Acompanho com tristeza e indignação – mas nunca surpresa – mais uma das investidas moralistas dos babacas que não sossegam. Dalton Trevisan, um dos mais importantes escritores da atualidade, em quaisquer línguas, é, de novo, vítima da infâmia daqueles que tentam, de todas as formas, cercear a expressão, limitá-la, usando para isso a argumentação retrógrada de que a arte, em especial a literatura, não pode abordar temas como sexo, crimes e drogas – como se tais elementos não fossem presentes na crua realidade que vivemos.
O Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE), em reunião realizada no dia 3 de setembro, ano corrente, retirou da prova de seleção do Colégio de Aplicação COLUNI, da UFV – a tão aclamada Universidade Federal de Viçosa -, o livro Violetas e Pavões, publicado em 2009. A ação moralista partiu de professores e de pais de alunos, que se dizem preocupados com o teor dos textos que os filhos são obrigados a ler. Seria risível se não fosse abominável. Prefiro evitar pensar que nesse mafuá reacionário esteja inserido um professor de literatura. Isso pioraria ainda mais a situação.
Eu e Dalton passamos por problema semelhante – mas não em proporções tão desgraçadamente terríveis. Não vou repetir a história, mas, se houver alguém interessado, é só clicar AQUI. Parece que o escritor curitibano incita a fantasmagoria mais obscura – aquela que existe dentro daqueles que preferem punir a avaliar ou, quando se dão o trabalho de passar os olhos no texto, fazem-no com os dentes cerrados, odiosos, prontos para o ataque. Dalton Trevisan é o Júlio Ribeiro de A Carne; o Rubem Fonseca de Feliz Ano Novo. Cito apenas os domésticos, mas alguém quer uma lista de grandes criadores perseguidos pela censura hidrófoba?
Fiz coro no abaixo-assinado. Assinei a MOÇÃO DE REPÚDIO que – ainda bem! – foi gerada a partir do absurdo contra a criação. Se quiser (e puder), dê uma checada. É uma oportunidade de fazer frente a uma corja que aumenta a cada dia, em muitos setores – incluindo a imprensa, que se diz francamente oposta a qualquer tipo de censura à expressão. Balela. Pouco se disse, nos grandes veículos de comunicação, sobre o assunto. Mas vamos adiante, Dalton!
Se quiser ler o conto Mocinha Perdida de Amor, contido no livro, clique AQUI.





on Sep 8th, 2012 at 11:40 am
Caro amigo, saudações.
Não estou muito a par da obra, da celeuma e mesmo do autor, mas, por princípio, me oponho à qualquer forma de cerceamento, físico, político, intelectual, moral, religioso, resguardados os limites da lei.
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Grijó Reply:
September 8th, 2012 at 8:03 pm
E vc, meu amigo, mais do que muitos – já que estudioso da História -, sabe o que a força bruta contra a expressão e a arte é capaz de fazer.
Grande abraço.
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on Sep 8th, 2012 at 7:48 pm
Tenho ficado tão decepcionada quanto às reações das pessoas, que ainda duvido que o século já tenha, mesmo, virado. Acho, muitas vezes, sem pretensão, que fui somente eu quem andou…
Lamento.
Faço valer a moção.
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Grijó Reply:
September 8th, 2012 at 8:03 pm
Eu também, ML, embora já não espero muito das pessoas.
De algumas, sim, claro, porque não dá para achar que tudo está perdido.
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on Sep 8th, 2012 at 10:08 pm
Interessante, Grijó, num país que não tem controle sobre a perniciosa e criminosa mídia que temos, ter uma obra proibida de um de seus ainda poucos bons escritores. A juventude de hoje é bombardeada com propagandas de cerveja e de tantas outras que pregam os exemplos do consumismo descerebrado, do machismo, da objetificação das mulheres, da completa ausência de consciência ecológica e do egoísmo brutal; é massacrada pela pornografia ruim das novelas globais, pela apologia às drogas e ao crime do rap, etc. E gente que deveria proteger e esclarecer a juventude dessa máquina alienizante, em vez de ter um comportamento combativo, dá um tiro no próprio pé como esse. Foi por isso que deixei de ser professor. Eu dava aulas em um colégio particular da minha cidade, e certa aula passei para os alunos o filme Trainspotting; no dia seguinte havia uma fila de pais cobrando do diretor por que um professor expôs seus singelos filhinhos e filhinhas a um filme vil de sexo e drogas. Pras cucuias!
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Grijó Reply:
September 9th, 2012 at 10:50 am
Tem razão, Charlles.
Já tive experiências péssimas com isso também – e incluo aí o livro “A Polaquinha”, do próprio Dalton. Não sei se vc já ouviu falar em um filme chamado “O Vento será tua Herança”, do Stankey Kramer, em que um professor é punido por explicar a Teoria da Evolução para filhos de pais reacionários no interior dos Estados Unidos. Pois essa situação aconteceu há duas semanas, aqui, em Vitória, quando eu, explicando um poema de Pedro Xisto, comentei sobre uma possível (e filosófica) interpretação do Gênesis bíblico. Um pai evangélico – ou, ao menos, dizia-se evangélico – questionou-me, alegando que a “palavra de Deus” não pode ser mencionada numa sala de aula sem que seja para louvá-la.
Parafraseei João Saldanha. Disse-lhe que eu não me envolvia com os sermões dos pastores. Ele, portanto, não deveria se meter com o que digo em sala, a não ser – afirmei eu – que seja algo improcedente em relação à disciplina.
Já pensei em desistir, meu caro.
Mas ainda vou dando umas cabeçadas.
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Remo Reply:
September 10th, 2012 at 10:15 pm
Depois desta, eu teria mandado a turma ler “Os Teólogos”, do Borges.
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on Sep 10th, 2012 at 9:18 pm
Grijó, pois é… eu também já pensei em desistir, e hoje penso mais do que nunca, pois por paradozo que pareça, talvez desistir seja a única forma de mudança! Enquanto uns pouco ainda insistirem a reação vem desproporcional, conservadoramente compacta, unida… hoje vejo como alternativa ao mundo seu próprio fim, ou ao menos o fim desse mundo que conhecemos. A força do propósito libertário e tolerante é ínfima diante do poder de manipulação dos conservadores, portanto, aplicando um princípio oriental de disputa, apenas a própria força conservadora pode acabar com ela mesma, e vai acabar! Quanto mais manipulam, negociam, coadunam, usurpam, censuram e falseiam, mais perto fica o seu fim, tantas serão as correntes que buscarão se sobrepôr às demais na luta pelo poder de poder.
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Grijó Reply:
September 10th, 2012 at 11:18 pm
Talvez vc tenha razão, Luiz, mas há uma certa urgência no que faço – que acaba, claro, em quase desolação. Há, entretanto, um ponto que me incomoda e contra o qual me sinto empenhado em combater: o desestímulo quase que total da maioria da garotada, que só quer diversão. Não estabelecem compromisso com muita coisa – querem é rir, comemorar, louvar o banal. Isso me incomoda, sim, e uma de minhas funções (talvez a menor) é apontar alternativas.
O que me mantém no jogo é que há gente interessada nisso. Poucos, de fato, mas existem.
Ainda não desisti.
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on Sep 11th, 2012 at 10:51 am
sr.grijó,
moção assinada…liberdade de expressão, já.
abrsonoros
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