Recebo um mail de um querido amigo, cujo conteúdo – do mail, não do amigo – versava sobre Miles Davis, nascido num dia 26 de maio, há 86 anos. Segundo ele, após ler um artigo sobre o músico norte-americano, o interesse pelo jazz pareceu-lhe quase uma obrigação. O artigo pode ser lido AQUI, e é bem interessante, além de bem escrito. Miles Davis é uma instituição dentro do jazz. Talvez seja o maior nome do gênero, mesmo não sendo considerado o melhor em seu instrumento: o trompete. Mas isso não interessa muito.

Meu querido amigo nunca se interessou por jazz; respeita-o, contudo. Seu interesse gravita entre o rock e o blues, adicionado a algo de folk e um naco de country. O jazz sempre lhe pareceu algo inacessível, distante, como se fosse “música para músicos” (expressão dele). Não discuto isso. Cada um admira o que quer. Mas eis que das profundezas do desinteresse, brota a curiosidade, e dela o pedido de que eu indicasse a ele alguns bons discos de Miles. Segundo suas palavras – do meu amigo, não de Miles -, “uma breve lista da qual se pudesse retirar o que há de essencial na sua música”. Não sei se é possível fazer uma breve lista dos discos desse grande artista, mas não deixo de tentar:
- Kind of Blue, 1959 (Columbia) – O grande disco do Jazz modal, a revolução econômica do som. A presença de Bill Evans, ao piano, e os sopros de Coltrane e Cannonball completam o cenário de um som absoluto. um dos grandes discos do jazz. Escrevi sobre isso há quase 5 anos.
- Steamin’ with The Miles Davis Quintet, 1956 (Prestige) – Dos quatro grandes discos gerundivos de Miles, feitos pelo selo Prestige em fins dos anos 50, este é o melhor. A sessão rítmica é das melhores do jazz em todos os tempos: Red Garland (piano), Paul Chambers (baixo) e P. Joe Jones (bateria). Coltrane e Miles completam o quinteto mitológico. As gravações de Salt Peanuts e Well, You Needn’t são antológicas.
- Someday My Prince Will Come, 1961 (Columbia) – Um dos grandes saxofonistas do jazz está presente neste discaço: Hank Mobley, com seu sopro musculoso e ágil. Miles, inspiradíssimo, faz a festa em Pfrancing, Old Folks e em Teo, o tema em homenagem ao produtor Teo Macero. Wynton Kelly, o grande pianista, está presente.
- Jazz at The Plaza – The Miles Davis Sextet, 1958 (Columbia) – O grande disco ao vivo de Miles. Escrevi sobre ele. Além do Kind of Blue, o único outro encontro entre o trompetista e Bill Evans, um dos maiores pianistas do jazz. As gravações de Oleo e My Funny Valentine parecem definitivas (ao menos ao vivo). Coltrane e Cannonball estão em cima dos cascos. Pouca coisa há de melhor.
- Bitches Brew, 1969 (Columbia) – Embora eu não curta o fusion, não dá para desprezar um disco como esse. Clássico, inovador, revolucionário. Muitos puristas o desprezam. O disco reuniu uma multidão em sua produção – e seu resultado foi satisfatório. Faixas longas, virtuosismo, técnica absoluta, na fusão entre rock e jazz. Destaque, além de Miles, para Wayne Shorter (sax tenor), Chick Korea (piano), Jack DeJohnette (bateria), Joe Zawinul (piano elétrico) e John McLaughlin (guitarra).
Eis a lista breve. Claro que, por ser breve, corre o risco de deixar de lado grandes momentos da música de Miles Davis. É natural que isso aconteça. Tenho certeza de que meu querido amigo, para quem enviei essa lista em quase segredo, não se importará de eu tê-la revelado. E quanto a Miles, bem, se vivo, estaria com 86 anos. Certamente, em atividade.





on May 26th, 2012 at 8:52 am
Uma lista mais representativa colocaria alguns dos álbuns sinfônicos com o Gil Evans, como Milesahead. Miles é muito amplo e fazer uma lista com apenas cinco títulos é a provocação das provocações. Não concebo uma lista sem Round About Midnight, Milestones e Tribute to Jack Johnson, e ainda Silent Way…
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Grijó Reply:
May 26th, 2012 at 9:08 am
Uma lista representativa nunca poderia ser breve, Charlles.
Mas, mesmo numa lista mais ampla – os 20 discos, por exemplo -, eu nao colocaria os álbuns sinfônicos. Mas certamente “In a Silent Way”, os discos ao vivo no Carnegie Hall, o Cellar Door e muito mais coisa.
Não chega a ser provocação – mas pode até funcionar como.
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charlles campos Reply:
May 26th, 2012 at 9:16 am
Não gosta dos álbuns com o Gil Evans?
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Grijó Reply:
May 26th, 2012 at 9:27 am
Gosto, mas não está entre os meus preferidos. O “Quiet Nights”, com aquela grande gravação de “Corcovado”, é excelente, mas não entra numa lista minha. Ainda prefiro os álbuns com quinteto e sexteto.
charlles campos Reply:
May 26th, 2012 at 9:28 am
Não vejo as caixas de cds como obras com personalidades formadas. São coletâneas matizadas pela exigência póstuma dos espólios de família ou outros interesses que desvirtuam, de certo modo, a unidade da coisa. Por isso, em uma lista, eu não colocaria boxs, que, aliás, nunca fazem parte da discografia oficial. O Cellar Door, por exemplo, é ótimo, mas, convenhamos, cansativo ouvir aquilo tudo, as várias repetições. Uma vez fiquei todo o dia por conta da audição deste box e saí, ao fim da tarde, com a cabeça latejando. Assim como até hoje só consegui ir até metade do box do Tribute to Jack Johnson, acontecendo o mesmo com a caixa de Bitches Brew.
charlles campos Reply:
May 26th, 2012 at 9:43 am
Um dos enigmas que encontro pelos blogs de jazz é justo esse desprezo ou indiferença pelos três álbuns antológicos do Miles com o Gil Evans. E o engraçado é que o fusion bebe muito dos esquemas orquestrais destes discos. São discos elegantes, cada um diferente e criativo à sua maneira, e cheios, carregados de adrenalina. E trazem uma qualidade que raras as vezes se vê tão bem explorada no universo do jazz: uma concisão onde cabe dizer tudo. Veja o exemplo da magnífica “Prayer (Oh Doctor Jesus)”, do Porgy and Bess, que em 4 minutos e 39 segundos enche a sala de uma explosão controlada de fúria musical, que se iguala em energia a “Spanish Key”. Chega-se a pular na poltrona. E “Will O`The Wisp”, em Sketches of Spain, não tem todo aquela inventividade formal que beira o minimalismo das composições de Shorter (como “Feio”, p. ex.)?
Grijó Reply:
May 26th, 2012 at 12:24 pm
Não desprezo os discos de Miles com Evans. Gil, naturalmente. Só não está entre meus preferidos. Inclusive, vou ouvir, agora, “Sketches of Spain”.
Grijó Reply:
May 26th, 2012 at 12:21 pm
Não coloco o “Cellar Door” na companhia dqueles sons pesados com que Miles resolveu “contaminar” o jazz (“Jack Johnson”, que tenho completo, por exemplo, ou o “Bitches Brew”). Miles sabia que as apresentações seriam gravadas e que iriam lançar discos independentes – inclusive um deles se chamaria “Miles & Jarrett at Cellar Door”, que tem uma impiedosa gravação de “It’s About That Time”. Na verdade, após a morte de Miles, e sob a supervisão de Jarrett, a coletânea de apresentações – na íntegra – foi lançada. Sobre cabeças que latejam, quase todos os discos da fase “fusion” dele me provocam isso. Por isso ainda prefiro os álbuns dos anos 50 e 60. E, claro, justiça seja feita, os discos com Parker que, infelizmente, por falta de tempo e espeço, não entraram na lista.
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on May 26th, 2012 at 11:19 am
Eu sempre acho que a pessoa pra ser fã de jazz,precisa ter ouvido absoluto,o meu deve ser relativo demais pra isso.
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Grijó Reply:
May 27th, 2012 at 9:49 am
Que nada, Ademar. é questão de gosto, de identificação. Gosto de jazz e meu ouvido não é absoluto.
A vantagem é a de que ele não é contaminado por Adele, BRock, sertanejo universitário, Justin Bieber e Los Hermanos.
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on May 26th, 2012 at 6:41 pm
Sou ruim de ouvido. Qual a diferença entre jazz e blues?
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Grijó Reply:
May 27th, 2012 at 9:47 am
Embora haja pontos comuns, Arthur, são gêneros distintos. Após sua pergunta, tentei buscar na web algum site no qual a explicação pudesse ser mais exata (daí a demora em responder). Encontrei este aqui:
http://www.ehow.com/about_5179965_difference-between-blues-jazz.html#page=0
Muito bom, didático, direto.
Abraço.
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on May 27th, 2012 at 9:41 am
Vi o documentário sobre Kind of Blue. Magnífico!
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on May 27th, 2012 at 2:36 pm
Excelente. Mais esclarecedor impossível.
Já é um bom começo para me aventurar nesse mundo, novo para mim, do jazz.
Valeu, Grijó.
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on May 28th, 2012 at 3:08 pm
Minha lista de 5: 1) Miles Smiles 2) Kind of blue 3) Miles & Coltrane 4) Blue Haze 5) Collector`s Items
Dá pra por mais uns 20? (risos)
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Grijó Reply:
May 28th, 2012 at 5:52 pm
Fique à vontade, Chrystiano.
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on May 28th, 2012 at 11:10 pm
Miles não era um trompetista virtuoso, claro. Mas isso só provou para todos na música que a genialidade artística não está ligada à técnica. De longe, Miles é um dos mais influentes nomes do Jazz, junto com o panteão jazzístico: Louis, Duke, Bird, entre outros.
É um dos meus compositores favoritos e adoro ouvir qualquer coisa de Miles, do clássico Kind Of Blue, ao maluco Bitches Brew; de Milestones ao Birth of Cool. Um revolucionário, quebrou paradigmas, reinventou o jazz mais de três vezes, lançou muitos dos grandes nomes do jazz: Coltrane, Mulligan, Zawinul, John Mclaughlin, e mais um monte que eu não me lembro aqui nesse instante.
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David Michel Reply:
May 29th, 2012 at 2:54 pm
Essa hisoria de ter “reinventado” o jazz 3 vezes é papo do Ruy Castro, que diz isso e não prova. O jazz modal, por exemplo, não é invenção do Miles, nem o cool jazz, que já tinha em Erroll Garner um expoente.
Miles Davis foi um grande arregimentador, soube retirar dos seus músicos o máximo possível de musicalidade e criatividade. Aproveitou-se disso e fez a fama.
Só. Não chega aos pés do Clifford Brown.
Alfredo José
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Grijó Reply:
May 29th, 2012 at 9:10 pm
Erroll Garner, no “Cool jazz”? Talvez John Lewis, Lennie Tristano.
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Lucas Quinamo Reply:
May 29th, 2012 at 9:21 pm
Se você desconsiderar que ele criou Bitchew Brew e Filles of Kilimanjaro, ignorar que Birth of the Cool introduziu à cena do jazz o Cool, que Kind of Blue é o mais influente album de Jazz e que ele inventou uma maneira nova de tocar Bebop, você pode dizer que ele não revolucionou o Jazz.
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Luiz Reply:
June 14th, 2012 at 7:44 pm
Lucas,
Sim e não. Não há Cool em absoluto em Birth of the Cool. A maior aporia entre os nomes de albuns de Jazz.
Saudações, Grijó.