Pela primeira vez, após mais de 900 textos deste blogue, substituo uma postagem por outra. Motivo sério: uma homenagem, mesmo que breve, ao grande mexicano Carlos Fuentes, autor de pelo menos 3 livros absolutamente antológicos, que figurariam em qualquer lista de grandes obras do século XX: as ficções A Morte de Artemio Cruz e Aura e o magnífico ensaio Miguel de Cervantes ou A Crítica da Leitura. Fuentes me foi apresentado de forma emblemática: quando eu e Aura, sua noveleta citada, fizemos 25 anos. Sim, nascemos no mesmo mês de abril e 1962. Se existe o verdadeiro amor instantâneo, ele brotou diante de mim ao ler esse primor narrativo em segunda pessoa.

Carlos Fuentes esvazia a rica literatura mexicana, estrelada por outros enormíssimos nomes como Juan José Arreola, Octavio Paz, Juan Rulfo, Salvador Elizondo e Laura Esquivel – só citando romancistas e contistas. Na América Latina, só encontra rivais nos argentinos, mas, como tais comparações são, geralmente, inúteis, resumo-me a agradecer a Carlos Fuentes pela quantidade e – principalmente – pela qualidade engenhosa de sua literatura. Errei ao dizer que esvazia somente a literatura mexicana. As boas letras, não importam suas nacionalidades, perderam muito. Aí vai trecho de Aura:
Consultas el reloj, después de fumar dos cigarrillos, recostado en la cama. De pie, te pones el saco y te pasas el peine por el cabello. Empujas la puerta y tratas de recordar el camino que recorriste al subir. Quisieras dejar la puerta abierta, para que la luz del quinqué te guié: es imposible, porque los resortes la cierran. Podrías entretenerte columpiando esa puerta. Podrías tomar el quinqué y descender con el. Renuncias porque ya sabes que esta casa siempre se encuentra a oscuras. Te obligaras a conocerla y reconocerla por el tacto. Avanzas con cautela, como un ciego, con los brazos extendidos, rozando la pared, y es tu hombro lo que, inadvertidamente, aprieta el contacto de la luz eléctrica. Te detienes, guiñando, en el centre iluminado de ese largo pasillo desnudo. Al fondo, el pasamanos y la escalera de caracol. Desciendes contando los peldaños: otra costumbre inmediata que te habrá impuesto la casa de la señora Llorente. Bajas contando y das un paso atrás cuando encuentres los ojos rosados del conejo que en seguida te da la espalda y sale saltando (…)”
p.s. Se alguém se interessar, AQUI está o texto em pdf.

José Donoso




on May 16th, 2012 at 1:05 am
Fui apresentada à obra do autor pelo meu professor de História da América Latina. Grande escritor.
.
Reply
on May 16th, 2012 at 10:51 am
Nunca li nada deste escritor,ainda mais no original,quem dera.Grijó,a impressão que eu tenho é que vc passou tua vida inteira,lendo livros,ouvindo discos e vendo filmes,sobrou tempo pra dormir?
Reply
Grijó Reply:
May 16th, 2012 at 11:21 am
Engano seu, meu caro. Leio menos livros do que eu gostaria de ler. Na música, não sou eclético. Ao contrário: limito-me a alguns gêneros e não vou (nem quero ir) além disso, de modo que muita gente me chama de “limitado” (o que é verdade). Quanto ao cinema, vejo muitos filmes em casa – mas não é o bastante.
Durmo pouco, de fato.
Reply
on May 17th, 2012 at 11:02 am
Dentre os mexicanos, qual teu preferido? Já leste a Rosario Castellanos?
Reply
Grijó Reply:
May 17th, 2012 at 12:55 pm
Conheço, claro, embora só tenha lido um livro dela, “El Eterno Femenino: Farsa”, uma coletânea com textos de louvação social da mulher e muitos outros de um lirismo poderoso. Muito bom, e nada panfletário.
Arreolla, Fuentes, Rulfo e Paz são meus preferidos.
Reply
on May 18th, 2012 at 4:29 am
Tb cheguei a conhecer este autor através de meus professores de História da América. Aqui na Unicamp ele é adorado. Grijó, vc manja José Donoso? é outro do boom da literatura hispânica que ganhou o mundo.
Reply
Grijó Reply:
May 18th, 2012 at 9:08 pm
“O Obsceno Pássaro da Noite” é um dos grandes livros da tal geração do “boom” a que vc se referiu. Donoso é um craque. Em breve escreverei sobre ele.
Reply