Se viva, Ana Cristina Cesar teria feito 60 anos hoje, dia 2 de junho. Fez parte de uma geração que teve Roberto Piva e Paulo Leminski como expoentes. Nunca fui fã de seus poemas, embora reconheça o talento da moça, a fluidez de seus versos, sua prosa poética confessional e seu vigor literário. Heloísa Buarque de Holanda, autora do quase clássico 26 Poetas Hoje, elogiava-lhe a escrita, enaltecia suas metáforas e sua capacidade de mesclar oralidade e erudição. Chamou-a de ícone, fê-la ombrear com Cacaso e Francisco Alvim. Bem, acho que houve exagero, mas isso pouco importa.

Li a coletânea A Teus Pés, que foi hit do vestibular público local, há alguns anos. Já tinha lido Inéditos e Dispersos, a outra coletânea que a Brasiliense trouxe ao mundo, no início dos 80. Há passagens que merecem menção; talvez aplausos, mas, no todo, o livro é irregular e, antes de ser algo que desperte a curiosidade, danifica-o. Alguém dirá – em defesa! – que os anos 70, pós-desbunde, ripismo, contracultura e rock & roll proporcionaram uma geração de poetas cujo direcionamento flertava com o engajamento político, e que Ana Cristina Cesar renegou isso de forma corajosa, voltando-se para a subjetividade, valorizando o sentimento, a pessoalidade. É verdade, mas isso não garante qualidade a seus textos.
A despeito disso, Ana Cristina Cesar tornou-se um símbolo. Em parte por seu talento, em parte por seu suicídio, em parte por sua postura literária, em que mesclava profundidade sentimental com delicada ironia e honestidade sem limites. Se o hermetismo de alguns textos chega a prejudicar a leitura, por outro lado estimula o leitor a conectar-se com o universo que ela criava e do qual parecia não querer sair. Os amigos, a feminilidade, as viagens, os relacionamentos, a vida em si: esses são seus temas preferidos e a eles ela se entregou. Fica um trecho de um poema no qual tudo se diz:
Tarde aprendi
bom mesmo
é dar a alma como lavada
É isso, Ana C.!





on Jun 2nd, 2012 at 11:48 pm
Excelente crônica Grijó, parabéns.
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Grijó Reply:
June 3rd, 2012 at 11:34 am
Valeu, meu caro. Vindo de vc é um elogio e tanto.
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on Jun 3rd, 2012 at 5:03 am
Concordo contigo. Leminski é o maior.
Meu poeta preferido (e conterrâneo).
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Grijó Reply:
June 3rd, 2012 at 11:34 am
Opa, Cleiton!
Eu não falei isso. Disse que ele é um expoente de uma geração, mas essa coisa de “maior” fica por sua conta.
Abraço.
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on Jun 4th, 2012 at 3:29 pm
Aqui na Ufes (de greve) tem um punhado de fãs dela.
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on Jun 4th, 2012 at 4:39 pm
Quanta bobagem!!!!!
Ana C. é a maior poeta que este país já teve. Suicidou-se porque não aguentou a mediocridade do Brasil.
Seu livro Luvas de Pelica é masterpiece, para constar em qq antologia de poetas contemporâneos de qq lugar do mundo.
E vem lo sr. dizer que sua literatura é irregular?
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Grijó Reply:
June 5th, 2012 at 1:30 am
Recomendo que vc (re)leia a postagem, Marcos.
Quanto ao suicídio dela, até onde se sabe, ela passava por um crise emocional séria, mas nada ligado a essa “mediocridade” que vc menciona.
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on Jun 5th, 2012 at 8:32 pm
Fica bonito o suicídio para um poeta incompatível com o mundo. Mas chega de poetas suicidas. Faço minhas as palavras de Neruda, que desde então, em épocas menos flácidas que a atual, pregava a necessidade de “poetas de ombros largos”, que digam a verdade ao poder e sejam exilados corajosos da mediocridade reinante. Chega de Maiakóvski, Plath, Ana Cristina, e mais Brodsky, Wislawa Szymborska e Drummond.
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on Jun 9th, 2012 at 9:36 pm
Vc viu? fica fora uns tempos e morrem Ray Bradbury e Ivan Lessa. Vai ter de homenagear atrasado.
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