Dalton Trevisan, o único, ganhou o prêmio Camões, honraria suprema para autores de língua portuguesa, concedido pela Direção-Geral dos Livros e das Bibliotecas de Portugal. Merecidíssimo. Possivelmente o melhor contista brasileiro em 50 anos. Reduz Fonseca, Rubião e Nelson Rodrigues a coadjuvantes. É um artífice da linguagem, um exímio contador de pequeníssimas histórias que revelam nossas vilanias, abusos, sofreguidões, medos. Sou-lhe fã há muito, desde quando li A Trombeta do Anjo Vingador, no início dos 80. Fui em frente e admirei seu vampiro, sua polaquinha, seu pássaro de cinco asas, sua virgem louca sedenta de loucos beijos.
Dalton Trevisan é nosso Salinger, nosso Thomas Pynchon. Não pelo estilo, que muito difere dos norte-americanos, mas pela reclusão, pelo temperamento avesso aos holofotes e badalações. Nem idade tem para isso – alguns dirão. É verdade, mas, mesmo quando jovem, quando deu vida a seu vampiro curitibano, já, como sua própria criatura, era avesso à luz. Ironicamente, Dalton iluminava um aspirante a escritor – cujos olhos, fixos naquela prosa concisa e irônica, sem falar na violência erótica dos temas – que tentava imitá-lo em vão. Tento até hoje, e até hoje percebo a inutilidade da tentativa.
Dalton Trevisan é mantido a distância. A academia ignora-o, de certa forma. Nunca o vi habitando listas de vestibulares – exceto aqueles que, domésticos paranaenses, sentem-se na obrigação de tê-lo em seus quadros. Corre o risco de as novas gerações não lhe sentirem a falta – o que constitui uma daquelas imensas aberrações de que somente os brasileiros são capazes. Mas ainda há quem lhe beije a mão e retorne a seus textos com reverência e paixão. Eu sou um deles. Parabéns, Dalton!






on May 22nd, 2012 at 9:06 am
Só pra constar, amigo Grijó:
http://www.dglb.pt/sites/DGLB/Portugues/premios/Paginas/PremioDetalhe.aspx?PremioId=61
Sei que teu blog gosta de bons serviços.
Até.
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Grijó Reply:
May 22nd, 2012 at 5:24 pm
Valeu, Claudio.
Grande abraço.
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on May 22nd, 2012 at 1:12 pm
Infelizmente a academia ignora, notavelmente, ele e Nelson Rodrigues.
Curiosamente, fui dar uma checada no pequeno acervo de livros que minha família possui e vi dois livros do J. J. Veiga que tiveram a leitura pedida pelos professores da época ao meu irmão – início da década de 1980.
Li “Aquele Mundo de Vasabarros”, foi o meu primeiro contato com o realismo fantástico de qualidade. Um livro muito bem humorado e escrito. O realismo fantástico nunca me despertou o interesse, mas depois de ler José J. Veiga até que gostei da coisa.
Abraço, Grijó.
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Grijó Reply:
May 22nd, 2012 at 5:26 pm
José Jacinto é um grande canal para se chegar ao Realismo Fantástico, mesmo que esse gênero, no Brasil, seja tão pouco levado a sério. Gosto muito do Murilo Rubião também.
abraço, camarada.
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A.B. Reply:
May 22nd, 2012 at 8:15 pm
Quero muito ler “O ex-mágico” do Rubião, mas não encontrei um exemplar na bibilioteca da Ufes.
Vou fazer uma visita aos sebos para ver se encontro.
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on May 22nd, 2012 at 3:20 pm
Não conheço sua prosa,mas sua escolha pela não exposição,lhe confere uma aura inatingível,misteriosa,sei lá que termo usar,só sei que gosto desse tipo de comportamento.
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on May 22nd, 2012 at 4:14 pm
Lembro quando meu conterrâneo João Ubaldo ganhou o prêmio.
Dalton Trevisan também o merece.
Novelas nada exemplares é meu preferido, mas li poucos dele.
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on May 23rd, 2012 at 2:32 pm
Bonito texto.
Bonita homenagem.
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on May 25th, 2012 at 8:41 am
São poucas pessoas com quem converso na academia que conhecem Dalton, mesmo indiretamente. Já Nelson Rodrigues, não o dispenso- até porque li somente alguns continhos dele-, contrariando um pouquinho o amigo A.B., é bem badalado.
Outro dia fui na cinemateca da ufes e vi um “documentário” na estante a respeito de Dalton: fiquei perplexo! Quando fui assistir, era uma espécie de coletânea de artigos.
Abraços, Grijó.
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on May 25th, 2012 at 7:22 pm
Nelson rodrigues é badalado pela rede Globo e por Ruy Castro. A “academia” meio que o despreza. Acha-o vulgar e sem estilo. Pelo menos é o que dizem aqui, na UFRJ.
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Grijó Reply:
May 25th, 2012 at 7:33 pm
Sem estilo? Nelson é um estilista, Angelita. o problema é que muita gente, incluindo acadêmicos, só consideram estilo os floreios de Guimarães Rosa, os hermetismos de Osman Lins e a tal “secura” de Graciliano. Nelson, em sua linguagem quotidiana e seus personagens suburbanos, criou um estilo próprio, afeito ao jornalismo e à velocidade dos diálogos (algo que advém, claro, do teatro).
Estou falando da prosa, naturalmente.
No teatro, ele não tem rivais. é um revolucionário com estilo único.
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