Leon El-Iachar, ou Leon Eliachar, era egípcio, nascido no Cairo, embora se sentisse o mais brasileiro possível. Tinha a inteligência afiada e a linguagem refinada, afeita ao humor ligeiro e bem armado, também destinado a leitores inteligentes. Morreu há exatos 25 anos, assassinado, vítima de um marido ciumento cuja esposa resolvera experimentar o que aquele “cairoca” (segundo sua própria denominação) possuía de tão especial. Assim como o amigo Millôr Fernandes, Leon Eliachar tinha a capacidade de retirar do quotidiano o máximo de humor possível, sem deixá-lo banal ou superficial.
Leon Eliachar não se tornou celebridade. Nem foi da época em que a velocidade da informação colabora para a instantaneidade da fama. Seus livros merecem uma reedição luxuosa, com estudo introdutório e fortuna crítica – algo que o eternize porque o merecimento existe, mas tarda. 25 anos após sua morte, ninguém melhor que o próprio Leon para apresentar seu necrológio, sua forma de traduzir, com humor bem posto, como ele faz falta:
O meu quem faz sou eu, que não sou bobo. Detesto a pressa dos jornalistas que querem fechar a página do jornal de qualquer maneira e acabam enchendo o espaço com os lugares-comuns do sentimentalismo. Nada de “coitadinho era um bom rapaz” nem que “era tão moço”, porque há muito deixei de ser um bom rapaz e nem sou tão moço assim. Quero que o meu necrológio seja sincero, porque de nada me valerá a vaidade depois de eu morrer — a não ser a vaidade de estar morto. Fui mau filho, mas isso não quer dizer que meus pais fossem melhores filhos que eu se fosse eu o pai. Não fui mau marido e acredito que seja porque não tivesse chance de ser, vontade não me faltou. Nunca roubei, nunca menti: esses os meus piores defeitos. Minha grande qualidade era ter todos os outros defeitos. Fui egoísta toda vida, como todo mundo, mas nunca revelei nada a ninguém, como todo mundo. Passei a vida tentando fazer os outros rirem de si mesmos: é possível que agora riam de mim. Fui valente e fui covarde, só tive medo de mim mesmo o que prova a minha valentia. Nunca amei ao próximo como a mim mesmo, em compensação nunca ninguém me amou como eu mesmo. Tive milhões de complexos e venci-os todos, um por um, com exceção do complexo de morrer: esse morre comigo. Nunca dei nem tomei nada de ninguém, mas faço questão de deixar tudo o que não tenho para os que têm menos do que eu. Nunca cobicei a mulher do próximo: só a do afastado. Jamais entendi perfeitamente o que era o “bem” e o “mal”, embora a maioria das pessoas me achasse um homem de bem e este era o mal. Defendi a minha vida como pude, mas nunca arrisquei a vida para defendê-la. Nunca me preocupei com dinheiro, pois sempre tive pouco. Acreditei mais nos inimigos do que nos amigos, porque os amigos nem sempre se preocupam com a gente. Jamais tive um segredo, passei todos adiante Conquistei muitas mulheres, algumas com os olhos, outras com os lábios e outras com o braço. Tive pavor dos médicos, porque eles sempre descobrem as doenças que a gente nem sabia que tinha há tanto tempo. Me orgulho de ter vivido oitenta anos em apenas quarenta: finalmente me livrei dessa maldita insônia.”
AQUI você encontra vários de seus livros. Preços absurdamente baratos. Uma pena que o classifiquem como literatura estrangeira. E, pior: uma de suas classificações extrapola qualquer humor: O Homem ao Zero como auto-ajuda? Piada de mau gosto.





on May 29th, 2012 at 2:09 pm
Eu me lembro desse crime.
E li O homem ao zero, não é lá que tem a famosa frase “o homem solteiro é um infeliz. O homem casado são dois infelizes”?
Ótima.
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Grijó Reply:
May 29th, 2012 at 11:23 pm
Conheço a frase, Belmira, mas não me recordo se ela está neste livro.
Mas é, sem dúvidas, excelente.
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on May 29th, 2012 at 2:50 pm
Adorei o necrológio, rsrs
Nunca tinha ouvido falar dele. Sempre bom passar por aqui…
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Grijó Reply:
May 29th, 2012 at 11:23 pm
Disponha, Caroline.
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on May 29th, 2012 at 8:19 pm
Bom demais.
Excepcional o necrológio bem-humorado.
Abraço.
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on May 30th, 2012 at 8:55 am
Mais um que desconheço.minha cultura livresca não é lá essas coisas.Quanto ao necrológio,posso dizer que fugir do senso comum é sempre interessante,transformar defeito em qualidade é perigoso,e quanto ao seu remédio pra curar insônia,problema que tenho,eu dispenso.
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on May 30th, 2012 at 5:13 pm
Grijó, você acha esse texto algo além de mediano? Não me pareceu nada minimamente louvável.
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Grijó Reply:
May 30th, 2012 at 8:07 pm
É um humor reto, Toledo. Direto, sem aqueles subterfúgios intelectuais a que alguns humoristas tentaram se acostumar. Anos 70.
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