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Pais, Filhos, Música (crônica publicada em A Gazeta, em 17/07/2012)

A pedidos – de quem? -, aí vai minha última crônica em A Gazeta. Quem quiser ler a publicação original, é só buscar AQUI.

Creio que muitos leitores desta crônica sejam usuários do Facebook. Eu também sou. Aliás, por isso, fui “marcado” numa foto em que uma amável ex-aluna posava entre discos dos Beatles, Tom Jobim, Paco de Lucia, Elvis Presley. Usufruindo da ótima companhia, ela legendou a foto com referências a seu pai, que certamente participou (eu diria decisivamente) de sua formação musical. Muitos chamam isso de educação – e eu concordo. Outros dizem que apresentar aos filhos a boa música é uma substancial prova de amor. Concordo também.

Lembro-me de meu pai ouvindo discos nos quais a orquestra de Glenn Miller elevava os metais às alturas, assim como, em outras ocasiões, esse mesmo pai deliciava-se ao som de Mário Reis, de Lamartine Babo e de Noel Rosa. Sou grato a ele, embora, em minha época adolescente, não tivesse a dimensão da importância musical dos senhores citados. Comentei, numa recente crônica, que o respeito pelos livros e pela leitura tem início no ambiente familiar. O mesmo acontece com a música, com o cinema, com a arte em geral. Ensinar valores morais aos filhos tem a mesma valia de apresentar a eles alternativas musicais, literárias, cinematográficas etc. Há quem discorde, afirmando que é muito mais importante saber portar-se à mesa do que conhecer o celestial som produzido por Beethoven. É evidente que a definição de “boa música” – termo que usei no início desta crônica – pode ser considerado por muita gente como algo subjetivo. É uma boa e ampla discussão, que, infelizmente, não cabe aqui.

Tenho comentado – e levo a sério esses meus comentários, embora muitos pensem o contrário – sobre a opção da indústria cultural pelo público adolescente/jovem. Talvez o termo “indústria cultural”, que se refere a algo mais aterrador do que se possa, aqui, transcrever, seja exagerado. Mas chego a afirmar, correndo poucos riscos de erro, que a carência do público adulto no que se refere a boas opções culturais aumenta a cada dia. Caminha-se a passos apressadíssimos para o conforto da mediocrização, já que parcela da clientela jovem não chega a ser exigente no que se refere ao entretenimento. E é justamente esse cliente, tão desprovido de vontade própria e de poder de discernimento, que dá as cartas no mercado.

Ele comanda as efeemes, as publicações literárias, os programas de tevê, as produções cinematográficas, os eventos musicais. Para eles o mundo é feito e refeito, de acordo com suas necessidades. E em que momento há a intervenção dos pais? Não uma intervenção truculenta, claro, mas um questionamento sobre o que o filho anda consumindo em termos artísticos e culturais, por exemplo. Que contribuição pais podem oferecer a seu rebento e, mais ainda: esse rebento está disposto a ouvir?

A relação de confiança entre pais e filhos é o fundamento da educação. As dicas sobre honestidade, lealdade, respeito e solidariedade que os pais dirigem aos filhos são – ou deveriam ser – consumidas por eles como leis que, se corrompidas, implicarão consequências desastrosas. As noções básicas sobre responsabilidade e cumprimento das regras são compreendidas porque existe confiança entre aquele que emite tais noções e aquele que as ouve. Sim, estou falando o óbvio. Mas o que me causa estranhamento é que a tal relação de confiança parece não ter muito efeito quando o assunto toma outras direções. Um exemplo? Ouço muitos jovens afirmarem que a música ouvida por seus pais tem qualidade duvidosa justamente por ter sido produzida há algumas décadas. Ou seja, é velha como um jardim babilônico e, por isso, não pode ser coisa boa. Há controvérsias, mas há, naturalmente, a possibilidade de esses jovens estarem certos. Estatisticamente, erram. Os números provam o contrário, mas quem se interessa? É provável que a ex-aluna, citada lá no primeiro parágrafo, entenda o que vem a ser a colaboração familiar. Eu entendi numa outra época. Temos sorte eu e ela.”

14 Comentários on “Pais, Filhos, Música (crônica publicada em A Gazeta, em 17/07/2012)”

  1. #1 Harley
    on Jul 22nd, 2012 at 9:19 pm

    Boa sacada.
    Mas e quanto aos pais que não possuem valores razoáveis capazes de educar a filharada?

    Reply

    Grijó Reply:

    Sofrerão, possivelmente, as consequências disso. E geralmente desastrosas.

    Reply

  2. #2 Luiza Thereza Silva
    on Jul 23rd, 2012 at 12:44 am

    Concordo com o que voce disse, os pais possuem grande influencia nos valores, tanto mmiusicais quanto comportamentais dos filhos. Mas acredito tambem que, em algum momento da vida, os proprios jovens buscam seus proprios gostos e maneiras.
    Foi graças à minha mae que conheci o trabalho de Chico Buarque, Caetano Veloso e de Almir Sater, por exemplo. Mas foi por minha iniciativa (e um pouco de influencia sua) que passei a gostar de Musica Classica. Hoje sempre que posso vou a um concerto (o ultimo foi da cameratta do SESI no especial Dia do Rock). Se dependesse do meu pai, eu so escutaria o que eu chamo de “musica de corno bebado”, mas enfim.
    O mesmo vale para o comportamento. Com o passar dos anos diferenciamos melhor atitudes que achamos legais, e a incorporamos a nossa maneira de ser, das nao tao legais assim, essas nos, ao menos, evitamos.
    É uma construção continua.
    Acho que foi Jean-Paul Sartre que disse, e concordo com ele, “nossas escolhas são direcionadas por aquilo que nos aparenta ser o bem”.

    Abraços.

    Reply

    Grijó Reply:

    Em outras palavras, Luiza: os valores não são transmitidos o tempo todo, e vêm de todas as direções.
    A questão reside em sabermos filtrar o que vale a pena e o que não vale.
    Para isso necessitamos de educação, cuja base é familiar.

    Obrigado pela menção a minha pessoa.
    Abraço, querida.

    Reply

  3. #3 Gustavo Santos
    on Jul 23rd, 2012 at 8:46 pm

    Concordo. E creio que a escola seja também muito importante, simplesmente pelo tempo em que as pessoas passam, obrigatoriamente, nela. Na verdade, no aspecto cultural, penso que é até mais relevante, visto que tem muito mais condição de informar e dar alternativas que os pais. Afinal, não é de se esperar que todo núcleo familiar possua um expert em literatura, em história, em arte etc., pelo contrário. A escola ensina (e tem condições específicas para) muita coisa e penso que está até aquém do que deveria, em termos de mostrar alternativas, com a exceção de alguns ótimos professores que acabam “salvando” muitas pessoas.

    O que eu acho absurdo são algumas incongruências, que eu considero quase loucura. Se reclamei que chega a faltar conteúdo cultural, às vezes chega a sobrar: colocam-se crianças de sétima série do ensino fundamental para lerem Dom Casmurro (como ocorreu comigo). É um absurdo! Criança não sabe o que é ciúmes, o que é paranoia, o que é amor, o que é humor, sabe nada. Mesmo uma criança prodígio, excepcional, não possui desenvolvimento emocional suficiente para compreender tal livro, ainda que vença as dificuldades (para a idade) da linguagem. Por que não começar pelos contos? Também os considero inapropriados para a idade, mas menos mal.

    Há um problema de planejamento, inteligência e até bom senso. Como falei antes, a sorte é que há alguns grandes professores que “salvam”, no sentido mais dramático do termo.

    Obs.: esses grandes professores, como é o caso do Grijó, chegam a estimular até a parte musical, instigando os alunos a conhecerem coisas novas, inclusive a monumental, mas desprezada, música clássica, o que não é sua obrigação! Eu acho ESSENCIAL que, no mínimo, os adolescentes tenham algum contato com Bach, Mozart, Beethoven e quejandos. Será que a música deveria voltar de algum modo, na aula de arte, ou sei la, pelo menos audições?

    Reply

    Grijó Reply:

    Agradeço a vc também a menção a meu nome, Gustavo.
    E quanto ao que vc falou, sobre a leitura de textos machadianos, dê uma checada nesta postagem, quando puder:

    http://ipsislitteris.opsblog.org/2008/06/07/machado-et-les-enfants/

    E digo a vc, sem qualquer desmerecimento a meu trabalho ou à categoria profissional a que pertenço: professores não ensinam. Acho que estimulam, despertam o aluno para um determinado segmento. a partir daí a coisa é com ele (o aluno).

    Abraço.

    Reply

  4. #4 Luiza Thereza Silva
    on Jul 23rd, 2012 at 9:03 pm

    Acho que a base pode ser familiar, mas aos poucos podemos perceber que os valores ensinados podem nao ser sempre bons para nos. Vou dar um exemplo aqui de casa: meus pais e eu sempre estamos passando por “perrengues” financeiros, cresci vendo meu pai gastando o que nao tinha e minha mae controlando cada centavo que recebe. Me lembro que quando começei a receber mesada, gastava tudo em um dia ou dois, o resto do mes eu passava pedindo dinheiro, ou seja, me baseava totalmente no meu pai. Com o passar dos anos, ao ver o que eu podia fazer com minha propria mesada, passei a me controlar mais, nao so vendo o que minha mãe passava, mas por ver que a maneira que ele agia era errado, e por mais “legal” que fosse, nao condizia mais com o que eu queria pra mim.
    Enfim, acredito que mesmo quem possui uma base familiar precaria, pode se tornar uma pessoa melhor do que muita gente com familia bem estruturada.

    Abraços.

    Reply

    Grijó Reply:

    Claro que essa “precariedade” a que vc se referiu é pontuada pela questão financeira somente, Luiza. Há valores que independem disso.

    Reply

  5. #5 Clever Oliveira
    on Jul 23rd, 2012 at 9:04 pm

    Bom texto. Arguto e simples ao mesmo tempo.
    Sem ser repetitivo, o que é uma vantagem. Congratulações.

    Reply

  6. #6 pituco
    on Jul 25th, 2012 at 3:21 am

    sr.grijó,

    concordo ipsis literis contigo…a escola começa em casa…e o ser humano, veio das cavernas e criou a metrópolis…a tendência é sempre progredir, imagino eu…e nunca regredir…senão estaríamos ainda correndo atrás da caça e comendo o bicho vivo…

    música é entretenimento…diversão…mas, como qualquer arte é transformadora…daí, pra se ouvir música é preciso um mínimo de informação (isso no meu entender, claro)…distinguir uma conga de um violino…um piano de um trompete…e por aí vai…e isso deveria se aprender na escola…(sou desse tempo…)…

    agora, falo como profissional da área…nos discos dos ‘pais’…digamos assim…além da canção, há a produção…aquela flauta que se ouve ali, não caiu do céu…alguém sentou o bumbum e escreveu na partitura um contracanto inspirado pra acrescentar naquele arranjo…o camarada que toca a bateria, teve horas de estudos, dedicação, pra fazer com que o som chegasse bem aos nossos ouvidos…o engenheiro de som junto com o produtor musical ficaram horas no estúdio procurando a mixagem ideal para aquele tipo de música…

    …resumindo, quando se ouve os discos dos ‘pais’, ouve-se a obra e não apenas o artista, o cantor, o solista….sente-se o som e toda essa energia ao longo do trabalho…

    bom, acho que digredi…mas, tanto os discos dos ‘pais’ quanto dos ‘avós’ ou dos ‘filhos e netos’ se tiverem essa ‘energia na arte’…então pouco ou nada importa a época…

    é isso aí…
    abrsonoros e saudosos

    Reply

    Grijó Reply:

    Dia desses, conversando com um profissional de comunicação – que gerencia um site importante, ligado a um jornal local -, fui convidado a participar de um grupo de blogueiros. Durante papo, que mais parecia um ensaio de negociação, perguntei-lhe se poderia migrar os comentários deste blogue para outro sítio. Ele me questionou se isso era rigorosamente necessário. Assegurei a ele que nada – nada mesmo – é tão fundamental ao Ipsis do que os comentários dos meus poucos e fidelíssimos leitores.
    É fato, amigo Pituco. Após ler um comentário como o seu, o que dizer mais?

    Grande abraço e obrigado.

    Reply

  7. #7 Géssica
    on Jul 25th, 2012 at 2:42 pm

    Quando o assunto em pauta é a formação musical, leio sempre sobre o público adolescente e jovem – os maiores de 30 que ouvem músicas para os de 20, como certa vez disse Grijó: tem problemas!. A questão é que formação já remete a algo que deve ser construído, formado, entende-se portanto que desde criança, aprendendo a discernir os instrumentos, gostar de cada um. Nunca pensei a respeito até chegar em nossa família o pequeno Alexandre, para quem me recusei a comprar DVD’s como Patati Patata, Galinha Pintadinha e uma série de outros em que se ouve apenas muito barulho, letras repetitivas e quase imbecis. Foi quando me deparei com um problema: o que é que essa criança vai ouvir? Já tinha visto um CD de Vinicius de Moraes, algumas composições avulsas de Toquinho,entre outras coisas boas,mas não encontrei nada com animação, apenas audio. A salvação foi um DVD do grupo infantil Palavra Cantada, bacana demais, contudo, receio que por falta de investimento dessa “industria cultural”, não foram feitos muitos trabalhos. Está aí um problema que muitos pais conscientes devem enfrentar em casa, quem não estiver muito animado em escarafunchar em todo canto pra encontrar migalhas de boa produção infantil se rende aos barulhos de galinhas insuportáveis.

    Reply

  8. #8 Géssica
    on Jul 28th, 2012 at 1:33 pm

    Obrigada, Grijó

    Alexandre já conhece algumsa músicas e também adora!!

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