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Mais um livro sobre o assunto

Terminada a leitura de Tropicália – Um Caldeirão Cultural. Diferentemente da maioria dos outros livros sobre o movimento – se é que chegou a ser, de fato, um movimento -, este, escrito por Getúlio Mac Cord, traz uma novidade: vários depoimentos, em forma de trechos bem organizados, da rapaziada que conviveu diretamente com esse veio contracultural. Escrevi sobre a Tropicália quando o Ipsis ainda era um bebê de berço, com menos de 1 mês de vida. Interessa-me, e muito, o assunto.

Getúlio Mac Cord é engenheiro e radialista – o que chega a ser um certo alívio. Distante, portanto, dos vícios jornalísticos, criou, para o que queria apresentar, uma estrutura distinta daquela a que nos acostumamos, quando o assunto é biografar. A primeira parte do livro, com pouco mais de 120 páginas, destina-se a localizar o leitor – principalmente aquele com menos de 50 anos – no universo contracultural e político da época. Aliás, o panorama político, fundamental para a compreensão do movimento(?), é expresso e grafia itálica. Didatismo puro. Ok, o autor não tem o charme literário de um Ruy Castro, por exemplo, mas dá conta do recado com eficiência.

A segunda parte é que dá o tom. Com depoimentos de José Ramos Tinhorão, Capinam, Rogério Duarte, Tom Zé, José Celso Martinez Corrêa, Sérgio Dias & Arnaldo Baptista, Rogério Duprat, Jorge Mautner – e, claro, Caetano Veloso e Gilberto Gil, entre outros, desnuda-se não somente a proposta tropicalista, mas seu desenvolvimento e desdobramentos. Entende-se melhor quando os próprios envolvidos no processo resolvem abrir o verbo.

A terceira parte – intitulada Temperos imprescindíveis: Informações Adicionais – revela as ligações do Tropicalismo com Cacrinha, Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, com a antropofagia oswaldiana com o dodecafonismo, com a semiótica. Há muito, muito mais. É um trabalho de fôlego, bem temperado, informativo e claro. Ao final, como um bônus àqueles que apreciam a música popular, uma discografia básica daquilo que se relaciona com o assunto, seja algo atual ou de quase 50 anos atrás.

Lamentei apenas o autor deixar de lado, quando se fala em festivais contraculturais no começo dos anos 70, o mitológico Festival de Guarapari, em 1971, talvez a mais ambiciosa tentativa de se criar um Woodstock brasileiro. Se deu certo ou não, o papo é outro. Mas houve, nele, muito de Tropicalismo. Enfim, nem tudo é perfeito. Ainda assim vale a leitura? Claro. Olha a rapaziada aí:

12 Comentários on “Mais um livro sobre o assunto”

  1. #1 A.B.
    on May 12th, 2012 at 7:09 pm

    A muito tempo estou para ler algum livro que trata do Tropicalismo – assunto que também é de meu interesse. Mais alguma dica sobre o tema, além deste escrito por Getúlio?

    P.S.: vi que o Glauber Rocha foi citado, vc gosta do trabalho deixado pelo cineasta?

    Grande abraço.

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    Grijó Reply:

    Citei, no link em negrito, alguns livros sobre o tema, Arthur. São bem escritos, esclarecedores. Há também “O Balanço da Bossa”, de Augusto de Campos, “Marginália”, de Mariza Alves de Lima, e “Tropicália – Uma Revolução na Cultura Brasileira”, organizado por Carlos Basualdo. Escrevi sobre esses dois últimos, aqui:

    http://ipsislitteris.opsblog.org/2007/09/26/dois-livros-marginais/

    Abraço.

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    Grijó Reply:

    Ah, quanto a Glauber, bem, é preciso reconhecer-lhe a importância, independentemente de se gostar ou não de seus filmes. é respeitado por grandes cineastas, como Buñuel, Altman, Godard, e foi, possivelmente, a ponta-de-lança para um cinema que se desenvolveu tendo o Brasil como tema. Não gosto de todos os seus filmes, mas nao tenho dúvidas quanto a seu talento.

    Reply

  2. #2 ML
    on May 12th, 2012 at 8:57 pm

    Não sabia muito sobre o Festival de Guarapari. A Wikipédia desce a lenha no festival. Ela está correta?

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    Grijó Reply:

    A Wikipédia resumiu a coisa, claro. Mas não mentiu.
    Só que há muito mais coisa a ser dita. Estou trabalhando justamente nisso, num projeto para um livro futuro.

    Reply

    ML Reply:

    Separe um exemplar.

    .

    Reply

    Oswaldo Oquendo Reply:

    Foi um fiascão.

    Reply

  3. #3 ademar amancio
    on May 14th, 2012 at 2:08 pm

    Apesar do caetano sempre dizer que a bossa nova foi superior à tropicália,e foi mesmo em termos de harmonia,eu acho que literariamente a tropicália foi mais consistente,e conceitualmente também,pois a estética tropicalista representa o melhor e o pior do Brasil,muito bem embalada.

    Reply

  4. #4 Jô Carlos
    on May 14th, 2012 at 10:25 pm

    Nem tanto “fiascão” como vc disse Osvaldo. O Festival foi desorganizado, vá lá. Mas teve o mérito de tentar reunir figuras como Ângela Maria e A bolha. Não é qualquer um que consegue isso, principalmente numa época em que o que contava era o desbunde.

    Reply

  5. #5 Angelita
    on May 15th, 2012 at 12:46 pm

    Me lembro com gosto de tuas aulas sobre o assunto Tropicalismo.
    Aprendi a gostar mais de MPB com tuas dicas.
    Obrigada!

    Angelita

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  6. #6 Harley
    on May 16th, 2012 at 7:01 am

    Quando o movimento fez 40 anos, em 2007/2008, li uma matéria na Bravo que dizia que os tropicalistas não tiveram uma participação política muito efetiva, e que eram odiados pela direita e pela esquerda. Sempre achei que Caetano, Gil, Bethania, Gal e outros tivessem uma postura política e que caetano e Gil tivessem sido exilados (pela ditadura) por conta disso. Mas parece que nao…

    Reply

    Grijó Reply:

    Harley, Bethânia não aderiu ao movimento. Preferiu manter-se à parte.
    Quanto ao que vc chama de “participação política”, é claro que os tropicalistas a tiveram. Não houve uma participação partidária, aliada ao PC, por exemplo, ou a qualquer outro segmento de esquerda. Foi mais uma coisa de atitude, ao mesmo tempo em que se valorizou o Brasil de forma crítica, antropofágica (de deglutição do elemento estrangeiro, transformando-o), colorida, antenada com a contemporaneidade.

    A prisão de Caetano deu-se muito mais por irresponsabilidade do próprio compositor, que resolveu desacatar os militares, do que pelo fato de sua música ser “engajada” ou “de protesto”. Não posso dizer que eram “odiados” pela esquerda e pela direita. Criticados, sim.

    O exílio foi uma consequência. Antes de partirem para Londres, foram confinados na Bahia, sem direito a gravar ou se expor ao público. Que verdadeiro artista suporta isso?

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