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As pérolas de Mário

Meu pai, morto em 1995, gostava de música – e muito. Apreciava as big bands – em especial aquelas chefiadas por Glenn Miller e Benny Goodman -, a música de Lamartine Babo e de Noel Rosa, a flauta de Altamiro Carrilho, o clarinete de Abel Ferreira e o trompete de Jack Teagarden. Na seara vocal masculina, nada (até onde me lembro) o impressionava mais que as interpretações de Mário Reis, o cantor aristocrata que tanto percorria o mundo marginal do samba (o morro) quanto frequentava o mais economicamente segregador de todos os clubes brasileiros, o ipanemense Country Club.

Mário Reis não tinha o vozeirão operístico de um Francisco Alves ou de um Orlando Silva. Penso que, mesmo que o tivesse, certamente não o usaria. Seu estilo, menos agressivo e mais contido, consistia num andamento mais ligeiro, preciso, fonte inspiradora de cantores que sussurram em vez de gritar. Uma novidade para a época. Mário Reis gravou pouca coisa, e essa “escassez” fonográfica colaborou para que seus discos sejam disputados a tapa em sebos de vinil. E, claro, como se fosse um ícone quase religioso, Mário é venerado por um seletíssimo grupo de apreciadores do samba. Um de seus grandes discos é este:

Mantenho esse disco como um ovo de ouro. Era o preferido de meu pai, e, possivelmente, embora ele nunca me tenha confirmado a hipótese, porque composições de Lamartine e de Noel compunham a coletânea. De Lamartine, Rasguei minha Fantasia e A Tua Vida é Um Segredo. De Noel, Mulato Samba. Mas, claro, há mais coisa, e de qualidade tamanha: composições de Tom Jobim, de Ary Barroso e de Sinhô transformam esse disco num clássico. Se você duvida, ouça O Grande Amor, de Tom & Vinícius e você entenderá quem influenciou João Gilberto.

Uma outra pérola desse disco de pérolas é O Que Vale a Nota Sem O Carinho Da Mulher, de Sinhô, o sam bista que, para alguns, não tem rivais no gênero. Menos vigorosa – mas ainda assim um bom samba – é Deus Nos Livre Do Castigo Das Mulheres, do mesmo autor. E, já que menciono grandes autores, Ary Barroso, seu amigo de faculdade, compôs Vamos Deixar de Intimidade e a marchinha carnavalesca Yayá Boneca. Disco para gente grande se divertir e ir além: ouvir um dos grandes cantores que o samba brasileiro (existe outro?) produziu. Uma pena que não seja tão popular.

 

15 Comentários on “As pérolas de Mário”

  1. #1 Cirlei
    on Apr 15th, 2012 at 3:42 pm

    Não curto samba, mas que tal ele cantando Bossanova? Pelo jeito, já que influenciou João gilberto…

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  2. #2 ademar amancio
    on Apr 15th, 2012 at 3:55 pm

    Seu pai tinha bom gosto.na cidade em que vivo,interior de sp,todos os pais e todos os filhos,adoram sujar o ouvido com música sertaneja e só e ponto e fim.

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  3. #3 Cassio
    on Apr 15th, 2012 at 6:03 pm

    Já ouviu Mário reis cantando A Banda, do Chico? Deu outro tom.

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    Grijó Reply:

    Não conheço a gravação, Cassio, mas sei que ele gravou. Conheço a gravação de “Bolsa de Amores”, também do Chico. Ótima.

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  4. #4 Francisco campos
    on Apr 15th, 2012 at 11:51 pm

    Já tinha ouvido falar dele, mas não conhecia este disco. Baixarei já!

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  5. #5 Claudio Finamore
    on Apr 16th, 2012 at 8:07 am

    Já cogitou falar de uns caras mais populares, Grijó? rsrsrs…Lamartine Babo, Mário Reis, gente meio obscura, né? Ou então meu desconhecimento está lá nas alturas, rsrs

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    Grijó Reply:

    Acho que a segunda opção é a mais provável, amigo Claudio. Lamartine, por exemplo, é conhecidíssimo.

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    A.B. Reply:

    Caso vc goste de futebol, Lamartine compôs os hinos dos clubes mais tradicionais do Rio de Janeiro: Flamengo, Botafogo, Fluminense, Bangu, Vasco e América – do qual ele era torcedor.

    Dizem que escreveu todos em um dia… aí eu já não sei.

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    Grijó Reply:

    Gosto bastante de futebol, Arthur. E escrevi sobre Lamartine e os hinos dos clubes. inclusive sobre o fato de o velho compositor ter plagiado outra canção, para compor o hino do seu querido América. É só checar:

    http://ipsislitteris.opsblog.org/2009/11/30/lamartine-o-genio-plagiario/

    Abraço.

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    A.B. Reply:

    E não é que ele plagiou mesmo? Dessa eu não sabia

    Mas isso não tira o brilho do hino, que é belíssimo, um dos mais bonitos que eu já escutei.

    Segue uma versão do hino cantada pelo Tim Maia – do qual sou fã. Ficou boa a versão, vale a pena conferir.

    http://www.youtube.com/watch?v=DklhrrNeDyg&feature=related

  6. #6 Cassio
    on Apr 16th, 2012 at 3:04 pm

    Toma aí, então. http://www.youtube.com/watch?v=6uo4KjC5FIY Abs

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    Grijó Reply:

    Não conhecia. Valeu, Cassio.

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  7. #7 ademar amancio
    on Apr 19th, 2012 at 12:29 pm

    O joão gilberto,querendo ser pioneiro do canto cool no Brasil,jura com os pés na santa cruz,que não sofreu influência de mário reis,então tá.

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  8. #8 Jordelino
    on May 3rd, 2012 at 6:24 pm

    Apenas uma pequena correção. Jack Teagarden era um tremendo trombonista.

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    Grijó Reply:

    Tem toda a razão, Jordelino.
    E eu ainda pensando em J. J. Johnson e Quentin Jackson. Jack era um grande trombonista – e não trompetista, como eu escrevi.

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