter sido suavizado em “um dos mais hábeis”. É, e você sabe, o máximo que minha auto-estima aceita sem maior constrangimento.

    Abraço,

    Reinaldo.

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    Tálib Reply:

    Prezado Reinaldo,
    Não o conheço pessoalmente, mas Grijó só te elogia e, como confio no bom gosto do professor, acabo de comprar pela Livraria Cultura “A Ceia Dominicana” e “A Longa HIstória”.
    Um abraço
    Tálib
    OBS: parabésn abntecipado pelos grandes elogios, certamente merecidos

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  8. #8 Moralina 10 mg
    on Mar 5th, 2012 at 9:27 pm

    Vende. E bem.

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  9. #9 marcelo coelho
    on Mar 8th, 2012 at 3:19 pm

    “Resta saber, nesse paradoxo, qual de suas condições leva vantagem.”

    esta observação final no seu texto me fez pensar sobre a origem do gênero musical ‘Ballet’. este gênero trouxe para dentro da chamada ‘música culta’ (adorno) os kan-kans apresentados nos moulin rouge de paris. é sabido que o kan-kan não apenas pela exibia as pernas das dançarinas, mas também permitia observar, ainda que muito rapidamente, a completa nudez que se escondia por baixo dos grandes saiotes.

    o ballet enquanto música e dança tornou-se um gênero muito expressivo, importante, mas sobretudo inspirador em diversos sentidos, principalmente os sentidos tão discutidos por freud. desta forma, não é sem razão que a ‘intelligêntsia’ francesa não aceitou tão facilmente um ballet russo escrito por um jovem de vinte e sete anos e coreografado por outro jovem também disposto a não mais criar voadoras e espacates para o deleite deles e delas. mas apesar da grande mudança dos paradigmas do ballet, tenho a impressão de que estes dois jovens de grande talento, stravinsky e nijinsky, não desprezaram o deleite da fruição sexual durante uma apreciação artística, mas o conduziu a outros patamares, capazes de serem apreciados para quem ainda está na flor da idade, como eles na época.

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    Grijó Reply:

    Stravinsky e o bom Vaslav estabeleceram, de certa forma, as bases da modernidade na música e no ballet, penso eu. Mas nada que impedisse, posto que houvesse seriedade no que faziam e pensavam, o prazer (tesão) visual e auditivo. Creio que o equilíbrio entre as propostas fosse o melhor caminho, e as necessidades de cada observador poderiam ser saciadas.

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