Submarino.com.br
Ipsis Litteris Rotating Header Image

13 anos sem João

Amanhã, 9 de outubro, faz 13 anos que morreu João Cabral de Melo Neto, o maior dos poetas dessa pobre modernidade brasileira. Não há homenagem que baste à cerebral manufatura de sua poesia, à arquitetura tão bem armada de seus versos cujos significados são muitos e são, também, um só: a verdadeira arte que brota da comunhão entre a pedra lapidada e seu brilho natural. João Cabral deixa uma obra vasta, prolífica, como foram também os assuntos que se dispôs a expor. Se há uma obra preferida, dentre tantas? Possivelmente Morte e Vida Severina, o auto de natal que ficará, como eterno. E um poema, em especial, especialíssimo, que me levou à sua literatura, e que é conhecido e reconhecido por quem ama a poesia.

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta;
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.

Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra; lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.”

Obrigado por tudo, João!

8 Comentários on “13 anos sem João”

  1. #1 A.B.
    on Oct 9th, 2012 at 11:09 pm

    Coincidência – ou não – semana passada fui até a biblioteca da Ufes atrás de “Morte e Vida Severina”. Pra variar, não achei.

    Fiquei com “Caim” do Saramago, excelente escolha, apesar da licença poética que ele tanto faz uso e não me agrada. É uma história muito bem contada, e bem humorada. Vale a pena.

    Abraços, Grijó.

    Reply

    Grijó Reply:

    Li alguns livros do saramago nos anos 80, Arthur. “Memorial do Convento”, do qual gostei, e “Levantado do Chão”, que achei enjoado. Fiquei uns tempos sem ler, para depois devorar, com certo prazer, “A Jangada de Pedra”.
    Muito bom.
    Li, claro, para efeitos vestibulares, “Ensaio sobre a Cegueira”, que não acho um grande livro. Mas o velho, evidentemente, sabia escrever. Soube que “Caim” anda provocando espinhas nos crentes…

    Reply

  2. #2 Pisciotta
    on Oct 9th, 2012 at 11:21 pm

    O Rio sempre me emocionou muito.
    Nós recifenses temos muito orgulho deste grande poeta pernambucano, brasileiro, americano, universal…

    Parabéns pelo blog.

    Reply

    Grijó Reply:

    Um grande poema, é verdade.
    Valeu o comentário e o elogio, camarada.

    Reply

  3. #3 moralina 10 mg
    on Oct 10th, 2012 at 12:37 pm

    Sempre tive uma dificuldade tremenda em compreender a poesia deste autor.
    É engraçado que depois de tanto tempo de leitura ainda continuo achando a literatura dele um tanto, digamos, impenetrável.

    Faz uns tempos reli A Escola das Facas e gostei muito, já tinha gostado antes, mas agora, já mais velho, vejo que mesmo sendo uma literatura difícil, ela é agradável. Não sei se ele é o maior poeta, mas está entre os “enormes”, como Cecília Meireles, Castro Alves, Manuel de Barros e Carlos Drummond de Andrade.

    Até.

    Reply

    Grijó Reply:

    Em “A Escola das Facas” há um grande poema do qual gosto muito. “Fogo no Canavial”, o qual reproduzo (a quem interessar):

    “A imagem mais viva do inferno.
    Eis o fogo em todos seus vícios:
    eis a ópera, o ódio, o energúmeno,
    a voz rouca de fera em cio.

    E contagioso, como outrora
    foi, e hoje, não é mais, o inferno:
    ele se catapulta, exporta,
    em brulotes de curso aéreo,

    em petardos que se disparam
    sem pontaria, intransitivos;
    mas que queimada a palha dormem,
    bêbados, curtindo seu litro.

    (O inferno foi fogo de vista,
    ou de palha, queimou as saias:
    deixou nua a perna da cana,
    despiu-a, mas sem deflorá-la.)”

    Genial.

    Reply

  4. #4 Gustavo Santos
    on Oct 11th, 2012 at 6:56 pm

    Grijó, após ver o belo post, estou escrevendo apenas para mostrar um vídeo que pôs em xeque a minha preferência por Chopin a Beethoven, certa vez pronunciada por aqui. Apesar de aquele talvez ser mais acessível aos ouvidos e corações, à prima vista, e ainda estar entre os meus prediletos, depois de ver e ouvir a seguinte interpretação da sonata para piano no. 30 do grande Ludwig, por Murray Perahia, acho que compreendi um pouco melhor o real tamanho do consagrado compositor alemão: http://www.youtube.com/watch?v=KGn39MXDVDo

    Eu já conhecia a sonata, claro, o que mostra a importância da interpretação. Perahia foi genial nessa! Está entre meus favoritos. Mas, além disso, acho que o fato de ouvir várias vezes a música faz você perceber sutilezas de inicio desprezadas.

    Detalhe: essa é uma das músicas que Beethoven compôs já completamente surdo. Mando isso para você também porque gosto quando você fala de música aqui no blog, principalmente clássica, que é meu tipo favorito.

    Abraço.

    Reply

    Grijó Reply:

    Gustavo, meu caro, quando falo que os comentários são o maior patrimônio de um blogue não é demagogia.
    Eu agradeço essas contribuições que muitos – e vc, incluído – proporcionam a este meu espaço.

    Eu sou fã de Beethoven desde que ouvi a “Missa Solemnis”, por conta de uma namorada, fã do velho Luís. desde então, meu caro, não parei mais. Se não escrevo tanto sobre música erudita – ou clássica -, é porque me falta um bocado de informação. mesmo assim, arrisco.
    tenho oc Concertos para Piano, de Bach, nos quais o Perahia mostra o que sabe. Fabuloso, com recursos quase (aparentemente) infinitos. Dizem que o trabalho dele com Bhrams é espetacular – não conheço.

    Valeu pelo link, camarada. Sensacional. 20 minutos de grande música.

    Reply

Deixe um comentário