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CAFÉ LITERÁRIO, 9 de março: convite

Mais um CAFÉ LITERÁRIO, patrocinado pelo SESC - o primeiro de 2010. Estão TODOS convidados.

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A aventura literária #1

William Faulkner, circa 1942

“Um escritor precisa de três coisas, experiência, observação e imaginação, sendo que duas dessas, às vezes até mesmo uma, podem suprir a falta das outras. Comigo, uma história geralmente começa com uma idéia ou memória ou imagem mental. Escrever a história é apenas uma questão de ir construindo esse momento, de explicar por que aconteceu ou o que provocou a seguir. Um escritor está sempre tentando criar pessoas verossímeis em situações comoventes e críveis, da maneira mais comovente possível. É claro que deve usar como uma de suas ferramentas o ambiente que conhece. Eu diria que a música é o meio mais fácil para se expressar alguma coisa, já que surgiu antes, na história e na experiência do homem. Mas como as palavras são o meu dom, tenho que tentar expressar canhestramente em palavras o que a pura música faria melhor.” (William Faulkner, em entrevista a Jean S. Vanden Heuvel, da revista The Paris Review, 1956)

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Livros para quê? (parte VII)

Quando a UFES, a universidade pública local, optou por exigir que uma pequena parcela de seus vestibulandos tivesse contato mais aprofundado com textos literários, ela praticamente sentenciou a literatura a uma condição secundária e, mais que isso, tornou-se cúmplice de uma situação da qual deveria ser inimiga figadal: a leitura é desnecessária. Eu explico, é fácil. Aqueles indivíduos que prestarão exame vestibular para as áreas de Exatas e Biomédicas estão dispensados de ler obras literárias específicas. A eles será permitido ignorar quem foram, por exemplo, Castro Alves, Drummond, João Cabral, Cecília, Jorge Amado, Graciliano, Guimarães Rosa, Machado, Alencar, Bilac.

A primeira fase do vest-UFES foi substituída pelo Exame Nacional do Ensino Médio, o ENEM. Na última edição da prova (bem-elaborada, diga-se), sete questões de literatura vieram à tona, mas a exigência quanto ao conteúdo foi mediana. Basicamente se cobrou interpretação textual - ou seja, cobrou-se do vestibulando sensibilidade aliada ao raciocínio, uma combinação que não exige, necessariamente, uma vida dedicada aos livros. Num exame como esse, leitores e não-leitores estão quase em pé de igualdade, com uma leve - quase imperceptível - vantagem para os primeiros.

Conversei com vários alunos, candidatos às áreas de Biomédicas e Exatas. Todos, sem exceção, acharam excelente a idéia de não precisarem ler uma lista previamente estabelecida pela universidade. Muitos alunos da área de Humanas reclamaram por não possuírem tal benefício. Sentiram-se injustiçados, já que, além de todo o conteúdo genérico de várias disciplinas, ainda serão obrigados a ler textos literários, incluindo dois títulos produzidos por portugueses (Saramago e Pessoa).

Desde quando um advogado ou um juiz precisa ter contato com literatura?, perguntou-me um dos alunos que prestarão vestibular na área de Humanidades. O que responder a quem pergunta isso? Que ele provavelmente tem razão quando supõe que, no Brasil, o Direito e a Literatura são praticamente desconhecidos um do outro? Ou pior: que a Literatura é desnecessária a quase todos os ramos profissionais e que é bastante possível - e provável - que alguém se torne um perito em sua área sem sequer ter lido por completo uma obra literária?

A quem interessar: as postagens LIVROS PARA QUÊ podem ser lidas AQUI, AQUI, AQUI, AQUI, AQUI e AQUI.

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Au revoir, locadoras!

Escrevi recentemente que uma loja de discos, próxima à minha casa, está com os dias contados. Está mesmo, o que é fato a se lamentar. Mas resiste - e isso é louvável. Bem, afirmei que há várias razões para que o produto disco esteja em baixa, e duas delas - os downloads gratuitos e a nociva pirataria - estendem-se aos filmes, ao cinema em caixinha. Leio, com tristeza, a matéria. Argumentando que as produtoras e as distribuidoras de devedês, e incluo nessa lista as locadoras, poderiam baratear o custo do produto, muitos consumidores afirmam que vale mais a pena comprar nas mãos de camelôs espalhados pela cidade.

É algo questionável. Não vou entrar no mérito da legalidade nem na questão de que comprar esse tipo de produto implica colaborar com facções criminosas. Todos sabem disso. A postagem é centrada no fato de que veículos de cultura e informação - lojas de discos, locadoras e livrarias - rumam para um espaço feito apenas de buracos negros. Escrevi sobre livrarias há algum tempo. É claro que se pode argumentar que locadoras não veiculam cultura - apenas entretenimento. Já ouvi falarem isso. Bem, insisto na idéia de que termos como ”cultura” e “entretenimento” não dependem de quem cria ou veicula o produto, mas de quem o consome, isso sem entrar no mérito antropológico do termo “cultura” porque esta postagem ficaria mais chata do que já é.

Sinto-me, de certa forma, órfão. Sem uma boa locadora que forneça títulos os quais aprecio (re)ver, forma-se um vácuo intelectual difícil de ser dirimido. Dizem que exagero, e que devo, então, partir para as alternativas que não ferem tanto assim a legalidade: baixar filmes pela internet. Nunca fiz isso e pretendo (até quando?) continuar assim. Compro títulos em bancas de jornais, em lojas (inclusive via web), ganho presentes. Essas três hipóteses citadas não chegam nem perto do número de títulos que posso, gratuitamente, conseguir no mundo virtual, sei disso.

Mas qual o futuro? Ao consumidor sobram alternativas além do download grátis e da pirataria institucionalizada, produzida e veiculada por contraventores que invadem locais privados, com suas mochilas entupidas de títulos recém-lançados pelo cinema? A responsabilidade recai sobre o indústria, que deveria baixar o preço final da mercadoria? Duvido. Ainda creio - e apreciaria ser contradito nisso - que não importa o preço do devedê ao consumidor. Mínimo ou máximo, a pirataria se mantém. O comprador-cúmplice desse tipo de produto, mesmo que em silêncio, sempre acha que é esperto e que sai ganhando.

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Os remakes de Constantine

O australiano Constantine Verevis é conhecido dos estudantes de cursos de Cinema - pelo menos deveria ser. É um craque cuja erudição cinematográfica e literária assombra os mais exigentes, ao mesmo tempo que, com uma escrita ligeira, é capaz de seduzir aqueles que - como eu - apenas se interessam pelo assunto, não indo muito além do que os afazeres domésticos e profissionais permitem. Ou seja, agrada aos diletantes. Leio sem pressa de acabar seu Film Remakes, encontrado em sebo, posto que editado recentemente, em 2006.

Aprecio remakes. Chego a escrever sobre eles, embora com menos freqüência do que gostaria. O livro de Constantine Verevis não se resume à noção de remake como eu a conhecia: um filme que, considerando as variáveis temporais, repete a fórmula bem-sucedida de outro, garantindo, assim, sucesso comercial. Remakes podem ir além, principalmente se forem concebidos sob a égide da temporalidade - a saber: os ajustes devem ser feitos, são bem-vindos e é assim que tem de ser. Claro que o resultado pode ser catastrófico, como o foi em O Dia em que a Terra Parou.

Hollywood precisa de boas histórias, e aparentemente todas elas foram contadas. Há o que os críticos chamam de esgotamento criativo, cujas conseqüências recaem ora sobre remakes, ora sobre seqüências ou “aproveitamento de franquias”, sejam elas nascidas em solo norte-americano ou estrangeiro. Tornou-se uma tendência que, de fato, é conseqüência mercadológica, turbinada por roteiristas que apresentam, diariamente, propostas de refilmagens adicionadas de um e outro detalhe inédito. E como a palavra “detalhe” significa algo insignificante, é possível concluir o resultado.

A grande sacada do livro - é possível perceber isso desde seu início - reside no fato de que os remakes podem ser analisados por várias óticas: da artística à mercadológica; da sociológica à do entretenimento, que, ao final das contas, é disso que trata o cinema. A partir do livro fui (re)ver os dois Solaris, o de Tarkovsky (que não é um filme “comercial”), e o outro, de Steven Soderbergh - com a belezura da Natascha McElhone -, de menor valor, mas com a presença de George Clooney - o que garante, de certa forma, publicidade. As premissas são idênticas, mas as adaptações são distintas. O que diria Stanislaw Lem, o autor polonês cujo livro homônimo deu origem aos filmes? Bem, vou lendo com calma, imaginando o que escrever em Os Remakes de Constantine, parte II.

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Onde estão as mulheres #2

Laura Harring & Naomi Watts, em Mulholland Drive

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Richard, Donald e Juan José: onde estão que não respondem?

S. Mallarmé, o notável e cerebral poeta simbolista francês, dizia: “A carne é triste, sim, e eu já li todos os livros”. Ok. Eu não li todos os livros nem acho a carne tão triste assim. Triste, de fato, é encarar o incompreensível: por que autores como Donald Barthelme, Richard BrautiganJuan José Arreola continuam praticamente inéditos em “língua brasileira”? Bem, citei os três - há algumas dezenas - porque já foram citados por mim em postagens anteriores, como comprovam os links. Volto à questão, e lanço uma outra, conseqüente: as editoras, assim como os estúdios de cinema e as gravadoras, optaram pelo mercado adolescente. Disso todos sabemos. Mas isso implica ignorar a literatura de qualidade?

Qualquer um é capaz de perceber que livros submetem-se à lógica de mercado (por isso são mercadorias). Essa lógica inclui o investimento publicitário em torno de um determinado autor ou título, de modo que conste em listas de mais vendidos e ganhe destaque em capas de revistas e de jornais de grande circulação. É simples e, embora dispendioso num primeiro momento, é praticamente garantia de sucesso editorial. Lembro-me de há uns três anos ter lido uma matéria em que os livros sobre Afeganistão - que lugar pode ser menos familiar ao brasileiro? - lideravam listas de mais vendidos. Em muitos casos a qualidade literária do livro fica em segundo plano. Mas quem se importa?

Agora me diga: por que Sadness, Snow White, The King e Come Back, Dr. Caligari, títulos do extraordinário contista norte-americano Donald Barthelme, continuam a ser ignorados pelas editoras nacionais? Por que o guru hippie Richard Brautigan, autor de The Hawkline Monster e In Watermelon Sugar, só possui um livro traduzido - e ignorado do grande público -, Pescando Truta na América? E o mexicano J. J. Arreola, um dos mais importantes contistas do século XX, cuja obra, vastíssima, só possui um representante em língua nacional? O título? Confabulário Total. A editora? Uma tal Edinova, que nem existe mais.

Nada tenho contra best-sellers como  O Caçador de Pipas, O Menino do Pijama Listrado, O Livreiro de Cabul ou A Menina que Roubava Livros. Ou contra Paulo Coelho, Dan Brown, J. K. Rowling. Na minha adolescência, Sidney Sheldon, Harold Robbins e Jorge Amado devoravam boa fatia do mercado, enquanto autores como Kurt Vonnegut, Campos de Carvalho e Murilo Rubião minguavam como flagelados. Continuam minguando, mas ao menos existem títulos de seus livros, mesmo envelhecendo nas prateleiras.

Li outro dia um jornalista afirmar que as editoras, em todo o mundo, optaram pelo “público fácil”, aquele cuja exigência intelectual é pífia e que facilmente vão pelos caminhos traçados pela publicidade. Não é um problema apenas brasileiro, concordo. Mas o tema da postagem é centrado neste país e em sua língua, cujos usuários ignoram os autores citados no título. E se as editoras resolverem publicá-los, em traduções competentes? Haverá público para eles? Por que não?   

O cineasta iraniano Mohsen Makhmalbaf afirmou certa vez que “a estátua de Buda não fora demolida por qualquer pessoa, pois ruiu, de vergonha - vergonha pela ignorância do mundo com relação ao Afeganistão.” Bem, se depender dos brasileiros, a estátua ganha vida novamente.

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Ócio durante a folia alheia (e um post scriptum)

(clique na imagem para melhor definição)

Embora a folia não me interesse, o IPSIS LITTERIS faz uma pausa merecida para o Carnaval. As atividades serão devidamente retomadas na quarta-feira - quando não houver mais fogo, e apenas cinzas. Bom descanso àqueles que possuírem bom senso porque alguns professores - como eu e o distinto senhor da foto - têm.

p.s. As outras postagens continuam abertas. Regozijem-se.

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Por onde anda Kate Bush?

Joe Cocker, Tina Turner, Rick Wakeman, Belchior e Peter Frampton fazem parte do grupo sobre o qual se pergunta por onde anda. Enfim, algumas respostas, desde que as questões foram formuladas, vieram à tona; outras, não. Pois bem: Kate Bush, a soprano-roqueira-pop inglesa que aos 19 anos se tornou uma celebridade, adentra o clube. Fiquei pasmo ao saber que ela é apenas quatro anos mais velha do que eu. Explico minha surpresa: todos - ou quase todos - os roqueiros que fecharam os anos 70 com a carreira consolidada são hoje sessentões. Desse ponto de vista, Kate Bush é uma adolescente.

Eu me lembro bem de, aos 17, ter comprado o álbum The Kick Inside e tê-lo ouvido até que a agulha do picape Technics pedisse para parar. Horas e horas curtindo Whutering Heights, Them Have People, Kite e The Saxophone Song, e achando The Man With a Child in his Eyes um tanto chatinha. Mas de uma coisa se podia ter certeza: a voz de Kate modulava baladas como nenhuma outra voz feminina no rock da época. Arrisco até a dizer que até hoje ela não possui rivais.

O disco acima é de 1978. É primoroso na produção: David Gilmour, do Pink Floyd, e Andrew Powell, o famoso podutor que abandonou a BBC Symphony Orchestra para se dedicar à música pop e ao rock. Não há sequer uma rusga em qualquer faixa que seja - o que seria, inclusive, perdoável, já que é a obra de estréia de uma mulher de apenas 19 anos que compôs a maioria dos temas do disco dois anos antes. Sim, Kate Bush era garota-prodígio. Uma pianista de habilidade que chamou a atenção de músicos tarimbados.

E por falar em tarimba, Danny Thompson, o multiistrumentista folk-rocker inglês, revelou, em recente entrevista à BBC Scotland Radio, que gravou com Kate. Elogiou sua voz, seu charme e sua competência nos teclados, além de afirmar que Aerial, de 2005, o último álbum da cantora em questão, é um dos discos da década. Bem, pelo menos ela deu as caras, doze anos depois, afinal seu último disco havia sido The Red Shoes, de 93. Vou ao Aerial, para ver no que dá, e se for o que eu espero que seja, será um belo retorno à atividade.

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El Víbora, Ranxerox e a nostalgia da Coleção Animal

Ranxerox é a criatura de Frankenstein, só que futurista. Ei-lo:

O futurismo, aqui, refere-se ao ambiente, à linguagem e à ideologia. Os tempos mudaram: o mundo é outro, enfim. A mocinha grudada no corpo da fera chama-se Lubna, a estranha adolescente pervertida por quem Ranxerox suspira e tudo faz - inclusive (e principalmente) matar punks, delinqüentes e junkies que atravessam seu caminho. Lembro-me de nos anos 80 ter sido presenteado com dois números da revista espanhola El Víbora, nos quais se vislumbravam trabalhos de Tanino Liberatore, de cuja mente alucinada brotou o contracultural Ranxerox. Nunca mais tive contato com a revista, mas mantenho esses dois números em minha estante, como se fossem ovos de ouro.

Fui ter contato novamente com o trabalho de Liberatore ao comprar, ainda nos anos 80, Ranxerox em New York, publicado pela Coleção Animal. A técnica de cor usada por Liberatore, as formas um tanto arredondadas dos personagens, o sombreamento muito particular dos desenhos (com pantone pens), além, claro, das histórias cheias de violência, sarcasmo e uma certa melancolia bem-humorada, tudo isso colaborava para que o universo criado pelo autor fosse mais do que sedutor.

El Víbora não existe mais. Não sei o que foi feito da Coleção Animal. Ranxerox, que originalmente era chamado Rank Xerox - mas a gigante das cópias heliográficas empombou -, sabe Deus por onde anda. Com um exemplar de El Víbora nas mãos, leio - neste instante - que Ranxerox tomou verdadeira forma numa outra revista, Frigidaire, da qual só conheço o nome. Antes, era desenhado em preto-e-branco, na famosa publicação Cannibale. Enfim, fica a saudade de bons tempos e de bons traços.

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